Quando a investigação vira espetáculo: a “pirotecnia” da Globo com Flávio Bolsonaro
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, reagiu com contundência ao que classificou como uma operação de “pirotecnia” e “cegueira deliberada” na cobertura envolvendo o filho do presidente Lula e a atuação política de Flávio Bolsonaro. A crítica coloca em discussão não apenas o conteúdo das reportagens, mas também a forma como determinados fatos são selecionados, apresentados e transformados em munição eleitoral.
O episódio ocorre em um momento particularmente sensível da corrida presidencial. Flávio Bolsonaro incorporou o caso Lulinha ao discurso de campanha e vem apostando no escândalo do INSS como uma das principais armas para atingir Lula. Seu plano de governo, inclusive, utiliza o episódio como instrumento de desgaste político do presidente.
É justamente aí que a expressão “dobradinha” ganha peso político. Quando uma investigação jornalística passa a alimentar, quase simultaneamente, a estratégia de um candidato, surge uma pergunta legítima: onde termina a apuração jornalística e começa a disputa política?
A imprensa tem, evidentemente, o dever de investigar e publicar fatos de interesse público. Lulinha é alvo de investigações da Polícia Federal, e as suspeitas que recaem sobre ele não podem ser simplesmente ignoradas. O próprio Lula, ao contrário de como agia Bolsonaem em relação aos filhos, afirmou que não pretende interferir nos inquéritos e que, se o filho tiver cometido algum crime, deverá responder por isso.
Mas o princípio deve valer para todos.
Se a cobrança por transparência é legítima em relação a Lulinha, ela precisa ser igualmente rigorosa quando o nome de Flávio Bolsonaro aparece associado a investigações. Não existe jornalismo independente quando determinados personagens são submetidos a uma lupa enquanto outros recebem uma cobertura muito mais complacente.
E esse é o ponto central da acusação de “cegueira deliberada”: não necessariamente negar fatos, mas olhar para alguns deles com uma intensidade desproporcional e deixar outros convenientemente fora do enquadramento.
A própria conjuntura torna essa seletividade ainda mais problemática. Enquanto a campanha de Flávio tenta transformar Lulinha em símbolo dos ataques contra Lula, o senador também aparece no noticiário por questões envolvendo o empresário Daniel Vorcaro. Segundo reportagem do UOL, a PF investiga a obtenção de R$ 61 milhões por Flávio a partir de um pedido de R$ 134 milhões feito ao empresário.
Não se trata de afirmar culpa de quem quer que seja. Investigar não é condenar. Suspeita não é prova. Denúncia não é sentença. Esse cuidado deveria ser obrigatório para qualquer veículo de comunicação, independentemente de quem esteja no centro da notícia.
O problema começa quando a cobertura deixa de oferecer ao público o conjunto do quadro e passa a funcionar como uma espécie de tribunal midiático seletivo, no qual alguns personagens são permanentemente colocados sob suspeita enquanto outros aparecem como protagonistas de uma narrativa política conveniente.
A expressão “pirotecnia”, portanto, é poderosa porque aponta para o risco de transformar fatos graves em espetáculo eleitoral. E, em ano de eleição, esse risco é ainda maior: manchetes podem se converter em propaganda, investigações podem ser instrumentalizadas e denúncias podem ser transformadas em slogans antes mesmo de qualquer conclusão judicial.
A sociedade brasileira não precisa de jornalismo que escolha mocinhos e vilões. Precisa de jornalismo que faça a mesma pergunta incômoda a todos.
Se há documentos, que sejam apresentados. Se há provas, que sejam examinadas. Se há suspeitas, que sejam investigadas. E se há silêncio, que ele também seja questionado — seja diante de Lulinha, seja diante de Flávio Bolsonaro.
Porque a credibilidade da imprensa não se mede pela contundência com que ela investiga seus adversários políticos. Mede-se pela coragem de fazer as mesmas perguntas quando elas atingem aqueles que, por conveniência eleitoral ou editorial, seria mais confortável preservar.
É exatamente nesse ponto que a crítica à “dobradinha” Globo-Flávio Bolsonaro precisa ser enfrentada: não com censura à imprensa, mas com mais jornalismo, mais contraditório e, sobretudo, menos seletividade.
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