John Kiriakou, ex-agente da CIA e que se tornou uma espécie de celebridade nos últimos anos, foi às redes sociais para denunciar um suposto indício do envolvimento da agência de espionagem americana na eleição brasileira.
Ele promete novas relevações ao longo da semana e, pelo menos por enquanto, não apresentou qualquer prova que sustente sua denúncia.
Inicialmente, ele escreveu nas redes sociais que esteve com Bolsonaro há três anos.
“Conversei com o presidente Bolsonaro há três anos, quando ele era candidato. Receio ter subestimado o poder do populismo nesta disputa atual. Ele vai perder. E há evidências confiáveis de que a CIA está envolvida”, afirmou.
Instantes depois, ele foi às redes sociais para publicar uma correção.
“Uma correção aqui: minha conversa foi com LULA, não com Bolsonaro. (Para esclarecer, a CIA está potencialmente intervindo a favor de Bolsonaro, não de Lula). Explicações e mais detalhes sobre a eleição presidencial do Brasil sairão amanhã no programa *Briefing Room*, de John Kiriakou”, indicou.
Em 2013, o ex-agente da CIA declarou-se culpado por revelar o nome de um agente infiltrado, no primeiro processo desse tipo em 27 anos. Kiriakou trabalhou para a CIA entre 1990 e 2004, foi condenado a 30 meses de prisão em um tribunal federal, como parte de um acordo de confissão.
Ele admitiu ter revelado a um repórter a identidade de um oficial infiltrado que participou de interrogatórios rigorosos de supostos membros da Al-Qaeda, mantidos em centros de detenção secretos da CIA.
Kiriakou ganhou destaque na mídia em 2007, durante a presidência de George W. Bush, ao afirmar em uma entrevista à rede de TV ABC que o *waterboarding* — uma técnica que simula o afogamento — havia sido utilizado contra um detento de Guantánamo chamado Abu Zubaida.
O diretor da CIA, David Petraeus, divulgou um comunicado saudando o acordo de confissão com Kiriakou, embora outras quatro acusações tenham sido retiradas. O caso “representa uma vitória importante para a nossa agência, para a nossa comunidade de inteligência e para o nosso país”, disse Petraeus.
Aquela foi foi a primeira vez em 27 anos que alguém foi considerado culpado por revelar o nome de um agente infiltrado.
*Jamil Chade/ICL
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Segundo Revista Fórum, inteligência brasileira monitora possível ação coordenada para gerar clima de medo antes do primeiro turno das eleições
A ordem do governo Donald Trump para suspender o atendimento presencial na Embaixada dos EUA em Brasília e os consulados instalados no país por “questões de segurança”, emitida nesta sexta-feira (02/10), gerou um alerta na Polícia Federal (PF) e Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para uma operação psicológica, coordenada pela Casa Branca em conluio com a candidatura Flávio Bolsonaro, que visa uma nova tentativa de golpe de Estado. A informação foi obtida pela Fórum junto à PF e confirmada por um embaixador relevante no governo Lula.
Segundo informações obtidas pela Fórum, após a ordem de fechamento da embaixada por “ameaças”, emitida pelo Departamento de Estado dos EUA, comandado por Marco Rubio, informes foram emitidos para o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) – rede que integra os órgãos federais de inteligência e contrainteligência do Brasil – alertando para uma “Psyops”, operação psicológica a partir da Casa Branca para gerar um clima de tensão permanente até o domingo (04/10), no primeiro turno das eleições presidenciais.
“Essa tentativa de golpe não é aquele golpe tradicional. É para intervir e favorecer um candidato. A ideia deles é o favorecimento em detrimento de outro. Ou seja, o objetivo é que o candidato atual que pode vencer, o presidente Lula, seja considerado ‘culpado’ por deixar esse ‘clima violento’. As pessoas vão sentir medo, e no medo ou votam no outro ou não vão votar. Pode-se criar abstenção a ponto de não se ter a quantidade de votos para se ganhar no primeiro turno”, afirmou uma fonte da PF, que participa da produção dos informes que estão sendo enviados ao Sisbin.
