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O debate na Band teve a emoção de um jogo entre lanternas da Série B

O debate na Band despertou exatamente o mesmo nível de interesse de um jogo entre os dois últimos colocados da Série B numa noite de segunda-feira: pouca gente assistindo, quase ninguém comentando e uma parcela considerável do público perguntando se já estava na hora de começar a novela.

A expectativa até existia. Afinal, era debate eleitoral, candidatos frente a frente, promessas, ataques, réplicas e tréplicas. Mas, na prática, a sensação foi mais ou menos a de quem compra ingresso para uma final e descobre, na porta do estádio, que era treino coletivo.

Faltou aquela faísca capaz de fazer o eleitor largar o celular, a televisão e até o jantar para acompanhar cada minuto. Em vez de provocar discussões acaloradas no dia seguinte, o debate parecia disputar audiência com o ventilador, a geladeira e o próprio sono do telespectador.

Nas redes sociais, então, o cenário foi quase uma competição para ver quem conseguia resumir o evento em menos palavras. Teve gente comentando, claro. Mas também teve gente que só descobriu que o debate havia terminado porque apareceu a propaganda seguinte.

E não é pouca coisa: em plena corrida eleitoral, quando cada candidato deveria estar lutando para transformar segundos de televisão em votos, o debate conseguiu produzir uma espécie rara de efeito: ninguém parecia desesperado para saber quem ganhou.

Se política é emoção, estratégia e capacidade de mobilizar o eleitor, o debate da Band ficou devendo nos três quesitos. Foi menos “grande confronto eleitoral” e mais “amistoso de pré-temporada com portões fechados”.

No fim, a comparação com um jogo entre lanternas da Série B talvez ainda seja generosa. No futebol, pelo menos, sempre existe a possibilidade de sair um gol aos 47 do segundo tempo. No debate, o grande suspense parecia ser outro: quem seria o primeiro a desistir e mudar de canal.


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De olho em 2030, ninguém está torcendo mais do que Tarcísio para Flávio perder para Lula

Há uma contradição cada vez mais evidente na política da direita brasileira: Tarcísio de Freitas precisa apoiar Flávio Bolsonaro em 2026, mas seu projeto político pode depender justamente da derrota dele.

É a velha máxima da política: ninguém precisa desejar publicamente a queda de um aliado para, nos bastidores, saber que a queda desse aliado pode abrir o caminho para o seu próprio futuro.

Tarcísio já deixou escapar que a Presidência da República pode estar nos seus planos. Nesta semana, pela primeira vez, admitiu que “talvez” dispute o Planalto no futuro. E, enquanto isso, Flávio foi escolhido pelo pai para representar o bolsonarismo na disputa contra Lula em 2026.

O problema é simples: se Flávio vencer Lula, Tarcísio pode ter acabado de perder uma das melhores oportunidades de sua carreira política.

Flávio, eleito presidente, ocuparia o Planalto por quatro anos — e, dependendo do destino da proposta de fim da reeleição que vem defendendo, poderia transformar a sucessão presidencial em um novo campo de batalha dentro da própria direita. O próprio Flávio já fala em ser um “presidente de transição”.

Para Tarcísio, portanto, uma eventual vitória de Flávio não seria necessariamente o cenário dos sonhos.

Já uma derrota para Lula mudaria completamente o tabuleiro.

Se Flávio perder em outubro, o bolsonarismo entrará imediatamente na discussão sobre quem será o herdeiro político da direita para 2030. E Tarcísio, governador de São Paulo, com forte trânsito empresarial, estrutura política e capacidade eleitoral, estaria naturalmente entre os primeiros nomes da fila.

É por isso que a eleição de 2026 pode ser lida também como uma disputa pelo futuro da direita brasileira. Não está em jogo apenas Lula contra Flávio. Está em jogo quem estará de pé depois dessa batalha.

Tarcísio sabe disso.

E sabe também que Lula continua sendo um adversário extremamente competitivo. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra Lula com 41% no primeiro turno contra 37% de Flávio e, no segundo turno, uma disputa praticamente empatada: 46% a 45% para Lula. Já o Datafolha divulgado na semana passada apontou Lula à frente de Flávio por 47% a 43% no segundo turno.

Ou seja: Flávio pode perfeitamente perder.

