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Gilmar Mendes: Em 24h, STF encontra dados do Master sobre ministros após meses com Mendonça

O ministro Gilmar Mendes afirmou que integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) encontraram, em menos de 24 horas de acesso aos dados brutos do celular de Daniel Vorcaro, elementos envolvendo outros ministros que, segundo ele, haviam “passado despercebidos” durante os meses em que o acervo do caso Master permaneceu sob a guarda de André Mendonça. No voto divulgado nesta segunda-feira (28), Gilmar relata que o material só foi compartilhado após sucessivos pedidos e aponta informações relacionadas a Kassio Nunes Marques e a seu filho, o advogado Kevin Marques.

A revelação consta do voto apresentado por Gilmar na questão de ordem da Petição 16.662, julgamento em que o Plenário do STF discute quem deve conduzir essa frente do caso Master, como ela deve tramitar e quais ministros podem participar de sua análise. A controvérsia surgiu depois que o presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu o procedimento e o levou ao colegiado. Gilmar defende que essa petição seja reunida à Pet 16.704 e, depois, redistribuída pelas regras regimentais do Supremo.

Segundo o voto, os demais integrantes do colegiado só receberam acesso aos dados brutos na tarde de 14 de setembro, véspera do julgamento da questão de ordem sobre a condução das apurações. Gilmar afirma que o material estava havia “muitos meses” com Mendonça e que foram necessários “sucessivos ofícios” diante do que classificou como uma resistência inicial do relator em disponibilizar a íntegra do acervo.

Foi nesse intervalo que, segundo Gilmar, apareceram informações que não haviam recebido a mesma atenção.

“Em menos de vinte e quatro horas de acesso direto a esse acervo, já foi possível identificar elementos que reclamam atenção desta Corte e que passaram despercebidos ao escrutínio atento do eminente Relator”, escreveu.

Gilmar sustenta que a análise integral do material mostrou relações de Vorcaro com diferentes autoridades e parentes de autoridades. Ele contrapõe esses dados aos relatórios produzidos por determinação de Mendonça sobre informações envolvendo Alexandre de Moraes e afirma que elementos que apontavam para outras direções não receberam “igual escrutínio”.

Entre eles estão mensagens que, na avaliação de Gilmar, exigem esclarecimentos sobre Nunes Marques antes que o STF prossiga com os julgamentos relacionados ao Master. O ministro ressalva que o material não permite concluir pela existência de irregularidade ou impedimento de Nunes, mas considera que há dúvidas que precisam ser examinadas.

Gilmar pede levantamento de magistrados citados no caso Master
A partir desse quadro, Gilmar incorporou ao voto uma proposta apresentada inicialmente por Flávio Dino: identificar magistrados de todos os tribunais brasileiros mencionados nas investigações do Master e, entre eles, aqueles sobre os quais existam indícios sólidos de recebimento indevido de valores.

O levantamento alcançaria STF, Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST) e os demais tribunais do país. O critério inclui valores provenientes do Master, de empresas ligadas ao banco, de seus sócios ou administradores, recebidos diretamente pelo magistrado ou por intermédio de parentes próximos. Para essa finalidade, Gilmar considera indevido o recebimento sem causa jurídica “lícita e demonstrável”.

A medida também serviria para definir quem pode participar dos julgamentos. Gilmar afirma que, enquanto não forem conhecidos os ministros mencionados no acervo e as circunstâncias dessas referências, o Supremo não terá como saber se algum deles está impedido de votar.

“Enquanto não se souber quais integrantes desta Corte foram mencionados e em que condição, não se saberá quem pode votar e quem se acha impedido nos feitos correlatos”, escreveu.

Depois do levantamento, a proposta prevê manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e dos próprios magistrados citados. Gilmar também defende reunir as duas frentes do caso Master que tramitam no Supremo — as Pets 16.662 e 16.704 — e redistribuí-las pelas regras regimentais da Corte.

Para o ministro, submeter informações sobre alguns magistrados a uma apuração aprofundada e não fazer o mesmo com elementos relacionados a outros comprometeria o processo.

“Apuração parcial é apuração viciada”, afirmou.

Mensagens citam julgamento e filho de Nunes Marques
Um dos episódios destacados por Gilmar ocorreu em 1º de outubro de 2024. Naquele dia, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, escreveu a Vorcaro: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, registrou o resultado de uma votação: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André) desprovido o recurso da União”.

Poucos minutos depois, Rennó encaminhou a Vorcaro o contato de Kevin Marques, filho de Nunes Marques, acompanhado da mensagem: “Dominado aqui”.

Gilmar ressalva que conversas entre terceiros não permitem concluir que seu conteúdo seja verdadeiro. O que chamou a atenção do ministro foi a correspondência entre a mensagem e um julgamento efetivamente realizado pelo STF naquele dia.

Tratava-se de um recurso envolvendo a Destilaria Alcídia. O placar foi exatamente o descrito na conversa: Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques formaram a maioria; Gilmar e Mendonça ficaram vencidos.

O voto também registra que Nunes havia aparecido como impedido no processo em fevereiro de 2024. No mês seguinte, retirou o impedimento e se declarou habilitado a votar. Em setembro, pediu vista e, em 1º de outubro, apresentou o voto que desfez o empate e formou a maioria.

Nunes Marques afirmou que o impedimento havia sido registrado porque ele atuara no caso quando era vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Depois, concluiu que não estava tecnicamente impedido por se tratar de uma tese jurídica ampla e pediu a correção.

