Durante semanas, a velha mídia transformou o STF em uma espécie de vilão nacional de plantão. Cada decisão, cada ministro, cada conflito institucional servia de matéria-prima para manchetes alarmistas, colunas indignadas e intermináveis discussões destinadas a produzir uma conclusão política muito conveniente: era preciso desgastar o Supremo e, por tabela, criar desgaste para Lula.
O problema é que a realidade, essa inconveniente senhora que insiste em aparecer quando menos se espera, resolveu mudar o roteiro.
O espetáculo montado para atingir o STF acabou produzindo um efeito político que seus autores talvez não tivessem previsto: o desgaste passou a respingar muito mais no campo bolsonarista, especialmente em Flávio Bolsonaro.
E então veio o caso Banco Master, com as mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro e as revelações sobre relações envolvendo personagens do Judiciário e pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques.
Entre os elementos divulgados está um contrato que poderia alcançar R$ 427 milhões em honorários de êxito, relacionado a ações envolvendo precatórios e interesses do Banco Master. Kassio Nunes Marques nega ter participado do contrato ou atuado em favor de Vorcaro ou do banco.
Ora, se o argumento era que o STF precisava ser vasculhado até a última vírgula quando as suspeitas serviam para atingir Lula, por que a mesma lupa não deveria permanecer sobre a mesa quando surgem fatos que envolvem personagens ligados ao universo bolsonarista?
Aí acontece o milagre editorial: o STF desaparece das manchetes.
O tribunal que ocupava horas de televisão, páginas de jornais e quilômetros de comentários passa, de repente, a parecer uma instituição quase invisível.
Convenientemente invisível.
É como se o botão de emergência da velha mídia tivesse duas posições: “escândalo quando interessa” e “silêncio quando incomoda”.
Mas jornalismo não deveria funcionar assim.
Se há suspeitas, que sejam investigadas. Se não há provas, que isso seja claramente informado. Se existem documentos, que sejam publicados e contextualizados. Se existem negativas, que sejam igualmente registradas.
O que não pode existir é uma imprensa que exige transparência absoluta dos adversários e subitamente descobre a delicadeza, a cautela e o silêncio quando a investigação começa a alcançar seus aliados políticos.
E talvez seja justamente por isso que todo aquele festival contra o STF tenha produzido um resultado tão diferente do esperado.
Tentaram transformar o Supremo em problema eleitoral para Lula. No caminho, acabaram abrindo uma janela para que o eleitor enxergasse as conexões políticas e financeiras que cercam o universo bolsonarista.
Agora, o que se espera é simples: menos teatro, menos manchete seletiva e mais jornalismo.
Porque, quando a imprensa decide quem merece holofote e quem merece silêncio, o problema deixa de ser apenas aquilo que está sendo investigado.
Passa a ser também aquilo que deliberadamente deixa de ser investigado com a mesma intensidade.
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Registros de planos de voo e dados da Anac obtidos pela PF desmentiram mais uma vez o filho de Jair Bolsonaro
Registros de planos de voo e dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) obtidos pela Polícia Federal desmentiram categoricamente uma das principais linhas de defesa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em declarações anteriores, o parlamentar havia afirmado enfaticamente que jamais havia utilizado bens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro: “Vocês não vão me ver viajando para Londres, EUA, para Paris, para tudo que é lugar. Nunca entrei em avião do Vorcaro!”.
A investigação, no entanto, comprovou que a declaração do senador não condiz com a realidade.
Recordar é viver.
Flávio RachaMaster garantiu que nunca entrou em avião do Vorcaro:
"Vocês não vão me ver viajando para Londres, EUA, para Paris, para tudo que é lugar. Nunca entrei em avião do Vorcaro!"
O Voo de Fort Lauderdale De acordo com os documentos migratórios e de tráfego aéreo, no dia 19 de janeiro de 2025, o senador, sua esposa e suas filhas embarcaram em Fort Lauderdale, na Flórida (EUA), com destino a Brasília.
A viagem de retorno ao Brasil foi realizada a bordo de um jato executivo de luxo, modelo Embraer Legacy 650, de prefixo PP-NLR.
