20 de outubro de 2020
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No Brasil atual, o racismo não produz mais as tensões entre senhores de escravos que, praticamente, não foram estudadas ou pouco estudadas. Há um código de silêncio inacreditável sobre o racismo no Brasil, sobre a cidadania mutilada dos negros que Roger Machado, técnico do Bahia, em entrevista,  coloca essa questão com muita propriedade, o que faz um link perfeito com a conferência sobre preconceito racial feito pelo brilhante intelectual baiano, Milton Santos, na qual o geógrafo endossa as palavras do técnico:

“O modelo cívico brasileiro é herdado da escravidão, tanto o modelo cívico cultural como o modelo cívico político. A escravidão marcou território, marcou os espíritos e marca ainda hoje as relações sociais desse país. Mas é também um modelo cívico subordinado à economia, uma das desgraças desse país. Há países em que o modelo cívico corre emparelhado com a economia e em muitas manifestações da vida coletiva se coloca acima dela. No Brasil a economia decide o que do modelo cívico é possível instalar. O modelo cívico é residual em relação ao modelo econômico e se agravou durante os anos de regime autoritário e se agrava perigosamente nessa chamada democracia brasileira. A própria territorialização é corporativa, os recursos nacionais sendo utilizados, sobretudo a serviço das corporações, o resto sendo utilizado para o resto da sociedade. O cálculo econômico não mostra como as cidades se organizam para serem utilizadas por algumas empresas, por algumas pessoas. São as corporações que utilizam o essencial dos recursos públicos e essa é uma das razões pelas quais as outras camadas da sociedade não têm acesso às condições essenciais da vida ao chamado serviços sociais. No caso dos negros, é isso que se passa.

Um outro dado a acrescentar é que a situação dos negros no Brasil é uma situação estrutural e cumulativa, o que mostra a diferença com outras minorias (que não minorias).”

 

*Carlos Henrique Machado Freitas

Celeste Silveira

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