O ministro também declarou nunca ter votado em favor de Vorcaro ou do Master, nunca ter trocado mensagens com o banqueiro e jamais ter autorizado alguém a falar em seu nome.

Outras mensagens mencionam Consult e Kevin Marques
O voto reproduz ainda outras conversas entre Rennó e Vorcaro nas quais aparece o contato de Kevin.

Em agosto de 2025, Rennó escreveu que, entre os “pagamentos essenciais”, estava faltando “a consult”. Em seguida, encaminhou o contato de Kevin e escreveu “Único ‘meu’ que faltou”. Mais tarde, informou: “Foi pago”.

Em julho, o mesmo contato havia sido enviado acompanhado da pergunta: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”.

O material não permite afirmar que Kevin recebia R$ 500 mil mensais, nem estabelece que o valor mencionado tivesse como destinatário o filho de Nunes. O próprio Gilmar adverte: “são conversas, e conversas não são condenações”.

O voto também menciona reportagens baseadas em dados do Coaf segundo as quais Kevin recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências. A empresa teria recebido R$ 18 milhões entre agosto de 2024 e julho de 2025, sendo R$ 6,63 milhões do Master e R$ 11,38 milhões da JBS.

Kevin afirmou que os pagamentos remuneraram trabalho na área tributária e negou que suas empresas tenham mantido negócios com o Master ou a JBS. A Consult declarou que os valores pagos ao advogado correspondiam a serviços técnicos e jurídicos. Nunes Marques afirmou nunca ter prestado serviços ou consultoria à empresa.

Contrato poderia render R$ 427 milhões
Outro conjunto de informações citado por Gilmar envolve um contrato de honorários que poderia alcançar R$ 427 milhões e que, segundo reportagem mencionada no voto, já integrava o material enviado pela Polícia Federal ao gabinete de Mendonça.

O acordo com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos previa honorários de 5% sobre valores que o Master recebesse em 12 processos ligados ao setor sucroalcooleiro. Uma das integrantes do escritório é Camilla Ramos, mulher do desembargador federal Newton Ramos, do TRF-1.

Essas ações discutiam indenizações relacionadas ao controle de preços do açúcar e do álcool, a mesma controvérsia jurídica do processo da Destilaria Alcídia.

Nunes Marques sustentou que o Master não era parte naquele processo. Gilmar reconhece esse fato, mas afirma que a tese jurídica definida pelo STF poderia produzir efeitos sobre outras ações nas quais o banco tinha interesse econômico.

Gilmar volta a advertir que os elementos não permitem antecipar uma conclusão contra Nunes. “Conversas de terceiros não são condenações, e reportagens não são provas”, escreveu. Para ele, as informações precisam ser esclarecidas antes de o Supremo continuar a julgar os processos relacionados ao Master.

Gilmar acusa Mendonça de viés político-eleitoral
Na parte mais dura do voto, Gilmar acusa Mendonça de imprimir “inequívoco viés político-eleitoral” à condução do caso.

Segundo ele, informações envolvendo Alexandre de Moraes já haviam vazado em março de 2026 e apareciam em relatório da Polícia Federal no mês seguinte, mas Mendonça só determinou novas providências durante o período eleitoral. Gilmar também critica o levantamento do sigilo antes de o Plenário analisar a controvérsia.

As afirmações são acusações feitas por Gilmar no voto e não conclusões já estabelecidas pelo STF.

Ao defender que o mesmo critério seja aplicado a todos os nomes que aparecem no acervo, Gilmar resume a posição em uma frase: “Os fatos serão apurados — todos eles e de todos.”

Pela proposta, o STF deverá reunir e redistribuir os procedimentos, identificar os magistrados associados a indícios sólidos de pagamentos indevidos e ouvir a PGR e os próprios citados antes de retomar o julgamento.

*Cleber Lourenço/ICL


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Deputado pede ao STF investigação sobre suposto lucro de Flávio Bolsonaro com bets

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir uma investigação sobre uma eventual participação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em negócios envolvendo casas de apostas no Rio de Janeiro.

Lindbergh quer saber se o senador lucrava, direta ou indiretamente, com a estrutura empresarial da RioPag S/A, companhia que detinha a exclusividade na intermediação dos pagamentos das bets credenciadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). O pedido também levanta a hipótese de que a participação teria ocorrido por meio de pessoas interpostas, os chamados laranjas.

O pedido foi apresentado como um aditamento a uma notícia de fato protocolada pelo parlamentar no dia 23 de setembro. A petição original já pedia que Flávio fosse investigado e apontava a hipótese de que o advogado Willer Tomaz de Souza atuaria como interposta pessoa do senador.

Entre os fatos novos acrescentados ao STF está uma reportagem do Núcleo Investigativo do ICL Notícias, em parceria com a newsletter Noites Húngaras, assinada pelos jornalistas Alice Maciel e Paulo Motoryn. A investigação jornalística revelou que Lídia Maria Figueiredo Mazelli passou de empregada do escritório de Willer Tomaz à dirigente de 14 empresas ligadas ao grupo.

O aditamento também cita a rescisão do contrato da RioPag pela Loterj e uma manifestação de Flávio Bolsonaro contra a proibição das apostas esportivas no país. Os episódios ocorreram no mesmo dia em que a reportagem sobre Lídia se tornou pública.