A Sociedade Oculta da Aeronave
Os registros oficiais da Anac revelam que o avião não pertencia a um único dono, mas sim a um condomínio de luxo dividido em três cotas de propriedade:
A cota operada pela empresa de Vorcaro havia sido adquirida no final de 2024, o que significa que, no momento em que Flávio Bolsonaro utilizou a aeronave para trazer sua família dos Estados Unidos, o banqueiro já era coproprietário do bem.
Mudança na Linha de Defesa Diante das evidências irrefutáveis apresentadas pela reportagem da Revista Piauí, o senador Flávio Bolsonaro abandonou o discurso de que “nunca havia entrado” no avião.
Em uma nova manifestação nas redes sociais, o parlamentar mudou a narrativa e passou a alegar desconhecimento. Flávio afirmou que, para ele, a aeronave pertencia exclusivamente ao amigo Willer Tomaz e que não tinha ciência da participação de Daniel Vorcaro no negócio.
O senador ironizou a situação em sua conta no X (antigo Twitter), tentando desviar o foco do caso: “Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes”, publicou, em referência ao fato de o ministro do STF ter utilizado o mesmo jatinho meses depois.
Por que o caso importa? A proximidade de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro entrou no radar das autoridades após o Banco Master sofrer liquidação extrajudicial e o banqueiro se tornar alvo de operações da Polícia Federal. A mentira sobre o uso do jatinho complica a situação política do senador, que tenta afastar suspeitas de que usufruía de vantagens financeiras ou favores de empresários investigados.
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Ministro ressalvou que é difícil identificar a origem de cada recurso que a empresa movimentava
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (24) que os recursos enviados ao exterior pelo grupo Entre para custear o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), podem ter origem em atividades de lavagem de dinheiro.
O grupo, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, foi alvo de operação na Receita Federal nesta quinta. O Fisco acusa a empresa de lavar dinheiro do crime organizado e ajudar na ocultação de patrimônio de organizações criminosas.
O que disse o ministro “Tudo indica que o recurso que dá liquidez para essas operações vem de uma mesma entidade, vem de um mesmo bolso”, respondeu o ministro ao ser questionado se a verba enviada ao exterior para o filme poderia ser fruto de lavagem de dinheiro.
“Aí é muito complicado você identificar o que é cada coisa. É um trabalho de investigação identificar o que saiu desse fundo, seja para as delações que estão sendo feitas aqui em Brasília, seja para as apurações do Supremo, seja para as apurações que estão feitas em São Paulo […] mas tudo indica que sim”, completou.
O empresário Antônio Carlos Feixo Júnior, conhecido como Mineiro, assinou delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PRG). Na delação, ele afirmou que era um dos responsáveis por fazer remessas financeiras e conseguir dinheiro vivo para Daniel Vorcaro, do Banco Master.
*ICL
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Por Amanda Audi, Agência Pública, Paulo Motoryn, Noites Húngaras em A Pública
O Grupo Maya, uma das concessionárias que administram cemitérios da cidade de São Paulo e cujas relações financeiras com o extinto banco Master motivaram um pedido de investigação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, tem proximidade com o entorno empresarial de Daniel Vorcaro.
Apuração exclusiva da Agência Pública e da newsletter Noites Húngaras identificou, nos documentos da Junta Comercial do Estado de São Paulo, que o principal elo passa pelo Maya Plano Funeral, uma empresa registrada no mesmo endereço do Grupo Maya e gerida pelos mesmos grupos empresariais que controlam a concessão de cemitérios.
Uma das sócias do Maya Plano Funeral é a AFC Holding SP Ltda., subsidiária da AFC Holding, que faz parte da teia de CNPJs investigada no escândalo do Master. Elas são administradas pela mesma pessoa: o advogado Thiago Assumpção Henriques, que também controla outros negócios ligados à família do banqueiro preso pelo maior rombo bancário da história do país.
A AFC Holding já apareceu em investigações sobre aquisições de terrenos e imóveis de alto valor no Rio Grande do Sul e na Bahia relacionadas à família Vorcaro, sob suspeita de possível ocultação patrimonial. Henriques também figura como dirigente da Global Carbon, investigada por suspeita de integrar a cadeia de movimentação de recursos ligados ao Master.
