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Com que moral a Globo vai cobrar explicações sobre Vorcaro?

Como Renata Lo Prete pretende questionar Flávio Bolsonaro sobre seu envolvimento com Daniel Vorcaro e tudo o que essa relação representa de nefasto para a política brasileira, se a própria Globo está às voltas com revelações que atingem dois de seus medalhões, também associados ao mesmo Vorcaro?

Eis a pergunta que não pode ser varrida para debaixo do tapete: com que autoridade moral a Globo pretende colocar Flávio Bolsonaro contra a parede se a própria casa tem explicações a dar sobre suas conexões com o personagem que está no centro dessa trama?

O problema não é apenas o que Renata Lo Prete vai perguntar. É, sobretudo, o que ela terá coragem de perguntar. Vai apertar Flávio sobre os vínculos com Vorcaro? Vai exigir respostas concretas, documentos e explicações sobre as suspeitas que cercam essa relação? Ou veremos mais um espetáculo de indignação seletiva, com perguntas duras para uns e luvas de pelica para outros?

Porque, quando o escândalo chega à porta do adversário, a velha mídia costuma vestir a toga de juíza. Mas, quando as conexões alcançam os seus próprios salões, o rigor pode desaparecer, o tom pode mudar e o silêncio pode se tornar uma conveniente estratégia de sobrevivência.

A credibilidade do jornalismo não se mede pela dureza das perguntas feitas aos adversários, mas pela disposição de fazer as mesmas perguntas aos aliados, aos poderosos e aos próprios donos da casa.

Se a Globo quer cobrar explicações de Flávio Bolsonaro, que cobre. E que cobre sem anestesia. Mas terá de aceitar que a mesma régua seja aplicada a todos os personagens dessa história, inclusive aos que circulam pelos corredores do próprio grupo de comunicação.

O que não dá é transformar o jornalismo em tribunal para os outros e em assessoria de contenção de danos para os seus.

Vorcaro não pode ser tratado como um problema apenas quando o seu nome compromete Flávio Bolsonaro. Se as conexões alcançam também figuras de peso da Globo, a pergunta deixa de ser somente o que Flávio tem a explicar. Passa a ser o que a própria Globo está disposta a esclarecer.

Afinal, o público não quer uma entrevista montada para produzir manchetes convenientes. Quer respostas. Quer coerência. Quer saber se existe, de fato, disposição para investigar todos os lados ou se a velha mídia continuará escolhendo a dedo quem merece ser encurralado e quem merece ser protegido.

A pergunta que paira sobre a entrevista é brutalmente simples: Renata Lo Prete vai fazer jornalismo ou vai administrar os constrangimentos da própria Globo?

Por isso não se espantem, se hoje na sabatina de Renata Lo Prete com Flavio Bolsonaro, assistir a um bem manejado festival de platitudes.


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Delator diz que aportes em fundo feitos para atender pedido de Flávio Bolsonaro viraram fraude

Empresário fez os aportes de U$ 12 mi no fundo para um investimento de Vorcaro. Meses depois, tentou resgatar os valores e não encontrou o dinheiro.

Em seu acordo de colaboração premiada, o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, relatou que fez os aportes de dinheiro no fundo Havengate acreditando que fazia um investimento a pedido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O empresário diz que não sabia que os valores supostamente iriam financiar “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Meses depois, porém, quando a crise do banco se instalou, Freixo Junior tentou resgatar os valores investidos e não encontrou mais o dinheiro. Segundo o empresário, o aporte se revelou uma fraude. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Freixo Junior firmou acordo de colaboração premiada com a PGR, homologado pelo ministro André Mendonça, do STF, em setembro. O empresário era dono da Entre Investimentos e Participações, de onde partiram os valores enviados ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas. Uma reportagem da revista piauí revelou que, originalmente, a minuta de suposto acordo de patrocínio previa que o dinheiro destinado ao filme iria para a produtora Go Up, no Brasil. Depois, no entanto, os repasses foram enviados ao Havengate, nos EUA.

O Havengate Development Fund LP aparece como sendo de propriedade de uma empresa do tipo LLC, a Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas que o escritório de Calixto. Essa LLC tem como membros do quadro societário Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana.

Uma reportagem do Intercept mostrou que o Havengate havia sido criado originalmente para vender a investidores, inclusive brasileiros, participação em um projeto imobiliário no Texas chamado Havengate Community, empreendimento que não saiu do papel.

No início de setembro, o blog da jornalista Andréia Sadi revelou que Mineiro relatou sete repasses ao fundo entre fevereiro e setembro de 2025. Os repasses foram feitos por meio de “subscrição de cotas” e somaram US$ 12,333 milhões. A piauí também apontou a possibilidade de mais dois repasses. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, nega irregularidades e diz que pediu o dinheiro para o filme. No entanto, prometeu uma prestação de contas dos valores em maio e nunca a apresentou. Além disso, não explica por que o dinheiro foi enviado a um fundo no Texas, e não diretamente à Go Up.

A coluna procurou o advogado Marco Petrelluzzi, que defende Freixo Junior, mas ele disse que não poderia se manifestar. A defesa de Daniel Vorcaro pediu acesso ao expediente e a anulação da homologação do acordo, mas ainda não obteve resposta do ministro André Mendonça, relator do caso no STF.

Na colaboração, Freixo Junior admitiu que sua função junto a Vorcaro era “gerar” dinheiro vivo. Segundo o delator, em cerca de dois anos e meio, ele conseguiu para o banqueiro R$ 1,3 bilhão em espécie, entregue a Vorcaro e à sua equipe em malas de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão. O dinheiro, de acordo com o relato, servia para pagar pessoas indicadas por Vorcaro.

Como funcionava a “geração” de dinheiro
Os pedidos chegavam por WhatsApp, feitos primeiro por Vorcaro e depois por [Fabiano] Zettel, [cunhado do banqueiro], e por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Mineiro então acionava operadores, também por WhatsApp, e fazia transferências bancárias para empresas indicadas por eles. Uma dessas empresas era uma distribuidora de combustíveis que, segundo o delator, já havia aparecido na Operação Carbono Oculto. Os operadores obtinham as cédulas com contatos no Brás, na região central de São Paulo, e no setor de combustíveis. Depois, levavam o dinheiro à sede da Entre, na rua Iguatemi, no Itaim Bibi.

As entregas eram combinadas para o mesmo dia com Vorcaro, ou com alguém indicado por ele, para evitar guardar o dinheiro. Segundo o relato, elas aconteciam no estacionamento subterrâneo do prédio da Entre ou na garagem do edifício onde Zettel morava, no mesmo bairro. Pelo serviço, os operadores ficavam com 4% dos valores, e Mineiro, com 1%.

*Juliana Dal Piva/ICL


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Política

Relação com Vorcaro: Globo demite o executivo Fred Kachar após divulgação de conversas com Vorcaro

O Grupo Globo demitiu nesta quinta (15) o diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar, após ter acesso a conversas privadas mantidas por ele com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Ele trabalhou 29 anos na empresa e também comandava a Editora Globo e o Sistema Globo de Rádio.

Em nota, a empresa afirmou que as mensagens trocadas entre outubro de 2023 e julho de 2025 revelaram “uma relação inadequada do executivo com um anunciante”. O Grupo Globo disse que divulgará em breve o nome do substituto de Kachar.

