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Flávio ganhou Rolex de empresário após orgia com prostitutas em plena pandemia

Um churrasco na lancha com Flávio Bolsonaro, lobistas e garotas de programa durante a pandemia

Às 20h30 da noite de 16 de julho de 2020, o consórcio montado por veículos de imprensa para contabilizar as vítimas da Covid registrava um marco trágico: 1.299 mortos apenas naquele dia. No total, 76.822 brasileiros já tinham morrido em decorrência do vírus, e os números não paravam de crescer. Poucos minutos depois desse registro público, mais precisamente às 20h49, o jatinho de prefixo PR-SAD decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília.

O jato executivo Embraer Phenom 300, que pertencia à empresa Prime You e já teve Daniel Vorcaro como um de seus usuários, havia sido destacado para transportar dois empresários: Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos, respectivamente. Os dois diziam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento da vacina Covaxin, e queriam fechar um acordo com o governo de Jair Bolsonaro para produzir vacinas para o Brasil.

Embora, àquela altura, as vacinas ainda não fossem uma realidade palpável no mundo, havia uma corrida para sua pesquisa, produção e comercialização. Contratos começavam a ser firmados. Como o Brasil tinha um presidente negacionista, o país estava fora do páreo. Tanto a americana Pfizer quanto a chinesa Sinovac tentavam negociar com o Ministério da Saúde, mas nada avançava. A Precisa Medicamentos já era uma grande fornecedora do governo, a quem vendia de testes rápidos de Covid a preservativos femininos. Mas a empresa via a oportunidade de aumentar seus laços com a gestão de Jair Bolsonaro.

Para azeitar a perspectiva de bons negócios, Danilo Trento e Francisco Maximiano decidiram promover um passeio cujo objetivo era agradar ao primogênito do então presidente, o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República pelo PL. A dupla recorreu então a um procedimento de praxe: procurou seu agente de viagens, Raphael Barão, dono da Barão Turismo, e o encarregou de organizar um churrasco a bordo de uma lancha, no Lago Paranoá, em Brasília. O principal atrativo do passeio, porém, não seria a picanha, mas três garotas de programa trazidas de São Paulo.

Havia seis pessoas a bordo naquele voo na noite de 16 de julho de 2020. Eram elas: os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, o agente de viagens Raphael Barão e três garotas, duas loiras e uma morena. A aeronave aterrissou no aeroporto de Brasília às 22h12. De lá, todos os seis se dirigiram ao hotel Meliá Brasil 21, localizado no setor hoteleiro Sul da capital federal. O evento na lancha só ocorreria no dia seguinte.

Os jornais amanheceram em 17 de julho como de costume: tomados por notícias sobre mortos, infectados e desvios de recursos que deveriam ser usados para tratar os doentes. Por volta das 10h30 da manhã, um carro estacionou em um dos decks com acesso ao Lago Paranoá. O automóvel estava carregado com bebidas, como vodca, gim e cerveja, além de petiscos, destinados a abastecer a lancha de uma cabina, com cerca de 20 metros de comprimento, que estava atracada à beira do lago.

Entraram na embarcação Danilo Trento, as três garotas e o condutor da lancha. Logo em seguida, chegou o convidado principal da festa: Flávio Bolsonaro, que veio acompanhado de seu amigo, Alexandre Santini. Àquela época, Santini era sócio de Flávio Bolsonaro na operação da franquia da célebre loja da Kopenhagen, no Rio de Janeiro. (De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, a loja foi usada para lavar dinheiro oriundo da prática de rachadinha operacionalizada por Fabricio Queiroz, ex-PM e operador da família. O MP estima que 1,6 milhão de reais em espécie, devolvidos por assessores da Alerj, foram lavados por meio da loja de chocolates. O caso foi arquivado depois que o STF anulou as provas, em 2021).

Quando a lancha zarpou, pararam no Alô Grau, um restaurante flutuante no lago, onde compraram mais comida e bebida. A conta, paga por Barão, ficou em 1.949 reais. O barco então circulou pelo Lago Paranoá. O Sol era inclemente e os tripulantes temiam que algum drone do entorno os registrasse em seu veraneio pandêmico. Santini e Flávio Bolsonaro ficaram sem camisa. Santini exagerou na bebida. À certa altura, Flávio desceu à cabina com uma das garotas. Ela não foi a única a fazer esse caminho acompanhada do senador naquela tarde. Santini e Trento não desceram. Passaram a maior parte do tempo na proa da embarcação.

O passeio de barco se encerrou por volta de 15 horas. Mas havia ainda uma surpresa. Com o barco já atracado no deck, Danilo Trento, o interessado em vender vacina para o governo, quis presentear Flávio Bolsonaro com um mimo. Ele tirou de seu pulso um relógio Rolex, com pulseira em tom prateado, e colocou no pulso do senador. Flávio Bolsonaro foi embora usando o novo presente.

Terminado o passeio, era hora de partir. Amigo e sócio de Flávio Bolsonaro, Santini pediu carona para voar de Brasília para São Paulo no mesmo jatinho em que estavam os dois empresários, o agente de turismo e as garotas. Ele então foi até o hotel onde estava hospedado, o Royal Tulip Brasília Alvorada, localizado próximo ao Palácio da Alvorada, para pegar as suas coisas.

A aeronave decolou de Brasília às 17h55 e aterrissou em São Paulo às 19h13. Pouco tempo depois, às 20h30, o consórcio de imprensa divulgaria os dados de óbitos por Covid naquele dia: 1.110 pessoas.

inda que aprimorada, ramificada e institucionalizada por Daniel Vorcaro, que contava com uma equipe de três promoters para oferecer serviços sexuais a autoridades, de políticos a ministro do Supremo Tribunal Federal, a prostituição como engrenagem de lobby e corrupção não foi inventada pelo dono do Banco Master. Em Brasília, a moeda extrapola reais e dólares e contempla também encontros privativos e discretos em lanchas e hotéis. “Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, diz um ex-assessor parlamentar que frequentou algumas festas em lanchas com prostitutas, duas delas na presença do próprio Flávio Bolsonaro (“uma antes e outra durante a pandemia”).

A regra tácita em todas as festas desse tipo, em que circulam políticos, juízes, desembargadores e outros poderosos em atividades subterrâneas, é que as garotas de programa passem por uma revista. O uso de celular é vetado e, para não haver risco de vazamentos, as bolsas das profissionais são confiscadas. Em geral, nesses encontros, há mais mulheres que homens. “Uma média de duas a três mulheres por convidado”, diz uma participante que pede para não ter seu nome divulgado por temer por sua segurança. “As lanchas têm dois andares, com uma ou duas cabines.”

