O cerco começa a se fechar sobre Flávio Bolsonaro — e, curiosamente, quanto mais avançam as questões que envolvem o candidato, mais determinados setores da mídia parecem interessados em deslocar o foco para Lulinha. Não se trata de negar a necessidade de investigação sobre o filho de Lula: qualquer suspeita deve ser apurada, com provas, contraditório e direito de defesa. O problema está em outra coisa: na tentativa deliberada de construir uma equivalência política entre situações que não são equivalentes.
A própria conjuntura ajuda a entender o movimento. Flávio enfrenta questionamentos relacionados ao caso Dark Horse e aos recursos recebidos de Daniel Vorcaro, enquanto Lulinha é alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de tráfico de influência. São fatos que devem ser investigados individualmente, sem proteção para ninguém. Mas transformar isso automaticamente em uma espécie de “empate moral” é justamente a velha fórmula da mídia de sempre: colocar duas histórias lado a lado, atribuir-lhes pesos semelhantes e deixar ao leitor a impressão de que “todos são iguais”.
É nesse ponto que a coluna de Carlos Andreazza, no Estadão, torna-se emblemática. O expediente é conhecido: quando um personagem politicamente incômodo está sob pressão, cria-se uma simetria artificial com alguém do outro campo. A comparação passa então a funcionar como uma cortina de fumaça. O debate deixa de ser sobre o que Flávio precisa explicar e passa a ser sobre o que Lulinha também precisa explicar.
É uma operação retórica extremamente conveniente.
E ela se encaixa perfeitamente na sentença de Merval Pereira, em O Globo, de que o resultado da eleição estaria nas mãos do STF e da PF. A frase, além de revelar o enorme protagonismo que o baronato midiático atribui às instituições de investigação e Justiça no processo eleitoral, também ajuda a estabelecer o enquadramento: a eleição passa a ser apresentada como uma disputa determinada por inquéritos, decisões judiciais e vazamentos — e não pelo julgamento dos eleitores sobre os candidatos, suas trajetórias e, sobretudo, suas responsabilidades.
Não é difícil compreender a mensagem política por trás desse enquadramento.
Se a eleição será decidida pelo que STF e PF fizerem, então é preciso nivelar previamente os personagens que podem ser atingidos pelas investigações. Flávio aparece de um lado; Lulinha, do outro. Um caso puxa o outro. Uma manchete responde à outra. Uma denúncia vira argumento para relativizar a seguinte. E, assim, a velha tese do “dois lados” volta a funcionar como uma espécie de máquina de lavar reputações.
O problema é que jornalismo não é contabilidade de escândalos.
Não existe obrigação jornalística de encontrar um escândalo para cada escândalo. Não é porque há investigação contra Lulinha que qualquer questionamento envolvendo Flávio Bolsonaro perde importância. Tampouco é porque Flávio enfrenta problemas que as suspeitas contra Lulinha devam ser ignoradas. Cada caso tem de ser examinado pelos seus fatos, provas, personagens e consequências.
O que causa estranheza é a insistência em transformar essa necessária distinção em uma falsa equivalência.
E há uma pergunta incômoda que deveria ser feita: por que, justamente quando aumentam as atenções sobre Flávio, a discussão sobre Lulinha passa a ocupar tanto espaço?
O próprio Flávio já percebeu a utilidade eleitoral dessa estratégia e passou a explorar publicamente o caso Lulinha enquanto tenta declarar o episódio Dark Horse “página virada”. A coincidência entre a estratégia do candidato e o enquadramento de parte da mídia merece, no mínimo, ser observada com lupa.
Até porque os fatos não desaparecem porque surgiu uma nova manchete.
Flávio pode falar em “página virada”. Pode apontar para Lulinha. Pode tentar transformar o adversário em espelho de suas próprias dificuldades. Mas isso não responde às perguntas que permanecem sobre o caso Dark Horse. E, sobretudo, não elimina a obrigação da imprensa de continuar cobrando explicações.
A comparação entre Flávio Bolsonaro e Lulinha, portanto, não é apenas uma questão de estilo jornalístico. Quando usada para atribuir pesos iguais a situações distintas, ela produz um efeito político concreto: dilui a responsabilidade de quem está sob pressão e transforma investigação em instrumento de compensação narrativa.
É a velha carcomida fórmula do “mas e o outro lado?”.
Só que democracia não funciona assim.
Se há suspeitas contra Lulinha, que sejam investigadas até o fim. Se houver crimes, que haja responsabilização. Mas, pelo mesmo princípio, se há questões envolvendo Flávio Bolsonaro, elas também precisam ser investigadas e cobradas até o fim — sem que Lulinha seja transformado em cortina de fumaça toda vez que o holofote ameaça iluminar o candidato da direita.
No fim, talvez o mais revelador não seja apenas aquilo que a mídia noticia.
É aquilo que ela escolhe colocar ao lado do que noticia — e, principalmente, aquilo que deixa de perguntar quando o assunto é Flávio Bolsonaro.
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