A empresa declarou que a cobertura de seus veículos sobre o caso Master mantém caráter “crítico, isento e independente”. Também afirmou que a independência editorial do jornalismo constitui uma premissa de sua atuação.

Veja o comunicado:

Conversas incluíram encontro reservado e evento em Nova York
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal apontam convites para encontros privados, comentários sobre figuras públicas e tratativas comerciais entre Kachar e Vorcaro. Os diálogos incluem a articulação de um encontro com “Roberto”, uma referência a Roberto Marinho Neto, integrante da família controladora do Grupo Globo e CEO da Globo Ventures, área de investimentos do conglomerado.

As mensagens também citam um convite feito pelo então banqueiro em 15 de maio de 2024 para uma reunião reservada. Ao justificar a ausência em um evento da revista Forbes, Vorcaro escreveu que havia fechado um local próprio e usou as expressões “sem celular” e “sem risco”.

Kachar aceitou o convite e chamou Vorcaro de “convidado de honra”; os registros indicam que ele entrou no local perto da meia-noite de 16 de maio e agradeceu ao anfitrião no dia seguinte.

As mensagens não detalham o conteúdo da reunião nem esclarecem o sentido da expressão usada por Vorcaro. Em fevereiro de 2024, os dois também conversaram sobre encontros semanais em São Paulo, aos quais Kachar se referiu com os termos “guerra da Ucrânia” e “bomba na Rússia”.

A relação profissional entre eles incluiu o Summit Valor Econômico Brazil-USA, realizado em maio de 2024 no Hotel Plaza, em Nova York. O Banco Master patrocinou o fórum promovido pelo Grupo Globo, e Vorcaro discursou na abertura para apresentar produtos da instituição financeira.

De acordo com o DCM, documentos reunidos pela Polícia Federal na investigação sobre o Banco Master incluem orçamentos de passagens para participantes de viagens a Londres, Nova York e Lisboa. Os registros apontam gastos superiores a R$ 60 milhões com autoridades nesses deslocamentos.

As mensagens também incluem comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato. Eles chegaram a comentar que a atriz “tava pra jogo” e falar sobre sua “bunda”. Sobre a apresentadora, Kachar disse que ela estava “soltinha”.

Mensagens entre Kachar sobre Deborah Secco e Sabrina Sato; Foto reprodução


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PF aponta que Flávio Bolsonaro se reuniu com Vorcaro na noite em que foi selada a compra do Master pelo BRB

Mensagens recuperadas pela PF do celular de Vorcaro mostram que o senador e o ex-ministro estiveram na residência do ex-banqueiro em Brasília na mesma data em que Ibaneis Rocha sancionou a compra do pelo BRB

Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-ministro Ciro Nogueira (PP) estiveram na casa de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no Lago Sul, em Brasília, na noite de 20 de agosto de 2025, data em que o ex-governador Ibaneis Rocha sancionou o aval da Câmara Legislativa do DF à compra do banco pelo Banco de Brasília (BRB). A revelação é do colunista Lauro Jardim, de O Globo, com base em mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro. O encontro contradiz a justificativa apresentada publicamente por Flávio Bolsonaro para seus contatos com Vorcaro.

Encontro revelado pela PF
Segundo as mensagens recuperadas pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro fez questão de permanecer em Brasília no dia 20 de agosto de 2025, data em que Ibaneis Rocha sancionou o aval da Câmara Legislativa do DF à compra do Banco Master pelo BRB. À noite, o ex-banqueiro recebeu em sua residência, no Lago Sul, o senador Ciro Nogueira (PP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

As mensagens extraídas do celular de Vorcaro registram a articulação do encontro com precisão. Ao propor o horário, o ex-banqueiro escreveu “21 pode ser”. Flávio respondeu “Blz”. Às 21h47, o senador enviou nova mensagem informando que estava “a caminho”, confirmando que a visita havia sido combinada previamente entre os dois.

A versão de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro tem declarado publicamente que seu contato com Vorcaro se restringiu a conversas sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As mensagens recuperadas pela PF, porém, registram a combinação de uma reunião presencial na casa do ex-banqueiro, sem qualquer menção ao projeto cinematográfico.

De acordo com a Forum, o áudio enviado por Ciro Nogueira a Vorcaro, obtido pela coluna, reforça o quadro. Cerca de uma hora e meia antes do encontro, Nogueira informou ao empresário que estava em uma cerimônia de premiação do site Congresso em Foco e acrescentou: “Até o Flávio tá aqui, mas ele já recebeu o dele, eu acho que ele vai antes, tá? Mas eu chego na hora que terminar.” Flávio Bolsonaro também havia sido premiado no evento. O áudio indica, portanto, que os dois senadores estavam juntos antes de se dirigirem à residência de Vorcaro.


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As 96 mensagens de Flavio e Vorcaro, 90 dias antes da prisão

Nas 50 mensagens do senador, 46 do banqueiro e oito ligações atendidas, um universo de encontros e milhões de dólares – eis o que mostra o chat encontrado pela PF

nze meses decorreram entre a primeira e a última tentativa de Flávio Bolsonaro de falar com Daniel Vorcaro, segundo mensagens registradas no celular do banqueiro. O primeiro contato ocorreu às 22h10 do dia 16 de dezembro de 2024, por iniciativa do senador. Quase um ano depois, em 16 de novembro de 2025, às 15h46, Flávio Bolsonaro escreveu a última mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” Referia-se aos dólares que vinha recebendo do banqueiro. No dia seguinte a essa mensagem, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.

A extração de informações e documentos do celular de Vorcaro feita pela PF, e obtida com exclusividade pela piauí, permite reconstituir essa relação de ponta a ponta. O diálogo entre os dois tem 110 registros. São 50 mensagens de Flávio, 46 de Vorcaro e 14 ligações – oito delas atendidas. Entre as mensagens do senador, há cinco fotos e vídeos de visualização única, enviados na semana anterior à prisão do banqueiro, e uma mensagem apagada, em 23 de setembro de 2025.

Chat entre Flávio e Vorcaro, extraído do celular do banqueiro pela PF em 18 de novembro de 2025. Relógio ilustrativo: 9h40, hora de conclusão da cópia.

O conjunto mostra um clima de camaradagem entre os dois, com troca de amabilidades e sondagens. Das mensagens, pode-se depreender que a entre o senador e banqueiro tinha um certo grau de afinidade pessoal (as expressões “irmão”, “irmãozão” e “mermão” aparecem dezesseis vezes), mas se concentrava no âmbito dos interesses mútuos. No caso do banqueiro, era garantir sua influência junto à família Bolsonaro. No caso do senador, era o dinheiro: a intrincada negociação sobre remessa de dinheiro aos Estados Unidos e as insistentes cobranças que o senador fazia para o banqueiro para que liberasse os dólares atrasados.

As conversas se concentram entre agosto e novembro de 2025, mas isso não significa que não tenham existido diálogos nos meses anteriores. É que, após a primeira interação, o recurso de mensagens temporárias foi acionado por Flávio Bolsonaro, e as mensagens eram apagadas depois de 90 dias. Por isso, não é possível ver as interações de 16 de dezembro de 2024 a 17 de agosto de 2025. Foi nessa janela temporal que Vorcaro depositou 10,6 milhões de dólares com a justificativa de patrocinar a cinebiografia de Jair Bolsonaro – o nome Dark Horse não aparece nas conversas, mas eles se referem ao projeto como “o filme”.

