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Batuque na cozinha, Sinhá não quer

É na batucada da vida que mora a alma profunda do Brasil, seja no samba, seja no choro.

Sob qualquer ângulo que se fale de Brasil, desde sua invenção colonial até os dias atuais, essa genial frase merece acato da história do Brasil real, não o oficial, como bem salientou Machado de Assis, definindo o Brasil oficial, institucional como caricato e burlesco.

Para ser mais preciso, o Brasil de cabeça colonizada, eurocêntrica e totalmente surdo para o clamor do próprio povo.

O que se observa é uma realidade nada discutida nas normas institucionais de cultura do Brasil, que é cópia da classe economicamente dominante desde sempre.

A profunda omissão desse filão de aspectos culturais, mas sobretudo políticos, já está familiarizado no cerne da nação. O brasileiro real jamais foi hesitante na hora de apresentar sua identidade política e cultural. Já para os dizedores dos conselhos nativos, os senhores doutores em cultura e política, a batucada é, por si, algo menor, que não deve frequentar os salões da casa grande em pleno 2026.

E não pensem que os senhores das cenzalas cafeeiras que ainda rondam o universo institucional no Brasil acham isso algo banal, não. Esse espírito escravocrata está aí pairando na nossa frente contra o fim da escala 6 x 1, mostrando a diferença profunda entre os que sempre exploraram, extorquiram, escravizaram e os brasileiros escravizados, tendo, lógico, a escravidão dos negros propriamente dita, a mais profunda indecência humana.

Por isso. até hoje, as cabeças colonizadas brasileiras, para se manterem sempre no topo da pirâmide social, não aceitam qualquer política de inclusão ou reparação num país de pouco mais de cinco séculos em que quatro deles viveu uma feroz escravidão dos negros.

As instituições brasileiras, políticas e culturais seguem à risca a cartilha das sinhás no que se refere aos baloartes da santíssima trindade da música popular brasileira, João da Baiana, Donga e Pixinguinha, formados na mais profunda e pura organização política e cultural do povo brasileiro.

Os três batutas eram tão batutas no samba quanto no choro, mostrando a precisa ligação orgânica entre esses dois grandes faróis da cultura brasileira, até porque, como disse o grande Mário de Andrade, em sua obra fundamental, o livro Ensaios sobre a Música Brasileira, Mario afirma “A música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente naciona, mais forte criação da nossa raça até agora”.

Esse, que é um dos principais pontos de visão do grande guru sobre a formação política e cultural do Brasil real, parece que não foi lido ou totalmente esquecido pelo oficialato cultural, mas também político desse país.

A expressão o choro no mundo é tão forte e soberana, palavra muito em voga, acertadamente, pelo presidente Lula, nas duas linguagens que correm, por motivos fundamentais, encontra-se de corpo e alma em incontáveis clubes de choro, sobretudo na Europa e Ásia. Todos inspirados no Clube do Choro de Brasilia, presidido por um baloarte incansável da cultura brasileira, Henrique Lima Santos Filho (Reco do Bandolim) que, além de músico, compositor e arranjador de excelência, é um incansável guerreiro em defesa da soberania cultural.

Por isso, transformou-se numa inspiração mundo afora por sua absoluta dedicação e competência à frente da, hoje. maior representação institucional da música brasileira.

Então, fica difícil entender por que o choro, que trafega desde o universo erudito aos bucólicos rincões do Brasil, ter um tratamento tão morno para não dizer quase nulo de uma de suas maiores expressões musicais.

Uma arte tipicamente brasileira ser tratada de forma tão banal, quando não barrada nas instituições de cultura desse país, só revela que o Brasil de alma profunda, que criou uma música da mistura de três raças, ameríndia, lusitana e, sobretudo, africana, receba tal tratamento do mundo oficial.

E não é por falta de obras contemporâneas, nem o samba, nem o choro, desde suas codificações como estilos no seculo XIX, deixaram uma única lacuna geracional por falta de novas criações espetaculares e genuínas.

Fica difícil entender tal comportamento institucional, já que, no dia 23 de abril se comemora o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nosso mestre maior, Alfredo da Rocha Vianna Filho (Pixinguinha).


