Dia: 22 de julho de 2024

EUA: Kamala Harris cresce na disputa presidencial contra Trump

Enquanto doações alavancaram, pesquisas mostram potencial de Kamala e outros candidatos democratas saem da disputa.

A vice-presidente Kamala Harris avança na consolidação de seu nome para disputar a Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, um dia após Joe Biden abandonar a disputa e anunciar que apoiaria a vice para enfrentar o ex-presidente Donald Trump.

Assim, esta segunda-feira foi marcada pelo primeiro dia de campanha de Harris à disputa presidencial, já movimentando mais de US$ 45 milhões de doações de empresários em menos de 24 horas do anúncio de saída de Biden.

Os números são da arrecadação do Partido Democrata ainda na noite deste domingo (21), somente horas depois do anúncio do atual presidente de desistir da reeleição e endossar a candidatura de sua vice, Kamala Harris.

Segundo a plataforma ActBlue, foi “o maior dia de captação de recursos do ciclo de 2024”, com o recorde de US$ 46,7 milhões no único dia. E os valores continuam crescendo.

De perfil moderado, mais caracterizada como “centro-esquerda” para os padrões da Califórnia, seu estado natal, Harris é uma promotora de Justiça formada pelos valores mais convencionais das políticas de Estado contra o crime dos anos 90, ao mesmo tempo que defende as medidas progressistas democratas.

Por seu perfil, pesquisas que sondaram opções quando a imagem de Biden começou a ruir, após o enfático debate junho, já indicavam que Harris estaria empatada com Trump em uma hipotética disputa.

A pesquisa New York Times/Siena College, que sondou os estados de Pensilvânia e Virgínia, indicavam maiores chances de Kamala do que Biden contra Trump, com 47% das intenções contra 48% de Trump no primeiro estado e 49% contra 44% de Trump, derrotando o ex-presidente em Virgínia.

Dados da CNN/SSRS mostravam também que Kamala estava empatada tecnicamente com Trump, com 45% contra 47% das intenções, quando sequer se mostrava candidata ou iniciava campanha própria.

Agora, além de Biden, Harris conta com a apoio de correligionários Bill e Hillary Clinton, dos quais já publicaram uma carta para “apoiar Kamala Harris e lutar com tudo o que temos para elegê-la”. Ainda que não confirmado o seu nome, a disputa parece estar garantida para ela.

Isso porque outros potenciais candidatos democratas, como é o caso do governador da Califórnia, Gavin Newsom, nome forte do partido e visto como opção de sucessão a Biden, também já afirmaram apoiar Harris.

“Com a nossa democracia e futuro por um fio, não há ninguém melhor para levar adiante [a disputa] contra a visão sombria de Donald Trump e guiar nosso país a um caminho mais saudável do que a vice-presidente dos Estados Unidos da América, @KamalaHarris”, disse Newson, nas redes sociais.

Fizeram o mesmo os governadores JB Pritzker de Illinois, Gretchen Whitmer de Michigan, Andy Beshear de Kentucky, Wes Moore de Maryland, Tim Walz de Minnesota e Tony Evers de Wisconsin – vários apontados como possibilidades para uma chapa presidencial.

Assim, em poucas horas, a vice-presidente se estabeleceu como a favorita do Partido Democrata para enfrentar Trump, o que virou de cabeça para baixo a disputa presidencial do país, diminuída em pouco mais de 100 dias.

A globalização sucumbe ao fracasso neoliberal

A possível vitória de Trump certamente acelerará uma nova divisão do mundo capitalista, desta vez de cunho ideológico, diz o colunista Florestan Fernandes Jr.

Com o avanço da extrema-direita no mundo e sua pauta supremacista, antidemocrática e ultranacionalista, estamos dando adeus à cultura da globalização, que vigeu desde os anos 90.

A possível vitória de Donald Trump na eleição estadunidense que se avizinha, certamente acelerará uma nova divisão do mundo capitalista, desta vez de cunho nitidamente ideológico. De um lado, os autocratas fascistas comandando grupos fanatizados e violentos; de outro, aqueles que defendem a preservação das liberdades democráticas de credo, de gênero, de manifestação cultural e de igualdade de raças.

A percepção dessa iminente divisão e os efeitos dela sobre a vida das pessoas foi constatada em recente pesquisa realizada pela Ipsos-Reuters.

Segundo a pesquisa, 80% dos eleitores dos Estados Unidos disseram que o país está “saindo do controle”. Tanto eleitores de Biden como de Trump estão profundamente preocupados com a violência e a disrupção.