E é justamente aí que começa a fazer sentido a movimentação cuidadosa de Tarcísio.

Ele apoia Flávio, participa de agendas ao seu lado e, publicamente, fala em unidade da direita. Mas, ao mesmo tempo, já prepara seu próprio terreno. Não confirma candidatura presidencial, mas também não a descarta. Não rompe com o bolsonarismo, mas procura demonstrar autonomia. Não abandona Flávio, mas deixa claro que existe vida política depois de Bolsonaro.

É uma operação delicada.

Porque Tarcísio precisa evitar ser acusado de torcer contra Flávio sem deixar de pensar no dia seguinte à eleição.

E há ainda um detalhe revelador: pesquisas anteriores já mostraram que Tarcísio aparece como um dos nomes competitivos contra Lula e que a presença dele altera o desempenho de Flávio nos cenários eleitorais.

Por isso, a hipótese mais interessante não é imaginar Tarcísio fazendo campanha ostensivamente contra Flávio. É justamente o contrário: quanto mais disciplinado for seu apoio público, mais protegido estará o seu projeto pessoal.

Se Flávio vencer, Tarcísio terá cumprido seu papel e poderá reivindicar espaço no novo governo.

Se Flávio perder, Tarcísio poderá dizer que fez tudo o que estava ao seu alcance, preservar sua relação com o eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, apresentar-se como uma alternativa para reorganizar a direita.

É o famoso “ganha-ganha” da política.

E talvez seja por isso que o horizonte de Tarcísio não termine em 2026 — nem sequer em 2030.

Quem pensa em 2040 não precisa necessariamente vencer a eleição de 2026. Às vezes, precisa apenas garantir que os adversários certos não vençam.

Tarcísio pode estar olhando muito mais longe do que parece.

Enquanto Flávio luta para chegar ao Planalto, Tarcísio pode estar calculando quem estará ocupando o caminho quando chegar a hora de ele próprio tentar chegar lá.

Na política, apoio público e interesse privado nem sempre caminham pela mesma estrada.

E, nesse jogo, talvez ninguém esteja mais interessado do que Tarcísio em saber quem perderá — e quem sobreviverá — à eleição de 2026.


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Dino abre caminho para PF aprofundar investigação sobre o Dark Horse, filme de Bolsonaro

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar a Polícia Federal a acessar dados apreendidos em uma operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, coloca novas peças no tabuleiro de uma investigação que já vinha cercada de suspeitas. A PF poderá incorporar ao inquérito federal informações obtidas nas buscas realizadas contra empresas e endereços ligados à produtora.

A medida é especialmente relevante porque a investigação federal apura se recursos de emendas parlamentares destinados a entidades ligadas à produção foram utilizados para financiar o longa. Ou seja: aquilo que inicialmente poderia parecer apenas uma operação envolvendo contratos públicos e uma ONG agora passa a fornecer material para uma investigação que alcança diretamente a origem e o destino do dinheiro relacionado ao filme.

A operação realizada em junho pela Polícia Civil paulista atingiu Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB). A investigação estadual apura suspeitas de fraudes e desvios de recursos públicos em um contrato de R$ 108 milhões firmado entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo para fornecimento de wi-fi gratuito em comunidades carentes.

Agora, o conteúdo apreendido poderá ser cruzado com os dados já reunidos pela PF. E é justamente esse cruzamento que pode ser decisivo: documentos, mensagens, registros financeiros e outros elementos eventualmente encontrados na operação paulista podem ajudar os investigadores a reconstruir o caminho do dinheiro e verificar se houve conexão entre recursos públicos e a produção cinematográfica.

A investigação federal envolve emendas destinadas por parlamentares do PL, entre eles Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. Frias, por exemplo, destinou R$ 2 milhões ao ICB em 2024, mas afirma que o dinheiro não foi usado no filme. Os parlamentares citados negam irregularidades.

O caso ganha ainda mais peso porque Dark Horse já está no centro de outra investigação no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça. Nessa segunda frente, são investigados os aportes e as tratativas envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro para a conclusão do filme. Segundo informações divulgadas pela imprensa, áudios registraram Flávio cobrando de Vorcaro R$ 61 milhões para finalizar a produção.

