O apoio de Javier Milei à candidatura de Flávio Bolsonaro pode estar produzindo um efeito político bastante diferente daquele imaginado pelo bolsonarismo. Em vez de fortalecer o filho de Jair Bolsonaro, a associação com o presidente argentino pode estar empurrando parte do eleitorado brasileiro justamente na direção de Luiz Inácio Lula da Silva.
O apoio do presidente argentino Javier Milei à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) eleva para 34% a parcela de brasileiros que diz ter maior chance de votar no presidente Lula (PT), aponta um recorte da pesquisa Genial/Quaest divulgado na semana passada.
Outros 27% dos entrevistados afirmaram que o endosso de Milei aumenta a possibilidade de voto em Flávio Bolsonaro. Para 17%, a manifestação do argentino amplia a chance de escolher um terceiro candidato, fora Lula e o senador do PL.
A informação de que 34% dos brasileiros estariam inclinados a votar em Lula em razão do apoio de Milei a Flávio Bolsonaro, caso confirmada pela pesquisa original, seria um dado politicamente relevante — e revelador. Não porque o eleitor brasileiro esteja necessariamente transformando Lula em uma espécie de candidato “anti-Milei”, mas porque a presença do argentino na disputa pode funcionar como um poderoso fator de rejeição.
Milei não é uma figura neutra no imaginário político brasileiro. Seu governo se tornou símbolo de uma experiência econômica e social que divide opiniões e provoca forte reação fora da Argentina. Ao transformar seu apoio a Flávio Bolsonaro em ativo eleitoral, o candidato do PL corre o risco de importar para a campanha brasileira não apenas o prestígio que Milei conserva entre setores da direita, mas também toda a rejeição que seu nome provoca entre os demais eleitores.
E aí está a contradição.
Flávio Bolsonaro tenta apresentar o apoio de Milei como demonstração de força internacional. Mas, eleitoralmente, apoio estrangeiro não se converte automaticamente em voto. Pelo contrário: dependendo de quem oferece o apoio, pode produzir exatamente o efeito inverso.
As pesquisas eleitorais recentes mostram que a disputa entre Lula e Flávio permanece competitiva, mas com vantagem do atual presidente em diferentes levantamentos. No cenário de primeiro turno da BTG/Nexus, por exemplo, Lula apareceu com 42%, contra 33% de Flávio Bolsonaro; em um eventual segundo turno, o petista marcou 47%, ante 43% do senador.
O dado mais importante, portanto, não é simplesmente saber se Milei apoia Flávio. É saber o que esse apoio produz entre os eleitores que não são bolsonaristas.
Porque o problema de Flávio continua sendo justamente esse: sua dificuldade de ampliar a candidatura para além do núcleo mais fiel ao sobrenome Bolsonaro.
Na convenção nacional do PL, Flávio chegou a afirmar que poderia ser “mais calmo e moderado” que o pai, mas fez questão de reafirmar que carregava o “sangue de Bolsonaro”. A declaração expõe uma contradição central de sua candidatura: ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como uma alternativa eleitoralmente mais palatável, continua dependendo da identidade política construída pelo pai.
Agora, ao receber o apoio de Milei, Flávio acrescenta outra camada à sua imagem: a de candidato identificado com uma direita internacional mais radicalizada.
Isso pode agradar a uma parcela do eleitorado. Mas também pode assustar outra parcela.
E é justamente aí que Lula pode se beneficiar.
Se o apoio de Milei efetivamente estiver levando eleitores a declarar voto em Lula, o fenômeno merece ser analisado com atenção. Não seria necessariamente uma adesão entusiasmada ao lulismo, mas uma reação à alternativa apresentada pelo outro lado.
Em eleições polarizadas, isso pode ser decisivo.
O eleitor nem sempre escolhe apenas aquele de quem mais gosta. Muitas vezes, escolhe aquele que considera capaz de impedir a vitória de quem rejeita.
E, nesse cenário, Milei pode estar prestando a Lula um serviço eleitoral involuntário: transformando a candidatura de Flávio Bolsonaro em algo ainda mais associado a um modelo político que parte significativa do eleitorado brasileiro não quer importar.
A ironia é evidente.
O bolsonarismo buscou em Milei uma espécie de selo internacional de legitimidade para Flávio. Mas, se os números realmente confirmarem que esse apoio está levando eleitores para Lula, o argentino poderá acabar funcionando como um dos mais eficientes cabos eleitorais involuntários do adversário.
Em política, símbolos importam.
E talvez o maior erro de Flávio seja imaginar que todo símbolo que fortalece sua base também amplia seu eleitorado.
Não necessariamente. Às vezes, o símbolo que entusiasma os já convertidos é exatamente o que assusta quem ainda precisa ser convencido.
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