Há uma contradição cada vez mais evidente na política da direita brasileira: Tarcísio de Freitas precisa apoiar Flávio Bolsonaro em 2026, mas seu projeto político pode depender justamente da derrota dele.
É a velha máxima da política: ninguém precisa desejar publicamente a queda de um aliado para, nos bastidores, saber que a queda desse aliado pode abrir o caminho para o seu próprio futuro.
Tarcísio já deixou escapar que a Presidência da República pode estar nos seus planos. Nesta semana, pela primeira vez, admitiu que “talvez” dispute o Planalto no futuro. E, enquanto isso, Flávio foi escolhido pelo pai para representar o bolsonarismo na disputa contra Lula em 2026.
O problema é simples: se Flávio vencer Lula, Tarcísio pode ter acabado de perder uma das melhores oportunidades de sua carreira política.
Flávio, eleito presidente, ocuparia o Planalto por quatro anos — e, dependendo do destino da proposta de fim da reeleição que vem defendendo, poderia transformar a sucessão presidencial em um novo campo de batalha dentro da própria direita. O próprio Flávio já fala em ser um “presidente de transição”.
Para Tarcísio, portanto, uma eventual vitória de Flávio não seria necessariamente o cenário dos sonhos.
Já uma derrota para Lula mudaria completamente o tabuleiro.
Se Flávio perder em outubro, o bolsonarismo entrará imediatamente na discussão sobre quem será o herdeiro político da direita para 2030. E Tarcísio, governador de São Paulo, com forte trânsito empresarial, estrutura política e capacidade eleitoral, estaria naturalmente entre os primeiros nomes da fila.
É por isso que a eleição de 2026 pode ser lida também como uma disputa pelo futuro da direita brasileira. Não está em jogo apenas Lula contra Flávio. Está em jogo quem estará de pé depois dessa batalha.
Tarcísio sabe disso.
E sabe também que Lula continua sendo um adversário extremamente competitivo. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra Lula com 41% no primeiro turno contra 37% de Flávio e, no segundo turno, uma disputa praticamente empatada: 46% a 45% para Lula. Já o Datafolha divulgado na semana passada apontou Lula à frente de Flávio por 47% a 43% no segundo turno.
Ou seja: Flávio pode perfeitamente perder.
E é justamente aí que começa a fazer sentido a movimentação cuidadosa de Tarcísio.
Ele apoia Flávio, participa de agendas ao seu lado e, publicamente, fala em unidade da direita. Mas, ao mesmo tempo, já prepara seu próprio terreno. Não confirma candidatura presidencial, mas também não a descarta. Não rompe com o bolsonarismo, mas procura demonstrar autonomia. Não abandona Flávio, mas deixa claro que existe vida política depois de Bolsonaro.
É uma operação delicada.
Porque Tarcísio precisa evitar ser acusado de torcer contra Flávio sem deixar de pensar no dia seguinte à eleição.
E há ainda um detalhe revelador: pesquisas anteriores já mostraram que Tarcísio aparece como um dos nomes competitivos contra Lula e que a presença dele altera o desempenho de Flávio nos cenários eleitorais.
Por isso, a hipótese mais interessante não é imaginar Tarcísio fazendo campanha ostensivamente contra Flávio. É justamente o contrário: quanto mais disciplinado for seu apoio público, mais protegido estará o seu projeto pessoal.
Se Flávio vencer, Tarcísio terá cumprido seu papel e poderá reivindicar espaço no novo governo.
Se Flávio perder, Tarcísio poderá dizer que fez tudo o que estava ao seu alcance, preservar sua relação com o eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, apresentar-se como uma alternativa para reorganizar a direita.
É o famoso “ganha-ganha” da política.
E talvez seja por isso que o horizonte de Tarcísio não termine em 2026 — nem sequer em 2030.
Quem pensa em 2040 não precisa necessariamente vencer a eleição de 2026. Às vezes, precisa apenas garantir que os adversários certos não vençam.
Tarcísio pode estar olhando muito mais longe do que parece.
Enquanto Flávio luta para chegar ao Planalto, Tarcísio pode estar calculando quem estará ocupando o caminho quando chegar a hora de ele próprio tentar chegar lá.
Na política, apoio público e interesse privado nem sempre caminham pela mesma estrada.
E, nesse jogo, talvez ninguém esteja mais interessado do que Tarcísio em saber quem perderá — e quem sobreviverá — à eleição de 2026.
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Haddad e Tarcísio, dois projetos de educação que não poderiam ser mais diferentes
O debate em São Paulo colocou frente a frente dois políticos com visões profundamente diferentes sobre o papel da educação. De um lado, Fernando Haddad, que comandou o Ministério da Educação entre 2005 e 2012 e esteve à frente de um período marcado pela expansão do ensino superior, pelo fortalecimento do ProUni e pela ampliação das universidades federais. De outro, Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo, cuja declaração de que o diploma “vale cada vez menos” abriu um enorme debate sobre o valor que um governo deve atribuir à formação educacional.
Durante a gestão de Haddad no MEC, houve uma forte expansão do acesso ao ensino superior. Dados oficiais registram a ampliação das vagas e matrículas nas universidades federais, enquanto o ProUni criou uma porta de entrada para milhares de estudantes de baixa renda em instituições privadas. O programa, criado em 2005, teve sua constitucionalidade reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2012.
Tarcísio quer transmitir aos jovens a ideia de que anos de estudo, formação acadêmica e conhecimento perderam importância.
Diploma não é apenas um pedaço de papel. É resultado de anos de dedicação, estudo, pesquisa, formação profissional e esforço de milhões de brasileiros que enfrentam enormes dificuldades para chegar a uma universidade.