Portanto, a autorização de Dino não significa que irregularidades estejam comprovadas. Mas significa algo politicamente e judicialmente importante: a investigação ganhou acesso a uma nova fonte de provas e poderá cruzar informações de diferentes apurações.

E isso torna cada vez mais difícil tratar o caso Dark Horse como uma simples “página virada”, como vem fazendo Flávio Bolsonaro. Enquanto o candidato tenta encerrar o assunto no discurso, a Polícia Federal recebe autorização para ampliar o exame dos elementos apreendidos e investigar justamente aquilo que ainda precisa ser esclarecido: de onde veio o dinheiro, para onde foi e quem efetivamente pagou pela produção do filme que pretendia celebrar a trajetória política de Jair Bolsonaro.

A decisão de Dino, portanto, pode representar um novo capítulo de uma história que está longe de terminar. Quanto mais as investigações cruzarem documentos, movimentações financeiras e comunicações, maior será a possibilidade de separar versões políticas de fatos comprováveis. E, nesse caso, é exatamente isso que a sociedade espera: menos narrativa, menos blindagem e mais transparência sobre o dinheiro que financiou o filme.


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Igreja Universal recebeu R$ 2,2 milhões em emendas de irmã de Edir Macedo

A deputada estadual por São Paulo Edna Macedo, do Republicanos, destinou R$ 2,2 milhões em emendas parlamentares para megaeventos da Igreja Universal, liderada pelo seu irmão, o bispo Edir Macedo, um dos homens mais ricos do Brasil. Ela concorre à reeleição na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Emendas parlamentares são a ferramenta que deputados e senadores usam para enviar uma parte do dinheiro público para financiar obras, projetos e instituições, geralmente nas suas próprias cidades e estados.

A primeira indicação de Edna para eventos da igreja do irmão foi de R$ 1,2 milhão no ano passado para a The Love Walk – Caminhada do Amor – um misto de palestra e atrações musicais com orientações sobre relacionamentos amorosos – criado pelo casal Renato e Cristiane Cardoso, conhecidos pelo programa de TV “The Love School: Escola do Amor”. Ela é filha de Edir Macedo.

Já neste ano, a deputada Edna Macedo indicou R$ 1 milhão para o Família ao Pé da Cruz, uma série de cultos religiosos em estádios e ginásios que aconteceu em diversos países na última Sexta-Feira Santa.

Toda essa verba pública para eventos da Igreja Universal é destinada inicialmente para o Instituto Paulo Kobayashi, conhecido como IPK, que realiza vários eventos religiosos da congregação de Edir Macedo. O caso foi revelado inicialmente em reportagem do colunista Artur Rodrigues, do portal UOL.

Entre 2023 e 2026, o IPK recebeu R$ 37,7 milhões de dinheiro público indicado por parlamentares, na maior parte do Republicanos e do PL. Desse total, pelo menos R$ 16,8 milhões foram destinados a eventos da Universal. Ou seja, quase metade da quantia recebida pela entidade foi para atividades promovidas pela igreja de Edir Macedo.

Acontece que nem sempre a motivação desse recurso é esclarecida nos dados do Portal da Transparência do governo de São Paulo. As duas emendas da Edna Macedo para eventos da Universal, por exemplo, são descritas apenas como “apoio a evento cultural e criativo”. É preciso analisar o interior dos termos de fomento, uma espécie de contrato entre governos e ONGs, para identificar a real destinação daquele dinheiro.

Os outros parlamentares que destinaram verba para eventos da Universal, através do IPK, são Altair Moraes, Danilo Campetti, Gilmaci Santos, Rui Alves, Sebastião Santos e Tenente Nascimento. Todos são filiados ao Republicanos, braço político da Igreja Universal, com exceção do Tenente Nascimento, que deixou a legenda e migrou para o PL.

Além do Caminhada do Amor e do Família ao Pé da Cruz, também foram bancados com verba de emenda os festivais da Universal chamados Mega Dance, Mega Help e Canta Gospel. Parte desses eventos são promovidos pela Força Jovem Universal, a FJU, grupo da igreja de Edir Macedo voltado para a juventude.

Por sua vez, o Instituto Paulo Kobayashi é uma organização da sociedade civil de interesse público, ou OSCIP, criada e comandada por familiares do professor de geografia e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo Paulo Seiti Kobayashi, morto em 2005 quando era deputado federal pelo PSDB.