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Cultura

Sobre o belíssimo “AmarElo: É tudo pra ontem” de Emicida

“Contribuição Bantu na Música Popular Brasileira: perspectivas etnomuseológicas”, do congolês Kazadi Wa Mukuna, é um dos melhores livros sobre a nossa música ao lado dos livros de Mário de Andrade.

Durante a nossa pesquisa para a produção do projeto musical Vale dos Tambores, nos valemos muito de suas profundas reflexões e afirmações sobre a formação de nossa música, a contribuição Bantu e como o Vale do Paraíba foi determinante nisso tudo. Afinal, o Vale dos Tambores buscou, através de imagens e informações históricas, além das minhas composições, tratar do universo do Choro e do Samba a partir dessa que é uma das principais matrizes de suas construções.

Segundo Kazadi, a música tem um universo em comum. O tempo, as harmonias e melodias são as mesmas. Agora, a formulação de cada uma dessas músicas, depende da cultura de onde a música foi criada.

Essa foi a síntese que vi no belíssimo “AmarElo: É tudo pra ontem” de Emicida.

Segundo Kazadi, a música é uma expressão humana dentro do tempo e do espaço. Para entender o porquê dessa música ser do jeito que ela é, tem que entender o comportamento de quem criou a música. E parece que foi essa a principal mensagem que Emicida quis passar.

Mário de Andrade, muito citado no documentário do Emicida, disse certa vez, quando foi chamado para ser uma espécie de parecerista que selecionaria as melhores obras eruditas para serem contempladas com uma premiação, não aceitou e explicou: só aceitaria se fosse para premiar Camargo Guarnieri, pois conheço a alma de sua obra. O motivo e o sentido do que eu escutaria a partir da fonte, porque acompanho de perto cada passo desse compositor há muitos anos e conheço o sentido de sua obra.

Emicida oferece um leque de expressões negras dentro da cultura brasileira, mas num contexto atual, modernizado.

Muitas ele fala, outras não.

Seu som, por exemplo, pelo menos o que eu ouvi no documentário, tem muito de herança da inenarrável Banda Black Rio, assim como da fantástica pianista Tania Maria. Basta ouvir “Funky Tamborim”. Da mesma forma como muitas das expressões da música negra no Brasil que metabolizaram antropofagicamente o som do mundo mantendo a memória ativa dos tambores brasileiros, que já não eram mais africanos, apesar de terem a matriz africana como ponto de partida.

O próprio Jongo em que os grandes versadores eram considerados durante os séculos de escravidão no Brasil como os “feiticeiros da palavra” por versarem em metáforas para os senhores da Casa Grande não entenderem o que eles falavam e as mensagens de força, resistência e fuga que continham naqueles versos.

Tudo isso está na música que Emicida apresenta, assim como o Choro e o Samba representado no trecho de um documentário aonde aparecem a santíssima trindade da música popular brasileira, Pixinguinha, Donga e João da Baiana com a Velha Guarda do Samba.

Mário de Andrade afirma que, no Brasil a melodia e a rítmica caminham na mesma pegada. Uma alimenta a outra, daí seu magnetismo, porque a melodia é feita para alimentar o ritmo e este, feito para alimentar a melodia.
Isso está no som que Emicida presenteia a quem assiste seu documentário.

Sobre as mensagens, a mais poderosa é a que fala do amor, da união, da soma e da capacidade que isso tem de produzir caminhos independentes que beneficiem a coletividade.

Kazadi considera importante separar o conceito de filosofia da existência entre africanos e europeus, pois isso faz parte e sustenta a oralidade ou ancestralidade no sentido de não se limitar ao momento, tem raízes. Esse conceito se projeta aos dias atuais: o europeu herdou a filosofia: eu penso, eu sou (físico e individual). O africano diz eu pertenço, portanto eu sou, no sentido (físico e conceitual); minha existência só tem significado enquanto eu e você estamos; eu sou porque você é, estou aqui porque você está.

Num momento em que o racismo recrudesce no Brasil contra o protagonismo dos negros nos espaços institucionais, a receita de Emicida é muito bem vinda.

*Carlos Henrique Machado Freitas

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