Quando Lula pergunta a César Tralli se o telefone dele só tem “conversa séria”, a frase pode parecer apenas uma provocação. Mas, politicamente, ela carrega algo muito maior: a lembrança de que jornalistas e veículos de comunicação também têm história — e que determinadas coberturas não desaparecem simplesmente porque passaram os anos.
O episódio dos chamados “aloprados”, em 2006, foi um dos grandes acontecimentos da campanha presidencial daquele ano e produziu uma avalanche de manchetes contra Lula e o PT. A tentativa de compra de um dossiê falso contra tucanos virou munição eleitoral e foi explorada à exaustão pela imprensa. Lula acabou sendo inocentado pelo TSE de qualquer envolvimento na compra do dossiê.
É justamente por isso que a pergunta de Lula a Tralli pode ser lida como um recado: não existe jornalismo sem memória, e não existe entrevista realmente incômoda quando apenas um dos lados é colocado no banco dos réus.
O presidente parece dizer, nas entrelinhas: eu também me lembro de quem fez o quê, de quem contou determinada história e de como determinadas narrativas foram construídas. E isso muda completamente a temperatura de uma entrevista.
A força da pergunta está justamente na simplicidade. Lula não precisa fazer um discurso, não precisa acusar diretamente ninguém nem reabrir todo o episódio de 2006. Basta uma frase para lembrar que quem hoje cobra explicações também pode ser cobrado sobre o próprio passado.
E talvez seja essa a parte mais desconfortável para determinados setores da mídia: o entrevistado deixou de ser apenas o personagem que responde às perguntas. Ele também conhece os bastidores da imprensa que o entrevista.
Quando o jornalista percebe que o entrevistado não esqueceu episódios antigos, a conversa muda de natureza. Já não é mais o confortável roteiro em que o entrevistador pergunta, o político responde e a narrativa termina editada conforme a conveniência editorial.
Lula, nesse momento, parece inverter os papéis: em vez de apenas responder às perguntas, lembra ao entrevistador que jornalista também faz parte da história que está contando.
E essa é uma memória que incomoda profundamente a Globo como um todo.
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