Embaixada EUA Brasil
@EmbaixadaEUA Traduzido do inglês Os Serviços Consulares na Embaixada dos EUA e Consulados nos Estados Unidos no Brasil serão suspensos a partir de hoje, 2 de outubro, devido a preocupações de segurança. Cidadãos dos EUA que busquem assistência emergencial durante este período não devem comparecer à Embaixada, aos Consulados ou a outras instalações diplomáticas dos EUA. Se você precisar de assistência emergencial, entre em contato com o Oficial de Serviço apropriado:
A “guerra híbrida”, que inclui a participação das redes sociais comandadas pelas big techs, segundo o agente, é tratada internamente como Operação Brother Sam II. O nome remete à Operação Tio Sam desencadeada pelos EUA no golpe de 1964, quando o governo estadunidense chegou a deslocar para o litoral braasileiro uma força-tarefa, liderada pelo porta-aviões USS Forrestal, destróieres e navios-tanque, para intervir caso houvesse resistência interna.
“O objetivo claro é criar um clima de medo. Aí, o eleitor pensa: ‘Poxa, embaixada americana, australiana, estão fechando por conta de possíveis atos terroristas’. Desa forma ele age assim: ‘está tenso, será que eu vou sair de casa hoje para votar?’”, explicou o PF à Fórum.
Os informes já teriam sido distribuídos, além da Sisbin, para ministérios e representantes do Itamaraty. Um deles confirmou à Fórum ter recebido informações sobre o alerta desencadeado pelos setores de inteligência.
“Está em curso uma guerra híbrida, ou seja, uma operação psicológica gerando informações desencontradas, dissonantes, pra criar esse clima desfavorável de insegurança ou de que algo pode acontecer”, diz a fonte.
Participação do clã Bolsonaro Os sistemas de inteligência acreditam que a decisão do governo Trump, emitida por Marco Rubio, de suspender as atividades na embaixada e consulados possam ter sido decididos por meio de interlocução com representantes da campanha de Flávio Bolsonaro, em mais uma investida dos EUA nas eleições na América Latina. Eduardo Bolsonaro (PL), irmão do candidato, é um dos principais interlocutores e tem acesso ao Departamento de Estado, em Washington.
A informação obtida pela revista é que a campanha de Flávio Bolsonaro deve propagar pânico a partir da decisão que veio dos EUA, inclusive com declarações do próprio candidato a respeito.
“Estamos assistindo ou presenciando um novo golpe de estado. O bode expiatório não é mais o ‘comunismo e a corrupção’, mas o Estado brasileiro censurador e a extensão no Judiciário”, diz a fonte ouvida pela Fórum, sobre a estratégia de “censura” e ataques ao judiciário, ampliada desde a noite desta quinta-feira (1º) com o cancelamento do debate pela TV Globo.
A Fórum obteve parte de um dos informes enviados ao Sisbin que explica detalhadamente a Operação Psicológica monitorada pela inteligência brasileira.
“As OpPsico, em seu planejamento e na sua execução, baseiam-se em princípios que, bem observados, concorrerão para o seu êxito”, enuncia o texto, citando diversos pontos importantes observados no desencadeamento da operação. Entre eles, são citados:
Credibilidade – As Op Psico devem ser baseadas em fatos que levem o público-alvo a acreditar na mensagem, porque a credibilidade é fator primordial do seu sucesso.
Oportunidade – As Op Psico devem ser desencadeadas no momento oportuno, perfeitamente entrosadas no tempo e no espaço. Progressividade – As ações a realizar devem ser escalonadas no tempo, segundo um ritmo adequado. Cada fase deve ter um ou mais objetivos definidos que contribuam para o sucesso da seguinte.
Unidade de Comando – A direção das Op Psico é centralizada no mais alto escalão, cabendo-lhe orientar e controlar todas as ações, já que decisões e interpretações diferentes podem anular, revelar ou contrariar todo o esforço realizado.
Segundo informações obtidas pela Fórum, o monitoramento de uma possível interferência dos EUA tem sido monitorada há meses pelos agentes de inteligência.
Nesta quinta-feira (1º), uma notícia divulgada pelo jornal britânico The Guardian chamou a atenção. Donald Trump destinou US$ 1 milhão para um grupo de brasileiros para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF).
A informação coincide com as suspeitas de financiamento externo para minar a credibilidade da Justiça e criar um clima de “censura” no País.