Vocês vão parar no tempo?', diz Flávio Bolsonaro ao ser questionado sobre 'Dark Horse' | Jornal do Comércio

Lindbergh quer identificar quem está por trás da RioPag
A RioPag mantinha contrato com a Loterj para processar, com exclusividade, depósitos, pagamentos e saques das casas de apostas credenciadas pelo estado.

O contrato nº 03/2023 foi inicialmente firmado com a Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia, posteriormente denominada RioPag. O acordo tinha valor estimado de R$ 32 milhões, vigência de cinco anos e previa o repasse à Loterj de 26,455% da receita obtida com as taxas de intermediação.

Segundo o aditamento, a licitação teve duas participantes. A Idea Maker, que havia oferecido repasse de 26% da receita, foi desclassificada por apresentar o percentual com duas casas decimais, enquanto o edital exigia três. Com isso, a então Pixs permaneceu como única concorrente habilitada.

A petição também chama atenção para a rentabilidade do negócio. Segundo o documento, as taxas cobradas chegaram a variar de 1% a 2,5% nos depósitos e de 0,5% a 1% nos saques. Em janeiro de 2024, a intermediadora teria recebido mais de R$ 30 milhões de uma única casa de apostas, enquanto o Estado arrecadou R$ 13 milhões em tributos sobre a receita líquida da mesma operadora.

Um dos pontos centrais do aditamento é descobrir quem efetivamente controlava a empresa. Segundo a petição, Willer Tomaz chegou a admitir ser cotista do fundo que controla a Capital Pretium S.A., dona da RioPag, sem revelar o nome do fundo ou de seus parceiros. Posteriormente, declarou não ser sócio, cotista ou acionista da RioPag e afirmou atuar exclusivamente como advogado da companhia.

O documento também destaca o papel de Lídia Mazelli na estrutura empresarial. Ela manteve vínculo formal de emprego com o escritório Willer Tomaz Advogados entre março de 2019 e setembro de 2020. Quatro dias depois do fim desse vínculo, já aparecia como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos e, na mesma época, assumiu a diretoria da WT Administração de Imóveis e Bens.

Ao todo, o levantamento jornalístico identificou Lídia na direção de 14 sociedades dos setores imobiliário, de aviação, comunicação, mineração, investimentos e meios de pagamento. Entre elas estão a RioPag e sua controladora, a Capital Pretium.

Após a publicação, Lídia afirmou, em nota, ser bacharel em Administração e ter exercido efetivamente os cargos de diretora estatutária, com atos de gestão. Ela também declarou ter trabalhado em empresas de consultoria e aviação do grupo até junho deste ano.

Contrato foi rescindido pela Loterj
Outro fato levado por Lindbergh ao STF foi a rescisão do contrato da RioPag. O episódio ocorreu após uma disputa envolvendo recursos públicos que estavam sob custódia da empresa.

Segundo o documento, a nova gestão da Loterj determinou, em abril, a transferência imediata de um saldo acumulado de R$ 18,5 milhões. Após ser cobrada, a RioPag alegou que os recursos haviam sido aplicados em uma estrutura financeira de longo prazo e propôs devolvê-los de forma parcelada até 2029.

Em julho, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 20,9 milhões nas contas da companhia. Posteriormente, a RioPag transferiu R$ 16,5 milhões à Loterj e considerou a dívida quitada, enquanto a autarquia apontou a existência de saldo remanescente.

No dia 23 de setembro, a Loterj rescindiu unilateralmente o contrato. A autarquia apontou, entre as irregularidades, falta de transparência, obstáculos à fiscalização e atos de gestão financeira sobre recursos públicos sem fundamento contratual ou autorização administrativa.

A Loterj aplicou multa de R$ 4,8 milhões e determinou a devolução de mais de R$ 2,1 milhões referentes aos ganhos financeiros obtidos com os recursos retidos. De acordo com o aditamento, a cobrança total alcança R$ 9,4 milhões.

A RioPag sustenta que não houve dívida ou retenção indevida. A empresa afirma que a custódia foi determinada pela própria Loterj e que os recursos permaneceram preservados e foram rentabilizados.

Lindbergh pede quebra de sigilos
Com o aditamento, Lindbergh pede a abertura de uma investigação para apurar a eventual participação de Flávio Bolsonaro nos resultados econômicos da estrutura empresarial.

O deputado solicita que a Polícia Federal tenha prazo inicial de 60 dias para realizar uma série de diligências. Entre elas estão o afastamento dos sigilos bancário e fiscal da RioPag e da Capital Pretium, além da identificação dos cotistas e beneficiários finais do fundo que controla a companhia.

Lindbergh também pede relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), informações do Banco Central e o compartilhamento de elementos da Operação Sem Desconto.

O pedido alcança ainda a relação entre Flávio e Willer Tomaz. O documento cita viagens internacionais realizadas pelos dois e o uso, pelo senador, de imóveis e aeronaves ligados a empresas da estrutura. A petição pede acesso a registros de aeronaves, planos de voo e manifestos de passageiros para aprofundar essa linha de investigação.

Lindbergh pede ainda que sejam ouvidos Lídia Mazelli, o ex-presidente da Loterj Hazenclever Lopes Cançado e outros envolvidos nos fatos, além da apuração da regularidade da licitação e da execução do contrato com a Loterj.

A petição aponta, em tese, possíveis crimes de lavagem de dinheiro, peculato ou apropriação indébita, corrupção e ilícitos relacionados à licitação e à execução de contratos administrativos. O pedido busca apurar se a estrutura empresarial descrita no documento era utilizada para ocultar seus reais beneficiários e se Flávio Bolsonaro figurava, direta ou indiretamente, entre eles.

