Luiz Inácio Lula da Silva decidiu retirar qualquer verniz diplomático da disputa política que se desenha para 2026. Ao afirmar que Donald Trump e Marco Rubio pretendem interferir nas eleições brasileiras para favorecer “os filhos do Satanás”, numa referência mordaz aos herdeiros políticos de Jair Bolsonaro, o presidente deu nome aos protagonistas de uma articulação internacional da extrema direita que, segundo ele, busca influenciar o futuro do Brasil.
A declaração não surgiu do nada. Nos últimos meses, Trump transformou o bolsonarismo em peça de sua narrativa global, enquanto Marco Rubio passou a atacar sistematicamente o governo brasileiro, adotando um discurso afinado com a família Bolsonaro. Para Lula, trata-se de uma tentativa explícita de pressionar as instituições nacionais e criar um ambiente político favorável ao retorno do bolsonarismo ao poder.
O recado do presidente foi direto: a soberania brasileira não está à venda nem será tutelada por Washington. Quem escolhe o presidente do Brasil são os brasileiros, e não a Casa Branca, o Departamento de Estado ou qualquer laboratório da extrema direita internacional.
Ao recorrer à expressão “filhos do Satanás”, Lula não apenas ironizou seus adversários. Procurou sintetizar o que considera o legado político do bolsonarismo: ataques às instituições, disseminação do ódio, desprezo pela democracia e permanente alinhamento a interesses estrangeiros sempre que isso serve aos objetivos da família Bolsonaro.
A ofensiva internacional em favor do bolsonarismo também revela uma contradição que há muito acompanha a extrema direita brasileira. O mesmo grupo que se apresenta como defensor da pátria jamais demonstrou constrangimento em buscar apoio externo quando seus interesses eleitorais estão em jogo. O nacionalismo termina exatamente onde começam os interesses políticos da família Bolsonaro.
Ao trazer Trump e Rubio para o centro do debate, Lula transforma a disputa de 2026 em algo maior do que um simples confronto entre candidatos. O embate passa a opor dois projetos de país: de um lado, a defesa da soberania nacional; de outro, um campo político que, segundo o presidente, aceita a interferência estrangeira desde que ela beneficie os Bolsonaro.
Se a estratégia de Trump e Rubio é fortalecer o bolsonarismo, Lula responde transformando essa aproximação em um passivo eleitoral. Afinal, poucos temas mobilizam tanto o sentimento nacional quanto a rejeição à ideia de que uma potência estrangeira possa tentar decidir o destino político do Brasil.
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