26 de junho de 2022
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No debate público sobre assuntos importantes é preciso saber separar os polêmicos dos polemistas. A primeira categoria é formada pelos corajosos, que defendem com sinceridade os seus argumentos mesmo contra o senso comum, contra a corrente. Os segundos são aqueles que criam marola onde não existe, justamente para fingir que estão indo contra a corrente.

Nesse momento em que reinam as fake news, polemistas ficam ainda mais à vontade para embaralhar citações acadêmicas e colocá-las a serviço das conclusões que já formaram de antemão. Se suas teorias não se aplicam à realidade brasileira, vão buscar os acontecimentos de qualquer outro canto do planeta para servir-lhes de exemplo. Uma gambiarra aqui, outra ali, e vão em frente.

Há algum tempo, os criadores de controvérsias escolheram como alvo as propostas identitárias. Obviamente, nenhuma ideia deve ser blindada de contestação, desde que isso seja feito com honestidade e respeito. E é verdade que a discussão sobre identitarismo é travada muitas vezes de forma sumária, truculenta, simplista – nada que não possa ser resolvido pelo próprio debate. Na maior parte das vezes, a discussão é travada em alto nível.

Os polemistas, no entanto, são como Chacrinha: não vieram para explicar, mas para confundir. Com esse objetivo, criam até rótulos para realidades inexistentes.

O mais novo exemplo é o “neorracismo identitário”. Um nome empolado para a cascata do racismo reverso.

Segundo seu criador, estamos sob a ameaça do “supremacismo negro”

A preguiça em rebater esse tipo de argumentação arquitetada para colocar seu autor no centro de uma falsa polêmica é logo vencida quando se imagina o mal que pode produzir se for popularizada.

Rapidamente, talvez seja útil fazer alguns lembretes aos incautos. Aí vão exemplos de supremacia negra hoje no Brasil:

– Segundo o IBGE, entre os 10% mais pobres do Brasil, 75% são negros.
– Pela mesma fonte, negros também têm supremacia nos empregos informais – 47%, contra 34% dos brancos.

– População preta e parda é maioria também entre os que não têm acesso a esgoto: 42,8% contra 26,5%.
– O supremacismo negro, que já era grande na população carcerária, cresceu 15%. Em 2005, 58,4% dos presos do país eram pretos ou pardos; em 2019 esse percentual subiu para 66,7%.
– O teórico pode se valer também de outra estatística: segundo a ONG Justiça Global, entre as crianças mortas como consequência de ações policiais nas favelas cariocas, 75% são negras.

Seria possível continuar com uma extensa lista de itens para exemplificar a supremacia negra nessas circunstâncias trágicas em que os brancos sempre estiveram a salvo.

Agora, quando a muito custo a sociedade se move para alcançar algumas poucas vitórias (como a maioria de alunos negros nas universidades públicas), surgem animadores de salão para dar argumentos aos reacionários.

Uma das grandes preocupações do tal teórico é o ódio disseminado contra os brancos. Como se a parcela da população oprimida e violentada por tantos séculos precisasse de alguma propaganda para isso.

Na verdade, o movimento negro brasileiro é até pacífico demais.

Branco que sou, uso meu lugar de fala para opinar que reações como a do produtor americano H. L. Thompson, que nocauteou um turista alemão em hotel de luxo do Rio depois de ser atacado com insultos racistas, nada mais são do que legítima defesa.

Mas o polemista pode ficar tranquilo. No Brasil, os racistas e aqueles que colaboram para manter a opressão à população negra ainda sofrem muito pouco as consequências de seus atos.

*Chico Alves/Uol

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Celeste Silveira

Produtora cultural

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