Empresas “irmãs” têm mesmos dirigentes Integrantes das empresas Conata Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos, que fundaram a concessão paulista, constam tanto na estrutura da concessionária quanto na da empresa de planos funerários.
A sobreposição vai além dos sócios. A Maya Plano Funeral funciona no mesmo endereço do Grupo Maya, na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia, e utiliza um endereço de e-mail com o mesmo domínio “grupomaya”. Seus administradores também ocupam ou ocuparam postos de comando na concessionária.
Renato Medrado Geo, sócio da RMG e presidente do Grupo Maya desde 2023, também administra a Maya Plano Funeral desde 2024, quando a empresa foi criada. Alexandre Humberto Caramatti Manata, sócio da Conata e ex-presidente da concessionária, também é administrador da empresa de planos funerários. Wesley Bambirra, CEO da Infracon, integra o conselho de administração do Grupo Maya.
Ex-sócio de Vorcaro Há ainda uma conexão pessoal entre o comando das empresas funerárias e Daniel Vorcaro. Rodrigo Medrado Geo, irmão de Renato, sócio da RMG e também dirigente da concessionária de cemitérios, foi sócio do banqueiro na Itaminas, mineradora de Minas Gerais.
Vorcaro adquiriu 50% da Itaminas em 2014 e vendeu sua participação por R$ 700 milhões aos antigos sócios, entre eles integrantes da família Geo, poucos dias antes de ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025.
Essas conexões se somam à relação financeira entre o Grupo Maya e o Banco Master revelada pelo jornalista Artur Rodrigues, do UOL. As três acionistas da concessionária — Conata, Infracon e RMG — deram ao banco a totalidade das ações que detinham na empresa como garantia de dois financiamentos no valor total de R$ 78 milhões.
Pelos contratos, o Master passou a deter a propriedade fiduciária das ações enquanto as dívidas permanecessem em aberto e a ganhar poderes sobre determinadas decisões societárias. As acionistas deveriam seguir a orientação do credor em votações que pudessem afetar seus interesses e não poderiam realizar determinadas operações com ativos sem autorização.
Os créditos passaram por operações internas do conglomerado, chegaram à Master Holding, sediada nas Ilhas Cayman, e foram incluídos em negociações realizadas pelo Master com o Banco de Brasília, o BRB.
Além de vender serviços funerários, de coroas de flores a caixões, o Grupo Maya administra cinco cemitérios paulistanos: Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade. O grupo se autodenomina “a maior administradora de cemitérios públicos da cidade de São Paulo”.
Dino manda PF investigar Master em cemitérios de SP
Na última quinta-feira (17/9), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal investigar conexões entre as concessionárias de cemitérios de São Paulo e o banco Master. A decisão foi tomada após os financiamentos do Master ao Grupo Maya se tornarem públicos.
O ministro já havia solicitado esclarecimentos sobre a ligação entre o Master e a Cortel, outra concessionária de cemitérios paulistas. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, que também está preso, atuou como conselheiro da Cortel entre 2022 e 2025 e teria usado e-mails institucionais do banco para assinar atas da empresa.
Uma denúncia do jornal O Globo, no início do ano, mostrava que o Grupo Maya e a Cortel teriam feito uma “fusão informal”, compartilhando serviços, funcionários e endereços. O caso passou a ser investigado pela prefeitura paulista e pelo Tribunal de Contas do Município.
Os cemitérios da capital paulista foram concedidos à iniciativa privada em 2023, durante a gestão de Ricardo Nunes (MDB). Além do STF, a concessão também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). A Agência Pública já mostrou que, após a privatização, os preços cobrados pelos cemitérios aumentaram em até 10 vezes. Em 2024, Flávio Dino determinou que os preços máximos fossem tabelados.