Ainda assim, a partir de diálogos encontrados no celular do banqueiro com outros interlocutores e intermediários de Flávio pode-se concluir que eles mantiveram contato nesse hiato. Era um momento-chave na concepção da candidatura do senador. Flávio Bolsonaro sondava Vorcaro não apenas por meio de terceiros, mas também pessoalmente. Já se sabe que, após a primeira prisão de Vorcaro, já solto e com tornozeleira eletrônica, o banqueiro recebeu Flávio em sua casa, em São Paulo, no dia 4 de dezembro. No dia seguinte, Flávio confirmou a pré-candidatura à Presidência da República.

A relação entre os dois ocorreu ao longo do período de maior vulnerabilidade do banqueiro. Desde o fim de 2023, Vorcaro buscava proteção de autoridades do alto escalão da República, como a cúpula do Congresso e ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Sabedor de seus pecados, o banqueiro buscou blindagem em todos os cantos, como dizem fontes ouvidas pela piauí. “Ele acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo”, resume um político que pediu para não ser identificado.

Flávio Bolsonaro escondia sua proximidade com Vorcaro até de aliados importantes da política – um sinal de que ele próprio suspeitava de problemas nessas interações. Depois que o escândalo estourou, em maio deste ano, Flávio mentiu repetidas vezes. Disse que não conversava com Vorcaro e que não havia dinheiro do Master no Dark Horse. Afirmou que o último pagamento para a produção do filme ocorrera em maio de 2025 e que sua visita ao banqueiro depois da prisão foi “para botar um ponto final” nos negócios entre eles. A dureza da expressão “ponto final” usada em público contrasta com a forma amável e cordial com que os diálogos eram conduzidos em privado. Por fim, alegou que nunca havia entrado em um avião de Vorcaro. Em todas as ocasiões, foi desmentido pelos fatos.

A relação fugidia entre o senador e o banqueiro está sob investigação desde julho de 2026 em razão da captação de dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse envolvendo uma empresa que, agora se sabe, é investigada por suspeita de lavar dinheiro do PCC. O inquérito apura crimes financeiros nos repasses ao fundo americano Havengate, que recebeu dinheiro enviado a mando de Vorcaro por meio da empresa Entre Investimentos, do doleiro Antônio Freixo Junior, bem como o possível uso desses recursos em finalidades que não eram a cinebiografia de Jair.

Entre 16 de dezembro de 2024 e 20 de agosto de 2025, a conversa entre os dois está em branco. A piauí, no entanto, reconstituiu esse intervalo a partir das mensagens que Vorcaro trocou com outros interlocutores: o empresário Thiago Miranda, então presidente do Portal Leo Dias; o deputado Mário Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura de Jair Bolsonaro; o cunhado e operador financeiro do banqueiro, Fabiano Zettel; e o amigo Flávio Carneiro, que chama o senador Flavio Bolsonaro de “meu xará”.

Nessas conversas, Flávio Bolsonaro aparece marcando reuniões, apresentando aliados, oferecendo acesso ao pai e cobrando o dinheiro prometido para a cinebiografia. Ao longo de onze meses, as conversas registram encontros marcados entre os dois em pelo menos seis ocasiões – de uma reunião na casa de Vorcaro em Brasília, em dezembro de 2024, a um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no Dark Horse, na casa do banqueiro em São Paulo, em novembro de 2025.

Uma parte dessas reuniões já foi revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo. O único encontro publicamente admitido por Flávio aconteceu depois da prisão, naquela reunião, ocorrida em 4 de dezembro de 2025, na véspera do anúncio da pré-candidatura de Flávio.

Diálogos entre Vorcaro e o publicitário e lobista Thiago Miranda também revelam um desvio na rota do financiamento que suspostamente bancou o filme. Thiago Miranda foi quem intermediou os contatos do banqueiro com Flávio Bolsonaro e os produtores executivos da cinebiografia, Mário Frias e Eduardo Bolsonaro.

Em 16 de dezembro de 2024, Miranda recebeu uma minuta do contrato da parte dos Bolsonaro e encaminhou para Vorcaro. No papel, os 24 milhões de dólares seriam depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment LLC, registrada nos Estados Unidos.

Por alguma razão ainda desconhecida, no entanto, deu-se uma mudança. Em vez de a produtora receber o dinheiro, optou-se por um caminho mais longo e menos convencional. Em janeiro de 2025, os Bolsonaro elegeram um novo destino para os milhões de Vorcaro. Descartaram a conta corrente da produtora e acionaram a conta do Havengate, o fundo imobiliário registrado no Texas e administrado pelo advogado Paulo Calixto. Essa figura desconhecida no Brasil era não apenas amigo de Eduardo Bolsonaro, mas também responsável por seu processo de imigração. Calixto tinha um parceiro no Havengate: o corretor de imóveis Altieris Santana. Esse fundo foi o caminho do dinheiro que havia sido pedido pessoalmente por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.

Os investigadores que acompanham o caso, ouvidos sob condição de anonimato, trabalham com a hipótese de que os dólares – ou parte dos dólares – acabaram não sendo usados no patrocínio do filme. Avaliam que toda a operação pode ter sido, na verdade, uma simulação de investimento que permitiria retirar o dinheiro nos Estados Unidos para outros fins. Além disso, os investigadores detectaram indícios do uso de um meio fraudulento de remessa, via Entre Investimento e Participações.

aproximação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro começou no dia 8 de dezembro de 2024. O empresário Flávio Carneiro escreveu a Vorcaro, de quem é frequente conselheiro: “Thiago tá cobrando se você vai num jantar c meu xará e o pai dele pelo que entendi, você tá ciente disso?” E opinou: “Acho uma roubada danada.” Ele falava de Thiago Miranda, o intermediador, e do encontro com Flávio e Jair Bolsonaro. Vorcaro respondeu: “Não sei nem de quem tá falando.” Carneiro explicou que Thiago Miranda insistia em juntá-lo com “o meu xará e o pai”, e o banqueiro encerrou: “Temos que pensar nisso.”

Pouco depois do meio-dia, Thiago Miranda escreveu ao banqueiro sobre “o filme do presidente”: “Flavio, bolso querem sentar com vc. Tem 40 minutos pra matarmos isso na quarta?” Disse ter “dois assuntos” (“Do filme do presidente e do SBT $$”) e que “Flavio [Carneiro] está ciente de tudo”. À tarde, Miranda insistiu: “Confirmei com o Flávio Bolsonaro. Quarta dia 11 às 17:30 aqui na sua casa de Brasília.” Era o começo de tudo.

Em seu estilo de combinar exposição absoluta em alguns casos com discrição severa em outros, Vorcaro escreveu para Carneiro na noite seguinte: “Não fala dessa reunião bolso pra ninguém!” E acrescentou: “Esse negócio acaba comigo.” Carneiro respondeu que estava “morrendo de medo” e que já comentara com ele ter “receio do xará”. À época, Jair Bolsonaro já havia sido indiciado pela Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado no processo que o levaria à condenação e prisão no segundo semestre de 2025.

Na véspera do encontro, Miranda encaminhou ao banqueiro uma mensagem do senador, que dizia o seguinte: “Amanhã vou levar o dep Mário Frias por ser o idealizador do projeto. Tem algum problema?” Vorcaro não se opôs.

