A democracia brasileira não pode ser analisada apenas pelos discursos feitos durante uma campanha eleitoral. É preciso observar também o que determinados atores políticos dizem sobre os limites que estariam dispostos a respeitar quando chegassem ao poder.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho de 2025, Flávio Bolsonaro associou a possibilidade de um futuro presidente enfrentar uma eventual decisão do Supremo Tribunal Federal que considerasse inconstitucional uma anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. A declaração ganhou uma dimensão ainda mais grave quando foi interpretada como referência à possibilidade de uma ruptura institucional.
A expressão “o próximo golpe já está marcado para 2027”, atribuída a Flávio na repercussão da entrevista, transformou 2027 em uma espécie de marco simbólico: o ano em que um eventual novo governo poderia ser confrontado com a escolha entre aceitar os limites constitucionais ou desafiar uma decisão do STF.
O problema democrático está justamente nessa fronteira.
Em uma República, presidente, Congresso, Judiciário e Forças Armadas possuem competências constitucionalmente delimitadas. Uma decisão judicial pode ser contestada pelos instrumentos previstos na própria Constituição — recursos, debates legislativos e mudanças legislativas dentro das regras do Estado de Direito. O que não pode ser normalizado é a ideia de que uma decisão judicial possa ser enfrentada pela força.
Por isso, a discussão sobre 2027 não deveria ser tratada como mera retórica eleitoral.
Ela levanta uma pergunta fundamental: o projeto político que pretende chegar ao Palácio do Planalto aceitará os limites impostos pela Constituição quando esses limites contrariem seus interesses?
A resposta a essa pergunta é maior do que Flávio Bolsonaro, maior do que Jair Bolsonaro e maior do que qualquer eleição.
É uma questão sobre a própria sobrevivência das instituições democráticas brasileiras.
2027, portanto, não deve ser visto como uma data marcada para um golpe. Deve ser visto como um alerta sobre a necessidade de impedir que qualquer projeto de poder transforme a ruptura institucional em alternativa política.
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