O escândalo do Master envolveu entidades públicas e contratos privados. Até agora, os contratos privados são mantidos escondidos
Até agora, os únicos negócios públicos do ITER – o Instituto criado por André Mendonça após se tornar Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) – são os contratos com entidades públicas. Isso porque há obrigatoriedade de publicação no Diário Oficial da União.
Até agora há R$ 11,4 milhões em contratos públicos acumulados. Mas e os contratos privados? O escândalo do Master envolveu entidades públicas, que depositaram no Master, e contratos privados. Até agora, os contratos privados são mantidos escondidos a sete chaves.
Vamos a uma pequena investigação, tomando por base a sequência de notas fiscais para entidades públicas.
Pista 1 – o encontro de Daniel Vorcaro com André Mendonça, na sede do ITER em São Paulo, foi no dia 14 de março de 2025. A cronologia é bastante precisa: no dia 13 de março, o deputado Cezinha de Madureira avisou Vorcaro da reunião marcada para às 17h do dia seguinte. Em 14 de março, às 16h37, Vorcaro informou que estava a caminho; às 16h43, Cezinha respondeu que o ministro já o esperava. Às 18h40, Vorcaro avisou seu motorista que estava saindo do endereço.
Pista 2 – no dia 11 de março o ITER emitiu a NFS-2 no 189. No dia 14 de março, emitiu a NFS-2 226. Em apenas três dias foram emitidas até 37 notas para clientes privados, englobando o dia em que Vorcaro visitou o ITER. Podem ser notas de matrículas individuais, podem ser pacotes de matrículas de empresas.
Para que não pairem dúvidas sobre sua idoneidade, faria bem André Mendonça em abrir as contas do ITER, especialmente dos clientes das 37 notas emitidas.
*Luis Nassif/GGN
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O episódio envolvendo André Mendonça e Daniel Vorcaro expõe algo que vai muito além de um simples encontro entre um ministro do Supremo e um banqueiro investigado. O que está em questão é a naturalização de um método de atuação em que relações pessoais, portas de acesso ao poder e interlocuções reservadas parecem se sobrepor à necessária distância entre autoridades públicas e interesses privados.
Mendonça admite ter recebido Vorcaro em março de 2025, antes de assumir a relatoria do caso Banco Master, e afirma que se limitou a ouvi-lo. O problema, porém, não desaparece com a explicação. Ao contrário: justamente porque Mendonça posteriormente se tornou relator do caso, o encontro ganha uma dimensão institucional que exige escrutínio público.
É aí que aparece a inquietante semelhança com o modus operandi que marcou o bolsonarismo: a transformação das relações de poder em uma espécie de rede informal de acesso, favores, interlocuções privilegiadas e proximidades que deveriam causar desconforto em qualquer democracia madura.
No universo de Jair Bolsonaro, sempre foi recorrente a ideia de que o poder público poderia funcionar como uma extensão das relações pessoais e políticas do grupo. A fronteira entre o interesse público e os interesses dos aliados frequentemente parecia desaparecer. No caso Master, as investigações da Polícia Federal já revelaram uma rede de contatos e supostas tentativas de influência envolvendo diferentes setores do poder.
Por isso, a questão não pode ser reduzida a “Mendonça encontrou Vorcaro, mas diz que apenas o ouviu”. Um ministro do STF não ocupa uma posição qualquer. Sua agenda, seus encontros e suas relações têm peso institucional. E quando o interlocutor é um banqueiro que posteriormente se torna personagem central de uma investigação sob responsabilidade do próprio Supremo, qualquer proximidade anterior precisa ser examinada com rigor.
O mais preocupante é a possibilidade de que o país esteja assistindo à reprodução, em ambientes institucionais, da velha lógica segundo a qual quem possui dinheiro, influência ou bons contatos consegue chegar diretamente a quem decide. É exatamente esse tipo de promiscuidade entre poder econômico, poder político e poder institucional que corrói a confiança pública.
Não se trata de afirmar, sem provas, que Mendonça tenha praticado qualquer ilegalidade ou favorecido Vorcaro. A própria manifestação do ministro sustenta que sua atuação jurisdicional foi contrária aos interesses defendidos pelo banqueiro. Mas isso não encerra o debate ético e institucional.
A pergunta é outra: por que um ministro do STF deveria estar recebendo, em ambiente privado, um empresário que buscava tratar de uma questão submetida ao Supremo?
É justamente aí que o modus operandi importa. Democracias não são corroídas apenas por decisões abertamente ilegais. Elas também se desgastam quando autoridades passam a considerar normais relações que, pela posição que ocupam, deveriam ser cercadas de transparência, impessoalidade e distância.
O Brasil já conhece muito bem o preço de transformar instituições públicas em territórios de relações pessoais. O bolsonarismo levou essa lógica ao limite. O que não se pode admitir é que ela encontre novos hospedeiros justamente dentro das instituições que deveriam funcionar como antídoto a esse tipo de prática.
O Supremo não pode ser um balcão de interlocuções privilegiadas. Ministro de Corte constitucional não pode se comportar como operador de relações de bastidores. E poder econômico não pode comprar proximidade com quem tem nas mãos decisões capazes de afetar seus interesses.
