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Vorcaro editava textos do Metrópoles antes de irem ao ar

Polícia Federal encontra mensagens em que Daniel Vorcaro edita reportagens e sugere pautas ao portal Metrópoles

A Polícia Federal (PF) descobriu, no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mensagens que comprovam que a cúpula do portal Metrópoles submetia reportagens ao empresário antes da publicação, atendia a pedidos de edição nos textos e sugeria pautas de interesse dele. A interlocução direta era feita com a CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan, e começou em 2024, mesmo ano em que o Master fechou um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o site. Entenda a ligação entre Vorcaro e Metrópoles com a TVT News.

  • Entenda: Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, enviava textos a Vorcaro antes da publicação
  • Daniel Vorcaro agia como editor do site Metrópoles: pelo menos 14 textos foram enviados previamente ao ex-banqueiro, e 11 deles sofreram alterações após seus pedidos.
  • Quem é Lilian Tahan: CEO do Grupo Metrópoles desde setembro de 2015, é a interlocutora direta de Vorcaro nas mensagens obtidas pela PF.
  • O que a Polícia Federal descobriu: diálogos mostram Vorcaro determinando como os textos deveriam ser publicados, pedindo para retirar menções a empresas e até vetando a publicação de reportagens.
    Master Jornalismo: as mensagens também revelam a relação de Vorcaro com o diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, Frederic Kachar, que foi demitido após a repercussão das conversas.
    Daniel Vorcaro editava textos e sugeria reportagens do Metrópoles
    As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal mostram uma relação de interferência editorial direta entre o ex-banqueiro e a CEO do Metrópoles, Lilian Tahan.

Em um dos episódios, no dia 2 de abril de 2025, ao debater rumores de que o BTG teria feito uma proposta de pela compra de ativos do Master, Vorcaro enviou um desmentido oficial e determinou como o texto deveria ser publicado: “Mas tem que ser um jeito que nãp pareça que não tem interesse. So desmentir quem falou que tinha proposta de 1 real”. Tahan respondeu prontamente: “Tiramos”.

Em outra troca, Vorcaro sugeriu alterações para inflar os números do banco em uma reportagem que comparava os balanços do BRB e do Master. “Carteira credito do master é maior. Pois tem que pegar as carteiras dos fundos”, escreveu ele, repassando o número de R$ 52 bilhões. A jornalista acatou a mudança e publicou o texto com a alteração.

lilian-tahan-vorcaro-metropoles-mensagens-pf-policia-federal-banco-masterReprodução de mensagens obtidas por veículos de imprensa que trazem o que seriam as trocas de mensagens entre Lilian Tahan, CEO do Grupo Metrópoles, e Daniel Vorcaro – Imagem: Reprodução

lilian-tahan-vorcaro-metropoles-mensagens-pf-policia-federal-banco-masterReprodução de mensagens obtidas por veículos de imprensa que trazem o que seriam as trocas de mensagens entre Lilian Tahan, CEO do Grupo Metrópoles, e Daniel Vorcaro – Imagem: Reprodução

O poder de veto do ex-banqueiro sobre as matérias também ficou evidente. No dia 27 de maio de 2025, ao receber uma prévia de uma reportagem sobre a compra de ativos bilionários do Master pelo BTG Pactual, Vorcaro ordenou: “Pode retirar hapvida do texto?”. Tahan obedeceu (“Claro”) e a matéria foi publicada sem a menção à empresa.

Quem é Lilian Tahan
Lilian Tahan é CEO do Grupo Metrópoles desde setembro de 2015. Formada em comunicação social pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em jornalismo digital e gestão de empresa de comunicação pela ISE Business School, ela trabalhou por 12 anos no Correio Braziliense e dois anos na revista Veja Brasília antes de assumir o comando do portal.

Segundo as mensagens obtidas pela PF, Tahan era quem se comunicava diretamente com Vorcaro, atendia a seus pedidos, marcava reuniões presenciais e intermediava encontros com o dono do Metrópoles, o ex-senador Luiz Estevão.

O que Lilian Tahan disse sobre as mensagens com Vorcaro
Em nota, Lilian Tahan afirmou que “checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”. Ela também negou que o contrato de publicidade do Master com o Metrópoles tivesse relação com a cobertura de interesse do banco: “Basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, tais como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas dentre outras”.

Vorcaro também agia no Grupo Globo
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro não se restringem ao Metrópoles. A PF também encontrou conversas entre o ex-banqueiro e o então diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, Frederic Kachar, e com o apresentador Luciano Huck.

mensagens-encontradas-pela-pf-mostram-relacao-comercial-e-pessoal-entre-apresentador-e-ex-dono-do-banco-master-huck-contesta-sociedade-em-aeronave-foto-dados-obtidos-pela-pf-no-celular-de-vorcaro-divulgacao-lilian-tahan-vorcaro-metropoles-mensagens-pf-policia-federal-banco-masterMensagens encontradas pela PF mostram relação comercial e pessoal entre apresentador e ex-dono do Banco Master; Huck contesta sociedade em aeronave. Foto: Dados obtidos pela PF no celular de Vorcaro/DivulgaçãoCom Huck, as mensagens revelam uma relação de amizade e negócios.

O apresentador atuou como conselheiro de Vorcaro e chegou a escrever: “Você merece sair inteiro desta turbulência toda”. A parceria de mídia entre os dois, envolvendo o patrocínio do Will Bank ao programa Domingão com Huck.

*TVTNews


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A engrenagem de que se cercou Flavio Bolsonaro

A fusão que se formou em torno da campanha de Flávio Bolsonaro — entre interesses políticos, setores do sistema financeiro, alto empresariado, grande mídia, grupos religiosos e personagens associados ao universo das milícias e das organizações criminosas — não pode ser tratada como uma simples coincidência de interesses. Ela revela uma engrenagem de poder. E essa engrenagem ajuda a entender como Daniel Vorcaro e o Banco Master conseguiram chegar tão longe.

O caso Master deixou de ser apenas a história de um banqueiro cercado por suspeitas e passou a expor algo muito mais profundo: as relações entre dinheiro, política, influência institucional e proteção de interesses privados.

As investigações da Polícia Federal revelaram que Vorcaro transitava com desenvoltura por diferentes ambientes de poder. Há registros de proximidade com políticos de alto escalão, interlocuções com integrantes de instituições públicas e relações que estão sendo examinadas pelos investigadores. Também surgiram suspeitas sobre a atuação de servidores do Banco Central que, segundo a PF, teriam repassado informações privilegiadas e atendido a interesses do banqueiro enquanto o próprio Master estava sob fiscalização.

E há um ponto politicamente explosivo: Flávio Bolsonaro aparece nas investigações como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações envolvendo o filme Dark Horse. Segundo a PF, houve mensagens, reuniões presenciais, cobranças de pagamentos e acompanhamento da produção. A investigação apura a origem, o trânsito e a destinação dos recursos envolvidos.

Isso não significa, por si só, que toda pessoa que manteve contato com Vorcaro tenha cometido crime. Mas significa algo que a política brasileira deveria levar muito a sério: Vorcaro não operava no vazio.

Ele circulava.

Ele negociava.

Ele construía pontes.

Ele estabelecia relações.

E, segundo as investigações, buscava influência justamente onde decisões capazes de afetar seus negócios eram tomadas.