E o contraste fica ainda mais evidente quando se olha para a trajetória dos dois. Haddad construiu parte importante de sua carreira política justamente na educação e participou de políticas que ampliaram o acesso ao ensino superior. Já Tarcísio, ao falar sobre a perda de valor do diploma, parece apostar em uma concepção na qual a formação acadêmica deixa de ocupar lugar central na construção de oportunidades.
O debate, portanto, ultrapassa Haddad e Tarcísio. A pergunta que fica é muito maior: o Brasil deve ampliar as portas das universidades ou convencer seus jovens de que o diploma já não vale tanto?
Em um país marcado por desigualdades históricas, desvalorizar a educação é um caminho perigoso. Para quem nasce nas camadas mais pobres, estudar continua sendo uma das principais possibilidades de romper barreiras sociais e conquistar melhores oportunidades.
O confronto entre Haddad e Tarcísio expôs, assim, duas concepções distintas de futuro: uma que enxerga a educação como instrumento de inclusão e transformação social e outra que relativiza o peso do diploma diante das novas exigências do mercado.
No fim das contas, a questão é simples: se a educação não deve ser valorizada, qual é o caminho que resta para milhões de jovens que dependem dela para mudar a própria história?
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Explosão da população em situação de rua expõe também o fracasso social na gestão Tarcísio
Na capital, o número ultrapassa 96 mil pessoas e mais de 143 mil em todo o estado, conforme dados oficiais recentes. O total representa cerca de 27% de todas as pessoas sem teto no Brasil.
O crescimento acelerado da população em situação de rua em São Paulo tornou-se um dos mais contundentes retratos da crise social enfrentada pelo estado. Dados recentes mostram que o número de pessoas vivendo nas ruas praticamente dobrou durante a gestão de Tarcísio de Freitas, evidenciando que o problema está longe de ser resolvido, como prometeu o governador A ausência de uma política pública robusta de prevenção, acolhimento e reinserção social tem agravado um cenário que já era preocupante.
A realidade é visível nas ruas da capital e de diversas cidades do interior. Barracas improvisadas, ocupação de praças, viadutos e calçadas passaram a fazer parte da paisagem urbana, enquanto cresce também a demanda por alimentação, atendimento médico, assistência social e moradia. Organizações que atuam diretamente com essa população relatam aumento constante na procura por ajuda, ao mesmo tempo em que denunciam insuficiência da rede de atendimento.
Especialistas apontam que o fenômeno resulta da combinação de fatores como desemprego, perda de renda, aumento do custo da moradia, dependência química, problemas de saúde mental e rompimento de vínculos familiares. Diante desse quadro complexo, políticas centradas apenas na retirada de pessoas das ruas ou em ações pontuais tendem a produzir resultados limitados, sem enfrentar as causas estruturais da exclusão.
Críticos da administração de Tarcísio afirmam que faltou prioridade política para enfrentar a questão. Em vez de ampliar programas de habitação social, atendimento multidisciplinar e reinserção no mercado de trabalho, o governo teria concentrado esforços em medidas de impacto imediato, incapazes de alterar a trajetória de crescimento da população em situação de rua.
O aumento desse contingente representa não apenas um drama humanitário, mas também um indicador do enfraquecimento das políticas de proteção social. Quando milhares de pessoas passam a viver sem acesso à moradia, alimentação adequada e serviços básicos, evidencia-se uma falha coletiva do poder público em garantir direitos fundamentais previstos na Constituição.
Mais do que números, a expansão da população em situação de rua revela histórias de perda, vulnerabilidade e abandono. Enfrentar esse desafio exige planejamento, investimento contínuo e integração entre políticas de assistência social, saúde, emprego e habitação. Sem uma estratégia consistente, a tendência é que o problema continue crescendo, aprofundando a desigualdade e tornando cada vez mais difícil a reconstrução da dignidade dessas pessoas.
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Novo Ensino Médio é criticado por não ajudar no trabalho ou no Enem, afastar da universidade e impelir para precarização
O Inova Educação, programa do então governador de São Paulo João Doria, foi a primeira experiência na rede pública com o Novo Ensino Médio, criado pela Medida Provisória 746, em setembro de 2016, nem cinco meses após Michel Temer tomar posse como presidente.
A reforma alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, retirando disciplinas tradicionais como literatura, história, geografia, artes, sociologia, filosofia, e colocando temas como empreendedorismo, projeto de vida, tecnologia, novidades que o pedagogo Felipe Willian Ferreira de Alencar classifica como “coisas”.
Alencar é autor do livro “Escolas que resistem: a educação pública contra o autoritarismo empresarial”, lançado em abril de 2026 pela Editora Lutas Anticapital, fruto da dissertação de mestrado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). No texto, ele critica a reforma que se apoiou na manutenção do trabalho precarizado e no afastamento das universidades.
“O adensamento cada vez mais profundo de reformas piora a educação em vários sentidos: na mudança do conteúdo, do currículo, do tempo da escola, da formação dos professores, da gestão da escola, de todo o funcionamento”, detalha o pesquisador.
O movimento que aconteceu com a presença maciça da iniciativa privada, principalmente por meio de fundações privadas, muitas delas ligadas ao mercado financeiro. Ao mesmo tempo, conta Alencar, faziam uma defesa aberta de que a rede pública não precisava de novos recursos financeiros.
Paralelamente, o programa desestruturou a rede pública, além de retirar horas de disciplinas essenciais para a formação do aluno. O governo Doria desmembrou o chamado itinerário formativo, no qual o aluno opta por determinadas áreas, em cerca de 270 disciplinas. Professores de matérias tradicionais ficaram sem aula e tiveram que aderir a lecionar empreendedorismo, por exemplo. O resultado foi falta de professores e aulas.