A organização, que foi criada em 2005, teve um salto na quantidade de recursos públicos do governo de São Paulo recebidos durante a gestão de Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Em 2023, primeiro ano do governo, foram pagos R$ 4,3 milhões em emendas para o IPK. Em 2024, subiu para R$ 10,3 milhões. Já no ano passado esse valor chegou a R$ 11,7 milhões. E já passa de R$ 11 milhões até agosto de 2026.

Os tipos de eventos promovidos pelo IPK com recursos públicos são bastante variados: festas religiosas, eventos gastronômicos, festivais culturais, projetos esportivos e até um encontro para capacitar pessoas para o apoio e atendimento de vítimas de tragédias.

Em dezembro de 2024, Edna Macedo publicou uma foto na sua conta do Instagram ao lado do presidente do IPK, Victor Kobayashi, e do fundador do ID Mais Vida, organização que trabalha com o IPK, Mauricio Miyazaki. A foto mostra uma visita dos dois ao seu gabinete. “Pessoas boas atraem pessoas boas! (…). Tivemos uma boa conversa sobre o terceiro setor”, escreveu a deputada do Republicanos.

A deputada Edna Macedo também foi pessoalmente à edição do evento Família ao Pé da Cruz que ocorreu na Neo Química Arena, e posou para fotos ao lado do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB.

O doutor em Administração Pública e professor de estratégia e gestão pública do Insper Marcelo Marchesini explica que não há previsão legal que proíba o uso de emenda parlamentar para financiar um evento de uma igreja ligada a um familiar do autor da emenda, já que ele não é o beneficiário direto do recurso.

“As emendas impositivas têm essa possibilidade de serem alocadas sem a necessidade de justificar a escolha do beneficiário. Os requisitos são muito mais frouxos do que os do próprio poder Executivo para firmar esse tipo de parceria ou contratação”, avalia.

Marchesini defende que os critérios de contratação sejam, no mínimo, os mesmos exigidos pelo Executivo. Ele também ressalta que as emendas parlamentares estaduais recebem menos atenção do que as federais por terem menor presença no debate público.

*Intercept


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Da denúncia à blindagem: o que mudou na mídia quando o alvo passou a ser Lulinha?

A mesma mídia que, durante anos, ocupou manchetes, editoriais e horas de televisão denunciando — muitas vezes com enorme estardalhaço — os inúmeros escândalos envolvendo o clã Bolsonaro parece ter mudado radicalmente de comportamento. Agora, diante de fatos que atingem diretamente Flávio Bolsonaro, parte dessa imprensa prefere deslocar o foco, alimentar suspeitas contra Lulinha e transformar especulações em combustível para uma ofensiva política.

A pergunta é inevitável: o que mudou?

Não mudou o histórico dos personagens. Não mudaram os fatos que já foram amplamente noticiados. Não mudou a obrigação jornalística de investigar, cobrar explicações e confrontar políticos com suas próprias promessas. O que parece ter mudado é o tratamento dado aos protagonistas.

Quando o alvo era o governo Lula ou alguém ligado ao campo progressista, bastava uma suspeita para que o assunto ganhasse destaque, manchetes e intermináveis desdobramentos. Quando surgem fatos potencialmente comprometedores envolvendo figuras da direita, entretanto, o rigor parece desaparecer — e a cobertura passa a operar por outro método: menos cobrança sobre quem precisa explicar e mais ataques contra quem pode servir de distração.

É justamente aí que entra Lulinha.

Em vez de concentrar a atenção sobre as acusações, relações, documentos e explicações que envolvem Flávio Bolsonaro, a imprensa transforma Lulinha em uma espécie de cortina de fumaça. A estratégia é conhecida: criar uma associação permanente entre Lula e qualquer episódio envolvendo seu filho, mesmo quando ele não ocupa cargo público, não é candidato a nada e não pode ser responsabilizado automaticamente por suspeitas que eventualmente atinjam seu entorno.

Enquanto isso, perguntas objetivas continuam sem respostas satisfatórias.

