Em meio ao isolamento político crescente e à dificuldade de consolidar alianças, Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro protagonizaram mais um capítulo da dramaturgia eleitoral do bolsonarismo. Sob a condução política da senadora Damares Alves, ambos tentaram encenar um gesto de unidade e conciliação que, para muitos observadores, soou mais como um espetáculo improvisado do que como uma demonstração genuína de coesão.
A tentativa de transmitir a imagem de um grupo pacificado ocorre justamente quando os sinais de desgaste se acumulam. Divergências internas, dificuldades para atrair aliados e a necessidade permanente de recorrer à figura de Jair Bolsonaro transformam qualquer movimento político da família em um exercício de sobrevivência eleitoral. O roteiro parece sempre o mesmo: quando a crise aperta, entra em cena uma demonstração pública de harmonia.
Nesse contexto, a participação de Damares ganha um papel simbólico. Cabe a ela atuar como diretora de uma encenação destinada a convencer a base de que não há fissuras e de que todos caminham na mesma direção. O problema é que, quando a realidade insiste em desmentir o discurso, a performance perde força e passa a produzir o efeito contrário.
Flávio, pressionado por dificuldades políticas e pela busca de apoios, aparece cada vez mais dependente da capacidade de mobilização do sobrenome Bolsonaro. Michelle, por sua vez, é convocada a exercer o papel de fiadora da unidade familiar e política, reforçando uma narrativa de lealdade e continuidade. O resultado, porém, lembra mais uma montagem apressada do que um movimento estratégico consistente.
A encenação pode até servir para produzir imagens e alimentar redes sociais, mas dificilmente elimina os problemas que motivaram sua realização. Conciliação política se constrói com confiança, negociação e capacidade de agregar diferentes setores — não apenas com gestos cuidadosamente coreografados diante das câmeras.
Quando o palco substitui a articulação e a estética toma o lugar da estratégia, a política corre o risco de se transformar em espetáculo. E, nesse caso, a ópera acaba adquirindo contornos de comédia involuntária: muito figurino, muita interpretação e pouca capacidade de alterar o enredo real da disputa política.
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