No primeiro semestre de 2022, foram 19.996 aulas sem atribuições, 22,1% do total de aulas. No semestre seguinte, piorou: 24.943, 27,8% do total. Alencar classifica esse momento de transição como período bolsonarista da educação de São Paulo, que pega parte da agenda da gestão neoliberal do PSDB de São Paulo, antes de Doria.
“A partir desse período mais atual, que é exatamente esse período bolsonarista, não só o neoliberalismo, como era com o PSDB, a gestão tucana liberal se tornou também uma gestão neoliberal e neofascista, que foi a característica do João Dória, que implantou políticas muito nefastas, e a gente vê uma continuidade com o Tarcísio [de Freitas – atual governador]”, aponta.
Em nota, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) disse que não adota mais o Inova Educação. “O currículo atualmente adotado segue a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Currículo Paulista e a matriz curricular do Estado de São Paulo.”
Durante o início do período Doria, houve aulas que Alencar classifica como “escandalosas” e que apontam para o objetivo de manter relações precarizadas de trabalho: curso de brigadeiro gourmet, de como ter um petshop, de como cuidar de cílios ou fazer sobrancelhas — tudo para um público que já trabalhava em atividades precarizadas.
Alencar conta que um dos discursos comuns nas aulas da nova grade era o controle emocional para condições adversas, “sempre atrelada essa questão do controle emocional com aguentar esse novo período histórico”.
Governo Tarcísio, uma continuação Na gestão do pré-candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos – SP), houve uma certa reformulação do que era o Inova Educação. Mas, segundo Alencar, a essência não mudou. “Ele manteve disciplinas do itinerário formativo, como empreendedorismo, mas ele afunilou a quantidade, porque, no governo Doria, houve em torno de 270 disciplinas, uma coisa impossível de administrar para educar.”
No entanto, a proximidade com a iniciativa privada e o utilitarismo continuam com disciplinas como oratória ou biotecnologia, em vez de biologia. Além disso, a plataformização da educação, protagonizada pelo atual secretário de educação, Renato Feder, empresário do ramo de tecnologia, replica em São Paulo sua gestão iniciada no Paraná.
Existem pelo menos 28 plataformas para o aluno usar na rede pública de ensino de São Paulo, de redação a preparo para o vestibular, de inglês a leitura de livro. “Agora, imagina a situação da rede estadual de São Paulo? Que são todas escolas muito bem equipadas, com internet, fibra ótica naquele nível super bom, só que não, essa não é a realidade”, ironiza Alencar.
Em resposta, a Seduc-SP disse que “a tecnologia é utilizada como recurso pedagógico complementar, integrada ao currículo, aos materiais didáticos, à formação docente e ao acompanhamento da aprendizagem” e que, entre 2023 e 2025, foram investidos R$ 340 milhões na ampliação da conectividade da rede, que atualmente atende 98,5% das escolas estaduais, além da distribuição de 744 mil equipamentos para escolas e professores.
Sobre as parcerias com instituições privadas, a Seduc informa que “são formalizadas por instrumentos jurídicos e têm como finalidade apoiar ações educacionais, formação de profissionais, desenvolvimento de projetos e compartilhamento de metodologias e tecnologias”.
Desprovação e resistência Após oito anos, o Novo Ensino Médio foi desaprovado em consulta pública feita pelo Ministério da Educação, em 2024. Para 76,80% dos professores, 70,75% dos gestores e 56,25% dos estudantes, a mudança não prepara os alunos para o atual Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para 52,9% dos professores, 65,5% dos estudantes e 64,1% dos gestores, o aumento da carga horária do ensino médio não prepara os alunos para conseguir trabalho. Além disso, 74% dos estudantes disseram que a carga horária imposta traz dificuldades para conciliar com o trabalho.
A implantação à força do projeto de educação de Temer teve resistência em São Paulo. Iniciado com três escolas de Guarulhos da rede estadual em diálogo com o campus da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) no município, o Grupo Escola Pública Democrática (GEPud) debate, propõe disciplinas alternativas a partir das comunidades, além de espalhar o modelo para outras escolas. Durante a pandemia, o grupo ajudou a subsidiar ações populares. Atualmente, com 15 escolas em Taboão da Serra, Embu das Artes, Itapecerica da Serra e na zona leste de São Paulo, também promove pesquisas e apresenta sugestões de políticas públicas.
A Seduc-SP diz que mantém “diálogo permanente com estudantes e com a comunidade escolar por diferentes canais institucionais”.
*BdF
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Tarcísio é um dos políticos mais medíocres dos últimos tempos. Aliás, ninguém é ministro da Insfraestrutura do goveno Bolsonaro impunemente.
A mensagem que Tarcísio passa agora, numa declarada e inequívoca traição ao clã, vai lhe custar o túmulo político.
O bolsonarismo casca grossa, sobretudo as toupeiras do Ipiranga ,não perdoarão o traíra.
O mais irônico dessa história, é Tarcísio, somente agora, dizer que Flavio tem muito o que esclarecer sobre a montanha de dinheiro de sua lavanderia vinda dos cofres públicos via Banco Master.
Ou seja, Tarcísio está dando uma dupla marretada em seus mecenas políticos e financeiros. Não adianta vir com uma suposta apuração técnica em busca de esclarecer os R$ 2 milhões que recebeu de Vorcaro via Zetel. A fonte desse volume de dinheiro, que foi a maior doação que recebeu, vem do mesmíssimo esgoto, mesmo que tenha saído estritamente de contas supostamente legais e pessoais. É dinheiro desviado de fundos públicos.
Há outras questões que envolvem esse amor verdadeiro entre Tzarcísio e Vorcaro.
As denúncias que ligam as privatizações do governo Tarcísio com Daniel Vorcaro e Nelson Tanure (sócio oculto do Banco Master) é o principal ponto que o Ministério Público está investigando.