É nesse ponto que a história do Banco Master deixa de ser apenas financeira e passa a ser essencialmente política.

Porque um esquema de tamanha dimensão não depende apenas de um banqueiro. Depende de portas abertas, interlocutores disponíveis, relações privilegiadas, silêncio conveniente e uma rede de proteção capaz de retardar ou dificultar a reação das instituições.

As próprias investigações indicam uma impressionante amplitude dessa rede. Mensagens obtidas pela PF mostram relações próximas de Vorcaro com figuras do Congresso, enquanto outras apurações examinam sua influência sobre órgãos reguladores e sua proximidade com agentes públicos.

E é justamente por isso que a pergunta central não deveria ser apenas:

“O que Daniel Vorcaro fez?”

A pergunta mais importante é:

“Quem permitiu que Daniel Vorcaro chegasse tão longe?”

Porque banqueiro nenhum constrói sozinho uma rede dessa magnitude.

Nenhum banco opera durante anos sem passar por órgãos de fiscalização.

Nenhuma operação financeira de grande porte acontece sem deixar rastros.

E nenhuma estrutura de poder se sustenta apenas pela vontade de um indivíduo.

É preciso haver conexões.

É preciso haver acesso.

É preciso haver gente disposta a abrir portas.

É preciso haver uma atmosfera política em que determinadas relações sejam naturalizadas enquanto outras sejam imediatamente transformadas em escândalo.

É aí que a fusão em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro ganha um significado que ultrapassa a eleição.

Ela revela a tentativa de juntar, sob uma mesma estrutura de poder, interesses que normalmente aparecem separados: o dinheiro do grande capital, a influência política, a força eleitoral do chamado evangelistão, a máquina de comunicação da grande mídia e setores historicamente associados à política subterrânea do Rio de Janeiro.

Não é necessário afirmar que todos esses grupos formem uma organização criminosa — isso seria uma conclusão que cabe às investigações e à Justiça.

Mas é perfeitamente legítimo perguntar que projeto de poder emerge quando tantos interesses diferentes encontram um mesmo candidato como ponto de convergência.

E talvez seja justamente essa pergunta que incomode tanto.

Porque, quando se olha apenas para cada escândalo isoladamente, tudo parece fragmentado.

Um episódio no Banco Master. Outro envolvendo Vorcaro. Outro no sistema financeiro. Outro no Congresso. Outro envolvendo agentes públicos. Outro envolvendo o Dark Horse. Outro relacionado à campanha.

Mas, quando se coloca tudo sobre a mesma mesa, aparece uma paisagem muito mais perturbadora:

dinheiro, influência, política e poder circulando pelos mesmos corredores.

É por isso que o caso Master precisa ser investigado até o fim, sem blindagens políticas, sem seletividade e sem transformar nenhum personagem em intocável.

Porque a questão já não é apenas descobrir o tamanho do buraco financeiro.

É descobrir o tamanho da rede de relações que permitiu que esse buraco existisse.

E, sobretudo, quem estava ao redor dele quando tudo acontecia.

Vorcaro pode ser apenas o nome mais visível de uma engrenagem muito maior.

E quanto mais essa engrenagem aparece, mais difícil fica sustentar a narrativa de que o Banco Master foi apenas a aventura de um banqueiro que perdeu o controle.

Talvez o verdadeiro escândalo seja justamente este:

não é apenas saber até onde Vorcaro chegou. É descobrir quantas portas precisaram ser abertas para que ele chegasse lá, e quem as abriu.

A mídia protege André Mendonça para que este proteja Flavio Bolsonaro.


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Luciano Huck e Vorcaro trocaram mensagens sobre negócios, aviões e articulações na Globo, diz revista

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostram uma relação próxima entre o banqueiro e o apresentador Luciano Huck, com negócios, encontros, empréstimos de aeronaves e troca de favores. As informações foram divulgadas pela coluna Radar, da revista Veja.

As conversas mostram que os dois mantinham contato desde 2023. Em novembro daquele ano, após um encontro, Huck escreveu: “Bom te encontrar pessoalmente hoje. Nos devemos um papo. Abração”. Vorcaro respondeu: “Fala, amigo. Bom demais te ver”.

A relação também envolveu negócios. Vorcaro, por meio do Will Bank, fechou uma parceria de mídia com o programa “Domingão com Huck”. Em uma das mensagens, o apresentador menciona R$ 83 milhões em mídia para a Globo e R$ 26 milhões em um contrato pessoal.

Huck e Vorcaro também tinham sociedade em um avião Gulfstream G550. Em fevereiro de 2024, o apresentador escreveu ao banqueiro: “Estou buscando um sócio para o G550. Se te interessar, bora falar”. Vorcaro respondeu: “Vamos conversar”.

O apresentador também recorreu a aeronaves de Vorcaro para viagens. Segundo as mensagens, um avião foi utilizado por Huck para chegar a Canoas (RS), durante a tragédia climática de 2024, e outro para uma viagem a Varsóvia, na Polônia, onde entrevistou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

As conversas mostram ainda Huck auxiliando Vorcaro em negociações com a Globo. Em outubro de 2024, após um jantar, o apresentador escreveu: “Valeu pelo jantar e, principalmente, pela conversa e confiança”. Na mesma mensagem, afirmou estar acompanhando as tratativas com a emissora.

A proximidade também era pessoal. Huck convidou Vorcaro para uma pizza em sua casa com o ex-jogador Ronaldo Nazário, o Ronaldo Fenômeno, e escreveu: “Precisamos começar a construir esta candidatura à CBF”.

Em 2025, enquanto o Banco Master enfrentava dificuldades, Huck continuou demonstrando apoio ao banqueiro. “Quero entender como as coisas estão andando e onde está sua cabeça. E, obviamente, se posso ajudar em alguma frente”, escreveu. Em outra conversa, afirmou: “Estou com você em qualquer frente”.

A última mensagem citada pela Veja foi enviada em 17 de novembro de 2025, pouco antes da prisão de Vorcaro. Após a notícia sobre uma suposta venda do Banco Master, Huck escreveu: “Vi a boa notícia da compra do Master agora no JN. Muito bom. Congrats. Você merece sair inteiro desta turbulência toda”.

Vorcaro foi preso naquela noite, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava deixar o país.

Luciano Huck ainda não se manifestou sobre as mensagens.

*ICL


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Cada novo envolvido com Vorcaro que aparece não pode servir para apagar Flavio Bolsonaro do caso

A cada nova revelação sobre as relações de Daniel Vorcaro com figuras do poder, surge um risco evidente no debate público: transformar a multiplicação dos personagens em uma cortina de fumaça que deixe em segundo plano os crimes que envolvem Flavio Bolsonaro.

As mensagens reveladas pela Polícia Federal mostram relações de proximidade de Vorcaro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e com o presidente da Câmara, Hugo Motta. No caso de Motta, as reportagens mencionam inclusive um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões do Banco Master para uma empresa ligada à sua cunhada. Ambos negam irregularidades.

Mas uma coisa não elimina a outra.

O surgimento de novos nomes na investigação não apaga o Dark Horse. Ao contrário: torna ainda mais necessário que todas as relações financeiras e políticas sejam esclarecidas, inclusive aquelas envolvendo Flávio Bolsonaro.

