Essa é a diferença que precisa ser explicitada. Não houve uma súbita descoberta da verdade por parte do eleitorado, nem um esclarecimento exemplar promovido pelos grandes veículos de comunicação. O que houve foi algo muito mais conveniente: as mentiras foram perdendo espaço à medida que deixavam de servir à narrativa construída para favorecer Flávio Bolsonaro.
O que ontem ocupava manchetes, chamadas, comentaristas e horas de televisão simplesmente desapareceu. Perguntas incômodas foram substituídas por outras. Contradições foram empurradas para o rodapé. Declarações falsas deixaram de ser confrontadas. E aquilo que deveria permanecer no centro do debate eleitoral foi convenientemente soterrado pelo próximo assunto fabricado pela agenda da mídia.
É assim que funciona a blindagem sofisticada: não é preciso provar que o candidato disse a verdade; basta impedir que o público continue lembrando que ele mentiu.
Flávio Bolsonaro não precisou necessariamente vencer a batalha da narrativa. Em muitos momentos, bastou que seus adversários midiáticos parassem de cobrar explicações. A memória do eleitor foi sendo disputada pela própria avalanche de notícias produzida pelos mesmos veículos que, anteriormente, davam enorme destaque às declarações do candidato.
Mas há um problema nessa estratégia: o eleitor pode até esquecer uma manchete, mas não necessariamente esquece a sensação de que alguma coisa não fecha.
As mentiras não colaram porque eram frágeis. E desapareceram da grande mídia porque continuar insistindo nelas poderia produzir justamente o efeito contrário ao pretendido: transformar contradições em perguntas permanentes, perguntas em desconfiança e desconfiança em rejeição.
Portanto, não confundam silêncio editorial com absolvição eleitoral.
As mentiras de Flávio Bolsonaro não foram desmentidas pela grande mídia; foram simplesmente retiradas de cena. E esse silêncio, por si só, diz muito mais sobre a imprensa que as apagou do que sobre a credibilidade de quem as contou.
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