A acusação central é que o governo Tarcísio estrutou uma “complexa arquitetura financeira nas desestatizações para favorecer o ecossistema do Banco Master”
Trocando em miúdos, as conexões sobre investigação que ligam o leilão de estatais ao grupo financeiro, apontam para vários pontos dessa conexão de amigos.
Há um elo, principalmente com a privatização da Sabesp e são muitas as evidências de favorecimento nessa relação.
Dito isso, o nome de Tarcísio está proibido nos bastidores da campanha de Flavio. A chamada ala ideológica do bolsonarismo acusa Tarcísio de largar a mão dos aliados do clã para tentar se blindar politicamente.
Enfim, o cenário é de guerra e as conexões financeiras que alimentam essa crise, revelam pontos extremamente explosivos nesse campo minado, porque Bolsonaro não deixará barato.
A conferir.
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Ministro do STF quer que governo paulista esclareça possível permuta política envolvendo orçamento estadual
O ministro Flávio Dino ampliou nesta terça-feira (12) o cerco do STF sobre a execução de emendas parlamentares e determinou que o governo de Tarcísio de Freitas apresente explicações formais sobre um suposto acordo político envolvendo a bancada federal paulista e o orçamento do Estado de São Paulo.
A decisão foi assinada no âmbito da ADPF 854, ação que acompanha o cumprimento das medidas de transparência, rastreabilidade e controle das emendas parlamentares após as decisões do Supremo sobre o chamado orçamento secreto.
No despacho, Dino determina que a Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo esclareça “se houve o citado ‘acordo político’ envolvendo permuta de emendas; em que termos teria sido celebrado; se houve alguma formalização jurídica e como está sendo assegurada a transparência na destinação dos recursos públicos”.
A cobrança surgiu após manifestação apresentada pela Transparência Brasil, Transparência Internacional Brasil e Associação Contas Abertas, entidades admitidas no processo como amici curiae, de acordo com Cleber Lourenço,ICL.
Segundo a petição enviada ao STF, parlamentares da bancada federal paulista teriam destinado R$ 316 milhões em emendas de bancada para programas escolhidos pelo governo estadual. Em contrapartida, cada parlamentar teria recebido a possibilidade de indicar cerca de R$ 10 milhões dentro do orçamento paulista.
O despacho reproduz trecho da manifestação das entidades:
“De acordo com matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo, de autoria de Daniel Weterman e Pedro Augusto Figueiredo, a bancada de parlamentares paulistas destinou R$ 316 milhões em emendas de bancada para programas escolhidos pelo governador e recebeu, em troca, a possibilidade de que cada parlamentar indicasse R$ 10 milhões no orçamento de São Paulo”.
As entidades sustentam que o modelo pode configurar uma tentativa de driblar as regras previstas na Lei Complementar 210/2024, aprovada justamente para limitar a fragmentação política das emendas de bancada.
O próprio despacho destaca o que determina a legislação:
“as emendas de bancada estadual de que trata o § 12 do art. 166 da Constituição Federal somente poderão destinar recursos a projetos e ações estruturantes para a unidade da Federação representada pela bancada, vedada a individualização de ações e de projetos para atender a demandas ou a indicações de cada membro da bancada”.
Segundo as entidades, o mecanismo utilizado em São Paulo teria transformado uma emenda coletiva em uma espécie de distribuição informal de cotas parlamentares.
O documento reproduz outro trecho da petição afirmando que:
“as indicações dos parlamentares paulistas se orientam a projetos e ações específicas, de modo que o acordo celebrado constitui uma tentativa de burla à vedação ao rateio e à individualização das emendas de bancada”.
As entidades também apontam falhas relacionadas à transparência e rastreabilidade dessas verbas.
Segundo o documento apresentado ao STF, o painel de acompanhamento atualmente disponível em São Paulo:
“traz baixa qualidade e não padroniza o descritivo do objeto”.
A manifestação também afirma que o sistema:
“não disponibiliza o CNPJ do beneficiário”;
“não apresenta interoperabilidade com outros sistemas, como URL que remeta à íntegra do convênio, do plano de trabalho e da prestação de contas”;
e ainda “não disponibiliza o número do convênio firmado com recursos da emenda”.
Entre os problemas apontados pelas entidades estão:
ausência de padronização dos objetos financiados; dificuldade de rastrear beneficiários finais; falta de integração entre sistemas; ausência de transparência sobre convênios e prestação de contas; e obstáculos para acompanhamento público da execução das verbas. Embora não faça juízo definitivo sobre eventual irregularidade, Dino transforma o caso paulista em um dos principais focos da nova etapa de monitoramento das emendas parlamentares.
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De acordo com a representação, o total de irregularidades alcança cerca de R$ 25,2 milhões
A prestação de contas da campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo em 2022 reúne uma série de inconsistências apontadas pelo Ministério Público Eleitoral de São Paulo, incluindo doação atribuída a uma pessoa já falecida, repasses feitos por doadores com renda incompatível e despesas milionárias sem comprovação suficiente.
Os apontamentos constam em representação formal apresentada à Justiça Eleitoral com base no artigo 30-A da Lei nº 9.504/97, que trata da captação e do uso ilícito de recursos em campanhas eleitorais. No documento, a Procuradoria Regional Eleitoral sustenta que as irregularidades podem, em tese, levar à cassação do diploma dos eleitos.
A peça é direta ao tratar da dimensão do problema. Segundo o Ministério Público Eleitoral, “o candidato não comprovou a regularidade de despesas eleitorais contraídas em montante superior a vinte e cinco milhões de reais”, grande parte quitada com recursos públicos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário.
De acordo com a representação, o total de irregularidades alcança cerca de R$ 25,2 milhões, o equivalente a aproximadamente 67,5 por cento das despesas contratadas pela campanha.