Documentos tornados públicos pelo STF mostram que existe investigação sobre o envolvimento até o pescoço de Flavio Bolsonaro com o banqueiro criminoso. Mensagens divulgadas anteriormente registram pressão de Flávio para Vorcaro liberar R$ 134 milhões. Quem não sabe disso?

É justamente aí que a cobertura jornalística precisa manter o foco. Cada revelação deve ser investigada pelo que ela efetivamente demonstra, sem permitir que um escândalo seja usado para obscurecer outro.

Se há relações entre Vorcaro e diferentes caciques políticos, todas precisam ser escrutinadas. Se há indícios envolvendo Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, esses fatos também precisam permanecer no centro da apuração. Uma revelação não deve funcionar como álibi para outra.

O caso Master não pode virar uma disputa de manchetes em que cada novo nome sirva para deslocar a atenção do anterior. O que está em jogo é justamente o esclarecimento integral da rede de relações e negócios promíscuos de Vorcaro com Flavio Bolsonaro.

Nem Alcolumbre, nem Motta, nem Flávio Bolsonaro podem ser transformados em cortina de fumaça uns para os outros. Todos os fatos precisam ser investigados, documentados e explicados.


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Flávio já sabe que a casa vai cair e anuncia que “balas de prata” virão à tona contra sua campanha

Em antecipação aos fatos, Flávio admite que esta semana poderá vir à tona não uma, mas várias “balas de prata” contra sua candidatura. Mas Flávio acha que engana quem?

Abre parêntese em entrevista para se vender como vítima de uma suposta perseguição judicial, certo de que não há muito mais a produzir além do seu já enfadonho cinismo, atitude que se tornou uma espécie de método diante dos escândalos que pipocam como milho de pipoca em panela quente.

O sujeito que só sabe negar, sem explicar satisfatoriamente as acusações que o cercam, tenta transformar tudo em perseguição: corrupção, relações suspeitas, denúncias envolvendo seu entorno e até a polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida. Fixa o olhar numa direção qualquer, como quem perdeu completamente o rumo, e apresenta a fuga como se fosse a única saída possível diante da sucessão de denúncias que atingem seu nome e o de seus aliados.

O fato é que essa fantasia interpretativa já não engana mais ninguém. Não cola nem com durepoxi.

E o problema de Flávio não está apenas na falta de projetos para o país ou na pobreza de seu discurso político. O que está em discussão são fatos, documentos, relações e acusações que, segundo as denúncias divulgadas, lançam luz sobre uma rede de interesses envolvendo dinheiro, poder, negócios e personagens associados a diferentes investigações.

Perguntado sobre suas viagens em avião ligado a Daniel Vorcaro, Flávio procura contestar a relação e atribuir a aeronave a terceiros. Quando questionado sobre as acusações envolvendo pessoas de seu entorno, responde recorrendo à velha fórmula da “perseguição”. É sempre a mesma saída: não explica, não apresenta documentos, não esclarece; acusa quem pergunta.

E é justamente aí que mora o problema.

Flávio parece ter se cercado de personagens sobre os quais recaem graves questionamentos e, agora, encontra-se politicamente dependente das explicações que esses vínculos exigem. A cada nova denúncia, sua margem de manobra diminui. A cada nova pergunta, o discurso da perseguição fica mais parecido com uma cortina de fumaça para evitar respostas objetivas.

O episódio dos supostos R$ 70 milhões relacionados a Vorcaro e ao projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro tornou-se emblemático. Flávio prometeu apresentar uma planilha e documentos para esclarecer a questão. O tempo passa, a campanha avança e a cobrança permanece: onde estão os documentos que ele próprio prometeu apresentar?

E, quando se olha para as notícias que dominaram a última semana, surgem sucessivamente denúncias e questionamentos envolvendo dinheiro, emendas, relações políticas, milícias e personagens ligados a investigações criminais. É uma sucessão de episódios que exige explicações, não slogans.

Como se tudo isso não bastasse, há ainda a questão das bets. Pressionado pelo debate sobre o financiamento desse mercado e pela própria posição assumida durante a campanha, Flávio promete que, se eleito, poderá reabrir espaço para a jogatina no Brasil. Uma promessa que coloca em choque seu discurso dirigido ao eleitorado religioso com uma política que pode ter consequências econômicas e sociais profundas para famílias endividadas.

É como se, a cada dia, acendesse uma vela para um lado diferente em nome de uma fé política de conveniência.

Na semana decisiva da eleição, Flávio não pode simplesmente fugir dos microfones. Precisa responder às perguntas. E, quando responde, precisa apresentar provas capazes de sustentar aquilo que afirma.

Não basta repetir que tudo é mentira. Não basta chamar tudo de perseguição. Não basta atribuir cada denúncia à disputa eleitoral.

Para onde se olha, sobretudo nas mais recentes notícias, depara-se com algum tipo de corrupção, de assoiação com milícia, com dinheiro de emendas para quem forneceu a arma a Ronnie Lessa para matar Marielle Franco.

Não basta insinuar que qualquer investigação, reportagem ou denúncia contra ele seria fruto de uma conspiração.

Quem diz a verdade precisa ter documentos, testemunhas e fatos para sustentá-la.

Por isso, quando o próprio Flávio antecipa que novas denúncias poderão surgir nesta semana, sua reação já parece estar preparada: será mentira, perseguição, armação, disputa eleitoral.

Se tudo é mentira, onde estão as provas capazes de demonstrar que ele está dizendo a verdade?

O fato é que Flavio está encurralado pelas próprias armações.


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Se R$ 427 milhões estavam em jogo no entorno de Kassio, quanto o clã Bolsonaro teria recebido para viabilizar o Banco Master?

O caso Banco Master expõe uma teia de relações que exige investigação rigorosa, transparência e respostas públicas. Segundo reportagens publicadas em 21 de setembro de 2026, a Polícia Federal identificou um contrato de honorários de até R$ 427 milhões, associado ao escritório da advogada Camilla Ramos, para ações judiciais que poderiam destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios de interesse de Daniel Vorcaro. Mensagens encontradas no material apreendido fizeram investigadores relacionarem a chamada “Turma do KN” ao ministro Kassio Nunes Marques, que nega ter favorecido o banqueiro ou o Banco Master.

Diante de revelações dessa dimensão, uma pergunta política inevitavelmente se impõe: se havia uma estrutura capaz de movimentar centenas de milhões de reais em honorários ligados a interesses do banqueiro, quais foram as relações financeiras e políticas que permitiram a criação e a expansão do Banco Master durante o governo Bolsonaro, já que havia sido negada durante o governo Temer?

O banco, anteriormente chamado Banco Máxima, recebeu autorização para operar como Banco Master em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro. Esse fato, por si só, não comprova pagamento ilícito ao clã Bolsonaro, mas justifica que as circunstâncias da autorização, as relações empresariais e eventuais repasses financeiros sejam examinados pelas autoridades competentes.

A sociedade brasileira não pode aceitar que suspeitas envolvendo cifras bilionárias sejam tratadas com seletividade. Se existem documentos, mensagens e movimentações financeiras relevantes, que sejam investigados, confrontados e esclarecidos. A transparência precisa valer para todos: banqueiros, empresários, ministros do Judiciário e grupos políticos, sem proteção partidária ou blindagem institucional.