Se a democracia pretende ser levada a sério, a régua precisa ser uma só: nenhum poder, nenhum dinheiro e nenhuma amizade podem estar acima da impessoalidade institucional.
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Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelam que o dono do Banco Master teve pelo menos um encontro secreto com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e foi realizada no endereço de um instituto fundado pelo próprio magistrado.
A aproximação foi articulada durante semanas pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.
Em uma das mensagens mais explícitas, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmou que estava “trabalhando” para o banqueiro enquanto levava o ministro a uma alfaiataria.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.
O material mostra ainda que Ciro e Cezinha conversaram previamente com Mendonça sobre uma situação relacionada aos problemas enfrentados pelo Master no Banco Central.
Em outro áudio, o advogado disse ter deixado o ministro “balançado” com o assunto e afirmou que Mendonça queria receber Vorcaro.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo”, relatou Ciro. “Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele.”
O conteúdo não revela qual providência Vorcaro pretendia obter nem comprova que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou adotado qualquer medida em favor do Banco Master. Comprova, porém, a articulação promovida por pessoas próximas ao ministro, o conhecimento prévio de Mendonça sobre o assunto e a realização de pelo menos uma reunião reservada com o banqueiro.
“Tô com André M.” A articulação começou em 7 de fevereiro de 2025. Naquela tarde, Ciro Rocha Soares fez sucessivas tentativas de telefonar para Daniel Vorcaro. Depois das chamadas perdidas, escreveu: “Opa”, “me liga” e, às 14h03, acrescentou: “Tô [com] André M.”.
No dia seguinte, o advogado encaminhou ao banqueiro uma fotografia na qual aparecia ao lado de André Mendonça. A imagem teria sido feita em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em São Paulo e Brasília.
Logo depois da fotografia, Ciro enviou o áudio de seis segundos: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.”
As mensagens não esclarecem que trabalho Ciro dizia estar realizando para Vorcaro nem se o advogado mantinha contrato formal com o banqueiro, com o Banco Master ou com alguma empresa ligada ao grupo. A frase, porém, mostra que ele apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor de Vorcaro.
Ciro Rocha Soares é advogado com atuação principalmente na Bahia e sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, sediado em Salvador. Entre 2016 e 2017, exerceu o cargo de ouvidor do Ministério do Turismo.
As conversas mostram que sua relação com Vorcaro ultrapassava uma interlocução estritamente profissional. Os dois se tratavam como irmãos, trocavam declarações de amizade e falavam sobre questões familiares.
Essa intimidade aparece com clareza nas mensagens trocadas em 16 de fevereiro, quando Ciro procurou novamente o dono do Banco Master.
“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu o advogado às 17h47. Na mensagem seguinte, reforçou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”.
Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e depois sugeriu: “Marca quarta”.
Ciro insistiu que precisava conversar por telefone para explicar o assunto. Na sequência, reclamou, em tom amistoso, que Vorcaro havia sido “o único amigo” que não ligara no seu aniversário.
O banqueiro respondeu que quase compareceu à festa, mas teve um problema com os filhos. Disse também que sabia que a comemoração era uma surpresa e, por isso, não quis falar sobre ela antecipadamente.
“Você é meu irmão caçula, meu protegido”, respondeu Ciro. Vorcaro, por sua vez, enviou uma longa mensagem de aniversário. Chamou o advogado de “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e afirmou: “Se não fosse você eu não estaria de pé”.
A conversa ajuda a dimensionar o grau de confiança existente entre os dois no momento em que Ciro atuava para aproximar o banqueiro de um ministro do Supremo.
“Dei uma balançada nele” Depois da troca de declarações, Ciro enviou a Vorcaro um áudio de 1 minuto e 39 segundos. É nessa gravação que o advogado descreve de maneira mais detalhada sua interlocução com André Mendonça.
Ciro começou dizendo que conhecia o momento vivido pelo banqueiro e que havia sentido sua ausência na festa de aniversário. Contou que um senador havia dado “um show” no evento, cantado e perguntado por Vorcaro.
Em seguida, relatou que André Mendonça havia feito uma homenagem a ele durante a comemoração. Segundo Ciro, também estavam presentes o ministro do STF Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
“O André Mendonça fez uma homenagem pra mim do caralho no aniversário. O Kassio, o Gonet, puta merda, enfim, foi bacana”, disse.
Logo depois, o advogado voltou ao assunto que o levara a procurar Vorcaro: “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”
Ciro não detalhou na gravação qual era “aquele assunto”. Mais adiante, porém, fez referência direta à situação do Banco Central e afirmou que Mendonça já havia sido informado sobre ela tanto por ele quanto por Cezinha de Madureira.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.”
O áudio revela que havia ao menos duas linhas de interlocução com André Mendonça. Uma era conduzida por Ciro; a outra, por Cezinha de Madureira. Segundo o advogado, ambos já haviam conversado com o ministro sobre a situação relacionada ao Banco Central antes do encontro com Vorcaro.
