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Na quarta-feira (31/07), Bolsonaro disse que suas declarações sobre o desaparecimento de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, não constituem “quebra de decoro”.

Segundo ele, não é quebra de decoro porque “a história tem dois lados e não pode valer um lado só”.

Ou seja, mesmo que sejam falsas – mais precisamente, uma falsificação – suas declarações não constituem “quebra de decoro”, porque, supostamente, há “dois lados”.

Logo, isso lhe dá o direito de mentir desbragadamente.

No dia em que, sobre acontecimentos históricos (ou sobre qualquer outra coisa), tanto a verdade quanto a mentira forem válidas, estaremos num mundo sem moral, sem ética, em que o caráter, assim como a honra, foram apagadas da vida dos seres humanos.

Se isso é impossível para quase todas as pessoas, pois significa abandonar sua própria humanidade, sua própria essência humana, é nesse mundo que Bolsonaro vive.

Com uma peculiaridade: ele não acha que tanto a verdade quanto a mentira são válidas. Ele prefere a mentira, a injúria, a calúnia, a difamação – e a estupidez.

Esse é o seu lado.

Se isso é grave em qualquer pessoa, em um presidente da República, torna-se incompatível com o cargo. Se isso não é uma quebra de decoro, uma indecência, uma imoralidade dirigida contra os cidadãos, tudo – isto é, todo o mal – passa a ser lícito.

O crime, portanto, passa a ser virtude.

Na segunda-feira, 29/07, Bolsonaro falou:

“Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele. Não é a minha versão, é que a minha vivência me fez chegar a essas conclusões naquele momento.”

O pai de Felipe Santa Cruz, Fernando Santa Cruz, foi preso no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, pelos órgãos de repressão da ditadura.

Nunca mais foi visto.

Naquela época, Bolsonaro tinha 19 anos – para ser exato, 18 anos, pois só completaria 19 anos em março.

Tinha acabado de prestar concurso para a Academia Militar de Agulhas Negras.

Então, que “vivência” tinha esse fedelho para chegar a “conclusões naquele momento”?

Com certeza, ele nem sabia que Fernando Santa Cruz fora preso e assassinado.

E não apenas pela idade que Bolsonaro tinha. Sobretudo porque os desaparecimentos, os assassinatos, durante a ditadura, não eram um assunto público nem mesmo para a maioria dos militares, quanto mais para um calouro de Agulhas Negras.

Dois anos depois, quando os estudantes do Rio tentaram realizar, na Universidade Federal Fluminense (UFF), a Semana dos Direitos Humanos, sendo violentamente reprimidos, o caso de Fernando Santa Cruz ainda era pouquíssimo conhecido, apesar dos esforços da sua família (e da de Eduardo Collier, preso e desaparecido com Fernando), em especial de sua mãe, para quebrar a cortina de censura e medo que se abateu sobre o crime.

Esse era o tipo de questão que a ditadura mantinha em segredo, se possível, absoluto.

Bolsonaro, portanto, nada sabia sobre o assunto “naquele momento”.

Bolsonaro, portanto, é um mentiroso.

DESCONHECIDO

Algumas horas depois dessa declaração, em vídeo enquanto cortava o pelo, Bolsonaro acusou os companheiros de Fernando de assassiná-lo.

Como estamos falando de decoro, o leitor nos permita reproduzir um pouco longamente o que ele falou:

“Donde eu obtive essas informações? Com quem eu conversei na época, oras bolas. Conversava com muita gente, tive na fronteira, conversava.”

Bolsonaro estava entrando em Agulhas Negras. O caso de Fernando Santa Cruz era desconhecido da maioria do Exército, pois é claro que a ditadura jamais fez publicidade nas Forças Armadas daquilo que fazia nos antros de tortura.

Mas, quatro ou cinco horas depois da primeira declaração, já não é a “vivência” que lhe fez chegar a tais ou quais “conclusões”.

A fonte agora são pessoas “com quem eu conversei na época”.