A pergunta não é uma prova de culpa. É uma cobrança por investigação: quem se beneficiou, quem abriu portas e quais interesses estiveram por trás da trajetória do Banco Master?


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“DOMINADO AQUI”

Pagamentos a empresa ligada ao filho de Kassio Nunes Marques coincidem com julgamento em que ministro tomou decisão favorável aos negócios de Vorcaro

Trecho da troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu advogado de confiança, Luiz Rennó - Crédito: Reprodução

Trecho da troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu advogado de confiança, Luiz Rennó – Crédito: Reprodução

Às 16h48 de 8 de agosto de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro recebeu uma mensagem de Luiz Rennó, seu advogado de confiança, que atuava como assessor jurídico do Banco Master. “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”, alertou Rennó. Ele se referia à Consult Inteligência Tributária, empresa criada em 2022 por Francisco Craveiro, um contador que é amigo de longa data de Kassio Nunes Marques, ministro do STF.

As transações entre o Master e a Consult são conhecidas desde março deste ano. Um relatório do Coaf detectou que, entre agosto de 2024 e julho de 2025, o banco de Vorcaro fez catorze transferências para a empresa, somando 6,632 milhões de reais. A Consult, por sua vez, transferiu nesse mesmo período 282 mil reais para Kevin Marques, filho do ministro do STF – levantando a suspeita de que a empresa fosse apenas uma intermediária por meio da qual ele recebia dinheiro do Master. Kevin sempre negou.

Agora, novas mensagens extraídas do celular de Vorcaro agravam essa suspeita. No dia 8 de agosto, segundos depois de alertar o banqueiro sobre o pagamento “essencial” que precisava ser feito, Rennó mostrou para ele o cartão de contato de Kevin e escreveu: “Aqui.” Vorcaro respondeu com um “Oi”, e o advogado prosseguiu: “Esse aí.” “Único ‘meu’ que faltou.” Meia-hora depois, ele retornou para avisar ao chefe: “Foi pago.”

Não foi o único diálogo em que o nome de Kevin Marques apareceu associado a pagamentos. Um mês antes, no dia 4 de julho, o assessor jurídico do Master havia perguntado a Vorcaro: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?” A mensagem, novamente, marcava o cartão de contato de Kevin, para deixar claro de quem Rennó estava falando. Na sequência, o advogado deu uma risada – “Kkkkkkkkk” – e disse: “Então esse aqui já era né”. O banqueiro respondeu um minuto depois, também com um “Kkkk”.

A troca de mensagens veio à tona na terça-feira (15), depois que o conteúdo do celular de Vorcaro foi compartilhado com o gabinete de alguns ministros do STF, a pedido deles. O diálogo acrescenta uma nova camada às revelações que já haviam sido feitas sobre a relação entre Kevin e o Master, detalhadas em reportagens da piauí em março e abril.

A primeira novidade é o fato de que, nas mensagens de Vorcaro, o pagamento para a Consult está diretamente associado ao filho do ministro. A segunda novidade é a referência aos “500 mil mês”. Divididos em catorze transferências ao longo de um ano, os 6,6 milhões de reais que o Master transferiu para a empresa resultam em 474 mil reais por transferência, em média. É um valor próximo aos 500 mil mencionados por Vorcaro, embora não haja elementos para afirmar se as parcelas obedeceram a essa média e se os dois valores estão relacionados. Também não se sabe se, depois do “Kkkk”, Vorcaro respondeu à pergunta de seu advogado (“Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”).

Mas há ainda uma terceira novidade. As transferências de dinheiro do Master para a Consult coincidem com o período em que a Segunda Turma do STF – à qual pertence Nunes Marques – julgava um processo de grande importância para o banco. Era o caso da Destilaria Alcídia, que cobrava da União a reparação de prejuízos causados na década de 1980. Como mostrou uma reportagem da piauí, a decisão do Supremo teria impacto direto sobre a carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro no balanço do Master, que somava mais de 10 bilhões de reais, segundo as estimativas da PF. Para Vorcaro – que naquele momento precisava de liquidez para evitar a falência –, era crucial que a Alcídia ganhasse, já que a decisão também impactaria processos de interesse do seu banco.

Foi o que aconteceu – e com um voto decisivo de Nunes Marques.

O ministro, num primeiro momento, não participou do julgamento. Na sessão virtual que transcorreu entre 9 e 20 de fevereiro de 2024, a certidão emitida pelo STF registra: “Impedido o ministro Nunes Marques.” Ele não votou. Justificou o impedimento afirmando que, em outubro de 2018, quando era desembargador do TRF-1, havia julgado um recurso do caso Alcídia, inclusive presidindo a sessão e assinando o acórdão. É uma medida prevista no Código de Processo Civil: para garantir um julgamento imparcial, recomenda-se que um mesmo juiz não decida sobre um processo em duas instâncias.

Mas, rapidamente, Nunes Marques voltou atrás na decisão. No mês seguinte, em março de 2024, produziu um despacho afirmando que seu impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria do gabinete”. Afirmou que, na sua interpretação, o recurso julgado no TRF-1 não interferia no julgamento do STF. “Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar”, concluiu. Determinou que a decisão fosse comunicada ao presidente da Segunda Turma, ministro Dias Toffoli, e assim foi feito.

O processo, àquela altura, estava empatado em 2 a 2 (Toffoli e Fachin haviam votado a favor da Destilaria Alcídia; Gilmar Mendes e André Mendonça, contra). Depois da reabilitação de Nunes Marques, o caso demorou a voltar à pauta. Por um tempo, ficou empacado nas mãos de Gilmar, e em 17 de setembro foi liberado para uma sessão presencial. Em seguida, Nunes Marques pediu vista. Finalmente, em 1º de outubro, ele devolveu o processo à Turma e apresentou um voto de dez páginas, no qual conclui: “Acompanho o Ministro Relator, pedindo vênia aos que divergem de Sua Excelência.”

Com seu voto, o placar foi de 3 a 2 em favor da Alcídia, como Vorcaro queria. Na conversa de WhatsApp, Luiz Rennó não tardou a comemorar. “Ganhamos alcidia”, escreveu em mensagem a Vorcaro, às 16h58 daquele dia. Enviou o placar – “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André)”, ao que Vorcaro respondeu com um emoji: “👍🏻”. Quatro minutos depois, Rennó retornou à conversa e, sinalizando novamente o cartão de contato de Kevin Marques, escreveu para o chefe: “Dominado aqui.”

Indagado pela piauí sobre sua participação no julgamento da Destilaria Alcídia, Nunes Marques afirmou, por meio de sua assessoria, que “compreendeu que tecnicamente não estava impedido, por se tratar de tese ampla”, e que “votou diversas vezes no mesmo sentido enquanto estava no TRF-1”. Segundo ele, relacionar o julgamento e os repasses da Consult é uma “ilação maldosa”, já que “o recurso julgado não era do Master e o serviço prestado pelo filho do ministro foi efetivo e devidamente declarado, tendo ele recebido 10 parcelas de cerca de R$ 28 mil cada”. Sobre o diálogo de Vorcaro e Rennó, a assessoria de Nunes Marques afirmou: “Embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese que se aplicaria a diversas empresas. O ministro nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.”

