O diploma vale menos — menos para quem?
Há algo de profundamente contraditório na fala do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao afirmar que “o diploma cada vez tem menos relevância”. A declaração foi feita em novembro de 2025, durante um evento sobre a expansão do ensino médio técnico, quando ele defendeu a ideia de que o mercado estaria mais interessado nas habilidades do trabalhador do que no lugar onde ele se formou.
O problema é que o autor dessa tese não chegou ao cargo que ocupa ignorando a importância da formação acadêmica. Muito pelo contrário.
Tarcísio é formado em Engenharia pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), uma das instituições de ensino de engenharia mais tradicionais e rigorosas do país. O próprio Ministério dos Transportes já registrou a importância que ele atribuía à formação recebida no IME, descrevendo-a como uma verdadeira “caixa de ferramentas” para enfrentar problemas profissionais.
E aqui está a contradição que merece ser exposta: se o diploma vale tão pouco, por que a formação de Tarcísio no IME é apresentada como credencial para demonstrar sua capacidade técnica?
Ninguém está dizendo que um diploma, sozinho, transforma alguém em um profissional competente. Evidentemente, experiência, capacidade de comunicação, criatividade e conhecimento prático também são fundamentais. O problema começa quando essa constatação é transformada em argumento para diminuir a importância da universidade e da educação formal.
Porque os dados não sustentam a ideia de que estudar perdeu relevância. Segundo dados da OCDE citados à época da declaração, brasileiros de 25 a 64 anos com ensino superior ganham, em média, 148% mais do que aqueles que têm apenas o ensino médio. Além disso, a própria OCDE aponta que a formação superior aumenta as chances de emprego e de melhores salários.
Portanto, dizer a um jovem que o diploma “vale cada vez menos” pode ser uma mensagem especialmente perigosa em um país onde a educação ainda é uma das principais portas de ascensão social.
E existe uma ironia adicional: Tarcísio não é um exemplo de alguém que chegou onde chegou apesar da formação acadêmica. Sua trajetória é, justamente, um exemplo de como uma formação altamente qualificada pode abrir portas.
O IME não é um detalhe biográfico. É parte importante da construção da imagem de Tarcísio como gestor técnico. O próprio instituto define sua missão como a formação superior em Engenharia e a produção de conhecimento científico e tecnológico.
Por isso, a pergunta que fica é simples: o diploma perdeu valor ou é conveniente dizer que ele perdeu valor quando se fala com os filhos dos outros?
Para quem teve acesso a uma formação de excelência, o diploma pode ser apresentado como consequência de esforço, competência e preparo. Para quem ainda luta para chegar à universidade, porém, a mensagem parece ser outra: não precisa estudar tanto, não precisa chegar ao ensino superior, basta desenvolver algumas “habilidades” e deixar que o mercado resolva.
Não deveria ser assim.
O papel de um governante deveria ser ampliar oportunidades, fortalecer a escola pública, democratizar o acesso às universidades e garantir que jovens pobres também possam conquistar os mesmos diplomas que ajudaram a construir as carreiras das elites brasileiras.
Desvalorizar o diploma não democratiza o conhecimento. Democratizar o conhecimento é garantir que todos possam conquistá-lo.
Tarcísio tem todo o direito de defender o ensino técnico. O que não faz sentido é transformar a valorização do ensino técnico em uma espécie de contraponto à universidade — muito menos sugerir que a formação superior esteja se tornando irrelevante justamente em um país que ainda possui uma parcela relativamente pequena de adultos com diploma universitário.
No fim, a frase do governador pode ser resumida em uma pergunta incômoda: se o diploma não vale tanto, por que justamente o diploma do IME continua sendo tão importante para contar a história de Tarcísio de Freitas?
A resposta talvez seja mais reveladora do que a própria declaração.
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