Outro dado da pesquisa aponta que 84% do eleitorado está preocupado com atos extremistas após as eleições.

O mais curioso em meio a esses números é que boa parte dos que estão preocupados com o avanço da violência, se diz eleitor do ex-presidente Donald Trump que, com seu perfil belicoso e extremista, há anos incita o ódio e a perseguição dos “inimigos” da vez. O mesmo Trump que no dia 6 de janeiro 2021 convocou uma multidão para invadir o Capitólio, numa tentativa clara de golpe de Estado. O mesmo Trump que defendeu os seus apoiadores que pediam o enforcamento do então vice-presidente, Mike Pence.

Aqui no Brasil, a exemplo de outros tantos países ocidentais, surgiu, na última década, uma extrema direita organizada e alinhada com as mesmas ideias elitistas, racistas e odiosas. Sob a cartilha de Steve Bannon, se implantou no país uma verdadeira guerra cultural e política, com violência virulenta jamais vista. Uma sociedade dividida, onde os adversários políticos foram transformados em inimigos a serem eliminados e os pilares do estado democrático de direito, erodidos.

Tudo isso se refletiu fortemente na política externa, que nos anos do (des)governo bolsonarista buscou aproximação com líderes de extrema-direita, afastando o país de seus parceiros comerciais históricos, inclusive promovendo crises com países como Alemanha, Espanha, França, Chile e tantos outros.

No léxico da extrema-direita internacional se destaca a negação de todo e qualquer sistema, ideia ou regime que não seja espelho de si. Chegamos ao ponto de quase romper com o Acordo de Paris, simplesmente porque o ex-presidente, do abismo de seu terraplanismo ambiental, não acreditava no aquecimento global. Nossa vizinha Argentina, sob Milei, segue no mesmo rumo do Brasil de Bolsonaro. O presidente ofende líderes de esquerda e até da direita convencional, esnoba o Mercosul, rechaça a entrada nos BRICS, enquanto seu povo amarga índices galopantes de pobreza e miséria. Nos EUA, Trump avança, com o mesmo discurso de ódio e fake News, e tem chances reais de vitória, sob o manto de um partido Republicano rendido ao trumpismo que o engoliu. Provas da proeminência do trumpismo são a escolha de um candidato a vice-presidente à imagem e semelhança de Trump; além do fato de que nenhum dos nomes históricos do Partido Republicano apareceu na convenção realizada nesta semana, que consolidou o nome de Trump como candidato do partido.

Tudo o que acompanhamos é o inverso do mundo globalizado que vimos até aqui e que sucumbe ao fracasso do neoliberalismo. Surgem no horizonte do século 21, as sobras revigoradas de tudo o que de pior o século 20 produziu – o fascismo, a intolerância e o ódio. Vivemos uma crise de confiança nas democracias, que atinge em cheio as instituições e até mesmo os avanços do conhecimento e da ciência são vitimados pelo negacionismo e terraplanismo trazido a reboque pela extrema-direita que se alastra.

É desse desalento e sentimento de incapacidade diante da vida e do mundo que emergem os líderes autoritários. É a partir dos discursos messiânicos que esses líderes inflamam os afetos e exploram a violência e intolerância que eles próprios exercem e fomentam em seus seguidores fanatizados.

É esse o caos em que estamos imersos e é nesse contexto que somos chamados a resistir e lutar pela preservação da democracia. Como disseram Marx e Engels no livro O Manifesto Comunista: “O capitalismo gera o seu próprio coveiro”.

*Florestan Fernandes Jr./247

Após Biden desistir de reeleição, Eurasia reduz chance de vitória de Trump nos EUA

Consultoria vê 65% de probabilidade de candidato republicano vencer − 10 pontos a menos do que com Joe Biden na disputa.

A saída do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, da disputa pelas eleições de novembro deste ano aumenta as chances de vitória do Partido Democrata na corrida à Casa Branca, mas não tira o favoritismo do ex-presidente Donald Trump. É o que avalia Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da consultoria de risco político internacional Eurasia Group.

Em entrevista concedida ao InfoMoney algumas horas após Biden comunicar sua desistência da disputa pela rede social X (o antigo Twitter), Garman disse que o cenário era muito desfavorável para a manutenção da candidatura à reeleição do presidente. Mas ponderou que a troca de titularidade da chapa não é movimento simples em eleições.

“Biden estava em um ambiente muito difícil, em que sua performance no debate levantou de forma muito violenta a questão da sua capacidade cognitiva. Ele estava em um equilíbrio em que qualquer derrapagem, mesmo que pequena, era magnificada tremendamente, com um partido em pânico e doadores da campanha começando a segurar suas doações”, destacou.