*Felipe Rabioglio/ICL


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Quando o escândalo chega ao quintal da velha mídia, o silêncio começa

Foi um verdadeiro festival.

Durante semanas, a velha mídia transformou o STF em uma espécie de vilão nacional de plantão. Cada decisão, cada ministro, cada conflito institucional servia de matéria-prima para manchetes alarmistas, colunas indignadas e intermináveis discussões destinadas a produzir uma conclusão política muito conveniente: era preciso desgastar o Supremo e, por tabela, criar desgaste para Lula.

O problema é que a realidade, essa inconveniente senhora que insiste em aparecer quando menos se espera, resolveu mudar o roteiro.

O espetáculo montado para atingir o STF acabou produzindo um efeito político que seus autores talvez não tivessem previsto: o desgaste passou a respingar muito mais no campo bolsonarista, especialmente em Flávio Bolsonaro.

E então veio o caso Banco Master, com as mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro e as revelações sobre relações envolvendo personagens do Judiciário e pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques.

Entre os elementos divulgados está um contrato que poderia alcançar R$ 427 milhões em honorários de êxito, relacionado a ações envolvendo precatórios e interesses do Banco Master. Kassio Nunes Marques nega ter participado do contrato ou atuado em favor de Vorcaro ou do banco.

Ora, se o argumento era que o STF precisava ser vasculhado até a última vírgula quando as suspeitas serviam para atingir Lula, por que a mesma lupa não deveria permanecer sobre a mesa quando surgem fatos que envolvem personagens ligados ao universo bolsonarista?

Aí acontece o milagre editorial: o STF desaparece das manchetes.

O tribunal que ocupava horas de televisão, páginas de jornais e quilômetros de comentários passa, de repente, a parecer uma instituição quase invisível.

Convenientemente invisível.

É como se o botão de emergência da velha mídia tivesse duas posições: “escândalo quando interessa” e “silêncio quando incomoda”.

Mas jornalismo não deveria funcionar assim.

Se há suspeitas, que sejam investigadas. Se não há provas, que isso seja claramente informado. Se existem documentos, que sejam publicados e contextualizados. Se existem negativas, que sejam igualmente registradas.

O que não pode existir é uma imprensa que exige transparência absoluta dos adversários e subitamente descobre a delicadeza, a cautela e o silêncio quando a investigação começa a alcançar seus aliados políticos.

E talvez seja justamente por isso que todo aquele festival contra o STF tenha produzido um resultado tão diferente do esperado.

Tentaram transformar o Supremo em problema eleitoral para Lula. No caminho, acabaram abrindo uma janela para que o eleitor enxergasse as conexões políticas e financeiras que cercam o universo bolsonarista.

Agora, o que se espera é simples: menos teatro, menos manchete seletiva e mais jornalismo.

Porque, quando a imprensa decide quem merece holofote e quem merece silêncio, o problema deixa de ser apenas aquilo que está sendo investigado.

Passa a ser também aquilo que deliberadamente deixa de ser investigado com a mesma intensidade.


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Governo já monitorava risco apontado por Moraes enquanto extrema direita se mobiliza contra STF

Suspeita envolve manipulação de informações; Eduardo Bolsonaro busca novas sanções e Jason Miller pressiona STF

O governo brasileiro já monitorava o risco de grupos estrangeiros usarem a manipulação de dados, a produção de informes e estruturas públicas ou privadas para interferir no ambiente político do país antes de Alexandre de Moraes apontar a possível participação de agentes externos na produção de um relatório da Polícia Federal. A suspeita surge enquanto atores da extrema direita intensificam a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) no exterior, às vésperas da eleição.

Nas últimas semanas, a “produção de informes” e a manipulação de dados passaram a ser tratadas em setores do governo como potenciais áreas de atuação internacional. A preocupação é que eventuais operações sejam usadas para aprofundar a instabilidade política durante o processo eleitoral.

“A declaração do ministro não surpreendeu ninguém”, afirmou à reportagem um interlocutor em Brasília.

Na área de inteligência, a possibilidade de interferência externa também é considerada crível. A crise política envolvendo o STF é vista como uma vulnerabilidade que pode ser explorada por atores estrangeiros interessados em influenciar o ambiente brasileiro. A avaliação, porém, é de que a suspeita apresentada por Moraes precisa agora ser submetida a uma investigação técnica.

“Tudo é crível”, resumiu um integrante da área de inteligência ouvido pela reportagem.

Moraes fala em relatório produzido fora da PF
A acusação apareceu numa manifestação de 44 páginas enviada por Moraes no domingo (14) ao presidente do STF, Edson Fachin, no âmbito da Petição 16.704. O documento respondeu a um pedido de esclarecimentos da Presidência da Corte em meio à crise provocada pelas investigações do Banco Master.

Moraes questiona a origem de um relatório da Polícia Federal que reuniu informações contra ele e sustenta que os metadados do arquivo mostram que o documento não teria sido produzido integralmente dentro da corporação.

“O relatório não foi produzido integralmente na Polícia Federal, mas sim com auxílio de órgão externo, provavelmente órgão estrangeiro”, escreveu. Na mesma passagem, classificou o episódio como uma “clara tentativa de interferência externa nas eleições brasileiras de 2026”.

Mais adiante, Moraes afirma que o tempo de elaboração seria incompatível com a complexidade do trabalho e diz que os metadados demonstrariam que o documento “não foi produzido efetivamente pela Polícia Federal, mas sim por agentes externos — pela forma de produção, provavelmente estrangeiros”.