Em setembro deste ano, o jornalista Rodrigo Rangel publicou uma reportagem no site PlatôBR mostrando como Alexandre Santini, que estava no passeio de lancha no Paranoá, promoveu encontros de Flávio Bolsonaro com garotas de programa. Em uma outra coincidência, a reportagem de Rangel também noticia que o senador recebeu o mesmo mimo: um relógio Rolex. De acordo com o material do PlatôBR, tratava-se de um relógio modelo Submariner Date, avaliado em 305 mil reais. Foi comprado pelo advogado Alan Belaciano, que representava interesses privados junto a autoridades de Brasília.

Para reconstituir o passeio de lancha do dia 17 de julho de 2020, a piauí conversou com uma pessoa que estava na embarcação sob a condição de não revelar sua identidade, cruzou quebras de sigilo de Barão, Maximiano e Trento enviados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado, ouviu dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que não participou daquele evento, mas já esteve em outros similares. A reportagem ainda confrontou os dados aéreos obtidos na apuração com os de uma plataforma de rastreamento de voos em tempo real.

phael Barão funcionava como uma espécie de concierge das viagens de Trento e Maximiano. Além de organizar a logística, também viajava junto. Apenas em 2020, ano em que aconteceu o passeio de lancha no Paranoá, a Barão Turismo recebeu cerca de 4 milhões de reais das empresas que integravam o grupo econômico da Precisa Medicamentos. Quando a turma da Precisa viajou à Índia para negociar com a Bharat Biotech, Barão também organizou a viagem e dela participou. Como o grupo em torno da Precisa tornou-se alvo da CPI da Pandemia e a prestação de serviços de turismo não foi devidamente comprovada no período por Barão, as autoridades acabaram quebrando seu sigilo e o de sua agência, assim como os de Maximiano e Trento, altamente envolvidos nas suspeitas de irregularidades na compra da vacina.

Nas sessões da CPI realizadas em agosto e setembro de 2021, um ano depois do passeio de lancha, o senador Randolfe Rodrigues afirmou que Barão mantinha uma empresa nos Estados Unidos usada para lavar dinheiro de Trento. O empresário negou. O senador Renan Calheiros quis saber de Maximiano se Flávio Bolsonaro havia intermediado o acesso da Precisa ao alto escalão do Ministério da Saúde. Maximiano negou. Calheiros perguntou, então, se fora Flávio quem aproximara a empresa do presidente Jair Bolsonaro, para que ele telefonasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e referendasse o negócio com a Bharat Biotech. Maximiano não respondeu, invocando o direito ao silêncio. Randolfe Rodrigues então perguntou a Trento se ele conhecia alguém da família Bolsonaro. Houve, enfim, uma resposta afirmativa. “Já estive em eventos institucionais com o senador Flávio”, disse Trento, antes de se corrigir: “Eventos públicos, não institucionais, desculpa.”

Flávio Bolsonaro, por sua vez, saiu publicamente em defesa da Precisa Medicamentos durante a CPI. Na oitiva de Emanuela Medrades, diretora da empresa, chegou a congratulá-la: “Cabe aqui um parabéns também público, pelo fato de a senhora, ao representar o laboratório indiano, ter batalhado para que fosse economizado dinheiro público”, afirmou. O elogio destoava dos valores negociados: o contrato da Covaxin previa o pagamento de 80 reais por dose, enquanto a Pfizer oferecia sua vacina por cerca de 56,30 reais e a AstraZeneca, por 18 reais.

As negociações haviam despertado suspeitas no servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do então deputado Luis Miranda, que denunciou publicamente as irregularidades. O contrato acabou sem que o primeiro pagamento fosse realizado. Flávio, porém, ironizava o escândalo. “É a primeira vez que eu vejo, na minha vida, um desvio de dinheiro público em que não tem um real que foi pago. Que dinheiro público? Então, eu fico satisfeito e até concordo com a oposição quando eles dizem que esse é o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro, porque, no maior escândalo de governo, de corrupção, segundo eles, não houve corrupção.”

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.

Em 20 de outubro de 2020, três meses depois do passeio de lancha, a proximidade com Flávio já havia rendido à dupla Trento e Maximiano uma demonstração concreta de prestígio. O senador abriu caminho para que Maximiano e outro executivo de sua empresa fossem recebidos pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano. A reunião, realizada virtualmente em razão da pandemia, tinha como objetivo discutir linhas de financiamento para uma nova empresa de Maximiano no setor de telecomunicações. Para deixar claro que endossava a empreitada, Flávio participou da ligação.

Quando a agenda veio a público, numa reportagem da Veja, o BNDES explicou que haviam ocorrido duas reuniões, uma delas com a presença de Montezano, e que nenhum financiamento fora contratado. Flávio, por sua vez, publicou um vídeo em que admitia ter “amigos em comum” com Maximiano em Brasília, mas negava manter com ele qualquer “relação comercial ou financeira”. “O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste”, justificou.

A reunião com Maximiano foi o único encontro oficial de Flávio com o BNDES, na condição de autoridade e sem outros parlamentares, desde o início da gestão de Montezano, em julho de 2019, até aquele momento. Para o presidente do banco, tampouco se tratava de uma agenda corriqueira. Montezano recebia com frequência deputados e senadores, individualmente ou em grupo. O incomum era que chegassem acompanhados de um empresário amigo, interessado em financiamento público.

Àquela altura, Flávio Bolsonaro já demonstrava interesse pelo mercado de telecomunicações. Frequentava viagens promovidas pelo senador Ciro Nogueira e pelo então ministro das Comunicações, Fábio Faria, para eventos internacionais do setor. Os parlamentares que integravam o grupo de trabalho responsável por acompanhar o leilão do 5G no Brasil, porém, não eram convidados para essas viagens.

Uma das viagens internacionais de Flávio como senador, a Las Vegas, em janeiro de 2020, coincidiu com a de Danilo Trento. Foi antes da pandemia e do passeio de lancha. A viagem custou 12,5 mil reais aos cofres do Senado apenas em diárias. Na programação, Flávio visitou o ateliê de Romero Britto, almoçou com executivos de uma empresa de navios turísticos e hotéis-cassinos e fez “visitas técnicas” acompanhado do então presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, o sanfoneiro. Encontrou-se até com Sheldon Adelson, magnata dos cassinos que morreria no ano seguinte. No pedido de autorização da viagem ao Senado, Flávio declarara que seu objetivo era “promover o turismo brasileiro no mercado internacional”, atrair cruzeiros e estimular o “investimento e instalação de novos resorts”.

