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Política

Bolsonaro, Cerimedo e Honduras: os elos de uma operação para desestabilizar a eleição

Planalto teme ofensiva internacional de desinformação para interferir na disputa presidencial

A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação em diferentes eleições acendeu um alerta no Palácio do Planalto sobre o risco de uma ofensiva de desinformação se tornar um dos principais instrumentos de ingerência externa na eleição brasileira de outubro.

Fernando Cerimedo, estrategista argentino que atuou para desacreditar as eleições brasileiras de 2022, trabalhou recentemente em Honduras com apoio de operadores ligados a Donald Trump e mantém relação próxima com Eduardo Bolsonaro.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro também foi escolhido pelo ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli, como interlocutor para receber e divulgar no Brasil informações produzidas pelo governo israelense.

Para integrantes do alto escalão do governo brasileiro, as conexões entre esses atores e o papel das plataformas digitais estão hoje entre os principais riscos de uma eventual ação coordenada para favorecer Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

As relações colocam Eduardo no centro de articulações que atravessam Brasil, Argentina, Honduras, Estados Unidos e Israel. Parte desses mesmos países aparece no chamado Hondurasgate, caso baseado em 37 áudios atribuídos ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández sobre operações internacionais de influência política.

Fernando Cerimedo (segundo da esquerda) com Eduardo Bolsonaro, durante sua visita à Argentina em outubro de 2022

De Eduardo Bolsonaro à eleição de Honduras
Cerimedo ganhou projeção no Brasil depois da eleição presidencial de 2022, quando realizou a transmissão “Brasil fue robado”. Utilizando dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), levantou suspeitas sobre diferentes modelos de urnas e questionou o resultado da disputa vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.

A apresentação foi incorporada pelo bolsonarismo à ofensiva contra a confiabilidade do sistema eleitoral. A atuação do argentino acabou analisada nas investigações sobre a tentativa de golpe, embora a Procuradoria-Geral da República não tenha encontrado elementos suficientes para denunciá-lo por participação no plano de ruptura institucional.

Quatro anos depois, Cerimedo continua próximo da família Bolsonaro. Em evento realizado neste ano, Eduardo levou o argentino ao palco e defendeu sua atuação em 2022. Disse que Cerimedo teve “coragem” ao denunciar supostas irregularidades e afirmou que o trabalho havia sido produzido a partir de dados do próprio TSE.

Na mesma ocasião, Cerimedo contou detalhes de sua participação em outra campanha: a eleição de Honduras. O argentino afirmou ter trabalhado com Andy Rivas, apresentado como amigo e sócio, para o grupo político de Nasry “Tito” Asfura. Comemorou o resultado como uma vitória contra o grupo da família do ex-presidente Manuel Zelaya e relatou uma campanha marcada por forte tensão política.

Ao falar sobre sua atuação latino-americana, Cerimedo agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha digital de Trump. Segundo o argentino, Parscale forneceu tecnologia e equipe para suas operações políticas na região.

Cerimedo também participou dos esforços de aproximação entre Asfura e Trump. Nessa articulação aparece Dick Morris, consultor político americano que ganhou projeção como estrategista de Bill Clinton nos anos 1990 e depois rompeu com o Partido Democrata, tornando-se aliado de Trump e uma voz influente da direita americana.

Morris atuou como intermediário entre a campanha de Asfura e o entorno de Trump. Sua participação ajudou a aproximar o candidato hondurenho de operadores trumpistas nos Estados Unidos e a apresentar sua candidatura como parte de uma disputa regional contra a esquerda latino-americana.

A presença do consultor ajuda a dimensionar a rede formada em torno da campanha hondurenha: um operador com experiência na Casa Branca e trânsito na política americana atuando na conexão entre Asfura e o trumpismo.

O percurso também mostra a dimensão adquirida pela atuação de Cerimedo. Depois de participar da ofensiva para colocar sob suspeita as eleições brasileiras, o argentino passou por outra disputa eleitoral latino-americana conectado a operadores da direita americana.

Expresidente hondureño Juan Orlando Hernández agradece el indulto a Trump

Presidente de Honduras Juan Orlando Hernández

Hondurasgate cita Argentina, EUA e Israel
É nesse cenário que aparece o chamado Hondurasgate. O caso envolve 37 gravações atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. Os áudios descrevem supostas operações de articulação política e comunicação envolvendo personagens de Honduras, Estados Unidos, Argentina e Israel.

Entre as alegações está a participação de atores ligados ao governo de Javier Milei. As gravações atribuem ao entorno argentino cerca de US$ 350 mil destinados a uma estrutura de comunicação instalada nos Estados Unidos, que teria entre seus alvos os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia.

Israel também aparece no material. Uma das alegações atribui ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu participação em articulações relacionadas ao benefício concedido por Trump a Juan Orlando Hernández.