Por que determinadas promessas feitas por Flávio Bolsonaro deixaram de ser cobradas com a mesma intensidade? Por que documentos anunciados publicamente não recebem a mesma pressão jornalística? Por que fatos envolvendo personagens do clã Bolsonaro são tratados com cautela seletiva, enquanto suspeitas contra adversários são transformadas em manchetes garrafais?

Isso não é jornalismo de investigação. É, no mínimo, uma mudança de prioridade editorial que precisa ser explicada.

A imprensa tem todo o direito — e o dever — de investigar Lulinha. Mas tem exatamente o mesmo dever de investigar Flávio Bolsonaro. Um não pode ser utilizado como álibi para deixar o outro em segundo plano.

O problema não é a imprensa investigar. O problema é investigar uns com lupa e outros com luvas.

Durante anos, o jornalismo brasileiro ensinou ao público que o poder precisava ser fiscalizado. E estava certo. Mas fiscalização só merece esse nome quando vale para todos. Quando a régua muda conforme o sobrenome, o partido ou a conveniência política, a credibilidade começa a desmoronar.

A pergunta que fica, portanto, é ainda mais incômoda: por que essa súbita mudança de comportamento justamente quando Flávio Bolsonaro enfrenta uma crise política e precisa explicar fatos que o atingem diretamente?

Se a imprensa realmente acredita que Lulinha deve explicações, que investigue, publique documentos, confronte versões e apresente provas. Mas que faça exatamente o mesmo com Flávio Bolsonaro.

O público não é obrigado a aceitar uma operação em que um filho serve de escudo para o outro.

Se antes a mídia dizia que nada deveria ser escondido quando o assunto era o clã Bolsonaro, agora ela precisa explicar por que parece tão empenhada em esconder o debate sobre o próprio clã atrás de manchetes contra Lulinha.

Afinal, jornalismo não pode ser escolhido conforme o personagem que convém proteger.

A pergunta não é apenas o que mudou. É quem ganhou com a mudança — e por que parte da imprensa parece disposta a pagar o preço de sua própria credibilidade para fazê-lo.


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Bolsonaro, Cerimedo e Honduras: os elos de uma operação para desestabilizar a eleição

Planalto teme ofensiva internacional de desinformação para interferir na disputa presidencial

A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação em diferentes eleições acendeu um alerta no Palácio do Planalto sobre o risco de uma ofensiva de desinformação se tornar um dos principais instrumentos de ingerência externa na eleição brasileira de outubro.

Fernando Cerimedo, estrategista argentino que atuou para desacreditar as eleições brasileiras de 2022, trabalhou recentemente em Honduras com apoio de operadores ligados a Donald Trump e mantém relação próxima com Eduardo Bolsonaro.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro também foi escolhido pelo ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli, como interlocutor para receber e divulgar no Brasil informações produzidas pelo governo israelense.

Para integrantes do alto escalão do governo brasileiro, as conexões entre esses atores e o papel das plataformas digitais estão hoje entre os principais riscos de uma eventual ação coordenada para favorecer Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

As relações colocam Eduardo no centro de articulações que atravessam Brasil, Argentina, Honduras, Estados Unidos e Israel. Parte desses mesmos países aparece no chamado Hondurasgate, caso baseado em 37 áudios atribuídos ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández sobre operações internacionais de influência política.

Fernando Cerimedo (segundo da esquerda) com Eduardo Bolsonaro, durante sua visita à Argentina em outubro de 2022

De Eduardo Bolsonaro à eleição de Honduras
Cerimedo ganhou projeção no Brasil depois da eleição presidencial de 2022, quando realizou a transmissão “Brasil fue robado”. Utilizando dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), levantou suspeitas sobre diferentes modelos de urnas e questionou o resultado da disputa vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.

A apresentação foi incorporada pelo bolsonarismo à ofensiva contra a confiabilidade do sistema eleitoral. A atuação do argentino acabou analisada nas investigações sobre a tentativa de golpe, embora a Procuradoria-Geral da República não tenha encontrado elementos suficientes para denunciá-lo por participação no plano de ruptura institucional.

Quatro anos depois, Cerimedo continua próximo da família Bolsonaro. Em evento realizado neste ano, Eduardo levou o argentino ao palco e defendeu sua atuação em 2022. Disse que Cerimedo teve “coragem” ao denunciar supostas irregularidades e afirmou que o trabalho havia sido produzido a partir de dados do próprio TSE.