Como Trento também estivera em Las Vegas exatamente naquele período, a CPI da Pandemia interessou-se em saber se ele havia viajado na companhia de algum senador. “Sr. Senador, com todo o respeito e baseado no meu habeas corpus, eu irei permanecer em silêncio”, respondeu. Diante da recusa de Trento em esclarecer o episódio, Flávio apressou-se em divulgar uma nota: “O senador nunca se reuniu com o Sr. Danilo Berndt Trento em Las Vegas, nem possui vínculo de qualquer espécie com o mesmo.”

Las Vegas não seria a última ocasião em que Flávio Bolsonaro apareceria associado ao universo dos cassinos. Em janeiro de 2025, segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o senador passou o fim de semana anterior à posse de Donald Trump em Miami, no Hard Rock Hotel & Casino. Estava acompanhado do amigo Willer Tomaz, com quem é suspeito de manter uma sociedade oculta numa bet, conforme revelou a piauí. Segundo Jardim, a dupla passou a madrugada numa sala de jogos reservada. Flávio acompanhou Tomaz até o caixa do cassino ao fim da noitada, às 6h30. Lá, o amigo sacou 236 mil dólares em dinheiro vivo.

Na noite da última terça-feira, 20 de outubro, O Globo revelou que Tomaz havia pago a um site para desativar links com informações que o desagradavam. Um deles remetia a uma notícia cujo título, à luz dessas viagens, ganhava especial interesse: “Flávio Bolsonaro é contra PL dos Jogos, mas frequenta cassinos e se reúne com operadoras em Las Vegas.”

Até o fechamento desta reportagem, Flavio Bolsonaro não se manifestou. Também procurado, Danilo Trento não atendeu às ligações da piauí e, por mensagem, pediu para antecipar o assunto por estar em uma “call”. Uma vez informado sobre os detalhes da pauta – os voos, a confraternização na lancha e o Rolex –, interrompeu a comunicação. A reportagem também procurou os advogados de Francisco Maximiliano, por mensagem de WhatsApp e por e-mail, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

*João Batista Jr., de São Paulo, Ana Clara Costa, do Rio de Janeiro, e Breno Pires, de Brasília/Revista piauí


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Flávio Bolsonaro tomou um mata-piolho de Lula e ficou de calça arriada diante do Brasil

Flávio Bolsonaro passou a semana inteira prometendo esfregar na cara de Lula sua suposta corrupção. Falastrão, cheio de bravatas e pose de valentão, entrou no debate achando que encurralaria o presidente. Mas bastou Lula virar o jogo e propor um desafio direto — que ambos abrissem os sigilos telefônico e bancário — para o candidato bolsonarista sentir o chão desaparecer sob seus pés.

Lula aceitou o próprio desafio e abriu seus sigilos. Flávio, por sua vez, recuou, alegando motivos que, de tão convenientes, só aumentaram a desconfiança. O sujeito que prometia escancarar a vida alheia mostrou-se incapaz de sustentar o mesmo escrutínio sobre a própria vida.

Foi um mata-piolho político, daqueles que deixam o valentão de calças arriadas diante de milhões de espectadores. O contra-ataque de Lula desmontou a encenação, expôs o desconforto de Flávio e transformou sua bravata em constrangimento público.

Se Flávio queria dar um truco, Lula respondeu com um royal flush: uma jogada devastadora que deixou o adversário sem saber como blefar. Seus trejeitos, a hesitação e o evidente desconforto diante do desafio falaram mais alto do que qualquer discurso ensaiado.

A máscara do valentão começou a cair. Quem passa a semana prometendo revelar a corrupção dos outros e, na hora de enfrentar o mesmo teste, procura uma saída de emergência perde a autoridade para posar de paladino da moralidade.

Flávio queria colocar Lula contra a parede. Acabou encurralado pelo próprio desafio. E, depois desse episódio, sua pose de justiceiro anticorrupção ficou insustentável.


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Movimento Rap Contra a Direita (RCD) convoca artistas e fãs a mobilizar eleitores nas redes sociais por Lula

Idealizado por Kauan Sabino, o movimento busca mobilizar artistas e público, enquanto rappers de diferentes gerações expressam suas posições políticas

Desde o início da corrida eleitoral para a Presidência da República em 2026, muitos artistas têm sido cobrados nas redes sociais a se posicionar politicamente. Nesse cenário, trabalhos artísticos historicamente associados a ideias progressistas e à defesa de pautas sociais ganham destaque no debate público.

Lançado no Instagram em 6 de outubro, o movimento Rap Contra a Direita (RCD) reúne fãs, criadores de conteúdo e MCs com o objetivo de ampliar o debate político no universo do hip hop e incentivar a participação dos jovens nas eleições. Idealizada por Kauan Sabino, 22 anos, a iniciativa surgiu após o primeiro turno, uma maneira para transformar a insatisfação com o resultado em mobilização coletiva.

Kauan é estudante de Jornalismo, rapper desde os 14 anos e morador de Cabo Frio, no Rio de Janeiro

Kauan é estudante de Jornalismo, rapper desde os 14 anos e morador de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Ele que já está inserido há anos no cenário do rap, também é um dos responsáveis pela gravadora GhettoWlrd, criada ao lado do rapper ogLeleco para fortalecer artistas independentes. A rede de contatos construída ao longo do tempo foi fundamental para tirar o RCD do papel.

“Nasceu após um triste sentimento com o primeiro turno das eleições e com a vontade de unir o que mais amo no momento mais importante, pelo objetivo maior. Queria uma mobilização coletiva e contundente. Não podia ficar parado, precisava agir. Falei com a Gabrielly Stoeck, ela super apoiou a ideia”, conta Kauan sobre a criação do movimento.

O contato com o rap começou por meio da família: “Cresci ouvindo todo tipo de música, mas me recordo de diversas vezes em que meu tio colocava Racionais no carro, então, esse é um dos primeiros contatos de que tenho recordação”, relembra.

