Relatório aponta repasses à empresa do ex-prefeito de Salvador entre 2022 e 2024; político afirma que valores correspondem a serviços de consultoria
Segundo informações de O Globo, em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que uma empresa ligada ao vice-presidente do União Brasil e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master e da gestora de recursos Reag. Os repasses ocorreram após as eleições de 2022 e se estenderam até maio de 2024.
Os recursos foram transferidos à A&M Consultoria Ltda., empresa criada por ACM Neto em sociedade com sua esposa no final de dezembro de 2022. O Coaf, órgão de inteligência financeira vinculado ao Banco Central, registrou movimentações consideradas expressivas para a capacidade financeira declarada da empresa.
Segundo dados citados no relatório, entre junho de 2023 e maio de 2024 a empresa recebeu R$ 2,9 milhões em transferências. Desse total, R$ 1,5 milhão foram enviados pela gestora Reag em 11 repasses, enquanto R$ 1,3 milhão vieram do Banco Master em nove transferências. Antes desse período, em março e junho de 2023, a empresa também recebeu R$ 422,3 mil do Master e R$ 281,5 mil da Reag.
No mesmo intervalo analisado pelo Coaf, ACM Neto teria recebido de sua própria empresa R$ 4,2 milhões em 14 repasses. O relatório registra que a companhia movimentou valores considerados elevados em relação à estrutura financeira declarada. “Identificamos que, no período analisado, a empresa movimentou recursos expressivos, acima de sua capacidade financeira declarada”, afirma o documento do órgão responsável por monitorar operações suspeitas e prevenir lavagem de dinheiro.
A A&M Consultoria foi registrada em 28 de dezembro de 2022 com capital social de R$ 2 mil. De acordo com dados da Receita Federal, a atividade principal da empresa é a prestação de serviços de consultoria em gestão empresarial, além de atividades de apoio à educação.
Defesa de ACM Neto Procurado pela reportagem, ACM Neto confirmou que recebeu os valores e afirmou que os pagamentos estão vinculados à prestação de serviços de consultoria. Em nota enviada ao jornal, o ex-prefeito de Salvador explicou que abriu a empresa quando já não ocupava cargo público e passou a prestar serviços a diferentes clientes.
“Isto sempre ocorreu com contratos formais, com o devido recolhimento de impostos e trabalhos de consultoria efetivamente executados, notadamente relacionados à análise da agenda político-econômica nacional, e materializados em diversas reuniões com o corpo técnico e jurídico dos contratantes”, declarou.
O dirigente do União Brasil também afirmou que, à época dos contratos, não havia fatos que desabonassem as empresas que o contrataram. “No período do contrato, existia nada que desabonasse as empresas citadas, sendo ambas atuantes em segmento empresarial rigidamente regulado”, disse.
Na mesma nota, ACM Neto afirmou que os serviços prestados não têm relação com investigações envolvendo o Banco Master. “Os serviços por mim prestados não envolveram qualquer tipo de irregularidade e não têm correlação com os temas que se noticia estarem sob investigação. Os honorários recebidos, os rendimentos declarados e os dividendos distribuídos são inteiramente compatíveis e congruentes, uma vez que, no mesmo período, foram prestados serviços de consultoria também a outros clientes. Vale frisar que tão logo cessou a prestação dos serviços, os contratos e pagamentos foram finalizados”, afirmou.
Ele acrescentou ainda que está “totalmente seguro em relação a estes fatos, haja vista não existir nada de errado”.
Rede de consultorias ligadas ao Banco Master O Banco Master também contratou outros consultores e advogados com atuação no ambiente político e jurídico em Brasília. Segundo revelações anteriores do colunista Lauro Jardim, do próprio O Globo, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi contratado como consultor da instituição financeira.
Mantega teria intermediado um encontro entre o dono do banco, Daniel Vorcaro, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de atuar em favor da aprovação da operação de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), instituição pública do Distrito Federal.
Outro nome ligado ao banco foi o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, que passou a prestar consultoria após se aposentar do Supremo Tribunal Federal em 2023. O contrato previa pagamentos mensais de R$ 250 mil e resultou em R$ 6,5 milhões pagos ao ex-ministro e ao seu filho entre agosto de 2023 e agosto de 2025.
