O espanto é performático. Como se o crime organizado fosse uma anomalia no sistema, e não sua expressão mais honesta
Na manhã de 28 de agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto desembarcou na Faria Lima como um tsunami de realidade sobre o asfalto dourado do capitalismo brasileiro. Mais de 350 mandados de busca e apreensão, 42 alvos concentrados na principal avenida financeira do país, R$ 52 bilhões movimentados entre 2020 e 2024, R$ 30 bilhões investidos em fundos “legítimos”. Os números são astronômicos, mas a surpresa deveria ser outra: por que ainda nos espantamos quando o crime organizado se encontra com o sistema financeiro?
A pergunta que ecoa pelos corredores envidraçados dos prédios espelhados da Faria Lima não deveria ser “como o PCC chegou até aqui?”, mas sim “por que demorou tanto para percebermos que eles já estavam aqui há muito tempo?”. Porque, se olharmos com honestidade para a história do capitalismo, veremos que crime e capital nunca foram estranhos um ao outro – são, na verdade, velhos companheiros de dança, girando ao som da mesma música: a acumulação de riqueza a qualquer custo.
O espanto é performático. Como se o crime organizado fosse uma anomalia no sistema, e não sua expressão mais honesta. Como se a Faria Lima fosse um templo da legalidade, e não o epicentro de uma criminalidade de gravata que há décadas opera sob a proteção do verniz institucional.
Walter Benjamin já alertava sobre a violência que se apresenta como norma jurídica. Aqui, o direito se apresenta como “violência civilizada”. A diferença entre o PCC e os fundos “legítimos” não está na natureza da operação, mas na qualidade da assessoria jurídica. O mercado financeiro é, por definição, uma máquina de extração. Extrai valor do trabalho, da natureza, da vida social. O PCC apenas eliminou os intermediários morais. Onde outros veem crime, deveríamos ver clareza.
A Reag Investimentos cresceu exponencialmente nos últimos anos. Seus gestores sabiam da origem do dinheiro? A pergunta é ingênua. No capitalismo financeiro, a origem do dinheiro é sempre duvidosa. A diferença é que alguns crimes são legalizados, outros não.
Mark Fisher chamou isso de realismo capitalista: a naturalização do sistema como única realidade possível. O crime não é exceção, é regra. O PCC apenas dispensou a hipocrisia. Enquanto a Polícia Federal cumpria mandados contra o PCC, quantos crimes aconteciam simultaneamente nos escritórios vizinhos? Quantas operações de “insider trading”? Quantos esquemas de manipulação de preços? Quantas pirâmides financeiras disfarçadas de inovação?
A investigação do crime cotidiano na Faria Lima exigiria uma operação permanente. Cada fundo que promete rentabilidade impossível. Cada fintech que cobra juros abusivos dos mais pobres. Cada consultoria que vende otimismo fiscal para sonegadores. O sistema financeiro brasileiro (e mundial) é uma lavanderia em funcionamento 24 horas. Lava dinheiro de corrupção política, de sonegação fiscal, de exploração trabalhista. O PCC apenas entrou na fila. Com mais eficiência que muitos concorrentes.
As fintechs mudaram o jogo, como noticiou a imprensa (e os Nikolas da vida). Facilitaram não apenas a inclusão financeira, mas a inclusão criminal. Democratizaram o acesso ao crime de colarinho branco. O PCC foi apenas um usuário avançado da tecnologia disponível.
Benjamin falava da aura perdida na era da reprodutibilidade técnica. Na era digital, perdemos também a aura do crime. Ele se massificou, se banalizou, se tornou app. O crime como serviço, o crime como plataforma. A diferença entre o dinheiro do PCC e o dinheiro “limpo” é cada vez mais tênue. Ambos circulam pelos mesmos canais, usam as mesmas ferramentas, seguem a mesma lógica: maximizar lucro, minimizar risco, externalizar custos sociais.
A história do capitalismo é a história da criminalização seletiva. O que é crime depende de quem define. Roubar um banco é crime. Roubar através de um banco é negócio. O realismo capitalista de Fisher opera justamente essa naturalização. Torna normal o que deveria ser escandaloso. A financeirização da vida, a mercantilização de tudo, a transformação de necessidades básicas em oportunidades de lucro.
O PCC entendeu a lição. Por que disputar territórios periféricos quando se pode disputar fundos de investimento? Por que controlar bocas de fumo quando se pode controlar usinas de álcool? A facção evoluiu do crime de rua para o crime de suite.
Mil e seiscentos caminhões. Quatro usinas de álcool. Um terminal portuário. O PCC construiu um império logístico que faria inveja a qualquer multinacional. Usou as mesmas estratégias: integração vertical, diversificação de portfólio, otimização fiscal. A criminalidade do PCC é espetacular porque é visível. A criminalidade do sistema financeiro é invisível porque é estrutural. Uma mata com arma de fogo, outra mata com planilha do Excel. Uma deixa corpo, outra deixa estatística.
Fisher morreu em 2017, antes de ver o PCC na Faria Lima. Mas já havia diagnosticado o problema: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É mais fácil imaginar o PCC fora do sistema financeiro do que imaginar um sistema financeiro sem crime. O realismo capitalista cria a ilusão de normalidade. Normaliza a exploração, a desigualdade, a violência sistêmica. O PCC apenas dispensou a ilusão. Assumiu o crime como método, não como desvio.
A operação da Polícia Federal e de outras instituições é certamente fundamental. Mas é também sintomática. Não por culpa sua, mas por “culpa” do realismo capitalista, parte de suas ações persegue o crime visível, deixando intocado o crime invisível. Prende os “novos” criminosos, protege os criminosos institucionalizados há décadas, quiçá séculos. “A culpa é do Capitalismo, estúpido”, vocifera o velho comunista.
Benjamin falava do “anjo da história”, que vê catástrofe onde vemos progresso. Na Faria Lima, o anjo veria crime onde vemos mercado. Veria violência onde vemos eficiência. Veria a pura expressão da barbárie onde vemos civilização. O PCC na Faria Lima não é aberração. É revelação. Revela a verdade que o realismo capitalista esconde: o crime não corrompeu o sistema. O sistema é o crime.
*Lindener Paleto/ICL
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