Ciro disse ainda que iria a Brasília acompanhado de Otto e, em seguida, seguiria para São Paulo, onde seria internado no Hospital Sírio-Libanês. Propôs encontrar Vorcaro no próprio banco, por volta das 17h ou 18h, para que conversassem antes da reunião com Mendonça.
“Se quiser, eu passo no banco, a gente conversa”, sugeriu. Ao final, insistiu que precisava falar com o banqueiro e marcou um encontro para as 18h do dia seguinte.
Reunião marcada para quarta-feira Em 17 de fevereiro, Ciro avisou que estava deixando Brasília, onde participara de uma reunião, e pediu para conversar com Vorcaro às 18h. “Dani, estou saindo de BSB agora. Estava numa reunião. Preciso falar com você hoje. Podemos marcar às 18h”, escreveu.
Os dois fizeram uma ligação de 18 segundos. Pouco depois, Ciro informou que estava “subindo”, indicando que teria chegado ao local combinado para o encontro com o banqueiro. Às 19h08, enviou uma nova mensagem: “Cezinha confirmou às 16h de quarta”.
A quarta-feira seguinte era 19 de fevereiro. O conjunto das conversas indica que Ciro se referia à reunião com André Mendonça que Vorcaro havia pedido para marcar dois dias antes.
Na data acertada, Ciro procurou novamente o banqueiro e pediu que Bruno Bianco Leal, ministro da Advocacia-Geral da União durante o governo de Jair Bolsonaro, também participasse. Em áudio, orientou Vorcaro a convocar o advogado para que os dois fizessem uma apresentação conjunta.
“Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte”, disse.
Bruno Bianco fez carreira na Advocacia-Geral da União e comandou o órgão entre agosto de 2021 e janeiro de 2023. Assumiu a chefia da AGU depois que André Mendonça deixou o governo Bolsonaro para ocupar uma cadeira no Supremo.
Após sair do serviço público, Bianco passou a atuar na iniciativa privada e tornou-se advogado ligado ao Banco Master. Mais tarde, integrou a equipe responsável pela defesa de Vorcaro.
As mensagens comprovam que uma reunião foi marcada para aquela quarta-feira, às 16h, e que Ciro tentou incluir Bianco na apresentação. O vazamento, entretanto, não contêm registros de deslocamento, chegada ou saída que permitam cravar que esse primeiro compromisso ocorreu.
O material prova o agendamento e os preparativos. Diferentemente do encontro do mês seguinte, porém, não demonstra de maneira conclusiva a presença simultânea de Vorcaro e Mendonça no local combinado.
Cezinha marca novo encontro Menos de um mês depois, Cezinha de Madureira voltou a procurar Daniel Vorcaro. Em 13 de março, o deputado informou que havia marcado uma reunião com André Mendonça para as 17h do dia seguinte, em São Paulo.
“Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo”, escreveu.
Na mensagem seguinte, Cezinha indicou o endereço: Alameda Santos, número 647, 16º andar. Vorcaro respondeu: “Show” e, depois, “Marcado”. “Estarei lá para te receber”, afirmou o deputado, antes de reforçar a data e o horário: “Amanhã sexta-feira 14 às 17:00”.
Cezinha de Madureira é uma liderança da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira e tem relação próxima com André Mendonça. Sua trajetória política está fortemente associada à Frente Parlamentar Evangélica e às lideranças da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil.
Nas conversas analisadas, a participação do deputado não se limitou a compartilhar o contato do ministro. Segundo Ciro, Cezinha já havia conversado com Mendonça sobre a situação envolvendo o Banco Central. Depois, confirmou o compromisso de fevereiro e organizou diretamente a reunião de março, indicando data, horário e endereço.
“Ministro já está te esperando” No dia marcado, 14 de março, Vorcaro procurou o deputado pouco antes das 17h. “Fala amigo”, escreveu às 16h37. Três segundos depois, avisou: “Estou a caminho”.
Houve então uma ligação de 20 segundos entre os dois. Às 16h43, Cezinha enviou a mensagem que confirma que André Mendonça estava no local: “Ministro já está te esperando.”
Os diálogos entre Vorcaro e seu motorista corroboram o deslocamento. Às 16h30, sete minutos antes de avisar Cezinha de que estava a caminho, o banqueiro encaminhou ao funcionário o mesmo endereço enviado pelo deputado: Alameda Santos, 647, 16º andar.
“Descendo”, escreveu Vorcaro. Em seguida, ordenou: “Vamos nesse endereço”. O motorista respondeu: “Ok dr”. Às 18h40, Vorcaro voltou a procurar o funcionário e avisou: “Saindo”.
O cruzamento dos horários mostra que o banqueiro permaneceu no endereço durante cerca de duas horas. Cezinha havia informado que Mendonça já o aguardava no local, e o deputado afirmara no dia anterior que estaria lá para receber Vorcaro.
As mensagens, portanto, comprovam a existência de pelo menos um encontro presencial entre o dono do Banco Master e o ministro do Supremo. Também indicam a participação de Cezinha de Madureira.
Reunião em endereço privado O encontro não aconteceu na sede do Supremo Tribunal Federal, no gabinete do deputado ou em uma dependência do Banco Master.