Na versão apresentada pelo ministro, o relatório teria chegado pronto à PF e sido posteriormente inserido nos computadores da instituição. Em outro trecho, Moraes diz que o documento teria sido “‘plantado’ nos computadores da PF” e associa o episódio às pressões internacionais sofridas pelo STF, entre elas cancelamentos de vistos e sanções aplicadas pelos Estados Unidos.

A manifestação não identifica país, agência, organização ou pessoa estrangeira que teria produzido o material. É justamente esse o ponto que, na avaliação da inteligência, transforma a acusação numa questão que precisa ser investigada.

Inteligência vê vulnerabilidade a operações externas
O primeiro passo seria determinar se houve realmente a quebra da cadeia de custódia indicada por Moraes. Isso significa reconstruir por onde passaram os dados e o relatório, quem teve acesso a eles e se houve manipulação fora do ambiente autorizado.

“Houve o metadado? Houve. Houve a quebra de custódia? Essa é a primeira pergunta”, afirmou o integrante da área de inteligência.

Se o documento entrou pronto nos sistemas da PF, como sustenta Moraes, houve necessariamente uma ação humana para colocá-lo ali. A investigação teria então de determinar se isso ocorreu de maneira regular, por erro ou de forma deliberada.

“Se houve isso, houve um erro humano. Esse erro pode ter sido intencional ou não intencional”, afirmou. Se comprovada a quebra, a pergunta seguinte seria direta: “Tem que ver se essa quebra de custódia foi intencional ou não e, se intencional, quem influenciou.”

A suspeita ganha relevância, segundo a análise feita à reportagem, porque ocorre num momento de forte projeção política dos Estados Unidos sobre o Brasil e de confronto aberto de integrantes do governo americano com Moraes.

“Existe claramente uma tendência de projeção de poder dos Estados Unidos dentro da soberania brasileira”, afirmou. A avaliação é de existem elementos concretos no cenário político que tornam uma operação de influência possível, embora não comprovem a participação americana no relatório.

A disputa interna no Supremo aumenta essa vulnerabilidade. Na avaliação apresentada à reportagem, uma operação estrangeira não precisaria criar uma crise: poderia explorar uma divisão já existente.

“É sim possível uma influência, uma operação de inteligência que ajude quem procura influir num ponto que é vulnerável, que é a guerra política dentro do STF”. Segundo fontes na área de inteligência, a crise criada pelo caso master teria deixado a corte vulnerável a interferências externas por atores interessados em influir no processo eleitoral brasileiro.

A área de inteligência também trabalha com a possibilidade de uma interferência não partir diretamente de funcionários de um governo estrangeiro. Entidades privadas, grupos da sociedade civil ou especialistas com capacidade tecnológica podem funcionar como intermediários.

“Para não terem as digitais nesses processos, governos delegam esse trabalho a terceiros”, explicou outro interlocutor do governo que acompanha o mapeamento das ameaças à eleição.

Extrema direita amplia pressão sobre o STF
A suspeita aparece no momento em que integrantes da extrema direita brasileira e aliados nos Estados Unidos aumentam a pressão sobre o STF.

Eduardo Bolsonaro viajou para Washington com o objetivo de buscar uma nova rodada de sanções contra integrantes da Corte. O ex-deputado pretende usar episódios do julgamento como argumento junto a interlocutores americanos.

Jason Miller, ex-conselheiro de Donald Trump e apoiador de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também passou a direcionar publicações ao julgamento. Ele divulgou uma imagem produzida por inteligência artificial mostrando Moraes com uma tornozeleira eletrônica e, em outra postagem, publicou fotografias de Moraes e Daniel Vorcaro acompanhadas da expressão “tick-tock, Xandão”.

Não há elemento apresentado até agora que vincule esses movimentos à suposta participação estrangeira na produção do relatório. Eles compõem, porém, o ambiente de pressão internacional que já vinha sendo acompanhado em Brasília.

Para integrantes do governo, o período eleitoral tende a ampliar os riscos. Operações camufladas e o eventual uso de empresas ou estruturas privadas de tecnologia estão entre os cenários considerados, com atenção especial ao intervalo entre o primeiro e o segundo turno.

“Há uma movimentação real no submundo da tecnologia que não pode ser ignorada”, afirmou um experiente interlocutor do governo.

Uma das avaliações ouvidas pela reportagem dimensiona a preocupação de forma ainda mais contundente: a ingerência externa é considerada a maior ameaça desse tipo enfrentada pelo país desde o período que antecedeu o golpe de 1964.

A acusação de Moraes introduziu um caso concreto nesse cenário. Saber se ele corresponde ou não a uma operação externa depende agora de algo verificável: reconstruir a origem e o percurso do relatório atribuído à Polícia Federal.

*Cleeber Lourenço e Jamil Chade/Uol


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Ao vivo STF: assista sessão hoje de julgamento do futuro de Moraes

É nítido que o Grupo Globo está forçando a mão sobre Alexandre de Moraes para desviar o foco dos crimes de Flavio Bolsonaro.


