No projeto econômico do governo Bolsonaro, os brasileiros foram para a fila do osso e o Brasil devolvido ao mapa da fome com 33 milhões de miseráveis

O chamado projeto econômico do governo Bolsonaro deixou uma imagem que deveria envergonhar qualquer país: brasileiros disputando restos de ossos para tentar garantir alguma comida em casa. Não é figura de linguagem. É o retrato de um Brasil que, ao final daquele governo, convivia com 33,1 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, segundo levantamento da Rede PENSSAN.
Esse foi o resultado concreto de uma política que tratou a fome, o desemprego, a inflação dos alimentos e o empobrecimento da população como efeitos colaterais aceitáveis. Enquanto Paulo Guedes e Jair Bolsonaro vendiam a fantasia de uma economia moderna, eficiente e liberal, milhões de brasileiros eram empurrados para a sobrevivência. Para uma parcela crescente da população, a discussão econômica não era sobre investimentos, Bolsa de Valores ou equilíbrio fiscal: era sobre ter ou não ter o que colocar no prato.
O Brasil, que havia saído do Mapa da Fome em 2014, voltou a figurar entre os países atingidos pelo problema. O dado de 2022 era devastador: 33 milhões de pessoas passando fome, enquanto apenas quatro em cada dez famílias tinham acesso pleno à alimentação, segundo o inquérito da Rede PENSSAN.
A tragédia não caiu do céu. A pandemia agravou a crise, evidentemente, mas não explica sozinha o desastre. Houve também o enfraquecimento de políticas públicas de proteção social e de segurança alimentar, em um contexto de deterioração da renda e aumento das desigualdades. O próprio governo federal posterior apontou o desmonte e a interrupção de políticas de combate à fome como fatores decisivos para o retrocesso.
Por isso, quando a direita tenta vender o bolsonarismo como sinônimo de responsabilidade econômica, convém lembrar a realidade. O projeto econômico de Bolsonaro produziu um país em que havia comida em abundância, mas faltava dinheiro para o povo comprá-la. O problema nunca foi a incapacidade brasileira de produzir alimentos. O problema foi permitir que milhões fossem excluídos da riqueza que o próprio país produz.
A fila do osso tornou-se, assim, um símbolo brutal daquele período. De um lado, a propaganda sobre liberdade econômica; de outro, brasileiros procurando restos para alimentar a família. De um lado, discursos triunfalistas; de outro, 33 milhões de pessoas submetidas à forma mais cruel de miséria: a fome.
Esse é o balanço que os defensores do governo Bolsonaro preferem esquecer. Porque números podem ser manipulados em discursos, mas a fome não. A fome não é narrativa. Não é opinião. Não é “lacração”. A fome é o fracasso mais absoluto de qualquer projeto de país.
E, no Brasil de Bolsonaro, esse fracasso tinha uma fila. Era a fila do osso.
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