A articulação do Rap Contra a Direita também se beneficiou das conexões de Kauan com artistas e agentes do cenário musical: “Assim que criei o perfil, acionei alguns contatos que tinha, pois estou inserido no cenário do rap há anos e colecionei diversas amizades. Fui acionando alguns artistas, como o Gelatto Neves, e, a partir dele, fomos chegando a outros e outros. A Nanda Tsunami está na nossa equipe desde o primeiro dia e também deu uma força gigante, e muitos vieram à minha DM, e outros se posicionaram por conta de seus fã-clubes”, relata.

A iniciativa busca estimular a união entre artistas para se posicionarem em um momento decisivo para o país: “Tenho percebido que o rap ainda pode ser totalmente unido. Tenho conversado diariamente com todos os artistas sobre a necessidade de encerrar brigas e de todos criarmos algo ainda maior. Somente juntos podemos mudar nosso futuro!”, defende Kauan.

Encontro Histórico
Desde que ganhou força no Brasil, nos anos 1980, o rap se afirmou como uma importante expressão cultural das periferias. Com letras que denunciam desigualdades, racismo, violência policial e a ausência de direitos básicos, o gênero construiu uma trajetória marcada pela crítica social e pela valorização das experiências da população negra e periférica.

Essa origem ajuda a compreender a razão em que parte dos artistas e integrantes da cena considera importante o posicionamento político do hip hop, já que, questões como o acesso à educação, à cultura e aos serviços públicos estão diretamente relacionadas às realidades retratadas nas músicas.

Um episódio emblemático dessa aproximação entre o hip hop e o poder público ocorreu em 2004, quando rappers como KL Jay, Edi Rock, Rappin’ Hood e MV Bill se reuniram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, para discutir políticas públicas voltadas ao movimento.

O encontro representou um momento significativo de reconhecimento do hip hop como uma expressão cultural capaz de contribuir para o debate público e dar visibilidade às demandas de diferentes gerações.

Para Kauan, o rap não pode se distanciar desse papel histórico, sobretudo diante da disputa política atual: “É fundamental que o rap, gênero musical responsável por denunciar injustiças sociais, levantar debates urgentes e dar voz a realidades historicamente silenciadas, esteja na linha de frente da luta por um bem maior no nosso país. Nós nunca fecharíamos com os ideais da direita nem com os do bolsonarismo. É preciso botar a cara agora e agir, sem medo!”, afirma.

As novas roupagens do rap
A popularização do rap ampliou seu alcance para além das periferias, trazendo novos públicos, incluindo jovens das classes média e alta. Ao mesmo tempo, a expansão da indústria cultural e a ascensão de novos artistas contribuíram para diversificar as temáticas e as sonoridades do gênero.

Com o crescimento do trap, um subgênero do rap e do hip-hop, outros assuntos também foram surgindo. E, diferentemente das reivindicações por direitos, nascem as letras que demonstram a vontade de consumo, e temas como dinheiro e carros de luxo aparecem com frequência nas composições. Essa transformação alimenta, até hoje, debates sobre as novas ideias e os rumos do gênero musical, além do quanto a relação com as questões sociais que tanto marcaram suas origens.

As pautas progressistas hoje são bem mais fortes entre as artistas mulheres da cena do rap. Elas conquistaram espaço no mainstream do rap, e temas como liberdade sexual, autonomia feminina e enfrentamento às desigualdades de gênero seguem integrando o repertório de artistas que ampliam a representatividade dentro da cena.

O Rap Contra a Direita nasce em momento eleitoral para reforçar e estimular o debate sobre os projetos em disputa nas eleições de 2026, se preocupando em mostrar o que isso pode custar para a cultura, principalmente para gêneros musicais que ainda são marginalizados socialmente dentro da indústria quando o assunto é patrocínio e visibilidade. Para Kauan, a neutralidade política defendida por parte do público não corresponde à trajetória histórica do hip hop. Ele também critica a ideia de que o rap não deveria assumir um lado na disputa eleitoral.

“Achei muito engraçado quando vieram me dizer também que ‘o rap não tem lado’. Algumas pessoas precisam largar o gênero e ir ouvir sertanejo, então. Lá tem artistas com os quais elas podem se identificar mais. Somente isso”, conclui.

Artistas que se posicionaram contra a extrema direita
Alguns artistas do hip hop e rap nacional já se manifestaram em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em defesa da democracia e em oposição aos projetos políticos de Flávio Bolsonaro. Com trajetórias marcadas por diferentes estilos e abordagens, esses nomes também levam para a música debates sobre desigualdade social, racismo, direitos humanos e valorização da cultura.

Rappers homens:

Akira Presidente (RJ)
Alee (RJ)
AnjO 005 (SP)
Baco Exu do Blues (BA)
BK’ (RJ)
Borges (RJ)
Cae (SP)
Delacruz (RJ)
Dexter (SP)
DK47 (RJ)
Djonga (MG)
Don L (DF/CE)
Edi Rock (SP)
Emicida (SP)
Filipe Ret (RJ)
Froid (DF)
GOG (DF)
L7NNON (RJ)
Mano Brown (SP)
Marcelo D2 (RJ)
Matuê (CE)
MC Hariel (SP)
MC Marechal (RJ)
Nabru (MG)
Nikito Lebrae (SP)
Ogoin (MG)
Oklin (SP)
Pelé do Manifesto (PA)
Rashid (SP)
Ruas MC (SP)
Renan Inquérito (SP)
Rod 3030 (RJ)
Rico Dalasam (SP)
Salvador da Rima (SP)
Sant (RJ)
Spinardi (SP)
Tarcis Neggs (RJ)
TZ da Coronel (RJ)
Vandal (BA)
Xamã (MG/RJ)
Yago Oproprio (SP)
Yunk Vino (SP)

Rappers Mulheres:

Ajuliacosta (SP)
Azzy (RJ)
Barona (BA)
Budah (ES)
Ciça (RJ)
Clara Lima (MG)
Cris SNJ (SP)
Drik Barbosa (SP)
Duquesa (BA)
Ebony (RJ)
Flora Matos (DF)
Hanifah (SP)
Karol Conká (PR)
Lívia Cruz (PE)
MC Carol (RJ)
MC Luanna (SP)
N.I.N.A. (RJ)
NandaTsunami (SP)
Rubia RPW (SP)
Sara Donato (SP)
Sharylaine (SP)
Slipmami (RJ)
Stefanie (SP)
Tássia Reis (SP)
Tasha & Tracie (SP)

*ICL


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Vídeos: Flávio Bolsonaro e a defesa de quem matou com um fuzil uma menina de 5 anos

Há algo de profundamente perturbador na atuação de Flávio Bolsonaro na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, que matou a pequena Ana Clara Gomes Machado, de apenas cinco anos, com um tiro de fuzil em Niterói, em 2021. Em 2024, Flávio integrou a equipe de advogados que recorreu ao Superior Tribunal de Justiça para tentar impedir que o policial fosse submetido a júri popular. O recurso foi rejeitado, mas a menina continua sem ter seu caso julgado, enquanto sua família espera por justiça.