Também foi firmado contrato com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O acordo, revelado pela colunista Malu Gaspar, previa pagamento de R$ 129 milhões ao longo de três anos para atuação em Brasília, mas foi encerrado após a prisão de Daniel Vorcaro e a liquidação do banco., de acordo com informações do 247.
Investigações sobre o Banco Master O Banco Master tornou-se alvo de investigações da Polícia Federal após a descoberta de um esquema bilionário de fraudes no sistema financeiro. As apurações indicam a emissão de títulos de crédito sem lastro e operações irregulares que podem alcançar cerca de R$ 12 bilhões.
Diante das irregularidades identificadas, o Banco Central decretou a liquidação da instituição em novembro de 2025. Na semana passada, o banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela segunda vez por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.
Na decisão, Mendonça apontou que o empresário mantinha um “braço armado” para intimidar adversários, com uso de “coação por meio de sua milícia”.
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Fonte do mercado financeiro que acompanhou as negociações apresentou documentos que sustentam denúncia
O narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin foi um dos investidores por trás da operação de compra do Banco Master pelo empresário Daniel Vorcaro, revelou em entrevista exclusiva ao ICL Notícias uma fonte que atua no mercado financeiro e acompanhou de perto as negociatas.
A reportagem teve acesso a documentos de transações financeiras, além de autos de processos judiciais e registros da Comissão de Valores Imobiliários (CVM) que corroboram as afirmações.
Morador de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, onde foi preso em 2013, Oliver Ortiz foi condenado por lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas. No ano passado, a Polícia Federal (PF) notificou o criminoso de que ele seria expulso do país, depois que cumprisse a pena definida pela Justiça brasileira.
De acordo com a fonte, o elo entre o narcotraficante e o empresário mineiro Daniel Vorcaro é o operador do mercado financeiro Benjamim Botelho de Almeida, apontado pela PF como sócio oculto e operador financeiro de Vorcaro nos Estados Unidos.
Botelho mantém vínculos com a corretora Sefer Investimentos – antiga Foco Distribuidora de Título e Valores Mobiliários (DTVM) – , que foi alvo em janeiro da segunda fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de integrar um esquema de repasse de recursos para negócios ligados à família de Vorcaro. Uma offshore da Bahamas ligada à Sefer foi aberta nove dias depois do Banco Central ter liquidado o Banco Master.
A Sefer era administradora de fundos vinculados ao Grupo Aquilla, que tinha Botelho como principal executivo e da qual o Oliver Ortiz aparece como um dos investidores. Foi por meio de um fundo pertencente ao grupo que o narcotraficante investiu na compra do Banco Máxima em 2017, de acordo com a fonte que acompanhou a operação.
Segundo essa mesma pessoa entrevistada, Ortiz tinha centenas de milhões investidos em fundos do Grupo Aquilla. O ICL Notícias teve acesso a documentos que confirmam que o narcotraficante era cotista desses fundos. Por causa do sigilo bancário, a reportagem não pôde confirmar o valor investido citado pelo entrevistado.
“Recursos que foram utilizados na constituição dos fundos imobiliários – os principais produtos da atual Sefer – e também na aquisição do Banco Master – que era a instituição financeira que faltava ao Grupo Aquilla para estender as ramificações de suas negociações e negociatas – são oriundo de lavagem de dinheiro do traficante Oliver Ortiz”, acrescentou a fonte.
Benjamim Botelho de Almeida é ex-funcionário do Banco Garantia, instituição financeira que deu origem ao atual BTG Pactual. Detentor de nacionalidade portuguesa, além da brasileira, ele mora em Lisboa. É visto semanalmente na Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, onde frequenta reuniões ligadas aos seus negócios, de acordo com apuração da reportagem.
O ICL
Notícias procurou a assessoria de imprensa do Banco Master que não respondeu aos questionamentos. Benjamim Botelho foi procurado por email, assim como Oliver Ortiz. Nenhum dos dois enviou resposta. Caso o façam, o texto será atualizado. A reportagem não conseguiu contato com Yan Hirano, o espaço segue aberto para manifestação.