No dia 11 de dezembro, Flávio Bolsonaro se atrasou para o encontro por causa da votação da reforma tributária no Senado. A partir das 17h59, Frias fez seis chamadas para o banqueiro, que não as atendeu. Às 18h30, Miranda escreveu ao banqueiro pedindo desculpas pelo atraso de Flávio: “Desculpa a confusão que o Flávio fez. Vou conduzir isso da melhor forma.” Pouco depois, Thiago acrescenta: “Isso não se faz. Eu tinha combinado com ele. Como o cara aparece na sua casa assim.” As mensagens não esclarecem que era “o cara”, nem por que sua entrada em cena fora um problema, nem mesmo se a reunião aconteceu.

As mensagens, no entanto, deixam claro que, naquele dia, um pacto foi selado. Isso fica evidente porque às 18h22, depois da sexta chamada não atendida pelo banqueiro, Frias escreveu “Tmj”, abreviação de “estamos juntos”. Depois de mais duas chamadas não atendidas, finalmente Vorcaro retornou para Frias. Tiveram uma breve conversa. Logo depois disso, Frias gravou um áudio para o banqueiro. “Só te agradecer, meu irmão”. Disse que o projeto iria “mexer com o coração de muita gente” e seria “muito importante para o nosso país”. O deputado terminava a mensagem de áudio de 17 segundos dizendo: “Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?” Depois de ouvir o áudio, Vorcaro voltou a falar com Frias. O diálogo durou menos de 2 minutos.

Frias retomou a conversa quatro dias depois com a notícia de que o americano Cyrus Nowrasteh havia aceitado dirigir o filme e que o ator Jim Caviezel poderia interpretar Jair Bolsonaro, desde que o cachê fosse bom. Frias celebrou: “Milagres só são possíveis quando há fé.” E completou, em outra mensagem: “Vai ser a maior superprodução de uma história brasileira.”

No dia seguinte, 16 de dezembro, Frias escreveu ao banqueiro às 12h49: “Fala irmão. Tô com senador aqui. Pode falar ?!?”. A mensagem não identifica o senador, mas o contexto indica que era Flávio Bolsonaro. “Opa. Sim”, diz Vorcaro, e os dois iniciaram uma chamada de áudio que durou dois minutos e dois segundos. Logo depois dessa conversa Frias reforça em três mensagens:

– Tmj

– Aqui só os melhores guerreiros

– Família

Vorcaro responde com um “Bora”.

Uma hora e meia depois, Thiago Miranda escreve para Vorcaro. Disse que tinha acabado de almoçar com o pessoal do filme e que lhe apresentaria “todo o projeto e valores”. Às 19h24 e às 19h25, foram gerados os PDFs de um plano de negócios e de uma minuta de acordo de financiamento de Capitão do Povo, o nome que antecedeu Dark Horse.

Os documentos mostram que o investimento no filme seria de 25 milhões de dólares. Na página 9 do plano de negócios, um único investidor, identificado como “número 3”, aparece com 48 das 50 cotas de 500 mil dólares— o equivalente a 96% do orçamento previsto. A apresentação não permite identificar nominalmente esse investidor, mas nem precisava. Era um banqueiro sem nenhum filme no currículo, cuja experiência com o cinema, até então, se resumia à fantasia de Drácula que usou na festa “Halloween das Suíças”, para o qual convidou algumas das mais altas autoridades da República em 2023. Ele mesmo: Daniel Vorcaro.

A piauí comparou essa versão do plano, de dezembro de 2024, com uma versão anterior, editada pela Go Up em fevereiro do mesmo ano. O documento da Go Up dividia as cotas do filme entre três investidores e prometia concessão de green card, por meio de uma “empresa jurídica de imigração” – a descrição lembra os serviços do advogado Paulo Calixto, que também era o controlador do fundo Havengate. Também previa um quadro de “governança corporativa e compliance”, com prestação de contas, relatórios trimestrais e uma conta de garantia, conhecida no mundo empresarial como “escrow”.

A versão do plano de negócios que chegou a Vorcaro eliminou o green card, sumiu com as regras de controle e de complicance e reservou 48 das 50 cotas a Vorcaro. Na prática, virou o dono do filme.

Ainda naquele 16 de dezembro, às 22h10, Flávio Bolsonaro fez a primeira ligação para o banqueiro. Era o começo de uma troca que renderia quase uma centena de mensagens. Seis dias depois desse contato inaugural entre banqueiro e senador, Frias escreveu a Vorcaro dizendo que aquele era um filme de “justiça divina” e que “2026 é do Brasil”. A mensagem indica que os recursos para a suposta produção do filme, independentemente de implicações criminais, estava conectada com a futura campanha presidencial do candidato do PL.

Dias depois, Thiago Miranda escreveu para Vorcaro pedindo orientações sobre como proceder. Escreveu: “Já estou com tudo em mãos. Como prossigo?” Vorcaro lhe respondeu: “Tem que mandar 4 mm usd agora”, orientou, referindo-se à quantia de 4 milhões de dólares americanos, que correspondiam às duas primeiras de 2 milhões cada. Miranda avisou que tinha pedido “para o Mario Frias centralizar tudo comigo” e encaminhou dois arquivos. Eram mensagens encaminhadas de outra pessoa. “Aqui está o mapa do fluxo de investimento”, escreveu sobre o acordo.

A minuta, cujo texto foi recuperado da extração do celular de Vorcaro, previa que o financiador comprasse 48 cotas de 500 mil dólares, recebesse o dinheiro de volta com prêmio de 20% e depois uma fatia da receita, sem “direito ou autoridade legal para tomar decisões”. Os 24 milhões de dólares seriam depositados na “conta de produção Capitão do Povo”, da produtora americana Go Up Entertainment, de Karina Gama e Michael Davis, no Bank of America. O documento não tinha as assinaturas, o nome do financiador estava em branco, e o título interno do arquivo dizia: “Acordo financiamento da produção Eduardo final”. É um indício de que o modelo foi reaproveitado de uma versão ligada a Eduardo Bolsonaro. “Analisou algo do filme? Deixamos para resolver em janeiro?”, escreveu Miranda a Vorcaro em 20 de dezembro.

Procurados pela piauí, Karina e Davis não esclareceram a mudança da conta recebedora do dinheiro de Vorcaro. O produtor disse que processaria a revista caso fossem publicadas informações “afirmações materiais sabidamente falsas” a seu respeito.

Depois da ligação de 16 de dezembro de 2024, a conversa entre Flávio e Vorcaro só volta a ter registro em 20 de agosto de 2025. A perícia não recuperou mensagens apagadas no intervalo. Nesse hiato, a rota do dinheiro mudou, os dólares começaram a ser remetidos e depois rarearam, à medida que os rolos financeiros e legais de Vorcaro se agravavam. Mas o hiato pode ser preenchido com outras mensagens.

Logo em 6 de janeiro de 2025, Miranda pediu os dados da “empresa que vamos usar” para o contrato, e Vorcaro mandou o cunhado e operador Fabiano Zettel usar uma empresa dele mesmo, Zettel. E o banqueiro fez questão de alertar o cunhado sobre a relevância do negócio e pediu que não houvesse qualquer interrupção nas remessas de dólares. “Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais”, disse.