No debate da Band, quando Lula trouxe o caso à tona, Flávio refugiou-se no argumento de que não se pode criminalizar o exercício da advocacia. É verdade que todo acusado tem direito à defesa. Mas essa resposta jurídica não elimina a questão política e moral, insensível e desumana que seu comportamento levanta: por que Flávio Bolsonaro, um político que pretende governar o Brasil sob a bandeira da segurança pública, escolheu atuar justamente na defesa de um policial acusado de tirar a vida de uma criança de cinco anos?

A pergunta não é se o acusado tem direito a um advogado. Tem, como qualquer cidadão. A pergunta é por que Flávio assumiu esse caso e por que, diante da dimensão da tragédia, não consegue oferecer uma explicação convincente à opinião pública sobre sua decisão.

Ana Clara brincava na porta de casa com o irmão de dois anos quando foi atingida. Para sua mãe, Cristiane Gomes da Silva, a dor não terminou com a morte da filha: transformou-se numa espera interminável por justiça. O julgamento, inicialmente previsto para abril de 2026, foi adiado para maio de 2027, segundo a Agência Pública.

É essa mãe que deveria estar no centro de qualquer debate sobre o caso, e não as conveniências eleitorais de um candidato à Presidência.

Flávio pode invocar o direito de defesa quantas vezes quiser. O que não pode exigir é que os brasileiros suspendam seu julgamento político sobre suas escolhas. Quem pretende comandar as forças de segurança do país precisa explicar suas decisões, sobretudo quando elas envolvem uma tragédia dessa dimensão, a morte de uma menina de 5 anos.

A vida de uma criança não pode ser reduzida a um argumento de campanha, e a dor de uma mãe não pode ser tratada como inconveniência eleitoral. Antes de pedir aos brasileiros um voto de confiança, Flávio Bolsonaro deve responder à pergunta que continua sem resposta: por que decidiu entrar nessa defesa?

Ana Clara tinha apenas cinco anos. Sua família não pede privilégios. Pede justiça. E o mínimo que a sociedade pode exigir de quem quer governar o Brasil é respeito à memória dessa menina e à espera angustiante de sua mãe.


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Quaest: Lula reduz distância para Flávio Bolsonaro e registra queda de seis pontos na rejeição

Presidente aparece com 44% das intenções de voto, contra 45% do senador

A nova pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (21), mostra uma disputa cada vez mais apertada pela Presidência da República. A quatro dias do segundo turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 44% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) registra 45%. A diferença entre os candidatos caiu de dois para apenas um ponto percentual, mantendo o cenário de empate técnico.

O levantamento aponta que Flávio oscilou de 46% para 45% em relação à semana passada. Lula permaneceu com 44%. Os votos brancos, nulos e de eleitores que não pretendem votar somam 9%, enquanto os indecisos representam 2%.

(Foto: Reprodução)

Um dos principais destaques da pesquisa é a queda na rejeição ao presidente Lula, que passou de 53% para 47% em uma semana, uma redução de seis pontos percentuais. Já a rejeição a Flávio Bolsonaro oscilou de 54% para 52%. Com isso, o petista passou a apresentar um índice de rejeição cinco pontos inferior ao do adversário.

(Foto: Reprodução)

Candidatos empatam na pesquisa espontânea
Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não recebem uma lista com os nomes dos candidatos, Lula e Flávio aparecem numericamente empatados, com 40% das menções cada.

(Foto: Reprodução)

O percentual de indecisos nessa modalidade dobrou em uma semana, chegando a 14%. Entre as mulheres, o percentual passou de 8% para 17%. Já entre os eleitores independentes, que não se identificam com o petismo ou o bolsonarismo, nem com a direita ou a esquerda, a parcela saltou de 13% para 31% em apenas uma semana.

Apesar do aumento dos indecisos na pesquisa espontânea, a maioria dos entrevistados afirma já ter definido seu voto. Segundo a Quaest, 90% dos eleitores dizem que a escolha é definitiva, enquanto 10% admitem que ainda podem mudar de candidato. Entre os apoiadores de Lula, 90% afirmam que não pretendem alterar o voto, contra 9% que consideram essa possibilidade. Já entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 93% dizem ter uma decisão definitiva, enquanto 7% ainda podem mudar de posição.

A pesquisa também aponta mudanças na transferência de votos de candidatos derrotados no primeiro turno. Entre os eleitores de Augusto Cury, Lula passou de 34% para 48% das intenções de voto em uma semana, enquanto Flávio Bolsonaro oscilou de 30% para 33%. Já entre os que votaram em Ronaldo Caiado, Flávio avançou de 42% para 57%, enquanto Lula passou de 23% para 21%.

Entre os eleitores de Renan Santos, Flávio passou de 40% para 51%, enquanto Lula avançou de 14% para 25%. As margens de erro são elevadas, variando de 17 a 24 pontos percentuais.

Medo de volta dos Bolsonaro volta a ser maior que o medo de reeleição de Lula
A pesquisa também revela que 44% dos entrevistados têm mais medo de uma eventual volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 42% apontam a reeleição de Lula como seu maior temor. Os percentuais representam empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos. Na semana anterior, os dois cenários registravam 43% cada. É a primeira vez desde 14 de agosto que o receio do retorno dos Bolsonaro aparece numericamente à frente do temor de um novo mandato do petista.

Aprovação de Lula sobe e chega ao maior patamar desde agosto
A avaliação do governo Lula também apresentou melhora na reta final da campanha. Segundo a Quaest, a aprovação do presidente chegou a 46%, o maior patamar desde 14 de agosto, enquanto a desaprovação recuou de 48% para 47%.

Há uma semana, 45% aprovavam a gestão petista. Com isso, a diferença entre aprovação e desaprovação caiu de três para apenas um ponto percentual, também dentro da margem de erro da pesquisa.

(Foto: Reprodução)

A Quaest ouviu 2.154 eleitores entre os dias 17 e 20 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-08535/2026.