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PF investiga rede suspeita de vender influência em processos de Mendonça e Kassio Nunes no STF

Investigação encontrou conversas sobre pedidos a ministros e contratos milionários ligados ao resultado de ações na Corte

A Polícia Federal investiga uma rede suspeita de comercializar influência em processos no Supremo Tribunal Federal (STF) que envolviam atuação junto aos gabinetes dos ministros André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes. Mensagens obtidas pela PF mostram o deputado federal Cezinha de Madureira (PSD-SP) dizendo que faria um pedido diretamente a Kassio e que já havia conversado com interlocutores chamados “Andre e Antonio Carlos”, enquanto recebia memoriais destinados também a Mendonça e Gilmar.

A investigação levou o ministro Flávio Dino a autorizar buscas contra Cezinha e a sociedade de advocacia de sua mulher, Valéria Rodrigues Linhares. A PF apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a decisão, Cezinha, que não é advogado, seria responsável por fazer “despachos” em gabinetes do Judiciário.

A PF afirma ter identificado uma estrutura formada pelo deputado, sua mulher e a advogada Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”. Mariângela seria responsável por captar e formalizar causas e elaborar memoriais; Valéria cuidaria dos contratos de honorários e cessões de crédito; e a Cezinha caberia o suposto contato pessoal e direto com ministros de tribunais superiores.

Segundo a representação policial reproduzida por Dino, o padrão se repetiria nos episódios analisados: Mariângela encaminhava uma peça ou memorial ao parlamentar; Cezinha respondia que havia “falado”, “despachado” ou “pedido”, ou informava que seria atendido pelo ministro; a advogada cobrava notícias sobre o resultado; e, paralelamente, eram formalizados contratos com pagamentos vinculados ao êxito das ações.

“Vou pedir a ele”
Um dos principais episódios apontados pela PF ocorreu em 12 de junho de 2025 e envolveu a Reclamação 76.831, em tramitação no Supremo.

Naquele dia, Mariângela enviou a Cezinha um memorial e chamou a atenção para a necessidade de “pedir vista”. O deputado respondeu que seria atendido às 16h. A advogada então perguntou se ele estaria com Kassio Nunes Marques naquele horário.

Cezinha respondeu que já havia falado no dia anterior com “Andre e Antonio Carlos” sobre o assunto. Depois, explicou que Kassio havia marcado uma conversa por vídeo para as 16h:

“Ministro Kassio / Entendeu? / Ai vou pedi a ele”.
Na sequência, afirmou que já havia avisado “aquela pessoa” de que existia um tema a tratar e que enviaria o número do processo antes da conversa com Kassio. Cezinha disse ainda que o encontro serviria para verificar se precisava “pedir expressamente”.

Para a investigação, essas expressões indicam, nesta fase preliminar, que o parlamentar não se limitaria ao encaminhamento de documentos, mas se comprometia a formular um pedido pessoal ao julgador em benefício de partes representadas por advogadas ligadas a ele.

A PF ainda tenta descobrir quem eram “Andre e Antonio Carlos” e quem era “aquela pessoa” mencionada pelo parlamentar. A decisão não identifica esses interlocutores.

Seis dias depois da conversa, Mariângela encaminhou a Cezinha três documentos: “Memorial Rcl 76831 – Min. Nunes Marques.pdf”, “Memorial Rcl 76831 – Min. André Mendonça.pdf” e “Memorial Rcl 76831 – Min. Gilmar Mendes.pdf”.

A investigação ressalta que Mariângela não era a advogada original da reclamação. Ela recebeu substabelecimento em 12 de junho, justamente a data em que os documentos começaram a ser enviados ao parlamentar.

Não há, porém, elemento na decisão que permita afirmar que o “Andre” mencionado por Cezinha seja André Mendonça.

PF busca o outro lado das conversas
A busca autorizada por Dino pretende justamente obter o outro lado dessas conversas. Até agora, a PF dispõe principalmente do conteúdo extraído do celular de Mariângela, apreendido em dezembro de 2025.

Os investigadores dizem ainda desconhecer o conteúdo dos contatos mantidos diretamente por Cezinha com ministros e terceiros. Entre os pontos que pretendem esclarecer estão o teor e o resultado das tratativas com “Andre e Antonio Carlos”, o conteúdo da conversa por vídeo marcada para as 16h e a identidade de “aquela pessoa” citada pelo deputado.

A polícia também quer saber com quem Cezinha teria realizado os contatos descritos nas mensagens pelas expressões “despachei sim”, “assunto reforçado agora”, “ligou e falou direto” e “deixa eu ir lá sentir”. Busca ainda identificar outros processos que possam ter sido objeto de intermediação, além dos fluxos financeiros e do destino dos honorários de êxito.

Em outro processo relatado por Nunes Marques, a Reclamação 79.545, a investigação encontrou um contrato de R$ 500 mil, com pagamento previsto depois do julgamento. Em uma conversa posterior, Mariângela perguntou a Cezinha se ele havia despachado no caso. O parlamentar respondeu:

“Despachei sim / Ontem”.

Também foi identificado um contrato relacionado à Reclamação 81.608 que previa a cessão de R$ 1 milhão em honorários para a sociedade de advocacia de Valéria. Um contrato relacionado ao mesmo caso previa outros R$ 2 milhões em caso de sucesso, definido como a concessão da liberdade ao cliente. Nunes Marques também era o relator desse processo.

Em agosto de 2025, Cezinha enviou uma imagem de visualização única e escreveu “Já falei”. Mais tarde, diante de uma resposta protocolar do gabinete de Nunes Marques a um pedido de audiência, Mariângela reclamou. Cezinha respondeu: “Calma” e “Deixa eu ir lá sentir”.