Vorcaro teve uma reunião com o ministro André Mendonça, do STF, no momento em que o plenário da Corte analisava a proposta de limitação de preços apresentada por Dino. O encontro entre o banqueiro e Mendonça ocorreu em 14 de março de 2025. No dia seguinte, o ministro pediu vista, suspendendo a análise. Ao devolver os autos, em abril de 2025, Mendonça votou contra o limite das tarifas, alinhando-se ao pleito das concessionárias privadas.
Um dos irmãos de Mendonça é servidor comissionado da SP Regula, agência da Prefeitura de São Paulo responsável, entre outras áreas, pela regulação dos serviços funerários da capital. Ele foi promovido de cargo após a posição do ministro favorável à administração municipal, segundo a newsletter Noites Húngaras e o ICL Notícias.
Na decisão mais recente de Flávio Dino sobre o assunto, e após a crise instaurada no STF, o ministro estipulou que Mendonça não deve ser investigado no caso envolvendo o Master e as concessionárias, pois a competência para isso caberia apenas ao presidente da Corte.
Procuramos as empresas e empresários citados nesta matéria, além do ministro André Mendonça e a defesa de Daniel Vorcaro, mas não recebemos retorno até a sua publicação. O espaço permanece aberto.
A Prefeitura de São Paulo disse que “eventuais relações societárias, financeiras ou bancárias das concessionárias também não configuram, por si só, irregularidade contratual. A capacidade econômico-financeira delas é acompanhada permanentemente pela Administração.”
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Gastos com anúncios na Meta contra Lula disparam 123% e STF vira novo alvo
Levantamento do ICL Notícias mostra que investimento diário mais que dobrou em setembro; menções ao STF e Moraes saltaram de 3,3% para 14%.
Um levantamento do ICL Notícias mostra que o investimento diário em anúncios pagos contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governo federal aumentou 123% em setembro, ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes passaram a ocupar um espaço até então residual nesse tipo de publicidade.
O gasto diário declarado passou de R$ 15,4 mil em agosto para R$ 34,5 mil em setembro. No mesmo período, a presença de STF e Moraes mais que quadruplicou: saiu de 3,3% para 14% das peças monitoradas.
A comparação com os dados coletados desde agosto mostra uma mudança que vai além do aumento do dinheiro. Até o início de setembro, o Supremo praticamente não aparecia entre os principais assuntos dos anúncios. No levantamento fechado em 3 de setembro, conteúdos relacionados a instituições, Polícia Federal e STF representavam apenas 1% das peças. Ataques pessoais contra Lula concentravam 73,4%, enquanto economia, impostos e taxação respondiam por 21,2%.
Nas semanas seguintes, o quadro mudou rapidamente. Em setembro, o eixo institucional chegou a 13,9% das peças. Quando a análise considera especificamente a presença de referências ao STF e a Moraes, a participação chega a 14%, contra os 3,3% registrados em agosto.
Mais dinheiro e mais anunciantes O crescimento dos gastos começou antes de o STF ganhar protagonismo. Dados coletados até 3 de setembro já mostravam que o valor mediano aplicado em cada peça havia passado de R$ 199 para R$ 299. O valor médio subiu de R$ 714 para R$ 1.150, e a parcela de anúncios acima de R$ 2 mil aumentou de 11,8% para 18,3%.
A expansão também ocorreu pelo aumento do número de anunciantes. Entre 1º e 16 de agosto, foram identificados 160 perfis diferentes. Entre 26 de agosto e 3 de setembro, eram 229. Destes, 163 não tinham aparecido na primeira janela e foram responsáveis por 61% das 410 peças registradas no período.
Também mudou quem colocava dinheiro nesses conteúdos. Candidatos sem mandato respondiam por 31,1% das peças na primeira quinzena de agosto e passaram a representar 60,1% entre 26 de agosto e 3 de setembro. No sentido contrário, páginas classificadas no monitoramento como “satélite” recuaram de 23,9% para 7,6%. A parcela sem partido identificado caiu de 27,5% para 9%.
Os dados mostram, portanto, duas mudanças sucessivas. Primeiro, a publicidade contra Lula cresceu, ficou mais cara e passou a envolver um número maior de anunciantes identificados. Depois, já em setembro, o STF e Moraes ganharam espaço no conteúdo dessas peças.