O dia 20 de janeiro marcava o início dos pagamentos do banqueiro para a produção de Dark Horse. “Hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme”, escreveu Miranda, referindo-se às duas parcelas que somavam 4 milhões de dólares. Naaquele mesmo dia, Vorcaro recebeu um print de uma mensagem que Flávio Bolsonaro enviou a Thiago Miranda pedindo “um gás” para desembaraçar o pagamento.

Para agilizar, o banqueiro resolveu usar, como fonte pagadora, a empresa Entre Investimentos e Participações, de Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro. Mas o pagamento ainda demorou oito dias para cair, causando bastante inquietude para Flavio Bolsonaro. No dia 11, Miranda escreveu para Vorcaro: “Flavio B e Neypai estão me cobrando”, no que parece ser um referência ao pai de Neymar. O atraso deveu-se a um problema na remessa, que levou mais de uma semana para resolver.

Nos arquivos do celular, não há registro de quem decidiu trocar a conta da produtora Go Up pela conta da Entre Investimentos, nem por quê, criando uma escala na remessa do dinheiro.

O depósito na conta do Havengate, o fundo sediado no Texas, acompanhou a mudança de Eduardo Bolsonaro e família para os Estados Unidos. A primeira remessa saiu no meio de uma licença do então deputado. Três dias depois de o Havengate e a Go Up assinarem o contrato que fez do fundo americano o financiador do filme, em 24 de fevereiro, Eduardo se licenciou e se mudou para a região de Dallas.

Os documentos no celular de Vorcaro mostram também que, no papel, ele não era o financiador do filme. O banqueiro que corrompeu a República virou cotista do fundo Havengate, como mostra uma imagem da cláusula do novo acordo enviada por Miranda em 12 de março. É aí, para os investigadores, que o negócio deixa de ser cinema. Formalmente, Vorcaro não pagou um filme: subscreveu cotas, como quem aplica dinheiro num fundo. O dinheiro, porém, aparentemente não ficou aplicado, e o fundo serviu como ponte de passagem, segundo a PF.

Os investigadores ainda preparam o pedido de cooperação às autoridades americanas para rastrear o caminho do dinheiro. A PF concluiu que Eduardo “orientou” a gestão dos recursos nos Estados Unidos e investiga se parte deles custeou a estadia do ex-deputado no país.

*Ana Clara Costa, do Rio de Janeiro, João Batista Jr., de São Paulo, e Breno Pires, de Brasília/piauí


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Política

Gilmar Mendes: Em 24h, STF encontra dados do Master sobre ministros após meses com Mendonça

O ministro Gilmar Mendes afirmou que integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) encontraram, em menos de 24 horas de acesso aos dados brutos do celular de Daniel Vorcaro, elementos envolvendo outros ministros que, segundo ele, haviam “passado despercebidos” durante os meses em que o acervo do caso Master permaneceu sob a guarda de André Mendonça. No voto divulgado nesta segunda-feira (28), Gilmar relata que o material só foi compartilhado após sucessivos pedidos e aponta informações relacionadas a Kassio Nunes Marques e a seu filho, o advogado Kevin Marques.

A revelação consta do voto apresentado por Gilmar na questão de ordem da Petição 16.662, julgamento em que o Plenário do STF discute quem deve conduzir essa frente do caso Master, como ela deve tramitar e quais ministros podem participar de sua análise. A controvérsia surgiu depois que o presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu o procedimento e o levou ao colegiado. Gilmar defende que essa petição seja reunida à Pet 16.704 e, depois, redistribuída pelas regras regimentais do Supremo.

Segundo o voto, os demais integrantes do colegiado só receberam acesso aos dados brutos na tarde de 14 de setembro, véspera do julgamento da questão de ordem sobre a condução das apurações. Gilmar afirma que o material estava havia “muitos meses” com Mendonça e que foram necessários “sucessivos ofícios” diante do que classificou como uma resistência inicial do relator em disponibilizar a íntegra do acervo.

Foi nesse intervalo que, segundo Gilmar, apareceram informações que não haviam recebido a mesma atenção.

“Em menos de vinte e quatro horas de acesso direto a esse acervo, já foi possível identificar elementos que reclamam atenção desta Corte e que passaram despercebidos ao escrutínio atento do eminente Relator”, escreveu.

Gilmar sustenta que a análise integral do material mostrou relações de Vorcaro com diferentes autoridades e parentes de autoridades. Ele contrapõe esses dados aos relatórios produzidos por determinação de Mendonça sobre informações envolvendo Alexandre de Moraes e afirma que elementos que apontavam para outras direções não receberam “igual escrutínio”.

Entre eles estão mensagens que, na avaliação de Gilmar, exigem esclarecimentos sobre Nunes Marques antes que o STF prossiga com os julgamentos relacionados ao Master. O ministro ressalva que o material não permite concluir pela existência de irregularidade ou impedimento de Nunes, mas considera que há dúvidas que precisam ser examinadas.

Gilmar pede levantamento de magistrados citados no caso Master
A partir desse quadro, Gilmar incorporou ao voto uma proposta apresentada inicialmente por Flávio Dino: identificar magistrados de todos os tribunais brasileiros mencionados nas investigações do Master e, entre eles, aqueles sobre os quais existam indícios sólidos de recebimento indevido de valores.

O levantamento alcançaria STF, Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST) e os demais tribunais do país. O critério inclui valores provenientes do Master, de empresas ligadas ao banco, de seus sócios ou administradores, recebidos diretamente pelo magistrado ou por intermédio de parentes próximos. Para essa finalidade, Gilmar considera indevido o recebimento sem causa jurídica “lícita e demonstrável”.

A medida também serviria para definir quem pode participar dos julgamentos. Gilmar afirma que, enquanto não forem conhecidos os ministros mencionados no acervo e as circunstâncias dessas referências, o Supremo não terá como saber se algum deles está impedido de votar.

“Enquanto não se souber quais integrantes desta Corte foram mencionados e em que condição, não se saberá quem pode votar e quem se acha impedido nos feitos correlatos”, escreveu.

Depois do levantamento, a proposta prevê manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e dos próprios magistrados citados. Gilmar também defende reunir as duas frentes do caso Master que tramitam no Supremo — as Pets 16.662 e 16.704 — e redistribuí-las pelas regras regimentais da Corte.

Para o ministro, submeter informações sobre alguns magistrados a uma apuração aprofundada e não fazer o mesmo com elementos relacionados a outros comprometeria o processo.

“Apuração parcial é apuração viciada”, afirmou.

Mensagens citam julgamento e filho de Nunes Marques
Um dos episódios destacados por Gilmar ocorreu em 1º de outubro de 2024. Naquele dia, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, escreveu a Vorcaro: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, registrou o resultado de uma votação: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André) desprovido o recurso da União”.

Poucos minutos depois, Rennó encaminhou a Vorcaro o contato de Kevin Marques, filho de Nunes Marques, acompanhado da mensagem: “Dominado aqui”.

Gilmar ressalva que conversas entre terceiros não permitem concluir que seu conteúdo seja verdadeiro. O que chamou a atenção do ministro foi a correspondência entre a mensagem e um julgamento efetivamente realizado pelo STF naquele dia.

Tratava-se de um recurso envolvendo a Destilaria Alcídia. O placar foi exatamente o descrito na conversa: Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques formaram a maioria; Gilmar e Mendonça ficaram vencidos.

