16 de julho de 2020
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Outro dia assisti, em meio a esse isolamento, a uma live com o líder indígena e ambientalista Ailton Krenak, convidado para falar justamente sobre toda essa reflexão que estamos sendo convidados a fazer sobre esse novo “modus vivendi” que estamos vivenciando “forçosamente”, sobre o óbvio que pegou a muitos de surpresa. Digo óbvio porque há muito tempo que a Terra, como esse organismo vivo que é, e que o próprio Krenak defende, vem dando seus alertas e sinais.

Krenak fala justamente disso, da Terra, a “mãe Terra”, como esse organismo vivo que precisa ser cuidado e com a qual precisamos conviver e viver de forma menos destrutiva e mais sustentável.

Nós matamos e comemos tudo o que está ao nosso redor. E aqueles que mais matam e mais comem são, ao mesmo tempo, os que mais excluem. E nesse caminho que nós fazemos e entendemos como progresso, enquanto caminhamos, vamos largando tudo o que não nos interessa, o que resta, incluindo seres humanos.

Nas palavras de Krenak, o que está acontecendo agora é uma “manobra fantástica desse organismo vivo que é a Terra, de tirar a teta da boca dos ‘mamão’ e dizer: respira agora, quero ver!”. Algo para refletirmos, pensando nas diferentes linguagens que esse organismo vivo se utiliza para se comunicar com a gente. Uma ideia que até a década de 80/90 era desprezada, ou seja, pensar a Terra como esse organismo inteligente, vivo.

A nossa vulnerabilidade enquanto seres humanos, está sendo exposta mais do que nunca e junto com ela toda a fragilidade desse sistema capitalista perverso que mostra sua debilidade diante de uma situação como essa da COVID19.
Diante disso, Krenak propõe refletir sobre a necessidade de entrarmos em contato com a experiência do estar vivo para além dos aparatos tecnológicos que possuímos ou ainda vamos inventar. Como afirma o líder indígena: “Ninguém come dinheiro.”. E toda essa situação de pandemia nos coloca diante do que de fato é essencial para a vida humana.

A vida é esse atravessamento do organismo vivo que é a Terra, numa dimensão imaterial. Essa mesma vida que nós banalizamos e da qual nos desconectamos e confundimos com sobrevivência. A vida é uma transcendência. Se entendêssemos isso a mais tempo, não estaríamos atravessando, possivelmente, o que estamos vivendo neste momento. Essa vida cujo sentido essencial nossos índios já entendem desde sempre, por isso conseguem estabelecer essa relação tão harmônica com a natureza, com a biosfera, com o planeta.

O que presenciamos neste momento é a fragilidade e perversidade desse sistema que pressupõe, por essência, a desigualdade. O que presenciamos são não só as fortes evidências da concentração de capital e poder das grandes corporações, mas, ao mesmo tempo, vemos o quanto elas mesmas precisam e dependem da existência dessa humanidade, povo ou seja lá o nome que queira dar, para sustentá-la em seu pedestal. Os mesmos que ela mantém em suas tramas destilando medo, ameaças, terror e controle, através dessas correntes invisíveis.

O sistema que exclui, neste momento, desvela o quanto precisa e depende desses mesmos que ele próprio exclui. Esse vírus invisível vem para mostrar que a concentração também tem seus limites. Precisamos estar atentos aos sinais.

Essa busca desenfreada pelo capital, pelo poder, pela riqueza só nos mostra o quanto somos contraditórios, o quanto estamos nos afundando nessa nossa falácia, nessa corrida por domínio e dominação pautada na exploração. Drummond, em seu poema “o homem e as viagens”, tão atual diante desse momento, já falava de alguma forma sobre isso. Ao falar, poeticamente, dessas tentativas do homem de colonizar outros planetas, ele acaba descobrindo, esse mesmo homem, que a viagem que ele precisa fazer, na verdade, é uma viagem interior. Olhar para esse nosso ser interior.

Krenak, inclusive, nos lembra de mais de um de seus poemas que mais do que nunca, urge ser lembrado.

“Stop.
O tempo parou.
Ou foram os automóveis?”

Estamos tão entranhados e confundidos com as máquinas e mecanismos que criamos que, ao invés de usá-los, eles é que nos usam. E todo o cenário que se desenha agora, nos coloca diante de nós mesmos inevitavelmente. E ainda em Drummond e em suas viagens respiramos:

“Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

Exatamente o que estamos vivendo agora. Esse frear, esse voltar para nós mesmos, lembrar o que nos é essencial e verdadeiramente necessário. E relembrar e resgatar tudo aquilo que ao caminhar em direção “à Marte” fomos abandonando pelo caminho. Coisas essas que ironicamente neste momento, são as que vêm para nos “salvar” e lembrar em nós a nossa humanidade, que andamos matando e abandonando pelo caminho. Um caminho que mal sabemos onde vai dar, mas que nos disseram que era para ir correndo. E agora, estamos sendo convidados a “con-viver”…com nós mesmos (e toda essa loucura que produzimos).

Por hora, deixo vocês com Drummond. Boa viagem!

O Homem; As Viagens

(Carlos Drummond de Andrade)

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
Pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?

Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

 

*Aressa Rios – http://aressarios.com.br/arte-educacao-e-politica/o-homem-e-suas-viagens/

 

Celeste Silveira

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