No endereço indicado por Cezinha — Alameda Santos, 647, 16º andar — funciona, segundo o documento vazado, o Instituto ITER, instituição de ensino dedicada a cursos de formação e aperfeiçoamento profissional. O instituto foi fundado por André Mendonça em 2023.
A escolha de um endereço privado torna necessário esclarecer se o encontro apareceu na agenda pública de Mendonça, em que condição o ministro recebeu o banqueiro, quem mais participou da conversa e qual assunto foi tratado.
O material não apresenta uma ata, gravação ou transcrição da reunião. Também não mostra se o ministro tomou alguma providência depois do encontro.
A ponte evangélica Cezinha de Madureira exerce o terceiro mandato de deputado federal por São Paulo e é um dos principais representantes políticos da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira.
Sua proximidade religiosa e política com Mendonça ajuda a explicar o papel de ponte desempenhado nas conversas. O ministro foi pastor presbiteriano e teve sua indicação ao Supremo promovida por Jair Bolsonaro sob a promessa de escolher um nome “terrivelmente evangélico”.
O deputado aparece no vazamento como uma pessoa com acesso direto ao ministro: teria conversado antecipadamente com Mendonça sobre a situação de Vorcaro perante o Banco Central, confirmado o compromisso de fevereiro e organizado o encontro comprovadamente realizado em março.
O documento menciona ainda que, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil na bagagem de mão de Valéria Linhares, advogada e mulher de Cezinha, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Valéria foi assistida pelo advogado Daniel Bialski, que também atua na defesa de Daniel Vorcaro. A coincidência na representação jurídica não demonstra, por si só, que o dinheiro tenha relação com o banqueiro ou com o Banco Master, mas revela mais um ponto de contato entre os personagens.
O que as mensagens provam — e o que não provam O vazamento comprova que Ciro Rocha Soares procurou Vorcaro enquanto estava com André Mendonça; enviou uma fotografia ao lado do ministro; disse estar “trabalhando” para o banqueiro; e atuou para organizar uma reunião entre os dois.
Também comprova que Ciro afirmou ter apresentado a Mendonça um assunto relacionado a Vorcaro e que, segundo o próprio advogado, a conversa teria deixado o ministro “balançado”.
No mesmo áudio, Ciro disse que Mendonça conhecia “a situação do Banco Central toda” porque ele e Cezinha de Madureira já haviam falado sobre o tema com o ministro.
As mensagens registram ainda o agendamento de um compromisso para 19 de fevereiro, com a possível participação de Bruno Bianco, e comprovam a realização do encontro de 14 de março.
Sobre a reunião de março, há três conjuntos convergentes de evidências: Cezinha informou data e endereço; disse que Mendonça já aguardava Vorcaro; e as mensagens do banqueiro com o motorista comprovam sua chegada e sua permanência no local durante aproximadamente duas horas.
O material, por outro lado, não revela com precisão o pedido que teria sido levado a Mendonça. Também não permite afirmar que o ministro tenha interferido no Banco Central, prometido ajuda, recebido alguma vantagem ou adotado uma decisão em benefício do Banco Master.
A existência de uma reunião entre um ministro do Supremo e um banqueiro não configura, isoladamente, irregularidade. O interesse público está no contexto: a aproximação foi promovida como um trabalho em favor de Vorcaro, envolveu conversas prévias sobre uma situação no Banco Central e ocorreu de maneira secreta, em um endereço privado.
O outro lado Nota do gabinete do ministro André Mendonça
Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.
Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.
Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.
Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade”.
A reportagem também tentou localizar o advogado Ciro Rocha Soares para que comentasse as mensagens e os áudios, mas não conseguiu contato. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos dos citados.
Nota do advogado Ciro Soares
Tentar marcar conversas com magistrados é uma prática natural e muitas vezes necessária na advocacia. Nas conversas mencionadas não há nenhuma irregularidade.
É importante destacar que, no período da dita conversa, fevereiro de 2025, Daniel Vorcaro não era investigado e o ministro referido não era relator de nenhum processo vinculado ao empresário.
O referido ministro só se tornou relator do caso Master em 2026, quase um ano depois da conversa. Não faz sentido, portanto, estabelecer qualquer conexão entre as duas situações.
Devemos deixar claro ainda que a quebra de sigilo de advogado com cliente é uma ilegalidade que afronta o amplo direito de defesa.
*A reportagem foi publicada originalmente na newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, no Substack, e reproduzida na íntegra pelo ICL Notícia”
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Eis uma pergunta que parece saída de uma comédia de costumes do Judiciário: André Mendonça vai pedir à PGR que leve ao plenário o encontro de André Mendonça com Daniel Vorcaro?
A lógica seria impecável — se o personagem não fosse, ao mesmo tempo, o próprio interessado e o protagonista do episódio.
Depois de admitir que se encontrou com Vorcaro antes de assumir a relatoria do caso Banco Master, Mendonça passou a conviver com uma questão incômoda: se o encontro foi absolutamente normal, transparente e irrelevante, por que não colocar tudo às claras e permitir que o plenário examine o assunto?