O voto também registra que Nunes havia aparecido como impedido no processo em fevereiro de 2024. No mês seguinte, retirou o impedimento e se declarou habilitado a votar. Em setembro, pediu vista e, em 1º de outubro, apresentou o voto que desfez o empate e formou a maioria.

Nunes Marques afirmou que o impedimento havia sido registrado porque ele atuara no caso quando era vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Depois, concluiu que não estava tecnicamente impedido por se tratar de uma tese jurídica ampla e pediu a correção.

O ministro também declarou nunca ter votado em favor de Vorcaro ou do Master, nunca ter trocado mensagens com o banqueiro e jamais ter autorizado alguém a falar em seu nome.

Outras mensagens mencionam Consult e Kevin Marques
O voto reproduz ainda outras conversas entre Rennó e Vorcaro nas quais aparece o contato de Kevin.

Em agosto de 2025, Rennó escreveu que, entre os “pagamentos essenciais”, estava faltando “a consult”. Em seguida, encaminhou o contato de Kevin e escreveu “Único ‘meu’ que faltou”. Mais tarde, informou: “Foi pago”.

Em julho, o mesmo contato havia sido enviado acompanhado da pergunta: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”.

O material não permite afirmar que Kevin recebia R$ 500 mil mensais, nem estabelece que o valor mencionado tivesse como destinatário o filho de Nunes. O próprio Gilmar adverte: “são conversas, e conversas não são condenações”.

O voto também menciona reportagens baseadas em dados do Coaf segundo as quais Kevin recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências. A empresa teria recebido R$ 18 milhões entre agosto de 2024 e julho de 2025, sendo R$ 6,63 milhões do Master e R$ 11,38 milhões da JBS.

Kevin afirmou que os pagamentos remuneraram trabalho na área tributária e negou que suas empresas tenham mantido negócios com o Master ou a JBS. A Consult declarou que os valores pagos ao advogado correspondiam a serviços técnicos e jurídicos. Nunes Marques afirmou nunca ter prestado serviços ou consultoria à empresa.

Contrato poderia render R$ 427 milhões
Outro conjunto de informações citado por Gilmar envolve um contrato de honorários que poderia alcançar R$ 427 milhões e que, segundo reportagem mencionada no voto, já integrava o material enviado pela Polícia Federal ao gabinete de Mendonça.

O acordo com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos previa honorários de 5% sobre valores que o Master recebesse em 12 processos ligados ao setor sucroalcooleiro. Uma das integrantes do escritório é Camilla Ramos, mulher do desembargador federal Newton Ramos, do TRF-1.

Essas ações discutiam indenizações relacionadas ao controle de preços do açúcar e do álcool, a mesma controvérsia jurídica do processo da Destilaria Alcídia.

Nunes Marques sustentou que o Master não era parte naquele processo. Gilmar reconhece esse fato, mas afirma que a tese jurídica definida pelo STF poderia produzir efeitos sobre outras ações nas quais o banco tinha interesse econômico.

Gilmar volta a advertir que os elementos não permitem antecipar uma conclusão contra Nunes. “Conversas de terceiros não são condenações, e reportagens não são provas”, escreveu. Para ele, as informações precisam ser esclarecidas antes de o Supremo continuar a julgar os processos relacionados ao Master.

Gilmar acusa Mendonça de viés político-eleitoral
Na parte mais dura do voto, Gilmar acusa Mendonça de imprimir “inequívoco viés político-eleitoral” à condução do caso.

Segundo ele, informações envolvendo Alexandre de Moraes já haviam vazado em março de 2026 e apareciam em relatório da Polícia Federal no mês seguinte, mas Mendonça só determinou novas providências durante o período eleitoral. Gilmar também critica o levantamento do sigilo antes de o Plenário analisar a controvérsia.

As afirmações são acusações feitas por Gilmar no voto e não conclusões já estabelecidas pelo STF.

Ao defender que o mesmo critério seja aplicado a todos os nomes que aparecem no acervo, Gilmar resume a posição em uma frase: “Os fatos serão apurados — todos eles e de todos.”

Pela proposta, o STF deverá reunir e redistribuir os procedimentos, identificar os magistrados associados a indícios sólidos de pagamentos indevidos e ouvir a PGR e os próprios citados antes de retomar o julgamento.

*Cleber Lourenço/ICL


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Política

Master: concessão de cemitérios de SP tem novos elos com Vorcaro

Por Amanda Audi, Agência Pública, Paulo Motoryn, Noites Húngaras em A Pública

O Grupo Maya, uma das concessionárias que administram cemitérios da cidade de São Paulo e cujas relações financeiras com o extinto banco Master motivaram um pedido de investigação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, tem proximidade com o entorno empresarial de Daniel Vorcaro.

Apuração exclusiva da Agência Pública e da newsletter Noites Húngaras identificou, nos documentos da Junta Comercial do Estado de São Paulo, que o principal elo passa pelo Maya Plano Funeral, uma empresa registrada no mesmo endereço do Grupo Maya e gerida pelos mesmos grupos empresariais que controlam a concessão de cemitérios.

Uma das sócias do Maya Plano Funeral é a AFC Holding SP Ltda., subsidiária da AFC Holding, que faz parte da teia de CNPJs investigada no escândalo do Master. Elas são administradas pela mesma pessoa: o advogado Thiago Assumpção Henriques, que também controla outros negócios ligados à família do banqueiro preso pelo maior rombo bancário da história do país.

A AFC Holding já apareceu em investigações sobre aquisições de terrenos e imóveis de alto valor no Rio Grande do Sul e na Bahia relacionadas à família Vorcaro, sob suspeita de possível ocultação patrimonial. Henriques também figura como dirigente da Global Carbon, investigada por suspeita de integrar a cadeia de movimentação de recursos ligados ao Master.

Empresas “irmãs” têm mesmos dirigentes
Integrantes das empresas Conata Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos, que fundaram a concessão paulista, constam tanto na estrutura da concessionária quanto na da empresa de planos funerários.

A sobreposição vai além dos sócios. A Maya Plano Funeral funciona no mesmo endereço do Grupo Maya, na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia, e utiliza um endereço de e-mail com o mesmo domínio “grupomaya”. Seus administradores também ocupam ou ocuparam postos de comando na concessionária.

Renato Medrado Geo, sócio da RMG e presidente do Grupo Maya desde 2023, também administra a Maya Plano Funeral desde 2024, quando a empresa foi criada. Alexandre Humberto Caramatti Manata, sócio da Conata e ex-presidente da concessionária, também é administrador da empresa de planos funerários. Wesley Bambirra, CEO da Infracon, integra o conselho de administração do Grupo Maya.

Ex-sócio de Vorcaro
Há ainda uma conexão pessoal entre o comando das empresas funerárias e Daniel Vorcaro. Rodrigo Medrado Geo, irmão de Renato, sócio da RMG e também dirigente da concessionária de cemitérios, foi sócio do banqueiro na Itaminas, mineradora de Minas Gerais.

Vorcaro adquiriu 50% da Itaminas em 2014 e vendeu sua participação por R$ 700 milhões aos antigos sócios, entre eles integrantes da família Geo, poucos dias antes de ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025.