“Criou-se um ambiente de cobertura de mídia, abandono do Partido Democrata, que estava deixando Biden cada vez mais vulnerável nas pesquisas. Manter uma campanha nessas condições ficou difícil. Com a troca da candidatura, tem-se uma base democrata mais energizada”, completou.

A Eurasia Group trabalhava com uma probabilidade de vitória de Donald Trump em 75% desde o debate organizado um mês atrás pela emissora de TV americana CNN e a tentativa de assassinato a tiro na semana passada. Agora, com a desistência de Biden, a chance de êxito do candidato do Partido Republicano caiu para 65%.

“Estamos em uma disputa estruturalmente apertada. Não podemos esquecer isso”, pondera Garman. “A vantagem de Trump nos estados chaves do meio-oeste só é entre 2 e 4 pontos percentuais. Se os democratas ganham Pensilvânia, Wisconsin e Michigan, eles levam. Antes do debate, estava praticamente empatado. Depois do debate e do atentado, a vantagem de Trump subiu para 2 a 4 pontos. Ainda é uma margem razoavelmente pequena.”

Para Maurício Moura, professor da Universidade George Washington, notícia muda pauta da campanha eleitoral e melhora cenário para democratas também nas eleições legislativas

Apoio de Biden, acesso a recursos e risco de “racha” favorecem Kamala Harris – Logo após comunicar sua saída da disputa, Biden manifestou apoio à sua vice, Kamala Harris, como representante do Partido Democrata na corrida à Casa Branca. A escolha ainda depende da posição de lideranças da legenda e pode ser confirmada apenas na convenção nacional marcada para agosto.

Para Garman há elementos que favorecem a indicação de Harris para a posição. O endosso de Biden, diz, tem peso político relevante não apenas entre lideranças do partido, mas também sobre os delegados que escolherão sobre o nome que representará a legenda na disputa de novembro.

Soma-se a isso o fato de que, pela legislação americana, Harris é a única que poderia acessar os recursos de campanha doados à chapa original pelo partido − qualquer outra chapa encabeçada por outro candidato teria que começar a busca por financiamento do zero a menos de quatro meses do pleito.

O especialista também lembra que uma das principais preocupações de lideranças democratas seria um racha no partido às vésperas da disputa − o que poderia prejudicar as chances de vitória não apenas na corrida à Casa Branca, como também nas disputas pela Câmara dos Representantes, Senado e governos estaduais. Este seria um incentivo para que a definição do nome ocorresse antes da própria convenção.

“Acho altamente provável que ela seja a escolhida. Ela tem os benefícios do apoio de Joe Biden, acesso a todas as doações que já foram feitas na campanha. E também tem uma pressão do Partido Democrata para não ter uma convenção disputada. Tudo isso conspira a favor dela”, avalia Garman.

Apesar de ver um aumento na chance de vitória do Partido Democrata na disputa pela Casa Branca com a desistência de Biden, o especialista entende que a legenda ainda não se recuperou da “sangria” recente. “Os democratas estão em uma posição pior hoje do que estavam dois ou três meses atrás, antes do debate”, diz.

Um levantamento feito pela Eurasia Group em parceria com a Ipsos Public Affairs, com base em mais de 400 eleições mundo afora, mostra que candidatos à eleição têm mais chances de êxito do que indicados à sucessão. Com a saída de Biden, apesar das circunstâncias, os democratas perdem os benefícios indicados pelas estatísticas.

No caso da possível entrada de Kamala Harris como titular da chapa, jogam contra a candidatura o perfil da política e certa rejeição entre eleitores relevantes para os democratas nos estados decisivos. A participação dela em questões migratórias durante a gestão atual − um dos pontos de maior crítica a Biden − também traz vulnerabilidade.

Um dos fatores que mais contribuíram para Biden desistir da disputa pela reeleição foi a forte pressão sofrida de parlamentares democratas, preocupados com os impactos sobre os pleitos locais da disputa pela Casa Branca e do debate centrado na capacidade cognitiva do atual presidente − o que poderia levar a um menor comparecimento às urnas de grupos de eleitores independentes que costumam votar no partido.

Para Garman, a mudança do candidato presidencial pode afetar marginalmente esses pleitos. “Se você tem um partido energizado ao redor de uma candidatura e sem uma campanha exclusivamente focando na capacidade cognitiva do seu candidato, de fato, isso pode melhorar as perspectivas dessas candidaturas.”