Na mesma ocasião, Cerimedo contou detalhes de sua participação em outra campanha: a eleição de Honduras. O argentino afirmou ter trabalhado com Andy Rivas, apresentado como amigo e sócio, para o grupo político de Nasry “Tito” Asfura. Comemorou o resultado como uma vitória contra o grupo da família do ex-presidente Manuel Zelaya e relatou uma campanha marcada por forte tensão política.

Ao falar sobre sua atuação latino-americana, Cerimedo agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha digital de Trump. Segundo o argentino, Parscale forneceu tecnologia e equipe para suas operações políticas na região.

Cerimedo também participou dos esforços de aproximação entre Asfura e Trump. Nessa articulação aparece Dick Morris, consultor político americano que ganhou projeção como estrategista de Bill Clinton nos anos 1990 e depois rompeu com o Partido Democrata, tornando-se aliado de Trump e uma voz influente da direita americana.

Morris atuou como intermediário entre a campanha de Asfura e o entorno de Trump. Sua participação ajudou a aproximar o candidato hondurenho de operadores trumpistas nos Estados Unidos e a apresentar sua candidatura como parte de uma disputa regional contra a esquerda latino-americana.

A presença do consultor ajuda a dimensionar a rede formada em torno da campanha hondurenha: um operador com experiência na Casa Branca e trânsito na política americana atuando na conexão entre Asfura e o trumpismo.

O percurso também mostra a dimensão adquirida pela atuação de Cerimedo. Depois de participar da ofensiva para colocar sob suspeita as eleições brasileiras, o argentino passou por outra disputa eleitoral latino-americana conectado a operadores da direita americana.

Expresidente hondureño Juan Orlando Hernández agradece el indulto a Trump

Presidente de Honduras Juan Orlando Hernández

Hondurasgate cita Argentina, EUA e Israel
É nesse cenário que aparece o chamado Hondurasgate. O caso envolve 37 gravações atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. Os áudios descrevem supostas operações de articulação política e comunicação envolvendo personagens de Honduras, Estados Unidos, Argentina e Israel.

Entre as alegações está a participação de atores ligados ao governo de Javier Milei. As gravações atribuem ao entorno argentino cerca de US$ 350 mil destinados a uma estrutura de comunicação instalada nos Estados Unidos, que teria entre seus alvos os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia.

Israel também aparece no material. Uma das alegações atribui ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu participação em articulações relacionadas ao benefício concedido por Trump a Juan Orlando Hernández.

Os áudios ainda dependem de autenticação independente, e Cerimedo não aparece comprovadamente como integrante da operação relatada nas gravações. O argentino rejeitou publicamente o Hondurasgate.

Sua presença na política hondurenha, porém, é conhecida, assim como suas relações com personagens da política argentina, com Eduardo Bolsonaro e com operadores americanos ligados a Trump.

Israel, por sua vez, também mantém uma conexão direta e documentada com o entorno bolsonarista no Brasil.

Ministro de Israel acionou Eduardo no Brasil
Em janeiro de 2025, o militar israelense Yuval Vagdani estava no Brasil quando a Fundação Hind Rajab (HRF) tentou responsabilizá-lo judicialmente por supostos crimes cometidos durante a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

O episódio provocou reação do governo de Israel. Vagdani deixou o Brasil e, em 5 de janeiro, Eduardo Bolsonaro tornou público que havia conversado com Amichai Chikli, ministro de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo.

Eduardo disse ter recebido informações sobre a Fundação Hind Rajab. Poucas semanas depois, o próprio Chikli confirmou como a articulação havia ocorrido.

O ministro afirmou que Israel trabalhou com “amigos na oposição brasileira” e entregou informações sobre a fundação a Eduardo para que ele ajudasse a expor a organização no Brasil. O ex-deputado divulgou o material.

O ministério israelense buscava associar integrantes da fundação ao Hezbollah e ao Hamas. Chikli também atacou diretamente Lula e classificou o presidente brasileiro como “apoiador do Hamas”.

A operação foi além da proximidade política mantida há anos pela família Bolsonaro com o governo de Benjamin Netanyahu. Um ministro israelense procurou diretamente um integrante da oposição brasileira, forneceu informações produzidas no interesse de seu governo e pediu ajuda para colocá-las no debate público brasileiro.