*ICL


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Política

A BET DE FLAVIO BOLSONARO

Documentos acessados pela piauí no Brasil e no exterior indicam que o senador foi sócio indireto de uma casa de apostas online – a Best Bet

udo começou em janeiro de 2023. Terminava o governo de Jair Bolsonaro, e as bets, que funcionavam no Brasil desde 2018, ainda não haviam sido regulamentadas. O mundo das apostas, com isso, se transformara num vale-tudo. No vácuo regulatório, o Supremo Tribunal Federal resolveu autorizar as loterias estaduais a explorar o jogo. Abria-se assim um universo para que governos e empresários pudessem faturar alto. A possibilidade fez brilhar os olhos de Cláudio Castro (PL-RJ), então governador do Rio de Janeiro, e de Willer Tomaz, amigo de todas as horas de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Naquele mesmo mês de janeiro, Tomaz entrou em ação. Com um capital de 50 mil euros, criou a Cathedral Holdings, com sede em Funchal, capital da Ilha da Madeira, em Portugal. Com isso, ele e seu sócio formal, Jorge Barbosa Dias, aproveitavam os benefícios fiscais oferecidos pela ilha, que é considerada uma espécie de paraíso fiscal. Instalaram a nova empresa numa salinha, de número 105, no Marina Club, um moderno edifício da Avenida Arriaga, uma das principais de Funchal.

Em fevereiro, veio o passo seguinte. Com um capital de 1 milhão de reais, o grupo empresarial de Tomaz criou a Rede Loto Ltda, uma empresa de apostas. Escolheu um nome fantasia para sua casa de jogos: Best Bet. A Best Bet, cuja sede ficava em São Paulo, era controlada pela Cathedral, na Ilha da Madeira. Com esse movimento, Tomaz repetia um modelo comum adotado pelas casas de aposta na época, em que empresas no exterior eram as principais controladoras das bets no país. Armava-se o cenário para Tomaz explorar as apostas que, já então, movimentavam bilhões de reais.

Em abril, deu-se o grande passo. O governador Cláudio Castro, aproveitando a decisão do STF de permitir que as loterias estaduais faturassem com bets, resolveu entrar no negócio. A Loterj, loteria do estado do Rio, abriu uma licitação, que resultou, em maio, na concessão de licenças de operação para treze empresas – entre elas, a recém-criada Best Bet. Em pouco tempo, a empresa de Willer Tomaz obteve a autorização para explorar o jogo, em despacho assinado pelo presidente da Loterj, Hazenclever Cançado, que ocupava o cargo por indicação de Flávio Bolsonaro, segundo o jornal Folha de S.Paulo (e cujo filho, o advogado Hazenclever Cançado Júnior, trabalhou como assessor no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques entre agosto de 2020 e junho deste ano). Em julho, outra boa notícia: graças a uma gambiarra permitida pela Loterj, a Best Bet passou a operar nacionalmente, e não apenas no Rio, onde havia obtido a licença. Seu potencial de mercado ampliou-se enormemente.

Na mesma época em que ganhou a licitação da Loterj, Tomaz tomou uma nova providência no exterior: criou a Alcazar Holdings, também na Ilha da Madeira, com um braço no Brasil, a Alcazar Brasil Ltda, sediada em São Paulo. As conexões entre a Cathedral, dona da Best Bet, e a Alcazar são evidentes. No papel, as duas têm o mesmo dono, Willer Tomaz. Também têm o mesmo administrador, Mateo Scudeler. E as duas funcionam naquela mesma salinha de número 105 do edifício Marina Club, em Funchal. A piauí esteve no local na sexta-feira, dia 16 de outubro. Não há sinal de que as duas firmas funcionem de fato no prédio. São empresas de fachada, o que não é incomum em paraísos fiscais. No papel, a Cathedral tem apenas um funcionário. A Alcazar, nem isso.

Os registros contábeis das duas empresas, obtidos pela piauí junto à Iberinform, empresa espanhola com filial em Portugal e especializada em informações comerciais e análise de risco de crédito, mostram ainda outros vínculos entre a Cathedral e a Alcazar. Em 2025, por exemplo, a contabilidade da Cathedral informava que a empresa era credora de 984 mil euros, um salto em relação aos 7,8 mil euros que tinha para receber no ano anterior. A contabilidade da Alcazar, por sua vez, mostrava o movimento exatamente oposto: a empresa devia 8,1 mil euros e passou a dever 824 mil euros, valores próximos ao que a Cathedral tinha para receber.

Um auditor fiscal que trabalha na Autoridade Tributária e Aduaneira, equivalente português da Receita Federal, examinou os relatórios contábeis a pedido da piauí. Ele falou sob anonimato por não ter autorização do fisco português para se manifestar publicamente. “É possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente”, afirmou ele, mencionando um laço que torna as gestões das duas empresas uma coisa só.

É exatamente neste ponto que entra em cena o senador Flávio Bolsonaro, amigo de Willer Tomaz. Conforme revelou o UOL, Flávio era “usuário máster” da conta bancária da Alcazar, no Santander. A designação “máster” refere-se a uma pessoa cadastrada no banco com elevados privilégios de acesso e de administração dos serviços bancários digitais, sobretudo de contas empresariais. Um “usuário máster” pode consultar saldos, extratos e movimentações financeiras. Pode cadastrar, alterar ou excluir outros usuários da conta. Também pode definir permissões e limites operacionais de outros usuários. E pode, por fim, fazer e autorizar transferências, pagamentos e outras operações financeiras. Na conta da Alcazar no Santander, havia apenas dois usuários máster – Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.

sucessão de eventos é indireta, mas clara: Flávio Bolsonaro tinha conta bancária conjunta com Willer Tomaz na Alcazar, a Alcazar é vinculada à Cathedral, e a Cathedral, por sua vez, é dona da Best Bet. Em razão dessas conexões, a Polícia Federal solicitou ao STF a abertura de um inquérito para investigar a suspeita de que Flávio era, na verdade, sócio oculto da Best Bet, a casa de apostas online que operava com a loteria do seu aliado Cláudio Castro. Um outro desdobramento da investigação veio à tona nesta terça-feira (20), com uma reportagem do UOL revelando que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro faturou 14 milhões de reais entre 2023 e 2026. Parte dos pagamentos, segundo a reportagem, foram feitos à conta do Santander que o senador compartilhava com Willer Tomaz.

