Big Techs e a ameaça de uma democracia tutelada pelo poder das plataformas

É preciso abandonar a ingenuidade diante do poder das chamadas big techs. Empresas que controlam redes sociais, mecanismos de busca, plataformas de vídeo e gigantescos fluxos de informação deixaram há muito de ser meras empresas de tecnologia. Elas se transformaram em atores políticos de enorme influência, capazes de definir o que ganha visibilidade, o que desaparece do debate público e quais discursos alcançam milhões de pessoas.

O problema se torna ainda mais grave quando esse poder é exercido de maneira assimétrica e passa a funcionar, na prática, como uma trincheira contra determinados setores políticos. É justamente aí que a defesa apaixonada das big techs por setores bolsonaristas revela uma contradição monumental: os mesmos que dizem combater uma suposta “censura” comemoram quando as plataformas favorecem seus interesses e atacam quando são submetidos a regras de transparência e responsabilização.

Não se trata de afirmar que toda decisão das plataformas seja necessariamente uma conspiração contra a esquerda. A questão é mais profunda: quem controla os algoritmos controla uma parcela importante da circulação das ideias. E quem controla a circulação das ideias possui um poder político que nenhuma democracia deveria deixar sem fiscalização.

As plataformas sabem quais conteúdos provocam indignação, medo, raiva e engajamento. Sabem quais mensagens devem ser impulsionadas e quais podem ser relegadas ao esquecimento. Quando essa arquitetura da informação é utilizada para favorecer determinados discursos e marginalizar outros, o problema deixa de ser tecnológico e passa a ser democrático.

A extrema direita compreendeu isso muito bem. Enquanto denuncia “ditadura” sempre que alguma regra limita seus abusos nas redes, defende uma espécie de vale-tudo digital quando acredita que o ambiente lhe é favorável. É uma democracia conveniente: liberdade absoluta para os aliados, indignação seletiva quando a mesma lógica atinge seus interesses.

O perigo, portanto, não está apenas na existência das big techs, mas na concentração extraordinária de poder nas mãos de corporações privadas que não foram eleitas por ninguém. Uma democracia não pode depender do humor de bilionários, dos interesses comerciais de plataformas ou de algoritmos opacos para determinar quais vozes serão ouvidas.

Regular as big techs, exigir transparência dos algoritmos, combater práticas abusivas e proteger o pluralismo não significa censurar a sociedade. Ao contrário: significa impedir que o debate público seja privatizado.

Quem realmente defende a liberdade deveria desconfiar de qualquer empresa que tenha poder suficiente para decidir, sozinha, o que milhões de cidadãos verão, compartilharão ou sequer terão a oportunidade de conhecer.

A democracia não pode ser terceirizada para as big techs. Muito menos transformada em instrumento de guerra política contra a esquerda — ou contra qualquer outro campo democrático. Liberdade de expressão não pode significar liberdade para meia dúzia de corporações privadas controlarem a expressão de milhões.

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