Seria uma oportunidade extraordinária para transformar o episódio em exemplo de transparência. Bastaria abrir as portas, colocar os fatos sobre a mesa e deixar que os demais ministros avaliassem, sem filtros, sem versões cuidadosamente calibradas e sem aquele confortável silêncio institucional que costuma acompanhar situações inconvenientes.
Mas há uma pequena ironia no caminho: quem vai pedir para o plenário examinar o encontro de Mendonça com Vorcaro? O próprio Mendonça?
Seria quase como o réu solicitar ao tribunal: “Por favor, apreciem com urgência o meu próprio caso”. Uma inovação processual digna de registro.
O ponto central não é presumir culpa de ninguém. É justamente o contrário: quanto maior a controvérsia, maior deveria ser a disposição para esclarecer tudo publicamente.
Afinal, se não há nada a esconder, que venha o plenário.
E que venha também a memória completa dos fatos, as circunstâncias do encontro, quando ocorreu, quem o articulou, o que foi discutido e, sobretudo, qual era a relação entre aquele encontro e a posterior atuação de Mendonça no caso Master.
Porque, convenhamos, há situações em que a melhor resposta para a suspeita não é uma explicação cuidadosamente escolhida.
É abrir a caixa-preta.
Afinal de contas, o que vale para André tem que valer para Mendonça.
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A cada nova revelação, o caso Banco Master fica mais indigesto — e agora surge uma pergunta que não pode ser empurrada para debaixo do tapete: o que Daniel Vorcaro foi tratar, em segredo, com André Mendonça antes de o ministro se tornar relator do caso?
As mensagens e os áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelam que o banqueiro teve um encontro reservado com André Mendonça em 14 de março de 2025, em São Paulo. A reunião durou cerca de duas horas e ocorreu em um instituto fundado pelo próprio ministro. Mais grave: a aproximação não aconteceu por acaso. Ela foi articulada durante semanas por pessoas que atuavam na interlocução com Mendonça.
É impossível olhar para essa sequência de acontecimentos e simplesmente fingir que se trata de uma banalidade.
O ponto central não é apenas Vorcaro ter se encontrado com Mendonça. O que torna o episódio explosivo é a combinação de elementos: o banqueiro enfrentava problemas relacionados ao Banco Central; pessoas próximas a ele buscavam interlocução com o então ministro; Mendonça teria tomado conhecimento previamente da situação; e, posteriormente, tornou-se o relator do caso que envolve justamente o Banco Master.
O advogado Ciro Rocha Soares chegou a relatar que Mendonça queria receber Vorcaro. O material divulgado não demonstra que o ministro tenha interferido em favor do banqueiro, nem comprova que qualquer providência tenha sido adotada para beneficiar o Master. Mas revela algo que exige explicações: havia uma interlocução prévia entre o entorno de Vorcaro e o ministro que mais tarde passaria a comandar a investigação.
E aqui está o ponto que não pode ser contornado com notas burocráticas ou explicações protocolares.
O que foi discutido durante aquelas duas horas?
Por que Vorcaro precisava chegar até Mendonça? Quem pediu a reunião? Qual era exatamente a pauta? O que Mendonça já sabia sobre os problemas do Banco Master? Houve algum pedido concreto? Houve algum encaminhamento?
São perguntas elementares.
A situação fica ainda mais desconfortável porque Mendonça hoje ocupa uma posição central no caso Master. Portanto, não estamos falando de um encontro qualquer entre duas pessoas que cruzaram seus caminhos em um evento social. Estamos falando de um ministro do Supremo e de um banqueiro que posteriormente se tornou personagem central de uma investigação conduzida pelo próprio ministro.
É precisamente por isso que a transparência precisa ser absoluta.
Não basta dizer que não há prova de favorecimento. A questão institucional é anterior: qual foi a natureza dessa relação e o que aconteceu naquela reunião?
O Supremo Tribunal Federal não pode exigir transparência dos outros enquanto trata como detalhe aquilo que envolve seus próprios integrantes. Se existem mensagens, áudios e registros capazes de reconstruir a aproximação entre Vorcaro e Mendonça, todos os fatos relevantes precisam ser esclarecidos.
A sociedade brasileira não pode ser obrigada a montar esse quebra-cabeça por meio de vazamentos sucessivos.
Vaza Mendonça. E, com o vazamento, aparece uma pergunta incômoda demais para ser ignorada: afinal, o que Vorcaro foi buscar — e o que encontrou — naquela reunião de duas horas com o futuro relator do caso Master?
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A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou uma dimensão inédita depois que o ministro André Mendonça determinou a produção e a divulgação de informações da Polícia Federal envolvendo mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo relatos atribuídos a integrantes do STF, o problema não estaria na apuração de eventuais irregularidades — que, evidentemente, devem ser investigadas —, mas na maneira como Mendonça conduziu o procedimento.
Ministros ouvidos pela imprensa afirmam que o ministro teria atropelado ritos que tradicionalmente orientam investigações envolvendo integrantes da própria Corte. A avaliação é de que a iniciativa instaurou uma espécie de “vale-tudo” dentro do Supremo, criando um precedente com consequências que podem ultrapassar em muito o episódio específico envolvendo o Banco Master.
