A cada nova revelação, o caso Banco Master fica mais indigesto — e agora surge uma pergunta que não pode ser empurrada para debaixo do tapete: o que Daniel Vorcaro foi tratar, em segredo, com André Mendonça antes de o ministro se tornar relator do caso?
As mensagens e os áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelam que o banqueiro teve um encontro reservado com André Mendonça em 14 de março de 2025, em São Paulo. A reunião durou cerca de duas horas e ocorreu em um instituto fundado pelo próprio ministro. Mais grave: a aproximação não aconteceu por acaso. Ela foi articulada durante semanas por pessoas que atuavam na interlocução com Mendonça.
É impossível olhar para essa sequência de acontecimentos e simplesmente fingir que se trata de uma banalidade.
O ponto central não é apenas Vorcaro ter se encontrado com Mendonça. O que torna o episódio explosivo é a combinação de elementos: o banqueiro enfrentava problemas relacionados ao Banco Central; pessoas próximas a ele buscavam interlocução com o então ministro; Mendonça teria tomado conhecimento previamente da situação; e, posteriormente, tornou-se o relator do caso que envolve justamente o Banco Master.
O advogado Ciro Rocha Soares chegou a relatar que Mendonça queria receber Vorcaro. O material divulgado não demonstra que o ministro tenha interferido em favor do banqueiro, nem comprova que qualquer providência tenha sido adotada para beneficiar o Master. Mas revela algo que exige explicações: havia uma interlocução prévia entre o entorno de Vorcaro e o ministro que mais tarde passaria a comandar a investigação.
E aqui está o ponto que não pode ser contornado com notas burocráticas ou explicações protocolares.
O que foi discutido durante aquelas duas horas?
Por que Vorcaro precisava chegar até Mendonça? Quem pediu a reunião? Qual era exatamente a pauta? O que Mendonça já sabia sobre os problemas do Banco Master? Houve algum pedido concreto? Houve algum encaminhamento?
São perguntas elementares.
A situação fica ainda mais desconfortável porque Mendonça hoje ocupa uma posição central no caso Master. Portanto, não estamos falando de um encontro qualquer entre duas pessoas que cruzaram seus caminhos em um evento social. Estamos falando de um ministro do Supremo e de um banqueiro que posteriormente se tornou personagem central de uma investigação conduzida pelo próprio ministro.
É precisamente por isso que a transparência precisa ser absoluta.
Não basta dizer que não há prova de favorecimento. A questão institucional é anterior: qual foi a natureza dessa relação e o que aconteceu naquela reunião?
O Supremo Tribunal Federal não pode exigir transparência dos outros enquanto trata como detalhe aquilo que envolve seus próprios integrantes. Se existem mensagens, áudios e registros capazes de reconstruir a aproximação entre Vorcaro e Mendonça, todos os fatos relevantes precisam ser esclarecidos.
A sociedade brasileira não pode ser obrigada a montar esse quebra-cabeça por meio de vazamentos sucessivos.
Vaza Mendonça. E, com o vazamento, aparece uma pergunta incômoda demais para ser ignorada: afinal, o que Vorcaro foi buscar — e o que encontrou — naquela reunião de duas horas com o futuro relator do caso Master?
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