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Se o “terrivelmente evangélico” já protagonizou uma batalha judicial envolvendo Nossa Senhora Aparecida, imagine o que o Zero Um do clã poderá fazer com a religião se chegar à Presidência

O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida acendeu um alerta que vai muito além da disputa eleitoral. André Mendonça, ministro indicado por Jair Bolsonaro e apresentado pelo próprio ex-presidente como alguém “terrivelmente evangélico”, determinou, no TSE, a remoção de 1.125 publicações que associavam Flávio Bolsonaro à suposta retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Flávio negou apoiar essa proposta, e Flávio Dino posteriormente derrubou a decisão, restabelecendo as publicações.

O episódio nos autoriza  a afirmar que Mendonça agiu eleitoralmente, revelando algo politicamente muito mais sério: até a devoção popular a Nossa Senhora Aparecida entrou no campo de batalha eleitoral e judicial.

E é justamente aí que a sociedade precisa prestar atenção.

Quando um projeto político começa a misturar de maneira cada vez mais agressiva fé, Estado e poder, prática comum ao clã Bolsonaro, a pergunta deixa de ser sobre esta ou aquela religião. Passa a ser sobre o princípio constitucional de que o Estado brasileiro é laico e deve garantir liberdade religiosa para todos.

O próprio Bolsonaro anunciou sua intenção de colocar no Supremo ministros “terrivelmente evangélicos”. Agora, diante do episódio envolvendo Mendonça e Nossa Senhora Aparecida, é legítimo discutir qual será o limite entre convicção religiosa pessoal e exercício do poder de Estado.

E se isso já produz tamanho conflito durante uma campanha eleitoral, a pergunta política é inevitável: o que aconteceria se Flávio Bolsonaro, o Zero Um do clã, tivesse nas mãos a Presidência da República e o poder de indicar ministros para o Supremo? É hora de pensar muito sério sobre seu voto e escolher entre soberania e democracia ou o caos.

Não se trata de atacar evangélicos, católicos ou qualquer outra religião. Trata-se exatamente do contrário: de defender o direito de todos a professarem sua fé sem que uma religião seja transformada em instrumento de poder político.

Nossa Senhora Aparecida pertence à fé de milhões de brasileiros. O Estado, porém, pertence a todos.

E essa fronteira — entre a crença de cada cidadão e o poder de quem governa — não pode ser tratada como detalhe eleitoral.


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Por Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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