É nesse ponto que aparece a expressão que sintetiza a dimensão da crise: Mendonça teria aberto “as portas do inferno” dentro do STF. Não porque a investigação deva ser interrompida, mas porque, segundo esses ministros, a forma escolhida para fazê-la pode transformar divergências institucionais em uma guerra aberta entre integrantes da própria Corte.
E há uma consequência política impossível de ignorar: Flávio Bolsonaro é um dos principais beneficiários desse ambiente de conflito. Em plena corrida presidencial, a exposição pública de suspeitas envolvendo um ministro do Supremo desloca o centro do debate para uma pauta que interessa diretamente ao candidato bolsonarista, ao mesmo tempo em que alimenta a narrativa de confronto permanente entre o bolsonarismo e o STF. Reportagens desta terça-feira registram justamente essa avaliação de que a iniciativa de Mendonça produz efeitos eleitorais favoráveis a Flávio.
Isso não significa atribuir a Mendonça uma intenção que ele não declarou. O próprio ministro sustenta que seu papel é atuar com imparcialidade e que as suspeitas precisam ser examinadas. O que está em discussão, portanto, é outra coisa: se os procedimentos adotados foram adequados e quais consequências institucionais eles produziram.
A questão central agora é saber até onde essa escalada pode chegar. O episódio colocou o STF diante de uma situação delicadíssima: investigar suspeitas que atingem integrantes da própria Corte sem permitir que a investigação se transforme em instrumento de disputa política ou em precedente para que qualquer ministro possa, isoladamente, abrir novas frentes contra seus colegas.
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Há algo no mínimo curioso na cobertura econômica brasileira, quando os indicadores vêm ruins, o tom é de alarme; quando vêm melhores do que o esperado, aparecem imediatamente as ressalvas, os asteriscos e as previsões sombrias. O dado positivo precisa quase pedir desculpas por existir.
Nesta terça-feira, o IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, na comparação com os três primeiros meses do ano. O resultado ficou acima da expectativa do mercado, que projetava avanço de 0,4%. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, a economia cresceu 2%, acumulando expansão de 1,9% em quatro trimestres.
E há um dado particularmente expressivo, considerando 50 países que já divulgaram seus números, o Brasil registrou o quinto maior crescimento do PIB no trimestre. Ficou atrás somente de Irlanda, Indonésia, Angola e Malásia e à frente de economias como Estados Unidos e China.
Isso não significa, evidentemente, que todos os problemas econômicos brasileiros tenham desaparecido. O próprio resultado mostra uma desaceleração em relação ao primeiro trimestre, quando o PIB havia avançado 1,1%. O consumo das famílias recuou 0,4%, enquanto os juros elevados continuam sendo apontados como fator de pressão sobre crédito, consumo e investimento.
Mas uma coisa é fazer jornalismo econômico sério, mostrando simultaneamente avanços, limitações e riscos. Outra, bem diferente, é apresentar sistematicamente um resultado objetivamente positivo como se fosse mais uma evidência de fracasso.
É justamente aí que a cobertura de parte da velha mídia merece ser observada com atenção. O problema não está em apontar a desaceleração — ela existe e precisa ser discutida. O problema surge quando a desaceleração passa a ocupar todo o enquadramento da notícia e o dado central, de que o Brasil teve o quinto maior crescimento trimestral entre 50 economias, vira quase uma nota de rodapé.
O jornalismo econômico não deveria funcionar como torcida organizada. Se o PIB cresce, registra-se o crescimento. Se desacelera, registra-se a desaceleração. Se supera as expectativas, isso também é notícia. E se existem problemas estruturais, eles precisam ser apresentados com a mesma honestidade.
O fato concreto, portanto, permanece, o PIB brasileiro cresceu, superou a expectativa do mercado e colocou o país entre os cinco melhores desempenhos trimestrais do mundo no levantamento citado.
Transformar esse dado em propaganda seria tão equivocado quanto transformá-lo em fracasso. O que se espera da imprensa é simplesmente que os fatos sejam tratados como fatos — sem que a preferência política de quem noticia determine quais números merecem destaque e quais devem ser escondidos atrás de uma avalanche de pessimismo.
A economia brasileira tem problemas, como qualquer economia. Mas reconhecer problemas não exige negar resultados positivos. E um crescimento que coloca o Brasil em quinto lugar entre 50 países não deveria ser tratado como se fosse uma tragédia econômica.
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De repente, Augusto Cury deixou de ser apenas o escritor de livros de autoajuda e candidato quase invisível à Presidência para transformar-se em fenômeno eleitoral. Em poucos dias, saltou de 2% para 7,8% na Atlas/Intel. Mais impressionante ainda: ganhou cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram em apenas uma semana.
Coincidência?
É justamente aí que Pablo Marçal entra em cena.
Reportagens publicadas nesta segunda-feira mostram que o crescimento de Cury veio acompanhado de uma verdadeira inundação de vídeos nas redes sociais, muitos deles com a mesma linguagem, estética e dinâmica de comunicação utilizadas pelo universo digital de Marçal. O apoio do ex-coach ao candidato do Avante é público e seus seguidores passaram a atuar fortemente em favor de Cury.