O esquema do Banco Master De acordo com as investigação da PF, que hoje tramita no STF (Supremo Tribunal Federal), o esquema fraudulento do Banco Master inclui, entre outras fraudes, a aquisição de empresas de baixo valor para, em seguida, inflar artificialmente os resultados financeiros dessas empresas, fazendo crer que elas valem mais do que seu real preço.
As operações foram estruturadas para desviar recursos de fundos de investimento e outras fontes para empresas controladas pelos envolvidos, em detrimento dos investidores, de acordo com a investigação. Há suspeitas de que as transações podem ter violado as leis e regulamentos do mercado de capitais, incluindo manipulação de preços, uso de informações privilegiadas e outras práticas fraudulentas, a exemplo de venda de ativos podres.
Os autos da Operação Compliance Zero citam Benjamim Botelho como participante do esquema: “Utilização de interpostas pessoas/empresas de prateleira – as transações frequentemente envolveram empresas com ligações diretas ou indiretas com Daniel Vorcaro, Benjamim Botelho e outros indivíduos-chave, levantando sérias preocupações sobre conflitos de interesses e possíveis benefícios indevidos”.
Em decisão assinada em 6 de janeiro, quando ainda era relator do caso, o ministro Dias Toffoli decretou que Benjamim Botelho e a Sefer fossem alvos da segunda fase da operação: “Segundo consta, em relação à Sefer, Benjamim Botelho é proprietário e controlador da Foco DTVM (atualmente SEFER Investimentos), devendo as medidas recaírem sobre seu patrimônio e em todas as participações que envolvem a Sefer.”
Vorcaro e Botelho são investigados antes do escândalo do Master Daniel Vorcaro e Benjamim Botelho estão conectados às falcatruas investigadas pelas autoridades antes da eclosão do atual escândalo do Banco Master.
A Compliance Zero investiga fraudes relacionadas a investimentos de fundos de previdência de servidores de estados e municípios. De acordo com a Polícia Federal, R$ 2 bilhões foram aplicados no Banco Master. Em 2020, Vorcaro, assim como Botelho, foram alvos de outra operação da PF, a Fundo Fake, que já investigava justamente o mesmo tipo de operação fraudulenta quando o banco ainda se chamava Máxima.
No celular apreendido de Daniel Vorcaro, na Operação Compliance Zero, há trechos dos autos da Operação Fundo Fake, em que as ações criminosas são descritas e os nomes Vorcaro, Botelho, e do narcotraficante Oliver Ortiz são citados.
Benjamim Botelho de Almeida chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) pelos crimes de gestão fraudulenta do Banco Máxima, no período de 2014 a 2016. De acordo com as investigações, o banco teria usado o fundo de investimento Aquilla Veyron FIM – que integrava o Grupo Aquilla – para simular a valorização de investimento da instituição. Uma manobra, segundo a denúncia, para maquiar a “grave insuficiência de capital”.
“Ocorre que o Bacen [Banco Central] descobriu que o capital disponibilizado pelo Aquila Veyron FIM para a compra de tais ações era, na verdade, do próprio Banco Máxima”. “Ou seja, triangularam com recursos do próprio Banco Maxima, culminando na apresentação de informações e na publicação de demonstrações financeiras que não refletiam com fidedignidade a real econômico-financeira da Instituição Financeira e mascarou seus demonstrativos”, diz a denúncia do MPF.
De acordo com os autos, Benjamim, à época dos fatos, era o sócio majoritário da Foco DTVM (atual Sefer), assim como responsável pela Aquilla Asset.
“A Holding Aquilla era um conglomerado de empresas formado por uma distribuidora de títulos e valores mobiliários autorizada a funcionar pelo Banco Central do Brasil e pela Comissão de Valores Mobiliários. Também faziam parte da holding uma securitizadora de títulos e uma gestora de recursos, autorizadas apenas pela CVM”, destacou a fonte.