Doação em nome de pessoa morta Um dos pontos mais sensíveis citados no documento envolve uma doação de 600 reais atribuída a Tereza Akemi Nozaki Setoguchi. Segundo a Procuradoria, a suposta doadora constava no sistema de controle de óbitos.
Na avaliação do Ministério Público, o caso indica “possível arrecadação irregular” e levanta dúvidas sobre a origem real dos recursos utilizados na campanha.
Doadores com renda incompatível Outro eixo da representação trata de doações feitas por pessoas com renda incompatível com os valores transferidos. Nomes como Regina Celia Procopio Grisi, Gardel Rodrigues do Amaral e José Ivelto Castagna aparecem como doadores de valores elevados, apesar de renda formal incompatível.
Para o Ministério Público Eleitoral, a situação pode caracterizar o uso de terceiros para ocultar a origem do dinheiro.
Na peça, o órgão aponta que esse tipo de prática compromete a transparência do financiamento eleitoral e pode configurar irregularidade grave.
“O recebimento de recursos provenientes de fontes vedadas é considerado inconsistência grave, que denota o financiamento da campanha com recursos ilícitos”, afirma o Ministério Público na representação.
Empresas sob suspeita As inconsistências também atingem contratos firmados pela campanha. Um dos casos envolve a empresa Inove Administração Gestão e Participações em Serviços Médicos.
Segundo o Ministério Público, a empresa não teve a despesa devidamente comprovada e apresenta indícios de incompatibilidade operacional. Relatório citado na representação aponta que a sócia está inscrita no Cadastro Único de programas sociais, o que levanta dúvidas sobre a capacidade da empresa para prestar os serviços contratados.
Outro foco da investigação é a Beacon Comunicações Ltda., que concentrou a maior parte dos gastos da campanha.
Beacon concentrou mais de 65 por cento das despesas A empresa recebeu 24 milhões, 385 mil e 500 reais, o equivalente a 65,46 por cento do total de despesas da campanha.
Segundo o Ministério Público Eleitoral, não foram apresentados documentos suficientes para comprovar a regularidade integral dos serviços prestados.
A representação aponta ausência de detalhamento adequado, contratos incompletos e descrição genérica das atividades.
“As irregularidades comprometeram a transparência e a fiscalização” dos recursos utilizados na campanha, afirma o Ministério Público.
Análise jurídica aponta gravidade e risco de cassação Para a advogada e especialista em direito eleitoral Maíra Reccia, o artigo 30-A da Lei das Eleições trata diretamente da captação e da destinação ilícita de recursos financeiros em campanhas.
“O artigo 30-A fala da captação e ou destinação ilícita de recursos financeiros na campanha. A consequência, via de regra, é cassação”, afirmou.
Segundo ela, trata-se de uma conduta de alta gravidade dentro do sistema eleitoral.
“É uma conduta grave. A gente tem que analisar esses casos sob a ótica da gravidade e da má-fé, porque a consequência é também de extrema gravidade”, explicou.
A advogada destaca que, em situações como essa, o impacto pode atingir diretamente o mandato.
“Pode haver cassação do diploma. No caso de quem já está no exercício do mandato, é a cassação do diploma”, disse.
Maíra Reccia também ressalta que a legislação busca preservar a igualdade entre os candidatos.
“Essa legislação é importante porque tenta garantir a isonomia de condições entre os candidatos e coibir eventuais abusos”, afirmou.
Ela aponta ainda que casos envolvendo valores elevados e doações incompatíveis com a capacidade financeira dos doadores podem ser enquadrados como situações de extrema gravidade, de acordo com Cleber Lourenço, ICL.
“Uma vez comprovada arrecadação ou gastos ilícitos dessa envergadura, com valores altos e doadores que eventualmente não tinham condições de contribuir, você pode estar diante de uma hipótese gravíssima”, avaliou.
Segundo a especialista, além do artigo 30-A, esse tipo de situação pode também ser analisado sob a ótica de abuso de poder econômico.
“Para além do artigo 30-A, também se discute abuso de poder econômico, que pode levar à cassação e à inelegibilidade”, completou.
Campanha também pagou esposa de aliado Os apontamentos sobre as contas eleitorais se conectam a outro episódio envolvendo aliados do governador. A campanha de Tarcísio pagou 75 mil reais à jornalista Vanessa Mauri Campetti, esposa do deputado estadual Danilo Campetti, do Republicanos.
Danilo Campetti atuou próximo à campanha de 2022 e, posteriormente, assumiu mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo. Entre as contratações feitas em seu gabinete está Mauricio Pozzobon Martins, cunhado de Tarcísio, que passou a atuar como assessor parlamentar.
Mauricio Pozzobon também prestou serviços à campanha eleitoral, tendo recebido 60 mil reais por atividades descritas como administração financeira.
TRE aprovou contas com ressalvas Apesar dos apontamentos do Ministério Público Eleitoral, a prestação de contas da campanha foi aprovada com ressalvas pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo em maio de 2023.
Na ocasião, foi determinado o recolhimento de 613 mil 780 reais ao Tesouro Nacional por irregularidades no uso de recursos públicos.
O caso seguiu para o Tribunal Superior Eleitoral, que manteve a aprovação com ressalvas, aplicando critérios de proporcionalidade.
Governo se manifesta Procurada, a assessoria de comunicação do governador afirmou que a campanha contou com mais de 600 doadores e foi conduzida com total respeito às leis eleitorais.
Segundo a nota, a prestação de contas foi analisada e aprovada pela Justiça Eleitoral sem qualquer pendência.
A legislação eleitoral prevê que, comprovada a captação ou o gasto ilícito de recursos, pode haver cassação do diploma do candidato eleito.
