Em antecipação aos fatos, Flávio admite que esta semana poderá vir à tona não uma, mas várias “balas de prata” contra sua candidatura. Mas Flávio acha que engana quem?
Abre parêntese em entrevista para se vender como vítima de uma suposta perseguição judicial, certo de que não há muito mais a produzir além do seu já enfadonho cinismo, atitude que se tornou uma espécie de método diante dos escândalos que pipocam como milho de pipoca em panela quente.
O sujeito que só sabe negar, sem explicar satisfatoriamente as acusações que o cercam, tenta transformar tudo em perseguição: corrupção, relações suspeitas, denúncias envolvendo seu entorno e até a polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida. Fixa o olhar numa direção qualquer, como quem perdeu completamente o rumo, e apresenta a fuga como se fosse a única saída possível diante da sucessão de denúncias que atingem seu nome e o de seus aliados.
O fato é que essa fantasia interpretativa já não engana mais ninguém. Não cola nem com durepoxi.
E o problema de Flávio não está apenas na falta de projetos para o país ou na pobreza de seu discurso político. O que está em discussão são fatos, documentos, relações e acusações que, segundo as denúncias divulgadas, lançam luz sobre uma rede de interesses envolvendo dinheiro, poder, negócios e personagens associados a diferentes investigações.
Perguntado sobre suas viagens em avião ligado a Daniel Vorcaro, Flávio procura contestar a relação e atribuir a aeronave a terceiros. Quando questionado sobre as acusações envolvendo pessoas de seu entorno, responde recorrendo à velha fórmula da “perseguição”. É sempre a mesma saída: não explica, não apresenta documentos, não esclarece; acusa quem pergunta.
E é justamente aí que mora o problema.
Flávio parece ter se cercado de personagens sobre os quais recaem graves questionamentos e, agora, encontra-se politicamente dependente das explicações que esses vínculos exigem. A cada nova denúncia, sua margem de manobra diminui. A cada nova pergunta, o discurso da perseguição fica mais parecido com uma cortina de fumaça para evitar respostas objetivas.
O episódio dos supostos R$ 70 milhões relacionados a Vorcaro e ao projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro tornou-se emblemático. Flávio prometeu apresentar uma planilha e documentos para esclarecer a questão. O tempo passa, a campanha avança e a cobrança permanece: onde estão os documentos que ele próprio prometeu apresentar?
E, quando se olha para as notícias que dominaram a última semana, surgem sucessivamente denúncias e questionamentos envolvendo dinheiro, emendas, relações políticas, milícias e personagens ligados a investigações criminais. É uma sucessão de episódios que exige explicações, não slogans.
Como se tudo isso não bastasse, há ainda a questão das bets. Pressionado pelo debate sobre o financiamento desse mercado e pela própria posição assumida durante a campanha, Flávio promete que, se eleito, poderá reabrir espaço para a jogatina no Brasil. Uma promessa que coloca em choque seu discurso dirigido ao eleitorado religioso com uma política que pode ter consequências econômicas e sociais profundas para famílias endividadas.
É como se, a cada dia, acendesse uma vela para um lado diferente em nome de uma fé política de conveniência.
Na semana decisiva da eleição, Flávio não pode simplesmente fugir dos microfones. Precisa responder às perguntas. E, quando responde, precisa apresentar provas capazes de sustentar aquilo que afirma.
Não basta repetir que tudo é mentira. Não basta chamar tudo de perseguição. Não basta atribuir cada denúncia à disputa eleitoral.
Para onde se olha, sobretudo nas mais recentes notícias, depara-se com algum tipo de corrupção, de assoiação com milícia, com dinheiro de emendas para quem forneceu a arma a Ronnie Lessa para matar Marielle Franco.
Não basta insinuar que qualquer investigação, reportagem ou denúncia contra ele seria fruto de uma conspiração.
Quem diz a verdade precisa ter documentos, testemunhas e fatos para sustentá-la.
Por isso, quando o próprio Flávio antecipa que novas denúncias poderão surgir nesta semana, sua reação já parece estar preparada: será mentira, perseguição, armação, disputa eleitoral.
Se tudo é mentira, onde estão as provas capazes de demonstrar que ele está dizendo a verdade?
O fato é que Flavio está encurralado pelas próprias armações.
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