Os indícios de sociedade entre Flávio e Tomaz vão além da bet, incluindo o uso de jatinhos, viagens conjuntas e movimentações bancárias entre os dois, detectadas pela Polícia Federal numa apuração sigilosa. Os valores ainda não são de conhecimento público. Um relatório da PF obtido pela piauí levanta a hipótese de que as contas de Tomaz “estariam funcionando como ponto de concentração, circulação e redistribuição de recursos em favor de terceiros”. Em outras palavras, a investigação considera a possibilidade de que Tomaz fosse apenas um laranja.

A piauí perguntou para Flávio Bolsonaro desde que data ele mantém a conta bancária conjunta com Willer Tomaz na Alcazar. O candidato não respondeu. Sabe-se, no entanto, a data em que Flávio deixou de ser um “usuário máster” da conta conjunta com Tomaz. Em 22 de maio de 2025, dois anos depois da criação da Alcazar, uma funcionária de Willer Tomaz enviou ao Santander um pedido para excluir Flávio da condição de “usuário máster”. Nesse dia, o senador estava com Willer em Portugal. No dia seguinte, viajaram junto com suas famílias de Cascais para Nice, na França, usando um jato contratado em nome da Cathedral. No e-mail em que solicitou a desvinculação de Flávio da conta do Santander, a funcionária Fayla Zulmira Menezes não explicou o motivo da exclusão – mas, naquela altura, a Best Bet, que tinha faturado alto durante dois anos, já não era um negócio apetitoso, pois havia perdido o direito de operar nacionalmente.

Isso aconteceu porque, em julho de de 2024, o governo Lula começou a regular o setor de apostas esportivas online. Como parte do processo, determinou que a Loterj tirasse do ar a operação nacional de bets que só tinham licença para operar no Rio – caso de Best Bet. A Loterj, interessada em proteger a empresa de Willer Tomaz, recorreu à Justiça e conseguiu uma liminar favorável no TRF1. (Na mesma época, Tomaz convidou os senadores Dr. Hiran, presidente da CPI das Bets, e Soraya Thronicke, relatora, para falar sobre a Loterj em seu escritório em Brasília. Para surpresa dos convidados, estava ali presente o governador Cláudio Castro. Por videochamada, participou da mesma reunião Hazenclever Cançado, presidente da Loterj.) O governo Lula recorreu da liminar do TRF1 e, além disso, entrou com uma ação no STF. Em janeiro de 2025, por fim, o ministro André Mendonça decidiu que a Best Bet não podia operar nacionalmente, mas apenas no Rio. Quatro meses depois, Flávio Bolsonaro foi excluído como usuário máster da conta bancária da Alcazar. Em meados do ano, a Best Bet encerrou suas atividades.

A suspeita de que Flávio tinha uma sociedade oculta com uma bet é grave, seja porque esteve mantida em sigilo, seja porque revela laços obscuros do candidato e joga luz sobre as razões pelas quais os donos de casas de apostas estão alinhados em peso com a sua candidatura presidencial – entre eles, Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, dono da 7 Games Bet, e Ernildo Júnior de Farias Santos, dono da Pix Bet. Todos esses empresários apostam que, se eleito presidente, o candidato do PL vai derrubar a proibição das bets decretada por Lula em setembro passado.

A piauí também perguntou a Flávio Bolsonaro se ele era sócio da Best Bet e se tinha acesso direto ou indireto aos negócios da Cathedral, a dona oficial da casa de apostas. O senador também não respondeu. Recentemente, quando o UOL noticiou a existência da conta bancária compartilhada entre ele e Willer Tomaz, o senador se manifestou, afirmando que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Tomaz, na ocasião, também negou as informações, dizendo que a conta bancária “nunca lhe pertenceu” e que ele “jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma”.

Até agora, Flávio não foi capaz de explicar plenamente sua relação com Willer Tomaz, limitando-se a dizer que se tratava apenas de uma relação de amizade. As evidências mostram que a relação extrapolava simples laços de amizade. Tomaz bancava luxos de Flávio, como viagens de jatinhos para o exterior (parte deles em uma avião que tinha entre seus cotistas a Alcazar). Tomaz também está sob investigação por envolvimento nos desvios de dinheiro do INSS. A reportagem questionou o advogado sobre a conta com Flávio no Santander, sobre as semelhanças contábeis entre a Cathedral e a Alcazar e sobre o imbróglio judicial envolvendo a Best Bet, mas não houve retorno.

*Allan de Abreu, do Rio De Janeiro, Breno Pires, de Brasília, Felícia Cabrita, de Lisboa, e Mário Gouveia, de Funchal /piauí


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Política

Manifesto de ex-ministros da Saúde aponta ameaça ao SUS em caso de vitória de Flávio

Sete ex-ministros da Saúde e o atual titular da pasta, Alexandre Padilha, assinaram um manifesto que alerta para riscos ao Sistema Único de Saúde (SUS) em caso de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição. O texto recupera episódios da condução da pandemia de Covid-19 pelo governo de Jair Bolsonaro. Com informações da coluna da Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo.

Os signatários associam o alerta à postura do governo Bolsonaro diante da crise sanitária, que classificam como marcada por negacionismo científico. O documento também menciona as trocas no comando do Ministério da Saúde durante a pandemia.

“Nós, que já ocupamos o honroso cargo de ministro da Saúde, sabemos o que custa manter o SUS funcionando. Na pandemia, todos nós vimos o altíssimo custo de negar saúde à população”, afirmam os ex-ministros e Padilha.

O manifesto critica a rejeição a medidas científicas e cita a frase “um manda e o outro obedece” ao tratar da relação entre Jair Bolsonaro e a condução da Saúde. Para os autores, “o conhecimento científico deu lugar à obediência cega”.

Na sequência, os signatários afirmam que o país perdeu mais de 700 mil pessoas para a Covid-19. O texto menciona ataques a medidas de prevenção e pessoas que morreram sem oxigênio durante a emergência sanitária.

“Quem chorou a perda de parentes e amigos foi chamado de ‘maricas’”, diz o manifesto, em referência a uma expressão usada por Jair Bolsonaro durante a pandemia. Os autores sustentam que os “desmandos” prosseguiram até o fim daquele governo.

O documento recorda que Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, ambos médicos, deixaram o comando do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. Depois deles, o então general do Exército Eduardo Pazuello assumiu a pasta.

Assinam a manifestação Nísia Trindade, Gilberto Occhi, Marcelo Castro, Arthur Chioro, José Agenor, Saraiva Felipe e Humberto Costa, que comandaram o Ministério da Saúde nos governos de Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. Alexandre Padilha, atual ministro da Saúde, também integra a lista de signatários. DCM.