*ICL
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Peixe, o miliciano que circulava entre os Brazão e o caso Marielle, recebeu uma porta aberta no gabinete de Flávio Bolsonaro para a liberação de R$ 200 mil em emenda parlamentar. E não estamos falando de qualquer personagem. Robson Calixto, o “Peixe”, foi condenado pelo STF por integrar a organização criminosa ligada aos irmãos Brazão e aparece no relatório da Polícia Federal como responsável por intermediar a entrega da arma utilizada no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.
E a história fica ainda mais incômoda quando se olha para a sequência dos fatos. A PF encontrou mensagens nas quais Peixe tratava diretamente com uma assessora de Flávio Bolsonaro sobre a liberação dos recursos. A verba, de R$ 199.999,79, acabou destinada a um instituto localizado justamente em território de forte influência política dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados pelo STF como mandantes do assassinato.
Não é necessário inventar conexões para perceber que há uma cadeia de relações que precisa ser rigorosamente explicada: um miliciano condenado no caso Marielle, os irmãos Brazão apontados pela Justiça como mandantes, um pedido de recursos públicos e o gabinete de um candidato à Presidência no centro da negociação.
Flávio Bolsonaro afirma que a destinação da emenda seguiu a legislação e critérios técnicos. Mas isso não encerra as perguntas levantadas pela investigação sobre a intermediação do dinheiro, os interlocutores e o destino efetivo dos recursos.
E é justamente aí que entra a ironia: diante de uma sucessão tão extraordinária de personagens, encontros, relações e dinheiro público, talvez alguém ainda queira nos convencer de que tudo isso aconteceu por acaso.
Peixe no caso Marielle. Brazão no comando político da região. Emenda de R$ 200 mil articulada com o miliciano. E Flávio Bolsonaro no outro extremo da linha.
Mas claro: tudo não passa de mera coincidência.
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Na esteira das novas relevações sobre a conexão do candidato à Presidência com o crime organizado, episódio brutal foi relembrado, gerando revolta e repúdio
A recente denúncia apresentada pelo ex-deputado Marcelo Freixo, revelando a atuação direta de Flávio Bolsonaro na defesa jurídica para adiar o júri popular do policial militar Bruno Delaroli, acusado do assassinato com tiro de fuzil da pequena Ana Clara Machado, de 5 anos, em 2021, trouxe novamente ao centro do debate público o histórico de conivência e cumplicidade do clã com agentes do crime organizado. A revelação funcionou como estopim para que a opinião pública resgatasse um rastro persistente de episódios em que o hoje pré-candidato à Presidência utilizou seu capital político para blindar e legitimar a violência cometida por grupos milicianos no Rio de Janeiro.
Entre os fatos mais chocantes que compõem essa trajetória de afronta ao Judiciário e à sociedade, destaca-se um episódio brutal ocorrido em 2015, no Batalhão Especial Prisional (BEP), na capital fluminense, quando uma magistrada no exercício de suas funções foi covardemente espancada por detentos milicianos sob o endosso público do então parlamentar da Alerj.
Ataque no BEP e a inversão da culpa por Flávio Bolsonaro Em outubro de 2015, a juíza Daniela Barbosa Assumpção de Souza, da Vara de Execuções Penais (VEP) do Rio de Janeiro, realizava uma inspeção surpresa no Batalhão Especial Prisional, localizado em Benfica, Zona Norte carioca. A visita tinha como objetivo apurar graves denúncias de que policiais militares custodiados, muitos deles integrantes de milícias e esquadrões da morte, desfrutavam de regalias ilegais, como celas especiais equipadas com aparelhos de ar-condicionado, eletrodomésticos, bebidas alcoólicas e livre circulação.
Ao constatar as irregularidades e tentar apreender materiais proibidos, a magistrada foi sumariamente cercada por um grupo de PMs amotinados. Em uma cena estarrecedora de quebra da ordem constitucional, a juíza foi empurrada, agredida fisicamente, teve seus óculos quebrados e a blusa rasgada pelos detentos dentro da própria unidade prisional do Estado.