Não é necessário recorrer a teorias conspiratórias para perceber que existe uma engrenagem política e digital por trás dessa ascensão meteórica. A pergunta relevante é outra: até onde vai o apoio espontâneo de Marçal e onde começaria uma operação organizada para fabricar artificialmente um candidato competitivo?
Essa pergunta não é gratuita. A própria cobertura jornalística registra suspeitas de atuação não orgânica, inclusive com questionamentos sobre eventual financiamento irregular da avalanche de conteúdo pró-Cury. A campanha, naturalmente, nega qualquer manipulação.
E há um elemento particularmente revelador: Cury e Marçal parecem ocupar espaços diferentes de uma mesma prateleira política. Um apresenta a embalagem mais sofisticada, mais polida e menos agressiva; o outro construiu sua persona em torno do discurso motivacional, da provocação e da exploração maciça das redes. Não por acaso, o jornalista Matheus Pichonelli resumiu a semelhança com uma frase devastadora: “Cury é o Pablo Marçal que senta à mesa.”
É nesse contexto que ganha importância o histórico confronto entre Marçal e o economista Elias Jabbour no Inteligência Ltda.. O debate, realizado em novembro de 2025, colocou frente a frente o discurso motivacional e empresarial de Marçal e a argumentação de um professor universitário especializado em economia política e desenvolvimento. O episódio ganhou grande repercussão justamente pela diferença entre os métodos de argumentação dos dois.
O problema, portanto, não é simplesmente Augusto Cury crescer nas pesquisas. Democracia pressupõe que qualquer candidato possa crescer.
O que merece investigação é a velocidade desse crescimento, a explosão simultânea de suas redes, a participação da máquina digital associada a Marçal e a possibilidade de que uma candidatura esteja sendo impulsionada artificialmente por uma estrutura de comunicação extremamente profissionalizada.
Porque, se existe uma operação para transformar Cury em fenômeno eleitoral, ela não surgiu do nada.
E, olhando para a movimentação das redes, Pablo Marçal é um dos nomes que inevitavelmente aparecem no rastro dessa ascensão.
A questão agora é descobrir se estamos diante de uma onda eleitoral espontânea ou de uma onda cuidadosamente fabricada.
E essa diferença, numa eleição presidencial, é tudo.
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O caso envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro acaba de ganhar um novo capítulo — e ele é particularmente incômodo para o candidato à Presidência. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), obtido pela revista piauí, registra um novo repasse de US$ 1.666.667, ou seja, R$ 8,6 milhões, para o fundo americano Havengate Development Fund, responsável por administrar recursos destinados à produção de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A transferência ocorreu em 16 de setembro de 2025.
O detalhe explosivo é a data. Flávio Bolsonaro havia afirmado publicamente que o último pagamento de Vorcaro ocorrera em maio de 2025. O documento do Coaf mostra, porém, que o dinheiro continuou circulando quatro meses depois.
E há algo ainda mais significativo: o novo pagamento aconteceu apenas oito dias depois de Flávio cobrar Vorcaro por parcelas atrasadas. Ou seja, a documentação conhecida agora reforça a existência de uma relação financeira que se prolongou muito além do período admitido publicamente pelo senador.
Com esse novo repasse, o total enviado por Vorcaro para o projeto saltou de aproximadamente US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões, mais de R$ 65 milhões na cotação da época.
A dimensão política do episódio é impossível de ignorar. Flávio não aparece simplesmente como alguém que tomou conhecimento de um financiamento feito por terceiros. As mensagens já reveladas mostram sua participação nas cobranças relacionadas aos pagamentos. Agora, o relatório do Coaf acrescenta uma peça documental decisiva ao quebra-cabeça: havia um novo desembolso depois da data que ele próprio apresentou como o encerramento dos pagamentos.
E a explicação oferecida por sua assessoria, segundo a piauí, é igualmente reveladora: em vez de esclarecer a discrepância entre a declaração do senador e o relatório do Coaf, a assessoria transferiu a responsabilidade para a produtora do filme.
O problema, portanto, deixou de ser apenas o tamanho do dinheiro envolvido. É a falta de transparência sobre a origem, o destino, a cronologia e os responsáveis pelos milhões de dólares que cercam Dark Horse.
Flávio Bolsonaro prometeu transparência, mas os fatos continuam produzindo novas perguntas. E cada novo documento torna mais difícil sustentar a narrativa de que se tratava de uma operação simples, encerrada em maio de 2025 e sem maiores mistérios.
O Coaf acaba de colocar mais uma peça sobre a mesa. US$ 1,666 milhão que, segundo a própria versão de Flávio, não deveriam mais estar sendo repassados — mas foram. Agora cabe ao candidato explicar por que sua versão não coincide com os registros financeiros.
E, sobretudo, explicar quantos milhões ainda faltam aparecer nessa história.