Essas conexões se somam à relação financeira entre o Grupo Maya e o Banco Master revelada pelo jornalista Artur Rodrigues, do UOL. As três acionistas da concessionária — Conata, Infracon e RMG — deram ao banco a totalidade das ações que detinham na empresa como garantia de dois financiamentos no valor total de R$ 78 milhões.

Pelos contratos, o Master passou a deter a propriedade fiduciária das ações enquanto as dívidas permanecessem em aberto e a ganhar poderes sobre determinadas decisões societárias. As acionistas deveriam seguir a orientação do credor em votações que pudessem afetar seus interesses e não poderiam realizar determinadas operações com ativos sem autorização.

Os créditos passaram por operações internas do conglomerado, chegaram à Master Holding, sediada nas Ilhas Cayman, e foram incluídos em negociações realizadas pelo Master com o Banco de Brasília, o BRB.

Além de vender serviços funerários, de coroas de flores a caixões, o Grupo Maya administra cinco cemitérios paulistanos: Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade. O grupo se autodenomina “a maior administradora de cemitérios públicos da cidade de São Paulo”.

Dino manda PF investigar Master em cemitérios de SP

Na última quinta-feira (17/9), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal investigar conexões entre as concessionárias de cemitérios de São Paulo e o banco Master. A decisão foi tomada após os financiamentos do Master ao Grupo Maya se tornarem públicos.

O ministro já havia solicitado esclarecimentos sobre a ligação entre o Master e a Cortel, outra concessionária de cemitérios paulistas. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, que também está preso, atuou como conselheiro da Cortel entre 2022 e 2025 e teria usado e-mails institucionais do banco para assinar atas da empresa.

Uma denúncia do jornal O Globo, no início do ano, mostrava que o Grupo Maya e a Cortel teriam feito uma “fusão informal”, compartilhando serviços, funcionários e endereços. O caso passou a ser investigado pela prefeitura paulista e pelo Tribunal de Contas do Município.

Os cemitérios da capital paulista foram concedidos à iniciativa privada em 2023, durante a gestão de Ricardo Nunes (MDB). Além do STF, a concessão também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). A Agência Pública já mostrou que, após a privatização, os preços cobrados pelos cemitérios aumentaram em até 10 vezes. Em 2024, Flávio Dino determinou que os preços máximos fossem tabelados.

Vorcaro teve uma reunião com o ministro André Mendonça, do STF, no momento em que o plenário da Corte analisava a proposta de limitação de preços apresentada por Dino. O encontro entre o banqueiro e Mendonça ocorreu em 14 de março de 2025. No dia seguinte, o ministro pediu vista, suspendendo a análise. Ao devolver os autos, em abril de 2025, Mendonça votou contra o limite das tarifas, alinhando-se ao pleito das concessionárias privadas.

Um dos irmãos de Mendonça é servidor comissionado da SP Regula, agência da Prefeitura de São Paulo responsável, entre outras áreas, pela regulação dos serviços funerários da capital. Ele foi promovido de cargo após a posição do ministro favorável à administração municipal, segundo a newsletter Noites Húngaras e o ICL Notícias.

Na decisão mais recente de Flávio Dino sobre o assunto, e após a crise instaurada no STF, o ministro estipulou que Mendonça não deve ser investigado no caso envolvendo o Master e as concessionárias, pois a competência para isso caberia apenas ao presidente da Corte.

Procuramos as empresas e empresários citados nesta matéria, além do ministro André Mendonça e a defesa de Daniel Vorcaro, mas não recebemos retorno até a sua publicação. O espaço permanece aberto.

A Prefeitura de São Paulo disse que “eventuais relações societárias, financeiras ou bancárias das concessionárias também não configuram, por si só, irregularidade contratual. A capacidade econômico-financeira delas é acompanhada permanentemente pela Administração.”


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Política

Segundo a PF, contrato de R$ 427 milhões ligaria Kassio Nunes Marques a Daniel Vorcaro

Honorários dependiam do êxito em ações que poderiam destravar R$ 8,5 bilhões. Mensagens mostram pedido de KN para diária em Fasano

Arquivo enviado pela Polícia Federal aos ministros do STF revela contrato de advocacia de R$ 427 milhões com a chamada “Turma do KN”. O valor seria pago em caso de êxito nas ações de interesse de Daniel Vorcaro em tribunais superiores que poderiam destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios. As mensagens mostram que “KN” é uma menção ao ministro Kassio Nunes Marques, de acordo com matéria de Andreza Matais publicada no Metrópoles.

O documento e a troca de mensagens constam do HD enviado pela PF ao gabinete do ministro do Supremo André Mendonça, relator do Caso Master, em julho. Os ministros Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes exigiram acesso à íntegra do arquivo na última semana, diante de suspeitas de que Mendonça tinha foco apenas em Alexandre de Moraes, ignorando menções a outros ministros da Corte. Mendonça nega direcionamento.

A troca de mensagens revela que assessores de Vorcaro chamavam de “a turma do KN” o desembargador Newton Ramos, do TRF-1, e a mulher dele, a advogada Camilla Ramos. Newton repassava a Vorcaro pedidos de Kassio Nunes, como hospedagem no hotel Fasano, além de atualizá-lo sobre o caso dos precatórios.

O CONTRATO DE R$ 427 MILHÕES
Até então, já se sabia que o escritório de advocacia da mulher do desembargador (Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia) havia sido contratado pelo Master. O contrato, obtido pelo Metrópoles, revela agora o valor dos honorários (R$ 427 milhões em caso de êxito), quais os precatórios comprados por Vorcaro e quanto ele esperava receber pelos papéis (R$ 8,5 bilhões).

Para obter êxito, Vorcaro precisava agilizar julgamentos e convencer juízes a concordar com os pagamentos. Foi nesse contexto que o banqueiro cercou integrantes da Segunda Turma do Supremo, onde uma decisão balizaria todos os demais julgamentos a respeito desses precatórios de usinas de cana-de-açúcar.

Nas mensagens extraídas do celular de Vorcaro e obtidas pelo Metrópoles, a mulher do desembargador Newton Ramos comemora o voto de Kassio Nunes no julgamento. KN, Dias Toffoli e Edson Fachin votaram por reconhecer o débito, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça discordaram e foram vencidos na discussão. Um detalhe desse julgamento: Nunes Marques havia se declarado impedido, mas mudou de ideia. E Toffoli, que, no julgamento anterior, havia votado contra a indenização, neste mudou de ideia.

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“É um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”, escreveu a mulher do desembargador para Vorcaro.

Em outra mensagem, ela marca reunião do desembargador Newton (seu marido) com Vorcaro para falar sobre o assunto. Newton utiliza mensagem de visualização única somente quando trata do tema dos precatórios com Vorcaro. Os favores são registrados em mensagens que não apagam automaticamente.

DIÁRIAS NO FASANO PARA O MINISTRO E CAMAROTE PARA O DESEMBARGADOR
Enquanto buscava receber R$ 8,5 bilhões em precatórios, o banqueiro custeava hospedagens no Fasano, acesso a eventos no Rosewood, entradas para a Fórmula 1, viagens de avião e camarote na Sapucaí. Os pedidos estão registrados em conversas de Vorcaro com assessores que o procuravam para pedir seu aval.

Em uma das conversas, Leo Serrano Giunchetti, auxiliar de Vorcaro, informa que Newton havia solicitado reserva para o ministro: “Fasano Itaim essa sexta a sábado para KN”.

Em outra troca, a identidade de “KN” se revela.