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Conflitos de interesse nos leilões que entregaram o controle das estatais paulistas ligam o governador a Nelson Tanure
A doação milionária de campanha feita por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nas eleições de 2022 não é o único elo entre a instituição financeira e o governador bolsonarista.
As privatizações da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), com direito a foto da martelada, e da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), ambas em 2024, estão ligadas à figura de Nelson Tanure, sócio oculto do Banco Master e chamado de “comandante” por Vorcaro, segundo as apurações da Polícia Federal. Tanure é investigado hoje pelo Banco Central (BC), Polícia Federal (PF) e Ministério Público Federal (MPF).
Dois anos após a vitória de Tarcísio, que contou com R$ 2 milhões de doação de Zettel, as empresas Emae e Sabesp passaram a ser foco das atenções de executivos e do mercado financeiro visando sua posse. Foi neste período, no início de 2024, que ocorreu a constituição do Fundo Phoenix, um fundo sustentado por meio de ações da empresa Ambipar, uma multinacional brasileira líder em gestão ambiental e resposta a emergências, cujo presidente do conselho era Carlos Piani, hoje presidente da Sabesp.
O Fundo Phoenix tem Nelson Tanure como beneficiário final e era gerido pela Trustee DTVM, uma distribuidora de títulos e valores mobiliários ligada ao Banco Master.
Fundo Phoenix, de Tanure, no leilão da Emae Em abril de 2024, o recém-criado Fundo Phoenix venceu o leilão da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia) por R$ 1,04 bilhão. A empresa é responsável pelo controle da elevação da água do Rio Pinheiros, entre outras gestões hídricas, além da geração de energia elétrica em usinas hidrelétricas no interior do estado.
A garantia (lastro) do Fundo Phoenix para a Emae eram as ações da Ambipar, que sofreram uma valorização repentina de mais de 700% entre abril e outubro de 2024. Para a equipe técnica da CVM, fundos ligados ao Master e à Tanure agiram com a Ambipar para inflar artificialmente o valor de mercado da companhia.
Com o capital levantado por meio de debêntures e empréstimo da XP, o Fundo Phoenix realizou o pagamento à Emae. Já o dinheiro que a Emae tinha em caixa foi usado para comprar debêntures da Light (outra empresa do mesmo grupo econômico) e investir em CDBs do Banco Master, direcionando o capital da empresa recém-adquirida para beneficiar as instituições que financiaram a própria compra da companhia.
Master e Equatorial de olho na Sabesp Em junho de 2024, buscando recursos para comprar a Sabesp, Nelson Tanure e membros do Banco Master buscaram o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para articular um empréstimo. Nas reuniões, conforme reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, estavam presentes: Tanure, Reinaldo Hossepian, diretor do Banco Master, e a então assessora da área de fusões e aquisições do Banco, Karla Maciel.
Maciel liderou a área de fusões e aquisições do Banco Master durante o período de negociações da venda da Emae. Poucos meses depois, em outubro, ela tornou-se CEO da empresa, onde ficou até dezembro de 2025, quando o caso Master começa a tomar as manchetes dos jornais. Enquanto geriu a Emae, Maciel facilitou a compra de dívidas da Light.
Em julho de 2024, foi anunciada a posse de 15% das ações majoritárias da Sabesp pela Equatorial Energia, que venceu o processo de desestatização da Sabesp como única concorrente. Na época, Carlos Piani era presidente do conselho da Equatorial.
O processo de desestatização da Sabesp, concluído em julho de 2024, levantou suspeitas devido ao valor da venda. A empresa, que possuía lucros na ordem de R$ 56,2 bilhões, teve a venda de 15% das ações (R$ 6,9 bilhões), o que possibilitou o controle estratégico da companhia. No total, foram captados aproximadamente R$ 15 bilhões. A baixa competitividade também chamou atenção, com a Equatorial sendo a única concorrente, enquanto grandes empresas globais do setor permaneceram ausentes da disputa. Em 13 de fevereiro de 2026, as ações da Sabesp atingiram o patamar de R$ 152,50, uma valorização de aproximadamente 127% sobre o preço de venda da desestatização.
Antes conselheira do governo, depois, da Equatorial Nesse processo, destaca-se a figura de Karla Bertocco. Ela presidiu o Conselho de Administração da Sabesp poucos meses antes de integrar o conselho também da única interessada em comprar a companhia, a Equatorial, gerando assim um possível conflito de interesses.
Além disso, ela foi subsecretária de Parcerias e Inovação do Governo de São Paulo entre 2015 e 2018, presidente da Sabesp até 2018, diretora do BNDES até 2019 e, até dezembro de 2023, ocupava um cargo no conselho da Equatorial. Atualmente, Bertocco atua na Orizon Valorização de Resíduos.
Em julho de 2024, a federação PT-PCdoB-PV na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) encaminhou representação ao Ministério Público (MP-SP) solicitando a apuração de conflito de interesse e dano ao interesse público na participação de Bertocco no conselho de ambas as companhias.
A representação, assinada pelo deputado estadual Paulo Fiorilo (PT), contestou as alegações do governo do Estado e da Sabesp sobre a atuação da executiva. Segundo o documento, atas de reuniões do Conselho Diretor do Programa de Desestatização (CDPED) e do Conselho Gestor do Programa de Parcerias Público-Privadas (CGPPP) realizadas a partir de setembro de 2023 mostram que a executiva participava ativamente dessas reuniões, nas quais foram deliberadas matérias críticas relacionadas ao processo de privatização.
A federação também alegou que a Sabesp contratou uma empresa para prestar serviços de assessoria financeira especializada sob a supervisão do Conselho de Administração, do qual a executiva fazia parte.
