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Abin alerta governo para nível ‘crítico’ de pressão dos EUA sobre eleições no Brasil

Relatório reservado enviado ao Planalto e ao TSE aponta escalada das ações de Washington e apoio à ascensão de governos conservadores na América Latina

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou para “nível crítico” o risco de influência e interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano. A avaliação consta de um relatório reservado, encaminhado em agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça.

O conteúdo do documento foi revelado, neste sábado (19/09), pela jornalista Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo. Nele, a Abin identifica uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e alerta para a “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA” sobre o país, “sem ruptura de um padrão estrutural de influência já existente”.

O relatório aponta a orientação do segundo governo Trump em reafirmar “a hegemonia dos EUA na América Latina”, visando diminuir a influência de potências rivais de Washington na região. Para isso, destaca o documento, o governo Trump vem pressionando pela “negação do acesso dessas potências a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região, em favor de seu controle, direto ou indireto, pelo governo dos EUA ou pelo capital privado estadunidense”.

O documento lembra que o Brasil se destaca por ter um “governo com maior disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica, ante as pressões estadunidenses por concessões e realinhamento geopolítico”.

Escalada das pressões
A Abin destaca que em julho deste ano, Washington anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma em Portugal, por supostos vínculos com redes de lavagem de dinheiro associadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Na avaliação da agência, a medida “representa mudança de fase na escalada de sanções e interferência estadunidense”.

A partir daí, ressalta o documento, a pressão passou a “incidir diretamente sobre relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar, operações internacionais e exposição de terceiros a riscos de sanções secundárias”.

Na avaliação da agência, a interferência “ocorre de modo gradual, combinado e adaptativo”. O documento cita a sequência dessas ações: “enquadramento de organização criminosa brasileira como ameaça à segurança nacional dos EUA; construção de narrativa sobre sua atuação transnacional; vinculação do tema ao sistema financeiro estadunidense; e adoção de medidas sancionatórias específicas contra indivíduos e empresas brasileiras”.

A agência também menciona que essas medidas “ampliam o potencial de efeitos extraterritoriais sobre bancos, fintechs, empresas, prestadores de serviços e cadeias produtivas brasileiras”. E prevê que as sanções também poderiam “induzir agentes econômicos nacionais e estrangeiros a adotar condutas preventivas baseadas em risco reputacional, acesso ao sistema financeiro estadunidense ou receio de sanções secundárias”.

Marco Rubio
As declarações do secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Marco Rubio, também ganham destaca no relatório da agência brasileira. Rubio “atribuiu ao presidente brasileiro [Lula] a responsabilidade pela imposição de tarifas, sob o argumento de que o Brasil não teria ‘negociado de boa fé’”, salienta.

Segundo a Abin, a afirmação de Rubio “insere caráter personalista à ação política estadunidense e tem potencial de impactar o debate público sobre o tema no Brasil, uma vez que a narrativa passou a ser reproduzida e amplificada por veículos de comunicação, agentes econômicos, analistas e atores políticos nacionais”.

A Abin observa, ainda, que a atuação do secretário de Estado norte-americano apresenta componente ideológico e “busca influenciar e reorientar a política externa dos países da região [América Latina]”. Lembra, ainda, que durante audiência no Senado, em junho, Rubio relacionou diretamente a recuperação da hegemonia norte-americana na América Latina “à ascensão de governos alinhados aos EUA”.

Na época, “os governos de Brasil, Colômbia (então sob Gustavo Petro), Cuba, Nicarágua e Venezuela” foram citados como não integrantes na lista de países amigáveis.

*Opera Mundi


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