Enquanto entidades da magistratura, juristas e a sociedade civil reagiam com perplexidade ao ato de barbaridade, Flávio Bolsonaro usou a tribuna da Alerj e suas redes para reverter a narrativa, atacando a magistrada e justificando o crime cometido pelos custodiados. Em vez de repudiar a agressão contra uma autoridade do Judiciário em pleno cumprimento do dever, o político acusou a juíza de ter “provocado” os milicianos.
“A juíza se dirigiu de forma desrespeitosa a alguns policiais, chamando de vagabundos e milicianos. […] Acabou sendo expulsa lá de dentro por policiais que se revoltaram”, declarou Flávio à época, naturalizando a surra levada pela juíza e tratando criminosos encarcerados, que ele chamou de “policiais”, como vítimas de uma suposta provocação. Ao rotular o cumprimento da fiscalização como desrespeito, Flávio chancelou a violência de agentes do crime organizado contra a própria estrutura da Justiça.
Uma rotina de hostilidade contra magistradas e compadrio com milicianos A postura adotada no caso de Daniela Barbosa não foi uma reação isolada, mas parte de uma estratégia contínua de intimidação contra magistrados que ousaram enfrentar o avanço das milícias no Estado. Anos antes, em 2011, Flávio já havia protagonizado um dos episódios mais sombrios da política fluminense ao relativizar o assassinato da juíza Patrícia Acioli, executada com 21 tiros por policiais corruptos em Niterói. Na ocasião, o parlamentar culpou a própria magistrada morta pela tragédia, publicando que a forma como ela “humilhava” esse milicianos e que assim teria contribuído para que ela acumulasse “muitos inimigos”.
Esses ataques repetidos a mulheres magistradas desenham uma linha de continuidade clara: a defesa sistemática de uma estrutura paralela de poder. Ao longo de mais de duas décadas de vida pública, o nome de Flávio Bolsonaro acumula uma sucessão ininterrupta de notícias, investigações e registros oficiais que demonstram seus laços com a criminalidade organizada.
Seu mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) foi marcado pela concessão de homenagens e honrarias a lideranças paramilitares, como a Medalha Tiradentes concedida ao chefe da milícia “Escritório do Crime”, o matador de aluguel Adriano da Nóbrega, além da contratação de parentes diretos de milicianos para cargos comissionados em seu gabinete político. Cada novo fato revelado apenas confirma que a proximidade com o paramilitarismo nunca foi casual, mas uma escolha consciente de atuação política.
Flávio Bolsonaro defendeu assassino de criança de 5 anos, denuncia Marcelo Freixo A retomada desses episódios ocorre no exato momento em que novas denúncias revelam que a atuação de Flávio Bolsonaro na órbita do crime de colarinho corporativo e militar segue hígida. Conforme denunciou o ex-deputado Marcelo Freixo, o pré-candidato atuou diretamente na estratégia jurídica para adiar o julgamento do PM Bruno Delaroli. De acordo com a Forum, o agente é acusado pelo homicídio da pequena Ana Clara Machado, de apenas 5 anos, atingida no peito por um tiro de fuzil em 2021 enquanto brincava na porta de casa ao lado do irmão de 2 anos. O caso, que transcorre há anos sem o devido desfecho nos tribunais, explicita como o amparo a acusados de crimes brutais permanece sendo uma constante na atuação do clã.
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A Rede Globo de Televisão completou 61 anos, mas parece ter esquecido de incluir em sua trajetória um capítulo essencial: a crítica aos Estados Unidos e ao seu histórico de intervenções políticas, econômicas e militares mundo afora. Para uma emissora que se apresenta como referência em jornalismo, credibilidade e compromisso com a informação, esse silêncio merece ser questionado.
É curioso observar como a Globo consegue dedicar horas de programação à política brasileira, esmiuçando cada declaração de Lula, cada decisão do governo e cada movimento da esquerda, mas demonstra uma cautela quase reverencial quando o assunto envolve Washington. Quando os Estados Unidos impõem tarifas, pressionam governos soberanos ou interferem nos interesses econômicos de outros países, a indignação editorial parece perder força.