O episódio ocorreu antes de Eduardo voltar a aparecer publicamente ao lado de Cerimedo, desta vez exaltando justamente o argentino que havia atuado no Brasil, passado por Honduras e construído relações com operadores da direita americana.

As conexões não surgem de uma única organização nem precisam ser apresentadas dessa maneira. Elas revelam um movimento mais amplo: personagens do bolsonarismo passaram a atuar como interlocutores brasileiros de uma rede internacional da direita que circula entre campanhas eleitorais, governos e operações de comunicação.

Nesse circuito, Eduardo Bolsonaro deixou de ser apenas um aliado político. Tornou-se um dos pontos de contato no Brasil.

O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli,

O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli (Reprodução de vídeo)

Planalto teme ofensiva digital na reta final
Se o governo brasileiro considera que a ingerência internacional já é uma realidade na eleição desde 2025, integrantes do Planalto tentam agora antecipar por onde poderiam vir os próximos movimentos de uma eventual estratégia de desestabilização.

A principal preocupação é que o instrumento utilizado seja o impulsionamento de desinformação a partir do exterior, com a possibilidade de plataformas digitais atuarem de maneira pouco transparente para influenciar a opinião pública brasileira.

A operação poderia repetir elementos observados recentemente na eleição de Honduras, onde Cerimedo teve papel relevante. A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e uma operação de manipulação digital poderia movimentar votos suficientes para transformar a reta final da eleição em um dos momentos de maior tensão política do país nas últimas décadas.

Integrantes do governo ainda pretendem estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, marcadas, segundo essa avaliação, por intensa circulação de narrativas originadas fora desses países. Um dos fenômenos observados nesses pleitos foi a proliferação de conteúdos produzidos com inteligência artificial e deepfakes.

Uma das estratégias consideradas possíveis seria o impulsionamento de desinformação por meio de perfis falsos criados no exterior. A preocupação é que uma ofensiva concentrada nos últimos dias da campanha possa provocar mudanças abruptas na opinião pública quando já não houver tempo suficiente para identificar sua origem, investigar os responsáveis e neutralizar seus efeitos antes da votação.

O eventual envolvimento das plataformas também entra no cálculo do governo pelo impacto que uma reeleição de Lula poderia produzir sobre o setor. A avaliação no Planalto é de que as big techs estariam entre os atores mais afetados por um quarto mandato do petista, diante da possibilidade de o governo avançar na regulamentação das redes digitais.

Um possível retorno do ativismo político de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de intervenções no debate político de diferentes países às vésperas de eleições.

A preocupação central é justamente o tempo. Uma ofensiva realizada nos últimos dias antes da votação poderia alcançar milhões de eleitores e produzir efeitos políticos antes que autoridades brasileiras conseguissem determinar de onde partiu, quem a financiou e quais atores participaram de sua disseminação.

*Cleber Lourenço e Jamil Chade/ICL


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Desesperado, Trump importa carne e enfurece a própria base MAGA

A política de Donald Trump voltou a esbarrar em uma contradição que atinge justamente o coração de seu discurso nacionalista: depois de prometer colocar os interesses americanos acima de tudo, seu governo recorre à importação de carne para enfrentar problemas de abastecimento e preços — e acaba provocando a fúria de parte da própria base MAGA.

A medida expõe um problema que Trump preferiria esconder: quando a realidade econômica bate à porta, os slogans de campanha não colocam comida mais barata na mesa. O presidente que construiu sua imagem política prometendo proteger o produtor americano e combater a dependência externa agora precisa buscar carne fora do país para tentar aliviar a pressão sobre o mercado interno.

Para os setores mais radicais do movimento Make America Great Again, a contradição é difícil de engolir. Durante anos, Trump vendeu a ideia de que tarifas, protecionismo e prioridade absoluta aos produtores americanos seriam suficientes para fortalecer a economia dos Estados Unidos. Agora, diante da pressão sobre preços e oferta, a solução passa justamente por recorrer ao exterior.

E é aí que a irritação da MAGA cresce.

A importação pode até ser apresentada pelo governo como uma medida pragmática para ampliar a oferta e conter preços, mas politicamente ela funciona como um tapa na narrativa construída por Trump. O presidente que prometeu independência econômica precisa importar carne para administrar uma crise que sua retórica não conseguiu resolver.