Em pelo menos um processo interno da CVM, Vorcaro, Botelho e o próprio Banco Master são investigados por irregularidades na emissão e distribuição de cotas de fundo de investimentos.
Fonte afirma que Benjamim Botelho intermediou negociação do Master No ano de 2016, o Banco Máxima, do paulistano Saul Sabbá, foi inabilitado pelo Banco Central por gestão fraudulenta e rombo de caixa. Conforme dito acima, Benjamim Botelho já aparece como vinculado às fraudes cometidas pela instituição financeira.
Em entrevista à revista Piauí, Vorcaro afirmou que Sabbá ofereceu o banco a ele.
A fonte do mercado financeiro afirmou ao ICL Notícias, no entanto, que a intermediação do negócio foi feita por Benjamim Botelho de Almeida e começou no ano anterior. Ele levou Vorcaro para negociar com Sabbá.
“Daniel Vorcaro não pertencia ao mercado financeiro e de capitais, portanto, não demonstrava conhecer todas as exigências e atributos que se fazem necessários para que alguém se qualifique diante do Banco Central para aquisição de uma instituição financeira”, destacou a fonte em entrevista ao ICL Notícias.
Em 2017, Vorcaro adquiriu o Banco Máxima, que apesar de ter mudado de nome em 2021 para Banco Master, segue roteiro semelhante. O Master foi liquidado em novembro do ano passado pelo Banco Central, e alvo da Operação Compliance Zero, que apura esquema bilionário de fraudes financeiras. Nesta terça-feira (4), Vorcaro foi preso pela segunda vez em quatro meses, sob suspeita de ameaças a jornalistas e lavagem de dinheiro.
Documentos ligam narcotraficante ao Master Ortiz aparece na lista de cotistas de fundos administrados pela antiga Foco VTDM (atual Sefer Investimentos), em documento datado de 30 de outubro de 2015. Dois anos antes ele já havia sido condenado por tráfico de drogas pela Justiça brasileira.
A relação de cotistas das empresas do Grupo Aquilla de 2015 mostram que Ortiz – por meio de pessoa física e de empresas – era um dos cotistas do Aquilla Fundo de Investimento Imobiliário, o qual investiu em cotas do fundo São Domingos, utilizado na operação de aquisição do Banco Máxima, hoje Master.
A operação revela uma triangulação por meio da qual o narcotraficante despontava, na prática, como investidor do banco de Vorcaro.
Segundo a fonte ouvida pelo ICL Notícias, Ortiz também estava por trás do fundo Aquilla Veyrom FIM e do Brazilian Multimarketing Investiments LLC, uma offshore sediada nas Bahamas.
“Oliver Ortiz era um investidor que adquiria terrenos por valores bastante reduzidos na região da Baixada Fluminense e, posteriormente, os integralizava em troca de cotas de fundos de investimento geridos pela Aquilla e administrados pela Foco”, explicou a fonte do mercado financeiro.
Segundo contou ao ICL Notícias, após a integralização, esses terrenos passavam por avaliações a valor de mercado para compor o patrimônio dos fundos. Com isso, o valor atribuído aos imóveis acabava sendo multiplicado diversas vezes em relação ao preço originalmente pago por Oliver Ortiz na aquisição dos terrenos, elevando significativamente o patrimônio do investidor como cotista dos fundos. Essa é justamente um tipo de fraude apontada pela PF na investigação sobre o Banco Master.
A Aquilla aparece vinculada a Oliver Ortiz em um processo que tramita no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, envolvendo dois terrenos em Queimados, na Baixada Fluminense (RJ).
Nesse caso, as empresas Agera Negócios Imobiliários Ltda. e Aquilla Fundo de Investimento Imobiliário (FII) pedem à Justiça a retirada do bloqueio que recai sobre os imóveis conhecidos como “Área A-2” e “Área B”.
As empresas afirmam que adquiriram os imóveis em abril de 2012, por meio de um contrato de promessa de compra e venda, assinado com Oliver Ortiz e Yan Hirano (empresário que, segundo a fonte do ICL Notícias, teria apresentado o narcotraficante a Benjamim Botelho). A reportagem não conseguiu contato com Yan Hirano, o espaço segue aberto para sua manifestação.