Uma assessora encaminha a Vorcaro uma mensagem que atribui a Newton:

“Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional no Fasano. Só uma diária. Entrando sexta e saindo sábado. Recebi essa mensagem do Newton. OK para você?”.

Vorcaro autoriza que a hospedagem seja paga por ele: “Pode botar na minha conta”.

A alcunha “Turma do KN” aparece nas mensagens em que os assessores buscam o aval de Vorcaro para as demandas de Newton e da mulher.

“Dani, turma do KN (Newton) me mandou aqui 6 nomes para colocar na lista do Camarote… posso encaminhar isso lá pra lista do Camarote, né?”

“Dani, aquele Newton pediu pra ele aqui reserva de 1 noite de hoje pra amanhã no Fasano Itaim, pode fazer e faturar pra Prime?”

Vorcaro respondeu: “Ok”.

O CONTRATO DE R$ 427 MILHÕES

O contrato prevê a prestação de serviços por Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton, em causas do sucroalcooleiro, com honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo banco em 12 processos. Segundo o valor de face de cada causa, os honorários seriam de 427 milhões de reais em caso de êxito.

As ações discutem indenizações decorrentes do controle de preços realizado pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). O Banco Master aparece nos documentos como credor ou cessionário dos créditos.

*Andreza Matais/Metrópoles


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“Não fala pra ninguém”: Vorcaro temia vazamento de jantar com Bolsonaro e Flávio

Mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o empresário mineiro Flávio Carneiro, obtidas pela Carta Capital, indicam que o dono do Banco Master temia o vazamento de um possível jantar com o ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em uma das conversas, o banqueiro escreveu: “Esse negócio acaba comigo”.

A troca de mensagens ocorreu pelo WhatsApp em 8 de dezembro de 2024. Carneiro perguntou a Vorcaro se ele participaria de um jantar “com meu xará e com o pai dele” e afirmou que Thiago cobrava uma resposta.

Vorcaro respondeu inicialmente que não sabia do que o empresário falava. Carneiro insistiu e disse: “Você não está sabendo? Achei que eles tinham falado com você”. O banqueiro então escreveu: “Temos que pensar nisso. Vamos nos falar primeiro.”

No dia seguinte, Vorcaro retomou o assunto e pediu sigilo a Carneiro: “Cara. Não fala dessa reunião bolso pra ninguém”. Após o cumprimento do empresário, o banqueiro acrescentou: “Esse negócio acaba comigo. Fábio já veio falar”. As mensagens não confirmam que o jantar tenha ocorrido.

Investigadores associam referências a Jair e Flávio Bolsonaro
Investigadores do Caso Master interpretam que o “xará” citado por Carneiro seria Flávio e que a referência ao “pai dele” apontaria para Jair Bolsonaro. A conversa menciona uma reunião, mas não detalha local, participantes ou eventual data para o encontro.

Naquele período, Bolsonaro cumpria medidas cautelares no processo sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Entre as determinações, estavam a entrega do passaporte, a proibição de deixar o país e a vedação de contato com outros investigados.

Fontes ligadas à investigação também identificaram o “Thiago” da conversa como o publicitário e lobista Thiago Miranda, dono da Agência MiThi. À época, ele integrava a sociedade do Grupo Léo Dias de Comunicação.

Miranda deixou a sociedade em maio de 2026, após se tornar alvo da Operação Compliance Zero. A investigação apura a suspeita de que ele tenha articulado o “Projeto DV”, voltado à contratação de influenciadores para questionar a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master.

Conversa ocorreu durante operações investigadas no Caso Master
A data das mensagens chamou a atenção dos investigadores porque, em dezembro de 2024, o Banco Master já realizava operações com o Banco de Brasília (BRB) que posteriormente entraram na mira da Polícia Federal e do Banco Central.

Relatório do BC divulgado posteriormente apontou que o BRB adquiriu R$ 33,9 bilhões em ativos ligados ao Master, entre carteiras de crédito consignado, empréstimos e títulos. A PF identificou indícios de gestão fraudulenta em 25 operações que somaram R$ 17,5 bilhões.

Parte dos ativos teria origem em carteiras cuja existência ou consistência financeira passou a ser questionada pelos investigadores. O prejuízo potencial calculado para o banco público chegou a R$ 11,4 bilhões. As instituições e os investigados contestam irregularidades em diferentes partes do caso.

A Operação Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025 para investigar suspeitas de gestão fraudulenta, emissão de títulos de crédito falsos e atuação de uma organização criminosa. Foi nesse contexto que a PF apreendeu o celular de Vorcaro e passou a analisar mensagens, áudios, documentos e registros de encontros mantidos pelo banqueiro com empresários, políticos e autoridades. O teor da conversa com Carneiro não esclarece por que Vorcaro acreditava que a divulgação da possível reunião poderia “acabar” com ele.

Financiamento de filme ampliou suspeitas sobre proximidade
Outros elementos encontrados posteriormente pelos investigadores, porém, reforçaram as apurações sobre a relação de Vorcaro com integrantes da família Bolsonaro. Flávio admitiu ter pedido ao banqueiro recursos para financiar “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política do pai.

Segundo documentos da investigação, o projeto teria solicitado mais de R$ 130 milhões. Cerca de R$ 60 milhões teriam sido repassados para a produção do filme. A PF ainda apura o destino dos valores e eventuais irregularidades na captação e na movimentação do dinheiro.

Uma entidade ligada à produtora também recebeu cerca de R$ 6,2 milhões provenientes de verbas públicas, mas a apuração não havia identificado a destinação integral dos recursos. A defesa da produtora nega irregularidades e afirma colaborar com as autoridades.

*DCM


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Política

Flávio é Vorcaro e Vorcaro é Flávio: a conexão que exige respostas, não blindagem

Se há uma coisa que o escândalo envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro deixou evidente é que as relações entre o poder político, o dinheiro e os interesses privados precisam ser investigadas com rigor, sem privilégios e sem proteção institucional.

A conexão entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, quando examinada à luz dos documentos, movimentações financeiras e possíveis interesses cruzados, levanta questões que não podem ser varridas para debaixo do tapete. Mas é fundamental distinguir relações documentadas, suspeitas investigadas e responsabilidades criminais comprovadas — cada uma exige evidências próprias.

A investigação que coloca o discurso à prova

Relatórios divulgados pela Polícia Federal apontam que Flávio Bolsonaro atuou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas negociações de financiamento do filme Dark Horse. O senador é investigado por suspeitas que incluem lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio nega irregularidades.

Isso não autoriza afirmar, neste momento, que os dois sejam comprovadamente sócios de uma organização criminosa ou que tenham cometido conjuntamente os crimes mencionados. Mas torna legítima a cobrança pública por transparência, esclarecimentos e responsabilização, caso as provas confirmem ilícitos.

O ponto central é que nenhuma candidatura, sobrenome político ou influência institucional pode substituir a investigação independente.

Se os recursos de Vorcaro financiaram interesses políticos, se houve desvio de dinheiro ou se agentes públicos atuaram para favorecer negócios privados, tudo precisa ser esclarecido. E, se houver provas de crimes, os responsáveis devem responder perante a Justiça, independentemente de sua posição política.

O Brasil não precisa de versões cuidadosamente embaladas para proteger poderosos. Precisa de documentos, perícias, investigação e verdade.


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