Eduardo Bolsonaro conseguiu aquilo que parece considerar uma grande vitória política: no Texas, onde vive, assinou uma declaração que lhe permite assumir a responsabilidade pela dispensa de determinadas exigências de vacinação da própria filha. O procedimento teria custado apenas US$ 10. Em seguida, encontrou a oportunidade perfeita para fazer aquilo que o clã Bolsonaro sabe fazer como poucos: transformar uma questão de saúde pública em munição contra o governo Lula.
O problema é que existe uma diferença monumental entre exercer uma escolha pessoal e tentar transformar essa escolha em bandeira política. Quando o assunto é vacinação infantil, não se está discutindo apenas a preferência de um pai. Está-se falando de prevenção, saúde coletiva e proteção de crianças que não têm condições de decidir por si mesmas.
Eduardo, porém, prefere apresentar a questão como uma suposta batalha pela “liberdade individual”. Ao defender que os pais tenham o direito de recusar vacinas e sugerir que o Brasil siga o modelo adotado no Texas, ele convenientemente ignora que a legislação brasileira trata a vacinação recomendada pelas autoridades sanitárias como uma questão de proteção da criança. A vacinação infantil está prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente quando recomendada pelas autoridades competentes.
Mais curioso ainda é o método: ele utiliza uma decisão tomada para a própria filha como argumento para atacar Lula. Ou seja, a experiência particular de um integrante da família Bolsonaro passa a ser apresentada como se fosse uma espécie de prova de que a política brasileira de imunização estaria errada.
Não é.
É apenas mais uma tentativa de transformar uma pauta técnica em guerra ideológica.
Eduardo questiona quem seria responsabilizado por eventuais efeitos adversos das vacinas e levanta suspeitas sobre autoridades e fabricantes. Mas essa retórica já é velha conhecida. Durante a pandemia, Jair Bolsonaro também atacou a vacinação infantil e chegou a afirmar que sua própria filha não seria vacinada contra a Covid-19, apesar da autorização da Anvisa e das recomendações das autoridades sanitárias.
A diferença é que agora o discurso reaparece pelas mãos da geração seguinte do bolsonarismo.
É difícil não enxergar a contradição: quando interessa, Eduardo Bolsonaro invoca a autonomia individual; quando quer fazer oposição, transforma a política pública de imunização em suposto instrumento de controle estatal. No meio disso tudo, ficam as crianças — justamente aquelas que deveriam estar protegidas da disputa política.
A vacinação não pode ser tratada como torcida organizada. Não é assunto para “Lula contra Bolsonaro”, direita contra esquerda ou Brasil contra Texas. É uma questão de saúde pública baseada em evidências, recomendações técnicas e responsabilidade coletiva.
O mais preocupante é transformar a recusa de uma vacina em símbolo de resistência política. A mensagem que chega às famílias é perigosa: a de que desconfiar das autoridades sanitárias seria sinal de coragem e que seguir recomendações de imunização seria submissão ao governo.
Eduardo Bolsonaro parece querer transformar o próprio ato de não vacinar a filha em manifesto político. Mas uma criança não deveria ser instrumento de propaganda ideológica.
E saúde pública não pode ser submetida à lógica eleitoral do clã Bolsonaro.
Se Eduardo quer assumir pessoalmente as consequências de suas escolhas familiares, isso é uma questão privada. O que não pode fazer é transformar uma decisão particular em argumento para desacreditar políticas públicas de vacinação e atacar o governo Lula.
No fundo, o episódio revela algo ainda mais grave: para o bolsonarismo, aparentemente qualquer assunto pode virar palanque — até mesmo a proteção da saúde das crianças.
A vacina protege a criança, mas Eduardo prefere usar a criança para proteger uma narrativa política.
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