Kevin Marques seguiu a vocação do pai. Tornou-se advogado e, embora não tenha ainda completado três anos de carreira, já acumulou uma pequena fortuna. Em julho, a Folha de S.Paulo revelou que ele acumulava 27,7 milhões de reais aplicados em fundos de investimento. Na Consult, o filho do ministro não possuiu participação formal, mas mantém relações financeiras e societárias com os donos da empresa, que foi criada em março de 2022, no endereço de uma loja na Asa Sul, em Brasília. Inicialmente, o contador Francisco Craveiro, velho amigo de Kassio Nunes Marques, dividia as cotas com um irmão. Meses depois, passou a maior parte delas para o filho, Gabriel Campelo de Carvalho.

Em 9 de maio de 2024 – antes de Nunes Marques votar no caso Alcídia, mas depois de ter se declarado apto para tal –, a Consult passou por duas alterações societárias. Primeiro: seu capital social, que até então era de 10 mil reais, saltou para 500 mil reais. O documento não informou a origem dos 490 mil reais que entraram. Segundo: o controle da empresa mudou de mãos. Gabriel, que antes tinha 95% das cotas, passou a ter apenas 5%. Seu pai, Francisco Craveiro, fez o caminho inverso: de 5%, subiu para 95%.

A mudança se consumou de vez em 30 de julho. Nesse dia, Gabriel deixou formalmente a Consult, e Craveiro, com isso, tornou-se o único dono. No mês seguinte, a empresa começou a receber as transferências vultosas que chamaram a atenção do Coaf. No decorrer de um ano, o cofre da Consult foi abastecido com 11,38 milhões da JBS, a empresa dos irmãos Batista, e 6,62 milhões do Master. As cifras milionárias contrastam com o faturamento modesto declarado pela empresa, de apenas 25.555,56 reais por mês.

A Consult, enquanto isso, fazia os repasses a Kevin Marques. Ao todo, foram 282 mil reais, divididos em onze operações, segundo o relatório do Coaf. Em nota enviada à piauí, Kevin afirmou que os pagamentos foram uma remuneração por “serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa”. Disse também que “não prestou serviço ao banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro”, e que sua atuação junto à Consult “não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal”.

Mas os laços de Kevin com a Consult vão além dos repasses detectados pelo Coaf e das mensagens trocadas entre Vorcaro e Luiz Rennó. Em 2 de outubro, dia seguinte ao voto de Nunes Marques que favoreceu a Alcídia – e, por tabela, o Master –, a sede da Consult foi transferida de Brasília para um escritório em um condomínio empresarial de Alphaville, Barueri. No mês seguinte, nesse mesmo endereço, Kevin e Gabriel Campelo – que tem parte da Consult – criaram outra empresa, chamada Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT). Kevin ficou com 70% das cotas, e Gabriel, encarregado de ser o administrador legal, com 30%. Francisco Craveiro foi escolhido como contador.

As transações da Consult não são o único ponto de contato entre Nunes Marques e o Master. A investigação da PF se deparou com uma conversa de WhatsApp, com a data de 5 de dezembro de 2024, em que Leo Serrano Giunchetti, empresário e agente de viagens, pergunta para Daniel Vorcaro: “Dani… veio de você este? E se sim, é pra atender ele independente ou faço e faturo pra vc?” Giunchetti estava se referindo a um print que acabara de compartilhar com Vorcaro, no qual aparecia uma mensagem enviada por um usuário com o nome e o número de Nunes Marques. A mensagem dizia assim:

Bom dia Leo

Ministro Kassio

Preciso da sua ajuda para formatar uma viagem uns 10 dias, entre 8 e 18 de janeiro, para 5 pessoas.

De preferência com guias e motoristas de Vans que falem português ou espanhol.

Inicialmente imaginei Viena, com bate volta nas cidades próximas como Bratislava, Budapeste, Graz ou Salzburgo.

Outra opção seria o Peru.

Mas estou aberto a outras opções se tiverem algum roteiro pré-programado.

Muito obrigado.

Vorcaro não respondeu. Uma hora depois, Giunchetti mandou nova mensagem para ele: “Me avisa Dani! So pra eu saber como responde-lo please.” Três horas depois, ainda sem resposta, o agente de viagens enviou cinco interrogações seguidas. Os trechos divulgados nesta terça-feira (15) não permitem saber se Vorcaro respondeu e se a viagem, afinal, aconteceu. O ministro Nunes Marques nega. Por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que “apenas cotou preços e nunca utilizou os serviços da agência mencionada”. Giunchetti, por meio de seu advogado, Rogerio Cury, também afirmou à piauí que a viagem não se concretizou. Nenhum dos dois negou a autenticidade da mensagem.

Também vazou, nesta terça-feira (15), uma conversa de Vorcaro com uma mulher identificada apenas como Rayanna. Em 7 de março de 2025, ela apresentou ao banqueiro uma cobrança em nome de uma amiga. “Ela disse que ficou com o Kassio. Ela tá me cobrando aqui”, escreveu. Vorcaro respondeu: “Me manda aqui. Dados e valor.” Ao que Rayanna respondeu “10 né!”, enviando, em seguida, o nome e o e-mail da amiga. A piauí procurou Rayanna, que afirmou desconhecer o episódio. As mensagens não permitem estabelecer quem era “Kassio” nem se houve pagamento. A assessoria de Nunes Marques afirmou que “o ministro não tem conhecimento sobre o contexto” dessas mensagens.

Há, por fim, um outro indicativo da proximidade entre Nunes Marques e Vorcaro. Em 12 de novembro de 2025, seis dias antes de ser preso, o banqueiro enviou à advogada Camilla Ewerton Ramos, que atuava para o Master em processos de recuperação de créditos do setor de álcool, o contato de uma profissional de aviação executiva. Naquela mesma noite, a profissional informou diretamente a Vorcaro que “confirmaram [uma viagem] no [jato] Legacy” para o voo “da Sra Camila”, que sairia de Brasília, e perguntou se havia “alguma recomendação extra” além do champanhe e do uísque já solicitados. “Coloca dom perignon e whiskey macallan e um japones”, respondeu o banqueiro.

A troca de mensagens não cita passageiros. O que se sabe é que, dois dias depois, Nunes Marques e sua mulher embarcaram num Legacy 650 saindo de Brasília rumo a Maceió, onde compareceram à festa de aniversário de Camilla. O jatinho era operado pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro foi sócio até setembro de 2025. A viagem foi revelada pelo Estadão em abril. O gabinete do ministro confirmou que Camilla “ficou responsável pelo voo e detalhes da viagem”. A advogada afirmou ter contratado o jato pessoalmente.

Desde 26 de março, Kassio Nunes Marques é relator de um mandado de segurança que pede ao STF que obrigue o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalar uma CPI do Banco Master. O requerimento reuniu 53 assinaturas de senadores, quase o dobro das 27 exigidas pela Constituição. Até agora, passados quase seis meses, o ministro não assinou sequer um despacho no processo. No mesmo período, porém, votou pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados do caso.

Nesta terça-feira (15), na abertura da sessão extraordinária para avaliar o pedido de investigação contra Alexandre de Moraes, Nunes Marques pediu a palavra para fazer o que chamou de “um esclarecimento e um registro”. Disse que nunca havia usado a tribuna do Supremo para dar explicações, mas que “hoje o dia é relevante e a gravidade das circunstâncias merece”. E reforçou, em seguida, o que já havia dito em notas à imprensa: “Em relação a mensagens que circulam de ontem, de hoje e que sempre vão rondar autoridade no Brasil, eu nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master.”