Poucos meses depois, Carlos Piani deixou o conselho da Ambipar e da Equatorial para assumir a presidência da Sabesp. Ele é considerado peça-chave para executar a recompra da Emae pela Sabesp a partir de um fundo que ele mesmo estruturou, permitindo assim que a Sabesp exerça o controle de todos os mananciais da Região Metropolitana de São Paulo e do fluxo dos rios Pinheiros e Tietê.
Com Tanure, Emae compra papéis do Master Em janeiro de 2025, com Nelson Tanure na presidência do Conselho de Administração da Emae, a empresa comprou R$ 160 milhões em CDBs (Certificado de Depósito Bancário, um título de renda fixa emitido por bancos para captar recursos) do Letsbank, banco também ligado ao conglomerado do Banco Master.
Diante disso, em maio, a CVM suspeitou que a valorização da Ambipar pudesse ter sido feita de forma artificial para beneficiar a compra da Emae por Tanure. O documento da CVM não citou Piani, apenas o controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi. A investigação afirmou que “se tratava da criação de valor nesse ativo [Ambipar] para que pudesse ser empregado de forma mais eficiente em uma operação estratégica subsequente e de grande porte, a aquisição da Emae”, beneficiando Tanure.
Em outubro de 2025, Tanure não pagou o empréstimo com a XP Investimentos que havia lhe permitido comprar a Emae. O banco então executa a dívida e assume o controle da Emae.
Sob a gestão de Carlos Piani, a Sabesp (agora privatizada) comprou a Emae do Fundo Phoenix. A reportagem tentou contato com a CVM, mas não obteve retorno para saber o desfecho e encaminhamentos da investigação.
Suspeitas na Justiça No início de abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou duas ações que pediam a suspensão do processo de privatização da Sabesp. Na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1180, o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), a Rede Sustentabilidade, o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Verde (PV) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) questionavam a Lei municipal 18.107/2024, que autoriza firmar contratos de prestação de serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, além do contrato de concessão com a Sabesp e do cronograma de privatização da estatal.
Já na ADPF 1182, o PT contestava a Lei estadual 17.853/2023, que autoriza o Poder Executivo a realizar a desestatização da Sabesp, com alienação de participação societária. José Faggian, atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo (Sintaema-SP) e funcionário da Sabesp há 25 anos, avalia o processo de privatização da Sabesp como “uma situação muito suspeita”.
“Então a gente vê que o Tarcísio recebeu doações bastante vultuosas do grupo do Banco Master e, em sequência, a gente tem a privatização da Sabesp, da Emae e recursos da Emae que acabam sendo direcionados para o Banco Master. É claro, é nítido que existe uma ligação por trás disso, mas infelizmente existe uma blindagem do governo do Estado”, critica.
Pedido de investigação ao MP As perguntas sobre o conhecimento prévio do governo de São Paulo sobre a manipulação das ações da Ambipar, a falta de fiscalização da Comissão Especial de Contratação no leilão da Emae, o desenho do leilão da Sabesp com aparente falta de concorrência, assim como o preço de venda das ações da Sabesp abaixo do valor de mercado e a recompra da Emae pela Sabesp podem indicar lesão ao tesouro público. Essas questões foram levantadas pelo deputado estadual Antonio Donato (PT-SP), em uma representação protocolada no Ministério Público de São Paulo (MPSP), em março deste ano.
De acordo com o documento, isso ocorreria se comprovado que houve perda patrimonial para o Estado devido a decisões tomadas com dolo ou culpa grave, como a venda de ativos por preço inferior ao de mercado, ou a aquisição de ativos inflacionados.
Também pode demonstrar que houve violação aos princípios da administração pública se comprovado um suposto conflito de interesses como o de Carlos Piani e Karla Bertocco e a possível influência de doações de campanha de Fabiano Zettel ao governador Tarcísio de Freitas. O pedido de investigação ainda está sendo analisado pelo Ministério Público e, até o momento, não houve andamentos.
O que dizem as empresas À reportagem, a Sabesp disse que a aquisição da Emae ”foi uma operação aprovada pelo Conselho de Administração, passando pelo escrutínio do Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica], que verificou aspectos concorrenciais, e da Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica], que avaliou a capacidade técnica, idoneidade financeira, regularidade jurídica e fiscal da Sabesp”.
Sobre Carlos Piani, a companhia alegou que jamais houve qualquer relação com o fundo Phoenix. A companhia ressaltou que Piani atuou como presidente do Conselho de Administração da Ambipar até setembro de 2024, renunciando ao cargo antes de assumir a presidência da Sabesp em outubro de 2024.
A Sabesp disse ainda que não existe qualquer relação entre Piani e a estruturação do fundo Phoenix, ou a valorização das ações mencionadas pela reportagem. “Questões relativas à valorização e desvalorização de ações são de competência exclusiva da CVM, que realiza as apurações necessárias. Tanto a Sabesp quanto o seu diretor-presidente não tinham conexão com a Emae até 2025, quando a Sabesp celebrou o acordo de aquisição.”
Sobre os supostos conflitos de interesse apontados na atuação de Karla Bertocco, a empresa apontou que “não houve qualquer conflito de interesse no passado ou riscos de conflitos futuros”.
Em nota, a Emae disse apenas que “todas as informações acerca de operações financeiras e recursos em caixa podem ser verificadas nas Demonstrações Financeiras, auditadas por auditorias independentes e divulgadas trimestralmente ao mercado, além de estarem disponíveis na CVM, na B3, bem como no site de Relações com Investidores da Emae”.
A empresa não explicou como justifica a atuação simultânea de Karla Bertocco no Conselho de Administração da Sabesp e no conselho da Equatorial, diante das alegações de conflito de interesses.