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A vacina Covaxin que revelou o porão do governo Bolsonaro
O escândalo da Covaxin foi um daqueles episódios que, por si só, deveriam ter sido suficientes para marcar para sempre a história de um governo. Enquanto o Brasil enterrava seus mortos pela Covid-19, enquanto famílias desesperadas procuravam oxigênio, leitos e vacinas, nos subterrâneos do governo Bolsonaro se desenrolava uma operação bilionária cercada de pressões, inconsistências documentais, intermediários suspeitos e perguntas que até hoje não podem ser tratadas como mero detalhe burocrático.
Foi a CPI da Covid que abriu a porta desse porão.
E o que apareceu não foi bonito.
O governo havia contratado 20 milhões de doses da Covaxin por aproximadamente R$ 1,6 bilhão, em um negócio que passou a despertar uma sucessão de suspeitas. O processo avançou em velocidade incomum, apesar dos obstáculos e inconsistências apontados por servidores do próprio Ministério da Saúde. Havia problemas nos documentos, questionamentos sobre o pagamento e uma tentativa de envolver uma empresa que não constava originalmente do contrato.
O mais impressionante, porém, estava em outro lugar.
O presidente da República foi avisado.
Os irmãos Luís Miranda e Luís Ricardo Miranda levaram ao conhecimento de Jair Bolsonaro as suspeitas relacionadas à operação. Luís Ricardo, servidor do Ministério da Saúde, havia identificado problemas na documentação e relatado pressão para dar andamento ao negócio.
A partir daí, o escândalo ganhou uma dimensão política explosiva.
Porque, se o presidente da República recebe informações sobre possíveis irregularidades em uma contratação bilionária de vacinas e, em vez de determinar imediatamente uma investigação, deixa o episódio seguir seu curso, surge uma pergunta inevitável: quem estava sendo protegido?
A CPI foi atrás dessa resposta.
E encontrou uma história ainda mais incômoda.
A operação envolvia a Precisa Medicamentos, intermediária da negociação, e documentos que apresentavam inconsistências. Um dos pontos mais graves era a previsão de pagamento a uma empresa chamada Madison Biotech, sediada em Singapura, que não aparecia como contratada no negócio original.
Em qualquer administração minimamente comprometida com o dinheiro público, uma sucessão de sinais dessa natureza deveria acender todas as luzes vermelhas.
No governo Bolsonaro, as luzes precisaram ser acesas por uma CPI do Congresso.
Essa é talvez a dimensão mais importante do caso.
A Covaxin não foi apenas uma história sobre uma vacina que acabou não sendo aplicada. Foi uma história sobre como o poder público negociava bilhões de reais durante uma emergência sanitária e sobre o que acontecia quando servidores levantavam dúvidas sobre a operação.
E há algo particularmente repugnante no contraste.
De um lado, o governo Bolsonaro tratava a vacinação com uma mistura de negligência, sabotagem política e desinformação. De outro, quando surgia uma oportunidade de contratar uma vacina por bilhões de reais, apareciam pressa, pressão e uma cadeia de acontecimentos que despertou suspeitas no próprio Ministério da Saúde.
A CPI fez aquilo que as instituições do Executivo deveriam ter feito desde o primeiro alerta: perguntou, confrontou documentos, ouviu servidores, rastreou responsabilidades e colocou o negócio sob os holofotes.
O contrato acabou suspenso e posteriormente cancelado.
Mas o cancelamento não apaga o escândalo.
Ao contrário.
Ele torna ainda mais necessário perguntar por que uma contratação cercada de tantos sinais de alerta chegou tão longe.
A Covaxin entrou para a história da pandemia brasileira como um símbolo do que acontecia quando interesses políticos, negócios privados e dinheiro público se encontravam no pior momento possível: quando milhares de brasileiros estavam morrendo e cada dia de atraso na vacinação custava vidas.
A CPI da Covid teve muitos episódios, mas o caso Covaxin ocupa um lugar especial porque desmontou uma das narrativas centrais do bolsonarismo: a de que o governo seria simplesmente vítima de uma perseguição política.
Não era perseguição.
Era investigação.
E investigação existe justamente para fazer aquilo que governos acuados detestam: colocar documentos sobre a mesa, reconstruir os caminhos do dinheiro, confrontar versões e perguntar quem sabia o quê — e quando sabia.
No caso Covaxin, a pergunta permanece brutalmente simples:
se o presidente foi alertado sobre possíveis irregularidades em uma operação bilionária de compra de vacinas, por que a investigação não partiu imediatamente do Palácio do Planalto?
Foi preciso uma CPI para fazer essa pergunta em voz alta.
E talvez seja esse o maior legado do escândalo: a Covaxin mostrou que, durante a tragédia da Covid-19, havia muito mais acontecendo dentro do governo Bolsonaro do que aquilo que aparecia nas coletivas e nas redes sociais.
Enquanto o país contava mortos, a CPI contou documentos.
Enquanto o governo tentava controlar a narrativa, a comissão desmontava versões.
E enquanto Bolsonaro procurava se apresentar como alguém que nada sabia, a Covaxin deixou uma pergunta política impossível de esconder:
O que exatamente o presidente sabia — e por que, diante dos alertas que recebeu, não fez aquilo que qualquer presidente deveria fazer quando suspeita de uma fraude bilionária: mandar investigar?
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