O ministro defendeu a própria atuação e a do filho. Afirmou que Kevin nunca prestou serviços nem foi remunerado pelo Master e sustentou ter “absoluta isenção” nos processos que julgou. Também negou ter trocado mensagens diretamente com Vorcaro. Ao final da fala, declarou-se impedido de participar do julgamento. Mas o motivo, segundo ele, era de outra natureza: como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), achou que a decisão daquele dia poderia conflitar com sua atuação nas eleições. Quanto aos possíveis conflitos de interesses com o Master, não disse nenhuma palavra.

*Breno Pires/Piauí,Uol


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Prego no caixão do clã: Sete pagamentos, US$ 12,3 milhões e a sombra que chega a Flavio e Eduardo Bolsonaro

A história do chamado Dark Horse acaba de ganhar uma peça que pode mudar radicalmente o peso das suspeitas que cercam o caso. Segundo o relato apresentado à Procuradoria-Geral da República, o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, confirmou ter realizado sete transferências que totalizaram US$ 12,3 milhões — cerca de R$ 69 milhões na cotação da época — para um fundo nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro. Os pagamentos teriam sido realizados entre fevereiro e setembro de 2025, a pedido do banqueiro Daniel Vorcaro.

Não se trata, portanto, de uma transferência isolada, de uma operação perdida no emaranhado financeiro ou de uma movimentação cuja existência possa ser simplesmente tratada como detalhe burocrático. São sete pagamentos. São milhões de dólares. E existe um delator apontando a origem e a motivação das transferências.

É justamente essa sequência que torna o episódio politicamente explosivo.

Durante meses, o caso poderia ser apresentado como uma sucessão de coincidências, versões desencontradas e relações financeiras difíceis de rastrear. Agora, porém, surge o relato de alguém que afirma ter participado diretamente das operações. Se as informações forem confirmadas documentalmente pelas autoridades, a pergunta deixa de ser apenas “quem recebeu o dinheiro?” e passa a ser muito mais incômoda: por que um banqueiro como Daniel Vorcaro teria determinado o envio de US$ 12,3 milhões para um fundo ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro?

E há outra questão que não pode ser empurrada para debaixo do tapete: qual era exatamente a finalidade desses recursos?

As reportagens que divulgaram o depoimento relacionam os pagamentos ao financiamento do filme Dark Horse, produção associada à família Bolsonaro. Se essa conexão for comprovada, estaremos diante de uma operação financeira de proporções extraordinárias envolvendo um banqueiro investigado, recursos milionários enviados ao exterior e um fundo administrado por um advogado próximo a Eduardo Bolsonaro.

Isso exige muito mais do que explicações políticas de ocasião.

Exige documentos, contratos, comprovantes bancários, identificação dos beneficiários efetivos e a reconstrução completa do caminho percorrido por cada dólar.

Porque US$ 12,3 milhões não desaparecem em uma conta bancária por acaso.

E sete pagamentos também não são um detalhe.

O que está em jogo agora é uma engrenagem muito mais complexa — uma engrenagem na qual dinheiro, poder político, interesses privados e relações internacionais se encontram em uma mesma operação.

O depoimento do delator não é, por si só, prova definitiva de crime. Mas é uma peça de enorme relevância investigativa. E, justamente por isso, não pode ser tratado como mais uma notícia passageira do noticiário político.

A sociedade tem o direito de saber quem mandou, quem recebeu, para quê, por qual razão e o que foi feito com os recursos.

Porque quando a cifra chega a US$ 12,3 milhões, quando são sete pagamentos, quando o dinheiro atravessa fronteiras e quando aparece no caminho o círculo político ligado à família Bolsonaro, a pergunta deixa de ser apenas financeira.

Passa a ser uma pergunta de interesse público.


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Mensagens e áudio sobre o encontro de André Mendonça com Vorcaro

Mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelam que o dono do Banco Master teve pelo menos um encontro secreto com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e foi realizada no endereço de um instituto fundado pelo próprio magistrado.

A aproximação foi articulada durante semanas pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.

Em uma das mensagens mais explícitas, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmou que estava “trabalhando” para o banqueiro enquanto levava o ministro a uma alfaiataria.

“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.

O material mostra ainda que Ciro e Cezinha conversaram previamente com Mendonça sobre uma situação relacionada aos problemas enfrentados pelo Master no Banco Central.

Em outro áudio, o advogado disse ter deixado o ministro “balançado” com o assunto e afirmou que Mendonça queria receber Vorcaro.

“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo”, relatou Ciro. “Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele.”

O conteúdo não revela qual providência Vorcaro pretendia obter nem comprova que Mendonça tenha interferido no Banco Central ou adotado qualquer medida em favor do Banco Master. Comprova, porém, a articulação promovida por pessoas próximas ao ministro, o conhecimento prévio de Mendonça sobre o assunto e a realização de pelo menos uma reunião reservada com o banqueiro.

“Tô com André M.”
A articulação começou em 7 de fevereiro de 2025. Naquela tarde, Ciro Rocha Soares fez sucessivas tentativas de telefonar para Daniel Vorcaro. Depois das chamadas perdidas, escreveu: “Opa”, “me liga” e, às 14h03, acrescentou: “Tô [com] André M.”.

No dia seguinte, o advogado encaminhou ao banqueiro uma fotografia na qual aparecia ao lado de André Mendonça. A imagem teria sido feita em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em São Paulo e Brasília.

Imagem enviada pelo advogado Ciro Rocha Soares a Daniel Vorcaro | Reprodução

Logo depois da fotografia, Ciro enviou o áudio de seis segundos: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.”

As mensagens não esclarecem que trabalho Ciro dizia estar realizando para Vorcaro nem se o advogado mantinha contrato formal com o banqueiro, com o Banco Master ou com alguma empresa ligada ao grupo. A frase, porém, mostra que ele apresentava sua proximidade com Mendonça como parte de uma atuação em favor de Vorcaro.

Ciro Rocha Soares é advogado com atuação principalmente na Bahia e sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, sediado em Salvador. Entre 2016 e 2017, exerceu o cargo de ouvidor do Ministério do Turismo.

As conversas mostram que sua relação com Vorcaro ultrapassava uma interlocução estritamente profissional. Os dois se tratavam como irmãos, trocavam declarações de amizade e falavam sobre questões familiares.

Essa intimidade aparece com clareza nas mensagens trocadas em 16 de fevereiro, quando Ciro procurou novamente o dono do Banco Master.

“Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu o advogado às 17h47. Na mensagem seguinte, reforçou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”.

Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e depois sugeriu: “Marca quarta”.

Ciro insistiu que precisava conversar por telefone para explicar o assunto. Na sequência, reclamou, em tom amistoso, que Vorcaro havia sido “o único amigo” que não ligara no seu aniversário.

O banqueiro respondeu que quase compareceu à festa, mas teve um problema com os filhos. Disse também que sabia que a comemoração era uma surpresa e, por isso, não quis falar sobre ela antecipadamente.

“Você é meu irmão caçula, meu protegido”, respondeu Ciro. Vorcaro, por sua vez, enviou uma longa mensagem de aniversário. Chamou o advogado de “irmão, anjo da guarda, parceiro, amigo de verdade” e afirmou: “Se não fosse você eu não estaria de pé”.