Por isso, sustentam que são as legítimas proprietárias e que o bloqueio judicial no processo contra Oliver de narcotráfico não deveria atingi-las.
O MPF, porém, aponta que 20% de cada terreno pertencia a Oliver e já havia sido bloqueado judicialmente em 2013. Parte desses imóveis foi usada em operações financeiras envolvendo fundos imobiliários. Além disso, o MPF destaca que Oliver recebeu transferências de recursos, adquiriu cotas de fundo imobiliário no valor de R$ 1,49 milhão e participou de transações que envolveram a transferência de direitos sobre imóveis e a entrada de bens ou dinheiro como capital em fundos, incluindo o Aquilla.
Quem é o narcotraficante espanhol Oliver Ortiz O espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin foi preso em junho de 2013 no Rio de Janeiro, aos 35 anos de idade. Ele foi condenado, em dezembro do mesmo ano, à pena de 16 anos de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas.
As investigações apontaram que ele atuava no crime ao menos desde 2009, “liderando estrutura hierarquizada de envio de cocaína para a Europa, eminentemente por via marítima, elaborando rotas e empreendendo mergulhos, uma vez que é mergulhador”, segundo os autos do processo.
A investigação contra o espanhol contou com a cooperação de autoridades de Portugal, da Austrália e dos Estados Unidos.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, para lavar o dinheiro que ganhou do tráfico, Oliver Ortiz passou a adquirir imóveis no Brasil, declarados abaixo do valor real, usou empresas de fachada e registrou bens em nome de laranjas.
A investigação comprovou que o narcotraficante era dono de coberturas tríplex na Barra da Tijuca, casas noturnas e restaurantes no Rio de Janeiro.
Em 20 de março do ano passado, a PF notificou Ortiz da decisão de sua expulsão do Brasil, de acordo com a sentença proferida pela Justiça.
*Flávio VM Costa e Alice Maciel /ICL
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Estimativas apontam perdas de até R$ 5 bi; aquisições do banco privado podem ter superado 20% da carteira do BRBEstimativas apontam perdas de até R$ 5 bi; aquisições do banco privado podem ter superado 20% da carteira do BRB
O Banco de Brasília (BRB), instituição pública com mais de meio século de história, vê seu futuro em xeque após uma sequência de operações com o Banco Master – instituição privada focada em créditos e investimentos liquidada extrajudicialmente em novembro de 2025 por decisão do Banco Central (BC).
O BRB foi o maior comprador de ativos do Master entre 2024 e 2025, mesmo após alertas de risco e sinais claros de que o banco privado enfrentava sérios problemas de liquidez. De acordo com o sistema IF.data do Banco Central, a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões para R$ 57 bilhões, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, um crescimento de R$ 20 bilhões em apenas 12 meses. Deste total, ao menos R$ 12,2 bilhões são decorrentes de operações com o Banco Master. Ou seja, mais de 20% da carteira foi atrelada a papéis do banco que viria a quebrar. Trata-se de uma exposição que, segundo especialistas, compromete a solidez da instituição.
“O principal ativo de um banco é a confiança. Quando ela é corroída, nem mesmo a carteira sólida consegue sustentar sua credibilidade”, afirma o economista Pedro Faria, doutor em História pela Universidade de Cambridge. Para ele, a forma como o BRB foi utilizado para capitalizar o Master representa “o uso político de um banco público para beneficiar aliados privados, e o prejuízo fica socializado”.
Ivan Amarante, secretário de organização do ramo financeiro do Sindicato dos Bancários de Brasília, também chama atenção para o tamanho da exposição. “Foi uma operação de mais de R$ 10 bilhões com um banco que tinha R$ 5 bilhões de patrimônio líquido. É o tipo de descompasso que coloca qualquer banco em risco, veja o que foi a fraude das Americanas para o Bradesco, que é muito maior que o BRB. Aqui, o tamanho da operação beira a irresponsabilidade.”