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Pesquisa

Lula na frente de Flavio Bolsonaro, segundo o Data Ranking

Levantamento ouviu 2.100 eleitores com 16 anos ou mais, por meio de entrevistas pessoais e domiciliares, em municípios das cinco regiões do país

presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pelo segundo turno das eleições presidenciais de 2026, segundo levantamento do Instituto Data Ranking em parceria com o portal Fonte83. Na pesquisa, realizada entre 14 e 16 de outubro, mas só divulgada nesta terça-feira (20), Lula registra 45,4% das intenções de voto, enquanto Flávio tem 44,6%. A diferença de 0,8 ponto percentual está dentro da margem de erro.

Outros 6% dos entrevistados afirmaram que votariam em branco, anulariam o voto ou não escolheriam nenhum dos dois candidatos. Já 4% não souberam responder.

Quando são considerados apenas os votos válidos, com a exclusão de brancos, nulos e indecisos, Lula aparece com 50,4%, ante 49,6% de Flávio Bolsonaro. O resultado mantém a disputa em situação de empate técnico.

O levantamento ouviu 2.100 eleitores com 16 anos ou mais, por meio de entrevistas pessoais e domiciliares, em municípios das cinco regiões do país.

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Diferenças entre homens e mulheres
Os resultados apresentam diferenças conforme o perfil dos eleitores. Entre as mulheres, Lula tem 49,2% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro registra 40,8%.

Entre os homens, o cenário é inverso: o senador alcança 48,9%, contra 41,1% do presidente.

Na divisão por faixa etária, Lula obtém seu melhor resultado entre os eleitores com 60 anos ou mais, com 47,7%. Flávio, por sua vez, tem seu maior percentual entre os entrevistados de 25 a 34 anos, faixa em que registra 46,9%.

Metodologia da pesquisa
O estudo foi realizado com entrevistas pessoais e domiciliares, utilizando questionário estruturado e amostragem por conglomerados, com critérios de sexo, idade, escolaridade e renda.

O nível de confiança informado é de 95%, e a margem de erro estimada é de 2,15 pontos percentuais, calculada pelo modelo de amostragem aleatória simples, sem considerar eventual efeito do desenho por conglomerados. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-00152/2026.

Com sede em Brasília, o Instituto Data Ranking atua na produção de levantamentos eleitorais. Segundo informações divulgadas pelo próprio instituto, nas eleições municipais de 2024, suas pesquisas tiveram índice de acerto de 86,3% em 25 cidades de cinco estados.


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Política

De olho: Lula teve maioria dos votos nas seções com mudança de local para o 2º turno

Nas 441 seções que constam na lista do TSE desta terça-feira, presidente somou 50,7% dos votos nominais no primeiro turno, contra 42,8% de Flávio Bolsonaro

A cinco dias da votação, o número de seções eleitorais que terão mudança de local no segundo turno caiu de 1.106 na manhã de segunda-feira (19) para 441 nesta terça-feira (20). Nas seções que permanecem na lista, Lula (PT) recebeu 50,7% dos votos nominais no primeiro turno, contra 42,8% de Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 7.846 votos a favor do petista.

As mudanças atingem cerca de 126 mil eleitores — 0,08% do eleitorado brasileiro. Sudeste e Nordeste concentram a maior parte: 302 das 441 seções afetadas.

O Sudeste aparece na frente, com 163 alterações, onde o candidato do PL recebeu 18.139 votos, ou 50,1% dos votos nominais, ante 15.247 de Lula, com 42,1%.

No Nordeste, que reúne 139 seções alteradas, o cenário se inverte e com diferença maior: Lula teve 20.831 votos, ou 68,7%, contra 8.087 de Flávio, ou 26,7%.

A lista de mudanças de seções reduziu em quase 90% em poucos dias. Na semana passada, a Justiça Eleitoral informava que 4.352 seções teriam o endereço alterado.

Segundo o TSE, a oscilação se deve a ajustes nos sistemas das zonas eleitorais. A Corte afirma que as mudanças de endereço são de competência dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e só são adotadas quando consideradas necessárias, como em casos de danos causados por chuvas, problemas estruturais ou questões de segurança.

Na segunda-feira (19), o Ministério Público Eleitoral recomendou ao TSE oito medidas para ampliar a divulgação das mudanças, entre elas avisos pelo e-Título, WhatsApp e SMS e cartazes nos locais afetados. (Leia abaixo como conferir seu local de votação)

Minas e Piauí com mais alterações
Minas Gerais lidera a lista de mudanças de seções para o segundo turno, com 118 das 441 seções distribuídas por 23 municípios. Flávio Bolsonaro teve 12.150 votos nominais nessas seções no primeiro turno, contra 11.606 de Lula — diferença de 544 votos. Araguari, com 16 seções, e Januária, com 13, são as cidades mineiras mais afetadas.

O TRE-MG afirma que mudanças entre os turnos são feitas apenas em situações excepcionais, como danos provocados por chuvas e vendavais ou problemas de infraestrutura que não possam ser resolvidos até a votação. O tribunal, porém, não justificou cada uma das alterações que permanecem na lista.

Segundo estado com mais mudanças, o Piauí tem 41 seções alteradas em nove municípios. Lula venceu em todas elas e somou 5.433 votos nominais, ou 72,3%, contra 1.767 de Flávio Bolsonaro, ou 23,5%.

No primeiro turno, Minas Gerais registrou 22,82% de abstenção. No Piauí, a taxa foi de 17,15%, a terceira menor do país. No Brasil, 33.469.244 eleitores deixaram de votar, o equivalente a 21,08% do eleitorado.

Como saber onde votar no segundo turno
A Justiça Eleitoral recomenda que o eleitor confira o endereço antes de sair de casa no domingo (25), mesmo que tenha votado normalmente no primeiro turno. A consulta informa endereço, zona e seção eleitoral e também é indicada para quem pediu transferência temporária de local de votação.

Uma das opções é o e-Título: depois de entrar no aplicativo, basta acessar a opção “Onde votar”. O endereço também pode ser conferido pelo Autoatendimento Eleitoral, disponível no site do TSE e dos TREs.

Outra alternativa é o ChatVote, assistente virtual disponível no site do TSE, no ícone localizado no canto inferior direito da página. O tribunal orienta o eleitor a usar os canais oficiais e fazer a consulta com antecedência para evitar deslocamentos ao endereço errado no dia da votação. (TSE)

*Guilherme Pavarin/ICL


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