A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou uma dimensão inédita depois que o ministro André Mendonça determinou a produção e a divulgação de informações da Polícia Federal envolvendo mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo relatos atribuídos a integrantes do STF, o problema não estaria na apuração de eventuais irregularidades — que, evidentemente, devem ser investigadas —, mas na maneira como Mendonça conduziu o procedimento.
Ministros ouvidos pela imprensa afirmam que o ministro teria atropelado ritos que tradicionalmente orientam investigações envolvendo integrantes da própria Corte. A avaliação é de que a iniciativa instaurou uma espécie de “vale-tudo” dentro do Supremo, criando um precedente com consequências que podem ultrapassar em muito o episódio específico envolvendo o Banco Master.
É nesse ponto que aparece a expressão que sintetiza a dimensão da crise: Mendonça teria aberto “as portas do inferno” dentro do STF. Não porque a investigação deva ser interrompida, mas porque, segundo esses ministros, a forma escolhida para fazê-la pode transformar divergências institucionais em uma guerra aberta entre integrantes da própria Corte.
E há uma consequência política impossível de ignorar: Flávio Bolsonaro é um dos principais beneficiários desse ambiente de conflito. Em plena corrida presidencial, a exposição pública de suspeitas envolvendo um ministro do Supremo desloca o centro do debate para uma pauta que interessa diretamente ao candidato bolsonarista, ao mesmo tempo em que alimenta a narrativa de confronto permanente entre o bolsonarismo e o STF. Reportagens desta terça-feira registram justamente essa avaliação de que a iniciativa de Mendonça produz efeitos eleitorais favoráveis a Flávio.
Isso não significa atribuir a Mendonça uma intenção que ele não declarou. O próprio ministro sustenta que seu papel é atuar com imparcialidade e que as suspeitas precisam ser examinadas. O que está em discussão, portanto, é outra coisa: se os procedimentos adotados foram adequados e quais consequências institucionais eles produziram.
A questão central agora é saber até onde essa escalada pode chegar. O episódio colocou o STF diante de uma situação delicadíssima: investigar suspeitas que atingem integrantes da própria Corte sem permitir que a investigação se transforme em instrumento de disputa política ou em precedente para que qualquer ministro possa, isoladamente, abrir novas frentes contra seus colegas.
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