O episódio também revela o limite do populismo econômico. É fácil prometer que tarifas e barreiras comerciais protegerão o trabalhador americano. Mais difícil é explicar ao consumidor por que a conta do supermercado continua pesando no bolso e por que, diante da escassez ou dos preços elevados, o governo precisa procurar fornecedores estrangeiros.

A reação da MAGA é particularmente significativa porque demonstra que a base de Trump não é necessariamente um bloco monolítico disposto a aceitar qualquer decisão em nome do líder. Quando uma política atinge diretamente o bolso, até os mais fiéis começam a questionar.

Trump está descobrindo, da maneira mais incômoda, que nacionalismo econômico também tem preço político. E quando a promessa de “America First” termina com carne importada chegando aos Estados Unidos, a pergunta inevitável aparece: se era para depender do exterior justamente na hora da crise, para que serviram tantos discursos contra as importações?

No fim, a imagem é devastadora para a propaganda trumpista: o presidente que prometeu fazer os Estados Unidos “grandes novamente” agora precisa olhar para fora das fronteiras para tentar resolver um problema dentro de casa.

E a MAGA, que sempre foi rápida para atacar qualquer adversário de Trump, começa a descobrir que talvez o maior problema do governo não esteja nos discursos da oposição, mas nas contradições entre aquilo que foi prometido e aquilo que a realidade está cobrando.


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Brasil Mundo

Pressão de Lula funcionou: EUA procuram Brasil para reabrir negociação comercial

Após telefonema, EUA procuram Brasil para retomar negociações comerciais

O telefonema entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump começa a produzir um resultado concreto — e bastante significativo — na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. Depois de uma conversa de cerca de 1 hora e 20 minutos, em tom considerado cordial, o governo norte-americano procurou oficialmente Brasília para reabrir as negociações sobre as tarifas impostas aos produtos brasileiros.

O movimento é importante porque desmonta a ideia de que o Brasil estaria isolado ou sem capacidade de reação diante do chamado tarifaço. Ao contrário: depois de Lula defender diretamente a retomada do diálogo e afirmar a Trump que as justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para impor as tarifas eram infundadas, Washington sinalizou disposição para voltar à mesa de negociação.

A iniciativa americana veio rapidamente. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e abriu caminho para uma reunião com autoridades brasileiras. A expectativa é que representantes do MDIC, do Itamaraty e do Escritório do Representante Comercial dos EUA retomem as conversas na próxima semana.

É um resultado diplomático que merece ser observado com atenção. Lula não precisou aceitar as justificativas apresentadas por Washington, tampouco abrir mão dos interesses brasileiros. A estratégia foi outra: contestar as medidas, mostrar que elas prejudicam os dois lados e insistir na negociação como instrumento para resolver o conflito.

E há uma questão central: negociar não significa capitular. O Brasil mantém seus mecanismos de defesa comercial e continua contestando as tarifas, enquanto tenta construir uma solução que preserve empregos, empresas e exportações brasileiras. O governo já havia iniciado procedimentos para eventual aplicação da Lei da Reciprocidade, mas mantém aberta a porta para uma solução negociada.

A reabertura do diálogo também evidencia a importância de uma política externa baseada em soberania e pragmatismo. O Brasil pode divergir de Washington sem transformar divergência em rompimento. Pode defender seus interesses sem submissão e, ao mesmo tempo, preservar uma relação comercial estratégica.

Mais do que uma simples reunião entre ministros, portanto, a movimentação representa uma mudança de temperatura na relação entre os dois países. Depois de semanas de tensão, ameaças tarifárias e confrontos diplomáticos, os Estados Unidos voltam a procurar o Brasil para conversar.

E esse talvez seja o dado político mais relevante: quando a diplomacia brasileira insiste no diálogo sem abrir mão de seus interesses, a negociação volta a ser possível. Agora, cabe ao Brasil entrar nessa nova rodada com firmeza, exigir reciprocidade e deixar claro que qualquer acordo precisa proteger a economia brasileira — e não servir como instrumento de pressão política.

O telefonema de Lula não resolveu o conflito, mas abriu uma porta. E, poucas horas depois, foi Washington.


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