Os áudios ainda dependem de autenticação independente, e Cerimedo não aparece comprovadamente como integrante da operação relatada nas gravações. O argentino rejeitou publicamente o Hondurasgate.

Sua presença na política hondurenha, porém, é conhecida, assim como suas relações com personagens da política argentina, com Eduardo Bolsonaro e com operadores americanos ligados a Trump.

Israel, por sua vez, também mantém uma conexão direta e documentada com o entorno bolsonarista no Brasil.

Ministro de Israel acionou Eduardo no Brasil
Em janeiro de 2025, o militar israelense Yuval Vagdani estava no Brasil quando a Fundação Hind Rajab (HRF) tentou responsabilizá-lo judicialmente por supostos crimes cometidos durante a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

O episódio provocou reação do governo de Israel. Vagdani deixou o Brasil e, em 5 de janeiro, Eduardo Bolsonaro tornou público que havia conversado com Amichai Chikli, ministro de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo.

Eduardo disse ter recebido informações sobre a Fundação Hind Rajab. Poucas semanas depois, o próprio Chikli confirmou como a articulação havia ocorrido.

O ministro afirmou que Israel trabalhou com “amigos na oposição brasileira” e entregou informações sobre a fundação a Eduardo para que ele ajudasse a expor a organização no Brasil. O ex-deputado divulgou o material.

O ministério israelense buscava associar integrantes da fundação ao Hezbollah e ao Hamas. Chikli também atacou diretamente Lula e classificou o presidente brasileiro como “apoiador do Hamas”.

A operação foi além da proximidade política mantida há anos pela família Bolsonaro com o governo de Benjamin Netanyahu. Um ministro israelense procurou diretamente um integrante da oposição brasileira, forneceu informações produzidas no interesse de seu governo e pediu ajuda para colocá-las no debate público brasileiro.

O episódio ocorreu antes de Eduardo voltar a aparecer publicamente ao lado de Cerimedo, desta vez exaltando justamente o argentino que havia atuado no Brasil, passado por Honduras e construído relações com operadores da direita americana.

As conexões não surgem de uma única organização nem precisam ser apresentadas dessa maneira. Elas revelam um movimento mais amplo: personagens do bolsonarismo passaram a atuar como interlocutores brasileiros de uma rede internacional da direita que circula entre campanhas eleitorais, governos e operações de comunicação.

Nesse circuito, Eduardo Bolsonaro deixou de ser apenas um aliado político. Tornou-se um dos pontos de contato no Brasil.

O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli,

O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli (Reprodução de vídeo)

Planalto teme ofensiva digital na reta final
Se o governo brasileiro considera que a ingerência internacional já é uma realidade na eleição desde 2025, integrantes do Planalto tentam agora antecipar por onde poderiam vir os próximos movimentos de uma eventual estratégia de desestabilização.

A principal preocupação é que o instrumento utilizado seja o impulsionamento de desinformação a partir do exterior, com a possibilidade de plataformas digitais atuarem de maneira pouco transparente para influenciar a opinião pública brasileira.

A operação poderia repetir elementos observados recentemente na eleição de Honduras, onde Cerimedo teve papel relevante. A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e uma operação de manipulação digital poderia movimentar votos suficientes para transformar a reta final da eleição em um dos momentos de maior tensão política do país nas últimas décadas.

Integrantes do governo ainda pretendem estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, marcadas, segundo essa avaliação, por intensa circulação de narrativas originadas fora desses países. Um dos fenômenos observados nesses pleitos foi a proliferação de conteúdos produzidos com inteligência artificial e deepfakes.

Uma das estratégias consideradas possíveis seria o impulsionamento de desinformação por meio de perfis falsos criados no exterior. A preocupação é que uma ofensiva concentrada nos últimos dias da campanha possa provocar mudanças abruptas na opinião pública quando já não houver tempo suficiente para identificar sua origem, investigar os responsáveis e neutralizar seus efeitos antes da votação.

O eventual envolvimento das plataformas também entra no cálculo do governo pelo impacto que uma reeleição de Lula poderia produzir sobre o setor. A avaliação no Planalto é de que as big techs estariam entre os atores mais afetados por um quarto mandato do petista, diante da possibilidade de o governo avançar na regulamentação das redes digitais.

Um possível retorno do ativismo político de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de intervenções no debate político de diferentes países às vésperas de eleições.

A preocupação central é justamente o tempo. Uma ofensiva realizada nos últimos dias antes da votação poderia alcançar milhões de eleitores e produzir efeitos políticos antes que autoridades brasileiras conseguissem determinar de onde partiu, quem a financiou e quais atores participaram de sua disseminação.

*Cleber Lourenço e Jamil Chade/ICL


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Por Celeste Silveira

Produtora cultural

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