A serpente fascista não desapareceu. Ela apenas aprendeu a trocar de pele, a falar em nome das instituições e a se apresentar com a aparência respeitável de quem pretende defender a democracia enquanto trabalha, por dentro, para corroê-la.
E agora, na leitura política que se pode fazer do momento, essa serpente conseguiu colocar dois ovos dentro do STF. O perigo não está apenas no que esses ovos representam hoje, mas no que podem produzir amanhã. Porque ovos de serpente não nascem para ornamentar o ninho: nascem para perpetuar o veneno.
A extrema direita brasileira descobriu que não precisa necessariamente ocupar todos os espaços pelo voto. Pode tentar disputar instituições, influenciar decisões, pressionar ministros, fabricar crises e transformar o debate jurídico em extensão da guerra política. É uma estratégia conhecida: quando não consegue conquistar democraticamente o poder, tenta capturar os mecanismos capazes de condicioná-lo.
Por isso, é preciso olhar para esses dois ovos com muito mais atenção do que a complacência institucional costuma permitir. Não se trata de demonizar pessoas ou antecipar decisões, mas de reconhecer que determinadas escolhas para a mais alta Corte do país carregam consequências que ultrapassam biografias individuais.
O STF não é um clube político, tampouco uma trincheira partidária. É uma das últimas barreiras institucionais contra a ruptura democrática. Quando forças que flertaram abertamente com autoritarismo conseguem plantar representantes no coração dessa estrutura, o problema deixa de ser meramente partidário: passa a ser uma questão de defesa da própria democracia.
A serpente sabe esperar. Ela não precisa dar o bote imediatamente. Basta permanecer enrolada, silenciosa, aguardando a hora conveniente para atacar.
É justamente por isso que os dois ovos precisam ser observados com lupa. Porque democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Às vezes, ela começa a apodrecer quando o autoritarismo aprende a vestir terno, falar baixo, citar a Constituição e ocupar, por dentro, os espaços criados para protegê-la.
E quem acha que a serpente fascista está domesticada talvez descubra tarde demais que serpente não perde o veneno porque mudou de pele.
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