6 de agosto de 2020
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Jair Bolsonaro divide o desastre de seu governo na área de Saúde com o Exército, mas os militares — e essa Força em particular — ficam zangados quando alguém aponta o problema.

Os generais estão bravos com o ministro Gilmar Mendes? É mesmo? Deveriam cobrar uma resposta de Jair Bolsonaro. Ou, então, de um de seus pares: o general Eduardo Pazuello, o interventor da Saúde, que, vamos convir, jamais se comporta como interino. Para começo de conversa, promoveu uma razia na pasta e a transformou num verdadeiro quartel.

É uma aberração que generais da ativa ocupem cargos políticos. Aliás, tão logo o Congresso volte ao normal, é preciso apresentar uma emenda à Constituição a respeito. Não será preciso inovar em termos de direito comparado. Bastará apelar ao que se faz no resto do mundo democrático. Quem usa farda não ocupa a tribuna. Ponto! Quem tem as armas do Estado não entra em disputa ideológica, mas serve à Constituição.

Os generais estão irritados em razão do vício do mandonismo, que é aquilo em que se transforma a correta hierarquia de caserna quando transportada para o mundo civil. É por isso que as coisas não devem se misturar.

Em três semanas, talvez um pouco mais, o Brasil cruzará a linha simbólica dos 100 mil mortos de Covid-19. E, dado o andar da carruagem, isso se fará com um militar à frente do Ministério da Saúde, que lá chegou com a fama de “especialista em logística”. Como bem disse o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, pode ser expert em “balística”. Em logística, tem-se mostrado um desastre.

O feito mais notável de Pazuello, até agora, foi ter liderado a liberação do protocolo de uso da cloroquina, que, apontam todos os estudos sérios, pode contribuir, no máximo, para envenenar um pouco o sangue de quem dela não precisa. E os doentes de Covid-19 não precisam. Sim, senhores do Exército: isso entrará para a história. Ou melhor: já entrou. E estará na conta do Exército — e, mais genericamente, das Forças Armadas.

Outra da sua passagem pelo Ministério da Saúde foi a tentativa de manipular o número de mortos, atendendo a uma injunção política do Palácio do Planalto. Não deu certo, claro!, porque os veículos de comunicação resolveram fazer a sua própria contabilidade. A decisão foi notícia no mundo inteiro. Sim, comporá a biografia das Forças Armadas, do Exército em particular.

Até a semana passada, dos R$ 40 bilhões que tem a Saúde para enfrentar a pandemia, a pasta havia gastado menos de 25%. Enquanto os pobres de tão pretos e pretos de tão pobres vão morrendo Brasil afora. Mais uma a compor a reputação da Força armada que não quer seu nome associado ao morticínio em massa.

Como informa o Estadão, “após mais de quatro meses de pandemia no País e sucessivas promessas do Ministério da Saúde de realizar testagem em massa para conter a covid-19, o Brasil só atingiu 20% da capacidade de exames prevista para o período de pico. Além de distribuir menos testes do que o projetado, o governo Jair Bolsonaro também tem feito entregas de kits incompletos, sem um dos reagentes essenciais para processar as amostras, segundo secretarias de saúde afirmam ao Estadão. O Ministério diz já ter iniciado a compra de 15 milhões de unidades do reagente em falta e culpa a escassez global de insumos como entrave para a ampliação do diagnóstico.” Desempenho tão notável cairá nas costas de quem?

Ah, não! Eu não demonizo o Exército como um todo, como não o fez o ministro Gilmar Mendes. Não brinco quando digo que ele mereceria uma condecoração. Está justamente chamando a atenção para o fato de que uma força do Estado, regular e permanente, está servindo de esbirro a uma política desastrosa na Saúde.

Os senhores militares podem não gostar da palavra. Mas têm de encarar os fatos. É claro que é lamentável que assim seja. O Exército faz um trabalho meritório nos rincões do Brasil. Há certamente milhares de homens contribuindo para minimizar os efeitos da pandemia, envolvidos nas mais diversas operações: de distribuição de cestas básicas à doação de sangue. E ninguém nega seus méritos. Assim como se sabe que a Força é uma das maiores “empresas” de engenharia do país, chamada, como frequência, para reparar danos de infraestrutura no vasto território nacional.

Por isso mesmo, o Exército deve cuidar melhor da sua reputação. E deve ser grato a quem aponta aquele que é hoje um óbvio elemento a concorrer para degradar a sua imagem. E será ainda pior no futuro, quando se fizer o balanço final desses dias trágicos.

Será mesmo que é Gilmar Mendes a atacar a honra do Exército?

Infelizmente, um pouco mais de um ano e meio de governo fez contra a reputação das Forças Armadas o que mais de três décadas não fizeram. Ou melhor: no período pós-redemocratização, elas haviam conseguido se reconciliar com a história.

Resolveram fazer política de novo. E o desastre está aí, muito especialmente na áreas ambiental e de saúde. E será narrado com muita dureza.

E ninguém precisará recorrer à má vontade. Os fatos bastarão.

E duas fotos vão ilustrar esse capítulo da história:
1) aquela em que Pazuello, resoluto, marcha para participar de um protesto em que boa parte dos manifestantes pedia o fechamento do Congresso e do Supremo;
2) aquela em que o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, de óculos escuros, sobrevoa num helicóptero militar a Praça dos Três Poderes. No solo, os brucutus de Bolsonaro pediam o fechamento do Congresso e do Supremo…

As Forças Armadas, o Exército em particular, deveriam voltar para os quarteis e contratar imediatamente um assessor de imagem. Seria uma estratégia de redução de danos históricos.

 

*Reinaldo Azevedo/Uol

 

 

Celeste Silveira

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1 COMMENTS

  1. Afonso Schroeder Posted on 15 de julho de 2020 at 07:53

    General digno e honrado Pazuello deve se afastar do Bozó falar a verdade é ser “comunista” somos a maioria todos comunistas que “pratica” a democracia seu “Bozó” genocida, descumpridor da CF/88 e traidor dos brasileiros num país com Congresso Nacional justo o “Bozó já deposto.

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