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Velha mídia surta em ataque massivo a Moraes, afinal, rende cliques e agrada o bolsonarismo eleitoral

Velha mídia surta contra Moraes, mas faz silêncio sobre a agenda de Vorcaro

A velha mídia parece ter encontrado novamente seu assunto predileto: Alexandre de Moraes. Nos últimos dias, multiplicam-se manchetes, editoriais, comentários indignados e análises carregadas de dramaticidade contra o ministro do STF. O ataque é massivo, insistente e, sobretudo, conveniente. Afinal, Moraes rende cliques, provoca engajamento e alimenta exatamente o público que o bolsonarismo pretende mobilizar eleitoralmente.

O problema não é criticar Moraes. Ministros do Supremo, como qualquer autoridade pública, podem e devem ser submetidos ao escrutínio da imprensa. O problema é a seletividade do escândalo: para determinados personagens, a mídia transforma qualquer episódio em uma tempestade nacional; para outros, fatos potencialmente explosivos parecem desaparecer no rodapé.

E é justamente aí que surge a pergunta incômoda: por que tanto empenho em explorar Moraes e tão pouco interesse em investigar a agenda que reuniu personagens do núcleo político bolsonarista com o banqueiro Daniel Vorcaro?

Flávio Bolsonaro, André Mendonça e Nikolas Ferreira aparecem, cada um a seu modo, orbitando o universo de relações que envolve Vorcaro. Em vez de colocar essas conexões sob uma lupa jornalística rigorosa, parte da velha mídia parece preferir o caminho mais fácil: transformar Moraes no protagonista permanente da narrativa e deixar as conexões de seus adversários políticos em segundo plano.

É uma escolha editorial que merece ser questionada.

Porque, quando existe uma sequência de encontros, relações, mensagens, agendas e interesses cruzados envolvendo um poderoso banqueiro e figuras políticas de enorme relevância, o jornalismo deveria fazer exatamente aquilo que se espera dele: perguntar, cruzar informações, reconstruir os fatos e cobrar explicações de todos os envolvidos.

Não deveria haver personagem intocável.

Mas o que se vê é outra coisa. Moraes recebe uma lupa; os outros recebem um biombo.

A lógica parece cristalina: tudo o que puder ser utilizado para desgastar Moraes vira manchete, debate, corte para redes sociais e combustível para o algoritmo. Já as conexões que podem constranger o campo bolsonarista são tratadas com uma discrição que seria incompreensível se não houvesse tanto interesse eleitoral envolvido.

E isso não é jornalismo de investigação. É jornalismo de trincheira.

A velha mídia sabe que existe uma parcela do eleitorado disposta a consumir qualquer narrativa que apresente Moraes como o grande vilão nacional. Sabe também que esse conteúdo gera audiência. E sabe, principalmente, que alimentar permanentemente essa narrativa ajuda a manter mobilizada uma base política que o bolsonarismo pretende transformar em votos.

Por isso, Moraes virou uma espécie de mercadoria jornalística de alto rendimento.

Quanto mais ataques, mais cliques. Quanto mais indignação, mais compartilhamentos. Quanto mais manchetes contra o ministro, maior a satisfação de uma militância digital que já chega às notícias com a conclusão pronta.

Enquanto isso, a pergunta essencial continua esperando resposta:

o que exatamente explica a proximidade entre figuras tão importantes do bolsonarismo e Daniel Vorcaro?

Essa pergunta não deveria ser substituída por outra. Não deveria ser abafada por uma avalanche de manchetes contra Moraes. E muito menos deveria desaparecer porque suas respostas podem produzir desconforto político.

A imprensa não pode escolher a régua conforme o personagem.

Se há algo a investigar envolvendo Moraes, investigue-se até o fim.

Se há algo a esclarecer envolvendo Flávio Bolsonaro, Mendonça, Nikolas Ferreira e Vorcaro, investigue-se também até o fim.

O que não pode existir é uma imprensa que se apresente como fiscal do poder enquanto escolhe cuidadosamente qual poder merece ser fiscalizado e qual merece ser poupado.

No fundo, o escândalo maior pode estar justamente nessa assimetria: a velha mídia faz um barulho ensurdecedor quando a notícia serve para atacar Moraes, mas parece perder a voz quando a notícia exige olhar para as conexões do outro lado do balcão.

E essa seletividade não é detalhe.

É o próprio assunto.

Porque, em uma democracia, jornalismo não pode ser uma operação de proteção eleitoral. A função da imprensa não é produzir munição para uma candidatura, agradar uma militância ou entregar ao algoritmo o vilão que mais rende audiência. É revelar aquilo que o poder gostaria de esconder — independentemente de quem esteja no alvo.

E, no caso Vorcaro, há perguntas demais para serem enterradas sob uma avalanche de ataques a Moraes.

A velha mídia pode até continuar fingindo que não viu. Mas o leitor tem o direito de perguntar por que ela viu tanta coisa de um lado e tão pouco do outro.


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Por Celeste Silveira

Produtora cultural

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