21 de setembro de 2020
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Muitas bobagens graúdas já foram ditas sobre a maior festa popular do planeta, o carnaval brasileiro.

Os mal-humorados de múltiplas colorações partidárias acham um absurdo em um país com uma desigualdade tão grande o povo ir para as ruas para cantar, dançar, mas sobretudo batucar, sem entender que a festa dos tambores não é sinal de alienação, mas sim de resistência.

Na verdade, o carnaval é o maior ato político promovido pelo povo todos os anos, porque a festa, que acentua as desilusões, pensa e sonha o país mais do que em qualquer outro momento e cura as feridas mais do que qualquer outro remédio.

E não pense que isso significa acomodação, mas sim um direito de um indivíduo dotado de um estado de alma que lhe permite ser alegre, mesmo diante de um desastre social, mesmo não tendo os direitos consagrados no seu dia a dia.

O carnaval, que amplia as dimensões do país para a totalidade da população não é um mistério a ser decifrado, é o povo dobrando as instituições, principalmente as religiosas e as do Estado. As do Estado são aquelas que sonharam com a Veneza tropical, com templos culturais luxuosos para o encontro social da elite como um burgo que separa o Brasil oficial caricato e burlesco do Brasil rico e culturalmente criativo, protagonizado pelo povo, como disse Machado de Assis.

Nesse arranjo institucional vem as religiões oficiais que sempre quiseram suprimir os tambores como forma de calar as manifestações de origem africana num país eurocêntrico, dotado de uma submissão cultural típica dos cabeças colonizadas.

O povo não. O povo seguiu os repiques dos batuques dos negros em manifestações que abarcam todos, hipnotizam todos e magnetizam todos. Os mesmos tambores dos orixás das religiões de matrizes africanas não estão escritos nas partituras, mas na alma de quem toca, impossível de serem decodificados, como disse Pixinguinha a Mário de Andrade, que foi seu informante na pesquisa que desembocou no livro de Mário, “Música de Feitiçaria no Brasil”.

Pois bem, começou hoje na cidade do Rio de Janeiro, a mais carnavalesca capital do mundo, os 50 dias de carnaval, com mais de 300 mil pessoas nas ruas, que. podem apostar, o sucesso será tanto que, no próximo ano, a maioria das cidades brasileiras copiará o feito, seja por questão cultural, seja econômica.

Sim, porque nada produz uma economia cultural maior do que a cultura do povo e nada representa mais a nossa cultura do que o carnaval.

Assim, todo aquele temor que se tinha de um prefeito evangélico que, por questões religiosas, tentou subtrair a festa do povo, cai por terra. Crivella não resistiu aos tambores dos orixás, melhor dizendo, a igreja Universal do Reino de Deus tem força ínfima diante dessa força tradicional que o brasileiro carrega na alma como seu maior orgulho e identidade, porque o Brasil é, antes de qualquer coisa, um país criado em torno de um grande tambor e de um enorme terreiro.

E por mais que a massificação cultural da indústria ou do mercado religioso queira se sobrepor, não tem força nem para o café, que fará para a feijoada do samba.

Os Pontos de Cultura, criados no governo Lula, sacudiram a identidade nacional e os milhares de blocos de rua entraram em erupção.

Crivella teve que se curvar à maior força do povo brasileiro, a cultura popular, o carnaval, aquilo que é genuinamente nacional.

O carnaval de 50 dias anunciado por Crivella, o prefeito pastor, foi a maior derrota política que os neopentecostais brasileiros já amargaram.

E para quem não entendeu:

Quem comanda a maior força política é a nossa cultura, regida pelos tambores dos Orixás!

 

*Carlos Henrique Machado Freitas

 

Celeste Silveira

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