A estimativa inicial do rombo era de R$ 2,6 bilhões. Mas, conforme revelou a Reuters, o valor pode alcançar R$ 5 bilhões, segundo depoimento à Polícia Federal (PF) do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino. O montante supera o próprio patrimônio líquido do BRB, que era de R$ 4,9 bilhões ao final do terceiro trimestre de 2025, segundo dados mais recentes do Banco Central.
A crise pode comprometer o futuro do banco. O atual presidente da instituição, Nelson Antônio de Souza, já confirmou a necessidade de buscar apoio junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e ao próprio Governo do Distrito Federal (GDF) para cobrir o buraco. “Não é só que o BRB fez um mau negócio, ele foi usado para tentar salvar um banco privado com problemas antigos e conexões políticas fortes. Isso é muito mais grave”, avalia Faria.
O Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro através de uma holding com sede nas Ilhas Cayman, vinha sendo acompanhado pelo Banco Central desde 2024 e operava com sinais evidentes de desequilíbrio. O grupo é investigado por práticas fraudulentas envolvendo a revenda de carteiras de crédito falsas, operações com entidades de fachada e articulações com fundos e fintechs sem lastro real.
Ainda assim, documentos e depoimentos obtidos pela reportagem do Brasil de Fato mostram que a direção do BRB, sob comando de Paulo Henrique Costa, demitido por Ibaneis Rocha em novembro, seguia pressionando internamente pela continuidade das compras. Costa deixou o cargo em 19 de novembro de 2025, após ter sido afastado em 18 de novembro de 2025 por decisão judicial no âmbito da Operação Compliance Zero da PF.
Meses antes, o Banco Central vetou, em setembro de 2025, uma tentativa do BRB de investir mais dinheiro para, desta vez, adquirir não somente carteiras de crédito, mas o controle do Master. O conselho do BRB havia aprovado, em março, a compra de 58% do capital do banco privado. O veto do BC à operação foi seguido pela liquidação extrajudicial da instituição financeira privada semanas depois, escancarando fraudes e forçando o BRB a reconhecer prejuízos em larga escala.
“A gente está falando do uso de um banco público para socorrer um aliado, com decisão política clara de correr risco com dinheiro do povo”, afirma Amarante. Segundo ele, o sindicato emitiu alertas formais desde 2024 sobre o risco de exposição ao Master, mas foi ignorado. “A postura do Ibaneis e da gestão do BRB foi de pisar no acelerador, mesmo diante dos sinais de alerta”, afirma.
A combinação entre o rombo bilionário e o desgaste reputacional gera debate sobre o futuro da instituição. Em janeiro de 2026, o governador Ibaneis Rocha indicou Edison Garcia para o conselho de administração do BRB. Garcia é conhecido por ter conduzido, sob o governo Ibaneis, a privatização da distribuidora de energia do Distrito Federal (CEB), e hoje ocupa cinco conselhos da empresa que arrematou a estatal, a Neoenergia.
“Estamos diante de um roteiro conhecido. Sucateia-se por dentro e depois aparece a privatização como única saída ‘responsável’”, alerta Pedro Faria.
Em nota enviada à reportagem, o banco afirma que estuda alternativas como a criação de um fundo com imóveis do GDF, empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e até capitalização direta pelos controladores. “A conta será paga com dinheiro público”, rebate Amarante.
O Banco Central e o GDF não responderam aos pedidos de posicionamento do Brasil de Fato até a publicação desta reportagem. O espaço seque aberto.
Como o BRB foi tragado para o centro da crise Entre 2024 e 2025, sob o comando de Paulo Henrique Costa, o BRB passou a adquirir massivamente carteiras de crédito do Master, mesmo diante de alertas internos e da desconfiança crescente do mercado. Em depoimento à PF, Costa diz que as operações visavam diversificar a atuação do banco e que eram encaradas como uma oportunidade de crescimento pela direção.
Internamente, a pressão por novas compras era evidente. Em setembro, segundo anotações apreendidas pela PF, o presidente do BRB teria afirmado, durante reunião de diretoria, que “faz-se necessário efetuar as compras de carteiras”, sob pena de o Master quebrar. As transações se davam mesmo após a revelação da fraude da Tirreno, uma das carteiras fictícias repassadas ao BRB pelo Master.