“Comercialização de influência”
Na representação, a PF afirma que a investigação busca esclarecer a existência, a extensão e a estabilidade de uma “estrutura destinada à comercialização de influência” junto a ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo os investigadores, essa suposta influência estaria associada a “remuneração vultosa”, ajustada por contratos de honorários e cessões de crédito celebrados por advogadas ligadas ao deputado — uma delas, sua própria mulher.

Dino considerou haver uma “densa plataforma indiciária” e afirmou existirem “razões de sobra” para autorizar as buscas. Para o ministro, os fatos podem envolver um deputado que, embora não seja advogado, aparentemente utilizava a condição parlamentar para transmitir a terceiros a percepção de que tinha influência sobre magistrados de tribunais superiores.

Dino acrescentou que a “elevada remuneração” encontrada na investigação parece afastar, nesta fase, a hipótese de mero ato político.

A PF ressalva expressamente que Mendonça, Nunes Marques, Gilmar ou qualquer outro magistrado não são investigados. Segundo a representação, não há nos elementos reunidos até agora indício de que ministros tenham solicitado, aceitado ou recebido vantagens indevidas, nem de que tenham proferido decisões contrárias ao direito.

Os magistrados aparecem na investigação, segundo a própria PF, apenas como possíveis destinatários da influência que os investigados alegariam possuir. A polícia resume o objeto da apuração como a possível “mercancia da influência por quem a ofereceu e a precificou”, e não a atuação dos ministros apresentados a terceiros como pessoas passíveis de influência.

Dino determinou que os aparelhos apreendidos sejam submetidos a perícia. Caso as novas diligências revelem algum elemento indicativo de conduta atribuível a magistrado, a PF deverá comunicar o ministro e a Procuradoria-Geral da República, sem adotar medidas por iniciativa própria.

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Fachin tira de Moraes e Mendonça investigações de um contra o outro. STF chega ao limite da crise

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, decidiu retirar de Alexandre de Moraes e André Mendonça as investigações que colocaram os dois ministros em lados opostos de uma disputa que ameaça produzir uma das mais graves crises internas da história recente da Corte. A decisão é, antes de tudo, um reconhecimento de que não havia mais condições institucionais para que um ministro investigasse o outro.

Antes de tomar a decisão, o ministro Fachin reuniu-se com o presidente Lula.

O episódio é extraordinariamente grave. De um lado, Moraes encaminhou a Fachin um pedido para que Mendonça fosse investigado por suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade, alegando que o colega teria direcionado investigações e atuado de maneira seletiva. De outro, Mendonça havia conduzido desdobramentos do caso Banco Master que, por questões políticas, atingiram Moraes após surgirem mensagens envolvendo o ministro e o banqueiro Daniel Vorcaro.

O resultado é uma situação institucionalmente explosiva: dois ministros da mais alta Corte do país passaram a produzir acusações e investigações que atingem diretamente o próprio colega de tribunal.

Fachin, ao assumir os casos, tenta retirar o componente pessoal da equação e devolver às instituições aquilo que jamais deveria ter deixado de ser exclusivamente institucional: a apuração dos fatos.

E há uma pergunta inevitável por trás de tudo isso: como preservar a credibilidade de uma Corte quando seus próprios integrantes passam a protagonizar investigações uns contra os outros?

O caso Banco Master transformou-se, assim, em muito mais do que uma investigação sobre um banco e seus negócios. Ele abriu uma crise que alcançou a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e o núcleo do próprio STF. O próprio Fachin reconheceu a gravidade do momento ao afirmar que cabe à Presidência da Corte preservar sua integridade, autoridade e confiança perante a sociedade.

A decisão de Fachin pode ser necessária para conter a escalada, mas não resolve o problema central. Ela apenas retira o fósforo das mãos de dois ministros que estavam em lados opostos do incêndio.

Agora será preciso saber se o STF terá coragem de ir além da contenção da crise e permitir que todos os fatos sejam apurados com a mesma régua, independentemente de quem esteja envolvido.

Porque, diante de suspeitas tão graves, não pode existir ministro acima da investigação, nem ministro com o poder de escolher quem será investigado.

A única saída para o Supremo é a transparência absoluta. A Corte não pode pedir confiança à sociedade enquanto seus próprios conflitos internos alimentam a percepção de que a Justiça passou a investigar a si mesma.


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Moraes acusa Mendonça de vários crimes e pede abertura de ação no STF

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), usou o inquérito das Fake News para acusar o colega André Mendonça de possíveis crimes e pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, a abertura de uma ação contra ele.

Em decisão assinada nesta quinta-feira (3), Moraes aponta suspeitas de usurpação da direção de investigações, condução irregular de tratativas de delação premiada e direcionamento de investigação contra um ministro do Supremo.

As suspeitas mencionadas por Moraes envolvem relatórios relacionados às operações Sem Desconto, que apura o escândalo envolvendo o INSS, e Compliance Zero, investigação sobre o Banco Master.

O episódio coloca Mendonça em uma situação especialmente delicada. O ministro indicado por Jair Bolsonaro vinha assumindo uma postura cada vez mais política no caso do Banco Master e passou a atuar diretamente em uma disputa que envolve integrantes do próprio STF, a Polícia Federal e personagens ligados ao bolsonarismo.

A decisão de Moraes expõe o tamanho do conflito instalado dentro da Corte e levanta uma questão inevitável: até que ponto Mendonça está exercendo suas atribuições jurisdicionais e a partir de que momento sua atuação passou a interferir indevidamente em investigações conduzidas por outras autoridades?

