O episódio envolvendo André Mendonça e Daniel Vorcaro expõe algo que vai muito além de um simples encontro entre um ministro do Supremo e um banqueiro investigado. O que está em questão é a naturalização de um método de atuação em que relações pessoais, portas de acesso ao poder e interlocuções reservadas parecem se sobrepor à necessária distância entre autoridades públicas e interesses privados.
Mendonça admite ter recebido Vorcaro em março de 2025, antes de assumir a relatoria do caso Banco Master, e afirma que se limitou a ouvi-lo. O problema, porém, não desaparece com a explicação. Ao contrário: justamente porque Mendonça posteriormente se tornou relator do caso, o encontro ganha uma dimensão institucional que exige escrutínio público.
É aí que aparece a inquietante semelhança com o modus operandi que marcou o bolsonarismo: a transformação das relações de poder em uma espécie de rede informal de acesso, favores, interlocuções privilegiadas e proximidades que deveriam causar desconforto em qualquer democracia madura.
No universo de Jair Bolsonaro, sempre foi recorrente a ideia de que o poder público poderia funcionar como uma extensão das relações pessoais e políticas do grupo. A fronteira entre o interesse público e os interesses dos aliados frequentemente parecia desaparecer. No caso Master, as investigações da Polícia Federal já revelaram uma rede de contatos e supostas tentativas de influência envolvendo diferentes setores do poder.
Por isso, a questão não pode ser reduzida a “Mendonça encontrou Vorcaro, mas diz que apenas o ouviu”. Um ministro do STF não ocupa uma posição qualquer. Sua agenda, seus encontros e suas relações têm peso institucional. E quando o interlocutor é um banqueiro que posteriormente se torna personagem central de uma investigação sob responsabilidade do próprio Supremo, qualquer proximidade anterior precisa ser examinada com rigor.
O mais preocupante é a possibilidade de que o país esteja assistindo à reprodução, em ambientes institucionais, da velha lógica segundo a qual quem possui dinheiro, influência ou bons contatos consegue chegar diretamente a quem decide. É exatamente esse tipo de promiscuidade entre poder econômico, poder político e poder institucional que corrói a confiança pública.
Não se trata de afirmar, sem provas, que Mendonça tenha praticado qualquer ilegalidade ou favorecido Vorcaro. A própria manifestação do ministro sustenta que sua atuação jurisdicional foi contrária aos interesses defendidos pelo banqueiro. Mas isso não encerra o debate ético e institucional.
A pergunta é outra: por que um ministro do STF deveria estar recebendo, em ambiente privado, um empresário que buscava tratar de uma questão submetida ao Supremo?
É justamente aí que o modus operandi importa. Democracias não são corroídas apenas por decisões abertamente ilegais. Elas também se desgastam quando autoridades passam a considerar normais relações que, pela posição que ocupam, deveriam ser cercadas de transparência, impessoalidade e distância.
O Brasil já conhece muito bem o preço de transformar instituições públicas em territórios de relações pessoais. O bolsonarismo levou essa lógica ao limite. O que não se pode admitir é que ela encontre novos hospedeiros justamente dentro das instituições que deveriam funcionar como antídoto a esse tipo de prática.
O Supremo não pode ser um balcão de interlocuções privilegiadas. Ministro de Corte constitucional não pode se comportar como operador de relações de bastidores. E poder econômico não pode comprar proximidade com quem tem nas mãos decisões capazes de afetar seus interesses.
Se a democracia pretende ser levada a sério, a régua precisa ser uma só: nenhum poder, nenhum dinheiro e nenhuma amizade podem estar acima da impessoalidade institucional.
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