A Rede Globo de Televisão completou 61 anos, mas parece ter esquecido de incluir em sua trajetória um capítulo essencial: a crítica aos Estados Unidos e ao seu histórico de intervenções políticas, econômicas e militares mundo afora. Para uma emissora que se apresenta como referência em jornalismo, credibilidade e compromisso com a informação, esse silêncio merece ser questionado.
É curioso observar como a Globo consegue dedicar horas de programação à política brasileira, esmiuçando cada declaração de Lula, cada decisão do governo e cada movimento da esquerda, mas demonstra uma cautela quase reverencial quando o assunto envolve Washington. Quando os Estados Unidos impõem tarifas, pressionam governos soberanos ou interferem nos interesses econômicos de outros países, a indignação editorial parece perder força.
Onde está a mesma disposição crítica quando o protagonista da notícia é o governo norte-americano?
A questão não é exigir que a Globo seja contrária aos Estados Unidos em todas as circunstâncias. O jornalismo sério deve analisar governos e políticas com base em fatos, independentemente de sua nacionalidade. O problema surge quando existe uma possível assimetria na cobrança: rigor com determinados atores políticos e tolerância ou silêncio diante de outros.
Ao longo de décadas, os Estados Unidos estiveram envolvidos em intervenções, guerras, sanções econômicas e disputas geopolíticas que produziram consequências profundas para diversos povos. O Brasil também possui uma história marcada pela influência norte-americana, inclusive no contexto do golpe de 1964, cuja documentação histórica registra o apoio e a preparação dos Estados Unidos para possíveis desdobramentos políticos e militares.
Quantas vezes a Globo aborda esse histórico com a mesma intensidade que reserva às suas críticas ao governo brasileiro?
A imprensa tem o direito de defender posições editoriais, mas a sociedade tem o direito de cobrar coerência. Uma emissora que reivindica o papel de fiscalizar o poder não deveria tratar nenhuma potência estrangeira como intocável.
Aos 61 anos, a Globo pode celebrar sua longevidade. Mas longevidade não substitui pluralidade, e audiência não elimina a necessidade de questionamento. A verdadeira credibilidade jornalística não se mede apenas pela quantidade de críticas feitas, mas também pela disposição de fazê-las quando o alvo é poderoso, estrangeiro e politicamente conveniente.
Porque, quando o jornalismo escolhe cuidadosamente quem pode ser criticado e quem merece silêncio, a pergunta deixa de ser apenas sobre o que ele mostra.
Passa a ser sobre o que ele deliberadamente deixa de mostrar.
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