Onde está a mesma disposição crítica quando o protagonista da notícia é o governo norte-americano?
A questão não é exigir que a Globo seja contrária aos Estados Unidos em todas as circunstâncias. O jornalismo sério deve analisar governos e políticas com base em fatos, independentemente de sua nacionalidade. O problema surge quando existe uma possível assimetria na cobrança: rigor com determinados atores políticos e tolerância ou silêncio diante de outros.
Ao longo de décadas, os Estados Unidos estiveram envolvidos em intervenções, guerras, sanções econômicas e disputas geopolíticas que produziram consequências profundas para diversos povos. O Brasil também possui uma história marcada pela influência norte-americana, inclusive no contexto do golpe de 1964, cuja documentação histórica registra o apoio e a preparação dos Estados Unidos para possíveis desdobramentos políticos e militares.
Quantas vezes a Globo aborda esse histórico com a mesma intensidade que reserva às suas críticas ao governo brasileiro?
A imprensa tem o direito de defender posições editoriais, mas a sociedade tem o direito de cobrar coerência. Uma emissora que reivindica o papel de fiscalizar o poder não deveria tratar nenhuma potência estrangeira como intocável.
Aos 61 anos, a Globo pode celebrar sua longevidade. Mas longevidade não substitui pluralidade, e audiência não elimina a necessidade de questionamento. A verdadeira credibilidade jornalística não se mede apenas pela quantidade de críticas feitas, mas também pela disposição de fazê-las quando o alvo é poderoso, estrangeiro e politicamente conveniente.
Porque, quando o jornalismo escolhe cuidadosamente quem pode ser criticado e quem merece silêncio, a pergunta deixa de ser apenas sobre o que ele mostra.
Passa a ser sobre o que ele deliberadamente deixa de mostrar.
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Lula e Flávio crescem, adversários caem e eleição pode ser definida no 1º turno, diz pesquisa Atlas
Pesquisa Atlas/Bloomberg mostra movimento de migração de votos válidos, esvaziando candidaturas nanicas. Lula está a 3,7 pontos de uma vitória no primeiro turno.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta quarta-feira (23) revela que as eleições presidenciais podem ser decididas no primeiro turno, com Lula e Flávio Bolsonaro (PL) oscilando positivamente na mesma margem, de 1,7 pontos, enquanto os adversários registram oscilações negativas.
Os demais candidatos, que há uma semana somavam 12,1%, agora registram juntos 9,9%. Renan Santos (Missão) segue na terceira posição, oscilando de 5,1% para 4,5%. Augusto Cury (Avante) caiu de 3,5% para 2,1%. Ronaldo Caiado (PSD) foi de 1,7% para 1,3% e Romeu Zema (Novo) de 1,1% para 0,9%. Os outros candidatos somam 0,8%. Brandos e nulos é 0,7% e indecisos 0,5%.
Em votos válidos – excluindo brancos e nulos -, Lula tem 46,3%, ficando a 3,7 pontos de uma vitória no primeiro turno. Flávio Bolsonaro tem 43,9% dos válidos.
Nesse cenário, Santos vai a 4,6%. Cury tem 2,1%, Caiado a 1,4% e Zema a 0,9%. Os demais somam 0,8%.
Segundo turno No segundo turno, Lula está numericamente à frente de Flávio Bolsonaro (PL) por 0,3%, em situação de empate técnico dentro da margem de erro de 1 ponto para mais ou para menos. O presidente marca 47,7% contra 47,4% do senador. Brancos, nulos e indecisos somam 4,9%.
Lula também vence a disputa contra Ronaldo Caiado por 46,8% contra 44%, com 9,4% de indecisos, brancos e nulos. Contra Zema, a vitória é de 47,6% contra 42,2%, com 10,2% de indecisos, brancos e nulos.
Lula também vence Augusto Cury por 46,2% contra 39,4%, com 14,4% de indecisos, brancos e nulos. Já Renan Santos marca 31,2% contra 46,5% de Lula – 22,3% de indecisos, brancos e nulos. Forum.