O pedido de abertura de uma ação contra um colega de tribunal é uma medida de enorme gravidade. Ao mesmo tempo, a reação de Moraes mostra que a estratégia de Mendonça deixou de ser apenas uma divergência entre ministros e passou a produzir consequências institucionais.

Mendonça, que chegou ao STF indicado por Bolsonaro com a promessa de atuar de forma independente, encontra-se agora no centro de uma crise que ele próprio ajudou a alimentar. Se há suspeitas sobre irregularidades em investigações, elas precisam ser demonstradas com provas e submetidas aos procedimentos adequados — não transformadas em instrumento de disputa política dentro do Supremo, segundo o DCM.

O caso também reforça a necessidade de transparência. Se existem acusações graves envolvendo a condução de investigações, delações e o Banco Master, o STF precisa esclarecer os fatos de maneira institucional, evitando que o sigilo e a guerra de versões sejam usados para alimentar suspeitas seletivas.


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Mendonça abriu “as portas do inferno” para favorecer Flávio Bolsonaro, dizem ministros do STF

A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou uma dimensão inédita depois que o ministro André Mendonça determinou a produção e a divulgação de informações da Polícia Federal envolvendo mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo relatos atribuídos a integrantes do STF, o problema não estaria na apuração de eventuais irregularidades — que, evidentemente, devem ser investigadas —, mas na maneira como Mendonça conduziu o procedimento.

Ministros ouvidos pela imprensa afirmam que o ministro teria atropelado ritos que tradicionalmente orientam investigações envolvendo integrantes da própria Corte. A avaliação é de que a iniciativa instaurou uma espécie de “vale-tudo” dentro do Supremo, criando um precedente com consequências que podem ultrapassar em muito o episódio específico envolvendo o Banco Master.

É nesse ponto que aparece a expressão que sintetiza a dimensão da crise: Mendonça teria aberto “as portas do inferno” dentro do STF. Não porque a investigação deva ser interrompida, mas porque, segundo esses ministros, a forma escolhida para fazê-la pode transformar divergências institucionais em uma guerra aberta entre integrantes da própria Corte.

E há uma consequência política impossível de ignorar: Flávio Bolsonaro é um dos principais beneficiários desse ambiente de conflito. Em plena corrida presidencial, a exposição pública de suspeitas envolvendo um ministro do Supremo desloca o centro do debate para uma pauta que interessa diretamente ao candidato bolsonarista, ao mesmo tempo em que alimenta a narrativa de confronto permanente entre o bolsonarismo e o STF. Reportagens desta terça-feira registram justamente essa avaliação de que a iniciativa de Mendonça produz efeitos eleitorais favoráveis a Flávio.

Isso não significa atribuir a Mendonça uma intenção que ele não declarou. O próprio ministro sustenta que seu papel é atuar com imparcialidade e que as suspeitas precisam ser examinadas. O que está em discussão, portanto, é outra coisa: se os procedimentos adotados foram adequados e quais consequências institucionais eles produziram.

A questão central agora é saber até onde essa escalada pode chegar. O episódio colocou o STF diante de uma situação delicadíssima: investigar suspeitas que atingem integrantes da própria Corte sem permitir que a investigação se transforme em instrumento de disputa política ou em precedente para que qualquer ministro possa, isoladamente, abrir novas frentes contra seus colegas.


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A serpente fascista colocou dois ovos no STF

A serpente fascista não desapareceu. Ela apenas aprendeu a trocar de pele, a falar em nome das instituições e a se apresentar com a aparência respeitável de quem pretende defender a democracia enquanto trabalha, por dentro, para corroê-la.

E agora, na leitura política que se pode fazer do momento, essa serpente conseguiu colocar dois ovos dentro do STF. O perigo não está apenas no que esses ovos representam hoje, mas no que podem produzir amanhã. Porque ovos de serpente não nascem para ornamentar o ninho: nascem para perpetuar o veneno.

A extrema direita brasileira descobriu que não precisa necessariamente ocupar todos os espaços pelo voto. Pode tentar disputar instituições, influenciar decisões, pressionar ministros, fabricar crises e transformar o debate jurídico em extensão da guerra política. É uma estratégia conhecida: quando não consegue conquistar democraticamente o poder, tenta capturar os mecanismos capazes de condicioná-lo.

Por isso, é preciso olhar para esses dois ovos com muito mais atenção do que a complacência institucional costuma permitir. Não se trata de demonizar pessoas ou antecipar decisões, mas de reconhecer que determinadas escolhas para a mais alta Corte do país carregam consequências que ultrapassam biografias individuais.

O STF não é um clube político, tampouco uma trincheira partidária. É uma das últimas barreiras institucionais contra a ruptura democrática. Quando forças que flertaram abertamente com autoritarismo conseguem plantar representantes no coração dessa estrutura, o problema deixa de ser meramente partidário: passa a ser uma questão de defesa da própria democracia.

A serpente sabe esperar. Ela não precisa dar o bote imediatamente. Basta permanecer enrolada, silenciosa, aguardando a hora conveniente para atacar.

É justamente por isso que os dois ovos precisam ser observados com lupa. Porque democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Às vezes, ela começa a apodrecer quando o autoritarismo aprende a vestir terno, falar baixo, citar a Constituição e ocupar, por dentro, os espaços criados para protegê-la.

E quem acha que a serpente fascista está domesticada talvez descubra tarde demais que serpente não perde o veneno porque mudou de pele.


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