Segundo o ex-presidente, a continuidade das compras seria necessária para tentar reverter, com a troca dos ativos adquiridos anteriormente por papeis “de melhor qualidade”, o potencial de prejuízo de transações anteriores.
“O BRB estava sendo usado para salvar um banco de um aliado político. E, depois, se descobriu que nem isso, o Master estava vendendo carteiras inexistentes”, rebate o economista Pedro Faria. “É a utilização de um banco público como instrumento de resgate privado, sob verniz técnico e com conivência institucional.”
Nesta quinta-feira (29), o ministro Dias Toffoli, relator do processo do Banco Master, retirou o sigilo da acareação entre Vorcaro e o ex-presidente do BRB, que expôs contradições entre as versões. Em comum, ambos mencionam que o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) sabia das negociações entre os bancos.
Ibaneis como fiador da relação com o Master e o ‘fantasma’ da privatização
Ao longo de todo o processo de aproximação entre o BRB e o Banco Master, Ibaneis Rocha não apenas esteve informado sobre as negociações, como atuou ativamente como avalista político da operação.
Em diversas declarações públicas, o governador tratou as operações como seguras e estratégicas para o fortalecimento do BRB, classificando as críticas como “movimentações políticas para desestabilizar o banco”.
Em entrevista concedida em março de 2025, Ibaneis chegou a afirmar que “os ativos do Banco Master são sólidos” e que “o BRB está fazendo uma aquisição estratégica, dentro da legalidade e com total apoio do GDF [Governo do Distrito Federal]”. Mesmo após a Polícia Federal deflagrar a operação Compliance Zero, ele insistiu que “nenhuma ilegalidade foi cometida” e que “a oposição tenta criar um escândalo político onde não há”.
*BdF
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A federação formada por União Brasil e PP, anunciada há sete meses como um novo polo de força na direita, enfrenta um cenário cada vez mais conturbado.
Além de disputas internas nos estados, a aliança passou a lidar com o desgaste político provocado pela aproximação de seus principais dirigentes, Antonio Rueda e o senador Ciro Nogueira, com o banqueiro Daniel Vorcaro e o empresário Ricardo Magro, ambos alvos de operações recentes.
Para lideranças de centro e direita, essas relações devem ser exploradas por adversários em 2026, com potencial de afetar candidaturas em todo o país. O ambiente ficou ainda mais delicado após a prisão de Vorcaro, acusado de emitir títulos de crédito falsos que levaram à liquidação do Banco Master, no dia seguinte ao mandado.
Já Magro, controlador do Grupo Fit (antiga Refit), foi alvo nesta quinta-feira de operação da Receita Federal sob suspeita de danos bilionários ao erário. Em resposta anterior à Folha, ele afirmou que “suas empresas não sonegam”. Ciro atuou no Congresso em pautas de interesse do grupo, como propostas sobre devedores contumazes.
Apesar do desgaste, não há investigações contra políticos, e os casos tramitam na primeira instância por não envolverem autoridades com foro. Ainda assim, congressistas afirmam que Rueda e Ciro concentram poder suficiente para que esse tipo de crise respingue em toda a federação.
Integrantes das siglas tentam minimizar o impacto e citam que Vorcaro e Magro mantinham relações políticas diversas, inclusive com setores do PT e de governadores aliados. De acordo com o DCM, essas operações somam-se aos impasses sobre quem comandará os diretórios estaduais e, portanto, terá influência direta nas alianças regionais em 2026.
A federação obriga União Brasil e PP a apresentarem chapas conjuntas por duas eleições, garantindo mais tempo de TV e união de votos para deputado. A ideia inicial era também disputar a Presidência, ambição que perdeu força, com o foco migrando para a eleição do maior número possível de parlamentares.
Dentro do PP, aliados admitem que Ciro Nogueira recuou do projeto de ser vice de uma chapa presidencial oposicionista. Após a prisão de Vorcaro, ele afirmou publicamente que, “diante da falta de bom senso e estratégia no centro e na direita”, o esforço deve ser direcionado às disputas estaduais.
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