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De olho em 2030, ninguém está torcendo mais do que Tarcísio para Flávio perder para Lula

Há uma contradição cada vez mais evidente na política da direita brasileira: Tarcísio de Freitas precisa apoiar Flávio Bolsonaro em 2026, mas seu projeto político pode depender justamente da derrota dele.

É a velha máxima da política: ninguém precisa desejar publicamente a queda de um aliado para, nos bastidores, saber que a queda desse aliado pode abrir o caminho para o seu próprio futuro.

Tarcísio já deixou escapar que a Presidência da República pode estar nos seus planos. Nesta semana, pela primeira vez, admitiu que “talvez” dispute o Planalto no futuro. E, enquanto isso, Flávio foi escolhido pelo pai para representar o bolsonarismo na disputa contra Lula em 2026.

O problema é simples: se Flávio vencer Lula, Tarcísio pode ter acabado de perder uma das melhores oportunidades de sua carreira política.

Flávio, eleito presidente, ocuparia o Planalto por quatro anos — e, dependendo do destino da proposta de fim da reeleição que vem defendendo, poderia transformar a sucessão presidencial em um novo campo de batalha dentro da própria direita. O próprio Flávio já fala em ser um “presidente de transição”.

Para Tarcísio, portanto, uma eventual vitória de Flávio não seria necessariamente o cenário dos sonhos.

Já uma derrota para Lula mudaria completamente o tabuleiro.

Se Flávio perder em outubro, o bolsonarismo entrará imediatamente na discussão sobre quem será o herdeiro político da direita para 2030. E Tarcísio, governador de São Paulo, com forte trânsito empresarial, estrutura política e capacidade eleitoral, estaria naturalmente entre os primeiros nomes da fila.

É por isso que a eleição de 2026 pode ser lida também como uma disputa pelo futuro da direita brasileira. Não está em jogo apenas Lula contra Flávio. Está em jogo quem estará de pé depois dessa batalha.

Tarcísio sabe disso.

E sabe também que Lula continua sendo um adversário extremamente competitivo. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira mostra Lula com 41% no primeiro turno contra 37% de Flávio e, no segundo turno, uma disputa praticamente empatada: 46% a 45% para Lula. Já o Datafolha divulgado na semana passada apontou Lula à frente de Flávio por 47% a 43% no segundo turno.

Ou seja: Flávio pode perfeitamente perder.

E é justamente aí que começa a fazer sentido a movimentação cuidadosa de Tarcísio.

Ele apoia Flávio, participa de agendas ao seu lado e, publicamente, fala em unidade da direita. Mas, ao mesmo tempo, já prepara seu próprio terreno. Não confirma candidatura presidencial, mas também não a descarta. Não rompe com o bolsonarismo, mas procura demonstrar autonomia. Não abandona Flávio, mas deixa claro que existe vida política depois de Bolsonaro.

É uma operação delicada.

Porque Tarcísio precisa evitar ser acusado de torcer contra Flávio sem deixar de pensar no dia seguinte à eleição.

E há ainda um detalhe revelador: pesquisas anteriores já mostraram que Tarcísio aparece como um dos nomes competitivos contra Lula e que a presença dele altera o desempenho de Flávio nos cenários eleitorais.

Por isso, a hipótese mais interessante não é imaginar Tarcísio fazendo campanha ostensivamente contra Flávio. É justamente o contrário: quanto mais disciplinado for seu apoio público, mais protegido estará o seu projeto pessoal.

Se Flávio vencer, Tarcísio terá cumprido seu papel e poderá reivindicar espaço no novo governo.

Se Flávio perder, Tarcísio poderá dizer que fez tudo o que estava ao seu alcance, preservar sua relação com o eleitorado bolsonarista e, ao mesmo tempo, apresentar-se como uma alternativa para reorganizar a direita.

É o famoso “ganha-ganha” da política.

E talvez seja por isso que o horizonte de Tarcísio não termine em 2026 — nem sequer em 2030.

Quem pensa em 2040 não precisa necessariamente vencer a eleição de 2026. Às vezes, precisa apenas garantir que os adversários certos não vençam.

Tarcísio pode estar olhando muito mais longe do que parece.

Enquanto Flávio luta para chegar ao Planalto, Tarcísio pode estar calculando quem estará ocupando o caminho quando chegar a hora de ele próprio tentar chegar lá.

Na política, apoio público e interesse privado nem sempre caminham pela mesma estrada.

E, nesse jogo, talvez ninguém esteja mais interessado do que Tarcísio em saber quem perderá — e quem sobreviverá — à eleição de 2026.


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Por Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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