A conversa ajuda a dimensionar o grau de confiança existente entre os dois no momento em que Ciro atuava para aproximar o banqueiro de um ministro do Supremo.

“Dei uma balançada nele”
Depois da troca de declarações, Ciro enviou a Vorcaro um áudio de 1 minuto e 39 segundos. É nessa gravação que o advogado descreve de maneira mais detalhada sua interlocução com André Mendonça.

Ciro começou dizendo que conhecia o momento vivido pelo banqueiro e que havia sentido sua ausência na festa de aniversário. Contou que um senador havia dado “um show” no evento, cantado e perguntado por Vorcaro.

Em seguida, relatou que André Mendonça havia feito uma homenagem a ele durante a comemoração. Segundo Ciro, também estavam presentes o ministro do STF Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

“O André Mendonça fez uma homenagem pra mim do caralho no aniversário. O Kassio, o Gonet, puta merda, enfim, foi bacana”, disse.

Logo depois, o advogado voltou ao assunto que o levara a procurar Vorcaro: “O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”

Ciro não detalhou na gravação qual era “aquele assunto”. Mais adiante, porém, fez referência direta à situação do Banco Central e afirmou que Mendonça já havia sido informado sobre ela tanto por ele quanto por Cezinha de Madureira.

“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo, me pediu até pra levar o Otto. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha, Cezinha já tinha falado com ele.”

O áudio revela que havia ao menos duas linhas de interlocução com André Mendonça. Uma era conduzida por Ciro; a outra, por Cezinha de Madureira. Segundo o advogado, ambos já haviam conversado com o ministro sobre a situação relacionada ao Banco Central antes do encontro com Vorcaro.

Ciro disse ainda que iria a Brasília acompanhado de Otto e, em seguida, seguiria para São Paulo, onde seria internado no Hospital Sírio-Libanês. Propôs encontrar Vorcaro no próprio banco, por volta das 17h ou 18h, para que conversassem antes da reunião com Mendonça.

“Se quiser, eu passo no banco, a gente conversa”, sugeriu. Ao final, insistiu que precisava falar com o banqueiro e marcou um encontro para as 18h do dia seguinte.

Reunião marcada para quarta-feira
Em 17 de fevereiro, Ciro avisou que estava deixando Brasília, onde participara de uma reunião, e pediu para conversar com Vorcaro às 18h. “Dani, estou saindo de BSB agora. Estava numa reunião. Preciso falar com você hoje. Podemos marcar às 18h”, escreveu.

Os dois fizeram uma ligação de 18 segundos. Pouco depois, Ciro informou que estava “subindo”, indicando que teria chegado ao local combinado para o encontro com o banqueiro. Às 19h08, enviou uma nova mensagem: “Cezinha confirmou às 16h de quarta”.

A quarta-feira seguinte era 19 de fevereiro. O conjunto das conversas indica que Ciro se referia à reunião com André Mendonça que Vorcaro havia pedido para marcar dois dias antes.

Na data acertada, Ciro procurou novamente o banqueiro e pediu que Bruno Bianco Leal, ministro da Advocacia-Geral da União durante o governo de Jair Bolsonaro, também participasse. Em áudio, orientou Vorcaro a convocar o advogado para que os dois fizessem uma apresentação conjunta.

“Ô, Dani, deixa eu te falar aqui, pede ao Bruno Bianco chegar aqui quatro e meia, pode ser? Que aí a gente faz uma apresentação aqui. Ou quatro e vinte”, disse.

Bruno Bianco fez carreira na Advocacia-Geral da União e comandou o órgão entre agosto de 2021 e janeiro de 2023. Assumiu a chefia da AGU depois que André Mendonça deixou o governo Bolsonaro para ocupar uma cadeira no Supremo.

Após sair do serviço público, Bianco passou a atuar na iniciativa privada e tornou-se advogado ligado ao Banco Master. Mais tarde, integrou a equipe responsável pela defesa de Vorcaro.

As mensagens comprovam que uma reunião foi marcada para aquela quarta-feira, às 16h, e que Ciro tentou incluir Bianco na apresentação. O vazamento, entretanto, não contêm registros de deslocamento, chegada ou saída que permitam cravar que esse primeiro compromisso ocorreu.

O material prova o agendamento e os preparativos. Diferentemente do encontro do mês seguinte, porém, não demonstra de maneira conclusiva a presença simultânea de Vorcaro e Mendonça no local combinado.

Cezinha marca novo encontro
Menos de um mês depois, Cezinha de Madureira voltou a procurar Daniel Vorcaro. Em 13 de março, o deputado informou que havia marcado uma reunião com André Mendonça para as 17h do dia seguinte, em São Paulo.

“Amanhã sexta-feira 17:00 com ministro André em São Paulo”, escreveu.

Na mensagem seguinte, Cezinha indicou o endereço: Alameda Santos, número 647, 16º andar. Vorcaro respondeu: “Show” e, depois, “Marcado”. “Estarei lá para te receber”, afirmou o deputado, antes de reforçar a data e o horário: “Amanhã sexta-feira 14 às 17:00”.

Cezinha de Madureira é uma liderança da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira e tem relação próxima com André Mendonça. Sua trajetória política está fortemente associada à Frente Parlamentar Evangélica e às lideranças da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil.

Nas conversas analisadas, a participação do deputado não se limitou a compartilhar o contato do ministro. Segundo Ciro, Cezinha já havia conversado com Mendonça sobre a situação envolvendo o Banco Central. Depois, confirmou o compromisso de fevereiro e organizou diretamente a reunião de março, indicando data, horário e endereço.

“Ministro já está te esperando”
No dia marcado, 14 de março, Vorcaro procurou o deputado pouco antes das 17h. “Fala amigo”, escreveu às 16h37. Três segundos depois, avisou: “Estou a caminho”.

Houve então uma ligação de 20 segundos entre os dois. Às 16h43, Cezinha enviou a mensagem que confirma que André Mendonça estava no local: “Ministro já está te esperando.”

Os diálogos entre Vorcaro e seu motorista corroboram o deslocamento. Às 16h30, sete minutos antes de avisar Cezinha de que estava a caminho, o banqueiro encaminhou ao funcionário o mesmo endereço enviado pelo deputado: Alameda Santos, 647, 16º andar.

“Descendo”, escreveu Vorcaro. Em seguida, ordenou: “Vamos nesse endereço”. O motorista respondeu: “Ok dr”. Às 18h40, Vorcaro voltou a procurar o funcionário e avisou: “Saindo”.

O cruzamento dos horários mostra que o banqueiro permaneceu no endereço durante cerca de duas horas. Cezinha havia informado que Mendonça já o aguardava no local, e o deputado afirmara no dia anterior que estaria lá para receber Vorcaro.

As mensagens, portanto, comprovam a existência de pelo menos um encontro presencial entre o dono do Banco Master e o ministro do Supremo. Também indicam a participação de Cezinha de Madureira.

Reunião em endereço privado
O encontro não aconteceu na sede do Supremo Tribunal Federal, no gabinete do deputado ou em uma dependência do Banco Master.

No endereço indicado por Cezinha — Alameda Santos, 647, 16º andar — funciona, segundo o documento vazado, o Instituto ITER, instituição de ensino dedicada a cursos de formação e aperfeiçoamento profissional. O instituto foi fundado por André Mendonça em 2023.