O que diz o governo de São Paulo A Secretaria de Parcerias em Investimentos afirmou que os processos de desestatização da Sabesp e da Emae foram conduzidos com rigor técnico, transparência e ampla participação institucional, seguindo todas as etapas previstas no Programa de Parcerias em Investimentos (PPI-SP).
No caso da Sabesp, o processo foi estruturado com base em estudos técnicos e submetido a consulta pública e audiências, com quase “mil contribuições da sociedade”, disse a pasta.
No caso da Emae, o leilão realizado na B3 também seguiu todos os procedimentos legais, relata a secretaria. “Resultou em proposta vencedora com valor 33,68% acima do preço mínimo estabelecido em edital, refletindo a atratividade e a competitividade do processo. A operação foi concluída após aprovação dos órgãos reguladores competentes, como Aneel e Cade, e seguiu integralmente os ritos legais e institucionais aplicáveis.”
Por fim, questões relacionadas ao mercado de capitais e à atuação de agentes privados são de competência dos órgãos reguladores responsáveis como a CVM, que possui autonomia para conduzir eventuais apurações, salientou a pasta. “O Governo de São Paulo reforça seu compromisso com a lisura dos processos, a atração de investimentos e a melhoria dos serviços públicos, com foco em resultados concretos para a população.”
O Brasil de Fato procurou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), bem como a defesa de Nelson Tanure, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
*BdF
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O encontro ocorreu em 2025, em meio a articulações políticas do atual governador de São Paulo
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou de um jantar e tirou fotos com o empresário do funk Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, da GR6 Explode, preso na terça-feira (15) na Operação Narco Fluxo, da Polícia Federal, que mirou um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital).
“Nosso país estaria muito melhor se tivéssemos mais pessoas como você. Que cara f*!”, escreveu Oliveira no Instagram, na ocasião, ao publicar uma série de fotos com o governador.
O jantar ocorreu em 12 de agosto do ano passado, na casa do cantor Latino. O músico, apoiador do governador, buscava aproximar Tarcísio de empresários do ramo do entretenimento e de outros setores. Foram servidos carneiro e vinho.
A reportagem procurou Tarcísio para falar sobre o encontro, mas ainda não teve resposta.
A assessoria de imprensa do Palácio dos Bandeirantes foi procurada por e-mail e por telefone por volta das 13h, com pedido de posicionamento do governador. Por telefone, a assessoria informou que enviaria uma resposta até as 14h, prazo solicitado pela reportagem, o que não ocorreu.
A Secretaria de Comunicação também foi procurada por mensagem via WhatsApp, às 12h50, mas não respondeu.
Segundo a PF, a Operação Narco Fluxo teve o objetivo de “desarticular associação criminosa voltada à movimentação ilícita de valores mediante criptoativos no Brasil e no exterior”.
Oliveira e outros empresários do funk foram alvos da operação devido à suspeita de que agenciariam artistas que ocultariam valores do tráfico.
Os principais alvos da ação de terça-feira foram os músicos MC Ryan e MC Poze do Rodo, cujas defesas negam as acusações. “O volume financeiro movimentado pelo grupo ultrapassa R$ 1,6 bilhão”, disse a PF. A defesa de Oliveira contesta a acusação, dizendo que os repasses do empresário aos demais alvos da operação se referiram a pagamentos decorrentes de sua atividade musical.
Mais de 200 policiais federais cumpriram 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pela 5ª Vara Federal em Santos. A prisão de Oliveira foi confirmada pela Folha com sua defesa.
Na ocasião do encontro entre Tarcísio e Oliveira, o governador era cotado como um possível candidato à Presidência. “Quanta honra poder receber o nosso (quem sabe!) futuro presidente e atual governador de SP aqui em casa numa noite tão agradável, ao lado de amigos e empresários. Foi épico!!”, escreveu Latino, que também publicou fotos do jantar.
Embora Tarcísio negasse, seus aliados, na época, viam em encontros dessa natureza tentativas de viabilizar sua candidatura presidencial, em uma aproximação com possíveis apoiadores — o governador era criticado por bolsonaristas.
Uma semana antes, em 7 de agosto, o governador havia ido a Brasília e visitado o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que estava em prisão domiciliar e, no mesmo dia, ao lado dos governadores de oposição, fez um discurso cobrando ações do governo Lula (PT) contra o tarifaço imposto ao Brasil, naquele período, por Donald Trump.
Em dezembro, Bolsonaro indicou seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como seu candidato, e Tarcísio reafirmou que disputaria a reeleição em São Paulo.
Oliveira tentou entrar na política em 2016, quando foi candidato a vereador na capital paulista pelo extinto PSL (partido que se fundiu ao DEM em 2021 para formar o União Brasil) e, em 2024, pediu votos para Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo.
O empresário é defendido pelos advogados criminalistas José Luis Oliveira Lima e Bruno Dallari Oliveira Lima.
Por meio de nota, sua defesa afirma que “no âmbito da Operação Narco Fluxo, os valores e transações financeiras mencionados referem-se a relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal”.
“A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação e prestando os esclarecimentos necessários”, segue o texto.
“Rodrigo Oliveira e a GR6 reafirmam, ainda, seu compromisso com a legalidade, a transparência e a condução ética e responsável de suas atividades”, conclui a nota.
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No primeiro turno, o ex-ministro da Fazenda marca 42,6% das intenções e encosta no atual governador
Pesquisa AtlasIntel/Estadão sobre a disputa pelo governo de São Paulo, divulgada nesta segunda-feira (30), revela um cenário em disputa entre o atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT).
O levantamento também traz as intenções de voto por região do estado de São Paulo e mostra Haddad liderando na capital paulista:
Capital
Fernando Haddad: 47,4%
Tarcísio de Freitas: 41,5%
Outros: 5,9%
Não sabem/Nulos/Brancos: 5,3%
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