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Acordo de governos conservadores cita facções brasileiras e busca consolidar a região como zona de influência dos EUA
Os 14 países integrantes do Escudo das Américas, grupo de governantes de extrema direita da América Latina organizado por Donald Trump, assinaram um acordo nesta terça-feira (22) que considera 24 facções narcotraficantes como “ameaças compartilhadas”, tornando-as alvos de sanções conjuntas. Os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) estão entre os citados.
O acordo é mais uma tentativa de ingerência dos Estados Unidos sobre o continente, além de se configurar como um cerco para o governo brasileiro e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontam os especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato.
“Reconhecendo que uma ameaça imediata e universalmente compartilhada em nosso hemisfério é aquela representada por organizações narcoterroristas transnacionais — as quais põem em risco a paz e a segurança do hemisfério, bem como a segurança e a prosperidade de nossos cidadãos —, anunciamos hoje a primeira ação conjunta no âmbito de nossos pilares recém-anunciados: ação individual e coletiva para enfrentar o flagelo do narcoterrorismo”, diz o documento divulgado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.
“É uma maneira de [Trump] criar a polícia continental, que eles nunca tiveram, que os Estados Unidos nunca conseguiram implantar”, aponta o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni. Em pelo menos três ocasiões, os Estados Unidos criaram mecanismos para garantir o domínio sobre a América Latina. Com a Doutrina Monroe, criada em 1823, que estabelecia uma “aliança” contra a colonização europeia e que foi reeditada como “Corolário Roosevelt” por Theodore Roosevelt, no início do século 20, para proteger o continente da “ameaça comunista”. Em 1947, foi assinado o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), que tinha como base a “doutrina da defesa hemisférica”, mas que nunca foi implantado.
“Lá o inimigo era o comunismo. Agora é o narcoterrorismo. Você inventa um inimigo, você inventa um espantalho para poder intervir em qualquer situação”, explica Maringoni, lembrando que, no seu discurso nesta terça na Organização das Nações Unidas, o presidente Donald Trump chamou o narcoterrorismo de “Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental”.
“Trata-se de mais uma iniciativa de cerco à realidade brasileira, de cerco ao governo do presidente Lula, que iniciou desde a reformulação da política externa dos Estados Unidos, com a volta de Trump”, adverte professor na Universidade Católica de Brasília (UCB) e da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Menon, lembrando que essa medida se soma a outras, como o tarifaço, no qual Trump tenta interferir na política brasileira com aumento de impostos de importação de produtos nacionais.
Nesse sentido, Menon destaca o papel do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, “que se comporta como um verdadeiro xerife hemisférico”, fazendo da América Latina “uma espécie de quintal dos interesses estadunidenses”.
A medida vai de encontro ao discurso do presidente Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, quando ele defendeu que o Brasil “não se subestima o desafio representado pelo crime organizado”, mas que não se pretende “terceirizar a responsabilidade” de proteger os cidadãos. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, completou Lula.
O que diz o acordo De acordo com o documento assinado pelos países, a intenção é impor “o congelamento de ativos; restrições de imigração e de visto para membros, associados e apoiadores dessas organizações; e a responsabilização criminal de indivíduos que, conscientemente, forneçam apoio material — incluindo apoio logístico — a tais organizações, entre outras medidas”.
O acordo cita 24 organizações. Além do PCC e do Comando Vermelho, estão na lista grupos como Mara Salvatrucha (MS-13), Cartel de Sinaloa, Cartel de Jalisco Nueva Generación (CJNG), Clã do Golfo, Exército de Libertação Nacional (ELN), Sendero Luminoso e Trem de Aragua. Esse último foi o grupo citado para justificar o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que está preso nos Estados Unidos desde janeiro, mesmo após a Justiça do país confirmar que não há provas de ligação de Maduro com o grupo.
A declaração foi divulgada pelo Departamento de Estado dos EUA em conjunto com os governos de Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
O Escudo das Américas foi anunciado por Trump em 7 de março, durante uma cúpula realizada em seu campo privado de golfe, em Doral (Flórida), como “uma nova iniciativa de segurança para o Hemisfério Ocidental” para combater cartéis, “gangues” transnacionais e migração irregular.
*BdF
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