O que está fazendo nessa explicação a “fronteira” (que fronteira? a da mentira com a falta de caráter?), não sabemos. Mas não é um problema: Bolsonaro também não sabe.

Continuemos:

“O pessoal da AP no Rio de Janeiro ficou, primeiro ficaram estupefatos: como é que pode esse cara vir de Recife se encontrar conosco aqui? O contato não seria com ele, seria com a cúpula da Ação Popular de Recife. E eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz. Essa é a informação que eu tive na época sobre esse episódio, porque, qual é a tendência: se eles sabem, nós não podemos ser descobertos. Existia essa guerra naquele momento. Isso que aconteceu. Não foram os militares que mataram não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo que acontece. Isso mudou. Mudou através do livro ‘A Verdade Sufocada’, o depoimento do Brilhante Ustra, entre outras pessoas, mostrou que uma guerra naquele momento era realmente um lado contra o outro”.

Fernando Santa Cruz não veio de Recife para encontrar a cúpula da Ação Popular (AP) no Rio de Janeiro.

Ele mudou para o Rio seis anos antes de seu assassinato.

Quando foi preso, ele não morava mais no Rio, mas em São Paulo, onde era funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica.

Estava no Rio, em fevereiro de 1974, porque era carnaval, e ele viajara, com a família, para a casa do irmão, Marcelo Santa Cruz.

Fernando não saiu da casa do irmão, naquele infeliz sábado de carnaval, 23 de fevereiro de 1974, para encontrar a cúpula da AP, mas para encontrar um amigo de infância, Eduardo Collier Filho, que também jamais foi visto.

Novamente, é impossível que Bolsonaro soubesse algo sobre o desaparecimento (“essa é a informação que eu tive na época sobre esse episódio”), pois os carrascos de Fernando não apresentavam informes diante dos calouros de Agulhas Negras.

O mentiroso sabe tanto disso, que tentou um recurso para travestir a mentira: a citação (acima) do livro do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, “A Verdade Sufocada”.

Essa citação é uma tentativa de induzir as pessoas a concluir que foi através desse livro – ou através do próprio Brilhante Ustra – que Bolsonaro obteve informações sobre o desaparecimento de Fernando Santa Cruz.

No entanto, não existe uma só palavra, no livro de Brilhante Ustra, sobre Fernando Santa Cruz (aliás, em nenhum dos dois livros desse psicopata, “Rompendo o Silêncio” e “A Verdade Sufocada”, existe algo sobre Fernando).

Ustra foi retirado da chefia do DOI-Codi de São Paulo em janeiro de 1974, após quase quatro anos de sangue, torturas e assassinatos (47 presos políticos foram mortos durante a chefia de Ustra, segundo relatório do próprio DOI-Codi, enviado ao Serviço Nacional de Informações – SNI).

Fernando Santa Cruz e Eduardo Collier Filho foram presos em fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, quando Ustra não era mais chefe do DOI-Codi de São Paulo – para onde existem indícios de que eles foram, depois, levados.

Portanto, não foi através do livro de Ustra – ou do próprio Ustra – que Bolsonaro poderia ter conseguido tais “informações”.

Bolsonaro é um mentiroso que não se sustenta nem nos livros de seus semelhantes – ou neles próprios.

 

*Com informações do Hora do Povo

Celeste Silveira

Produtora cultural, parecerista de projetos culturais em âmbito nacional

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1 COMMENTS

  1. Antonio José Camargo. Posted on 3 de agosto de 2019 at 16:21

    PARA ESSE IMBECIL, TUDO É NORMAL. PASSAR FOME É NORMA, MATAR AS PESSOAS É NORMA, TIRAR TERRA DE INDIO É NORMAL, ENTREGAR O PAÍS É NORMAL. E O PIOR É QUE ELE NÃO ESTÁ SÓ NESSA AMEBICE DELE. AINDA TEM MUITOS ADEPTOS.

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