Sem ilusões. Os papas da mídia nativa de alta potência, com a Globo à frente, não precisam declarar apoio explícito a Flávio Bolsonaro para trabalhar politicamente pela sua candidatura. É justamente aí que mora o perigo. O método é mais sofisticado — e muito mais eficiente: uma crítica milimetricamente controlada, capaz de preservar a aparência de independência enquanto poupa o candidato dos golpes que realmente poderiam desmontar sua candidatura.
O roteiro é conhecido. Em vez de blindagem escancarada, oferece-se ao público uma espécie de oposição cenográfica: uma pergunta mais dura aqui, uma cobrança ali, uma observação crítica acolá. Depois, encerra-se a conta. O candidato sai dizendo que foi “pressionado”, a emissora pode proclamar que fez jornalismo rigoroso e, ao mesmo tempo, aquilo que realmente poderia produzir dano político fica convenientemente fora do centro do palco.
É preciso observar o que acontece quando a entrevista chega aos pontos realmente explosivos. Flávio foi questionado sobre Banco Master, Daniel Vorcaro, os R$ 61 milhões relacionados ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, a tentativa de golpe e suas declarações sobre as urnas. Ainda assim, análises posteriores apontaram que ele conseguiu escapar de respostas objetivas em temas decisivos e que a condução permitiu que dominasse boa parte da narrativa.
É exatamente nesse espaço entre parecer crítico e ser efetivamente contundente que a mídia pode desempenhar um papel político decisivo.
O que está em jogo não é simplesmente favorecer Flávio com elogios. É algo mais sofisticado: normalizá-lo. Transformar um candidato cercado por controvérsias em um presidenciável “como qualquer outro”; deslocar os assuntos potencialmente devastadores para o rodapé; suavizar contradições; oferecer-lhe tempo para reorganizar a narrativa; e, sobretudo, impedir que a eleição seja travada em torno das questões que mais incomodam sua candidatura.
Foi assim que o bolsonarismo aprendeu a sobreviver politicamente: convertendo crises em espetáculo, acusações em vitimização e perguntas incômodas em combustível para sua própria mobilização.
Flávio, aliás, reproduz até gestos do repertório eleitoral do pai. Na entrevista ao Jornal Nacional, apareceu com palavras anotadas na mão — “Mudança”, “Futuro” e “7/set” — repetindo uma estratégia já utilizada por Jair Bolsonaro em 2018 e 2022.
Portanto, não se deve esperar necessariamente que a grande mídia coloque Flávio no colo. Basta que não o coloque contra a parede.
A diferença é enorme.
Um candidato pode ser criticado durante quarenta minutos e, ainda assim, sair politicamente beneficiado se as perguntas mais importantes forem formuladas de maneira suficientemente branda, se as respostas evasivas forem aceitas sem insistência e se os temas mais perigosos forem rapidamente substituídos por outros.
É a crítica controlada: aquela que preserva a reputação de independência do veículo sem necessariamente ameaçar o projeto político do candidato.
E há uma razão para levar essa possibilidade a sério. A eleição de 2026 não é uma disputa qualquer. Flávio tenta ocupar o espaço político deixado pelo pai e, ao mesmo tempo, apresentar uma versão eleitoralmente mais palatável do bolsonarismo. A própria imprensa já registra a tensão entre o setor mais radical do movimento e a tentativa de construir uma candidatura mais moderada e profissionalizada.
Nesse cenário, a mídia tem uma escolha: investigar o candidato até as últimas consequências ou ajudá-lo a se tornar palatável ao eleitorado.
E é por isso que não basta prestar atenção ao que os grandes veículos dizem sobre Flávio. É preciso observar também o que deixam de perguntar, o que deixam de aprofundar e aquilo que retiram rapidamente do centro do debate.
Porque, numa eleição presidencial, a blindagem mais eficiente não é o silêncio.
É uma crítica cuidadosamente dosada — suficiente para parecer jornalismo independente, mas insuficiente para colocar o candidato em verdadeiro perigo político.
Se essa for a estratégia, a sociedade precisa reconhecê-la antes que seja tarde. Afinal, não se trata apenas de quem fala mais alto na televisão. Trata-se de quem consegue definir quais perguntas a sociedade fará ao candidato — e quais perguntas jamais chegarão ao horário nobre.
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