A escolha de um endereço privado torna necessário esclarecer se o encontro apareceu na agenda pública de Mendonça, em que condição o ministro recebeu o banqueiro, quem mais participou da conversa e qual assunto foi tratado.

O material não apresenta uma ata, gravação ou transcrição da reunião. Também não mostra se o ministro tomou alguma providência depois do encontro.

A ponte evangélica
Cezinha de Madureira exerce o terceiro mandato de deputado federal por São Paulo e é um dos principais representantes políticos da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira.

Sua proximidade religiosa e política com Mendonça ajuda a explicar o papel de ponte desempenhado nas conversas. O ministro foi pastor presbiteriano e teve sua indicação ao Supremo promovida por Jair Bolsonaro sob a promessa de escolher um nome “terrivelmente evangélico”.

O deputado aparece no vazamento como uma pessoa com acesso direto ao ministro: teria conversado antecipadamente com Mendonça sobre a situação de Vorcaro perante o Banco Central, confirmado o compromisso de fevereiro e organizado o encontro comprovadamente realizado em março.

O documento menciona ainda que, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil na bagagem de mão de Valéria Linhares, advogada e mulher de Cezinha, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Valéria foi assistida pelo advogado Daniel Bialski, que também atua na defesa de Daniel Vorcaro. A coincidência na representação jurídica não demonstra, por si só, que o dinheiro tenha relação com o banqueiro ou com o Banco Master, mas revela mais um ponto de contato entre os personagens.

O que as mensagens provam — e o que não provam
O vazamento comprova que Ciro Rocha Soares procurou Vorcaro enquanto estava com André Mendonça; enviou uma fotografia ao lado do ministro; disse estar “trabalhando” para o banqueiro; e atuou para organizar uma reunião entre os dois.

Também comprova que Ciro afirmou ter apresentado a Mendonça um assunto relacionado a Vorcaro e que, segundo o próprio advogado, a conversa teria deixado o ministro “balançado”.

No mesmo áudio, Ciro disse que Mendonça conhecia “a situação do Banco Central toda” porque ele e Cezinha de Madureira já haviam falado sobre o tema com o ministro.

As mensagens registram ainda o agendamento de um compromisso para 19 de fevereiro, com a possível participação de Bruno Bianco, e comprovam a realização do encontro de 14 de março.

Sobre a reunião de março, há três conjuntos convergentes de evidências: Cezinha informou data e endereço; disse que Mendonça já aguardava Vorcaro; e as mensagens do banqueiro com o motorista comprovam sua chegada e sua permanência no local durante aproximadamente duas horas.

O material, por outro lado, não revela com precisão o pedido que teria sido levado a Mendonça. Também não permite afirmar que o ministro tenha interferido no Banco Central, prometido ajuda, recebido alguma vantagem ou adotado uma decisão em benefício do Banco Master.

A existência de uma reunião entre um ministro do Supremo e um banqueiro não configura, isoladamente, irregularidade. O interesse público está no contexto: a aproximação foi promovida como um trabalho em favor de Vorcaro, envolveu conversas prévias sobre uma situação no Banco Central e ocorreu de maneira secreta, em um endereço privado.

O outro lado
Nota do gabinete do ministro André Mendonça

Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.

Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.

Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.

Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade”.

A reportagem também tentou localizar o advogado Ciro Rocha Soares para que comentasse as mensagens e os áudios, mas não conseguiu contato. O espaço permanece aberto para manifestações e esclarecimentos dos citados.

Nota do advogado Ciro Soares

Tentar marcar conversas com magistrados é uma prática natural e muitas vezes necessária na advocacia. Nas conversas mencionadas não há nenhuma irregularidade.

É importante destacar que, no período da dita conversa, fevereiro de 2025, Daniel Vorcaro não era investigado e o ministro referido não era relator de nenhum processo vinculado ao empresário.

O referido ministro só se tornou relator do caso Master em 2026, quase um ano depois da conversa. Não faz sentido, portanto, estabelecer qualquer conexão entre as duas situações.

Devemos deixar claro ainda que a quebra de sigilo de advogado com cliente é uma ilegalidade que afronta o amplo direito de defesa.

*A reportagem foi publicada originalmente na newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, no Substack, e reproduzida na íntegra pelo ICL Notícia”


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Política

90 dias depois, Flávio Bolsonaro não entrega documentos prometidos sobre filme Dark Horse, e O Globo prefere atacar Lulinha

Ontem fez 90 dias. Noventa dias desde que Flávio Bolsonaro prometeu que, em no máximo 30 dias, entregaria os documentos, recibos e demais comprovantes relacionados ao filme patrocinado por Daniel Vorcaro.

O prazo venceu. E venceu há dois meses.

Até agora, não apareceu documento, recibo, contrato ou qualquer esclarecimento capaz de sustentar a promessa feita pelo senador. O que era para ser entregue em 30 dias transformou-se em 90 dias de silêncio. E a pergunta inevitável é: se os documentos existem e não há nada a esconder, por que não foram apresentados?

A resposta política parece cada vez mais desconfortável: Flávio prometeu entregar aquilo que até agora não entregou.

E há um segundo aspecto ainda mais revelador: o comportamento de parte da imprensa diante desse silêncio. Enquanto os documentos prometidos por Flávio continuam desaparecidos, O Globo passou o dia explorando manchetes e especulações envolvendo Lulinha. A régua jornalística, nesse caso, parece ter dois tamanhos: para um lado, cobrança incessante; para o outro, uma paciência quase infinita.

Não se trata de pedir tratamento privilegiado para ninguém. Trata-se de exigir o mesmo jornalismo para todos. Se há suspeitas ou perguntas envolvendo Lulinha, que sejam investigadas. Mas, exatamente pela mesma razão, devem ser cobradas explicações de Flávio Bolsonaro sobre aquilo que ele próprio prometeu esclarecer.

A diferença é brutal: de um lado, manchetes construídas sobre suspeitas e especulações; de outro, uma promessa objetiva, com prazo definido, que simplesmente não foi cumprida.

E isso não pode ser tratado como detalhe.

Flávio Bolsonaro estabeleceu o prazo. Flávio Bolsonaro prometeu os documentos. Flávio Bolsonaro não os apresentou. O mínimo que se espera agora é que a imprensa cobre a promessa que ficou pelo caminho, em vez de simplesmente mudar o foco para outro personagem.

Porque, quando um político diz que vai apresentar documentos em 30 dias e 90 dias depois não apresenta absolutamente nada, a pergunta jornalística não deveria desaparecer.

Deveria ficar ainda mais forte:

Onde estão os documentos, Flávio?

E por que aqueles que deveriam cobrar essa resposta preferem fazer barulho em outra direção?

Para quem se apresenta como fiscal da moralidade pública, o silêncio diante de uma promessa não cumprida é, no mínimo, uma contradição difícil de esconder. E quando a imprensa abandona uma cobrança concreta para transformar especulações contra adversários políticos em manchetes do dia, a sociedade tem todo o direito de perguntar a quem esse jornalismo está servindo.

Noventa dias depois, a história continua simples: prometeu em 30. Não entregou em 90.

Agora, mais do que a promessa, o que está em jogo é a credibilidade de quem prometeu — e a responsabilidade de quem deveria cobrar.


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