Segundo a reportagem do Guardian, a verba milionária faz parte de um pacote de 176,9 milhões de dólares do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que passou a financiar iniciativas ligadas a pautas conservadoras e de direita em diferentes países.
O programa destinado ao Brasil se chama “Countering Lawfare and Censorship in Brazil” – em tradução livre, “Combatendo a guerra jurídica e a censura no Brasil”, segundo o jornal britânico.
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EUA suspendem atendimento presencial em todas as representações diplomáticas no país a dois dias do primeiro turno; Departamento de Estado fala em “questões de segurança”
A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, os Estados Unidos suspenderam nesta sexta-feira (2) o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e nos consulados instalados no país por “questões de segurança”. Washington não explicou o que motivou a medida, mas, ao se pronunciar sobre o caso, o Departamento de Estado citou alertas sobre “ameaças” e afirmou estar trabalhando em conjunto com autoridades brasileiras.
A medida atinge todas as instalações diplomáticas estadunidenses no Brasil. Cidadãos dos EUA que precisem de assistência emergencial foram orientados a não comparecer aos prédios e a procurar o oficial de plantão por telefone ou e-mail.
Até o momento, no entanto, não há qualquer informação oficial que relacione a medida adotada pelos Estados Unidos ao processo eleitoral brasileiro.
Embaixada teria sido alvo de ameaça Segundo apuração do site Metrópoles, funcionários da Embaixada dos Estados Unidos foram dispensados do trabalho presencial depois que a representação diplomática teria sido alvo de uma ameaça.
O tipo de ameaça não foi divulgado. Os funcionários receberam na quinta-feira (1º) um comunicado por e-mail determinando que trabalhassem de casa nesta sexta.
A decisão, no entanto, acabou tendo alcance maior: o atendimento presencial também foi suspenso nos consulados estadunidenses no Brasil, afetando todas as instalações diplomáticas do país.
Washington não informou a origem da ameaça, sua natureza ou o grau de risco identificado.
EUA citam “ameaças” e dizem atuar com autoridades brasileiras Questionado sobre o episódio, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou à imprensa que “a administração Trump tem máxima prioridade à segurança e à proteção dos cidadãos americanos”.
Na resposta, o governo estadunidense mencionou expressamente “ameaças”.
“As Embaixadas e Consulados dos Estados Unidos no exterior utilizam regularmente o sistema de mensagens STEP, incluindo alertas, para informar os cidadãos americanos sobre ameaças, eventos e mudanças relevantes no contexto local”, afirmou o Departamento de Estado.
O STEP (Smart Traveler Enrollment Program) é o sistema utilizado pelo governo dos EUA para fornecer informações consulares e alertas de segurança a cidadãos estadunidenses que estejam no exterior, segundo a Forum.
O Departamento de Estado acrescentou ainda que mantém contato com o governo brasileiro.
“Estamos trabalhando em estreita cooperação com nossas contrapartes brasileiras para tratar de questões de segurança”, declarou.
Washington, entretanto, não informou quais seriam essas “questões de segurança”, que autoridades brasileiras estão envolvidas nas tratativas ou se existe uma ameaça específica contra outras representações diplomáticas além da Embaixada em Brasília.
Suspeita de bomba mobilizou segurança no STF A suspensão ocorre ainda em meio a outro episódio de segurança registrado em Brasília.
Na quinta-feira, um homem tentou pular as grades em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) e lançou uma mochila sobre uma parada de ônibus próxima à Corte. Diante da suspeita de que pudesse haver um explosivo, a Polícia Judicial do Supremo acionou a Polícia Militar do Distrito Federal.
Parte da Esplanada dos Ministérios chegou a ser interditada. Após a deflagração da Operação Petardo, porém, a PMDF descartou a existência de uma bomba: dentro da mochila havia apenas roupas. O homem detido aparentava estar em surto e apresentava falas desconexas.
Não há, até agora, confirmação de qualquer ligação entre o episódio ocorrido nas proximidades do STF e a ameaça relatada contra a Embaixada dos Estados Unidos.
Da mesma forma, não há indicação oficial de que a suspensão do atendimento diplomático esteja relacionada às eleições deste domingo.
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Acordo de governos conservadores cita facções brasileiras e busca consolidar a região como zona de influência dos EUA
Os 14 países integrantes do Escudo das Américas, grupo de governantes de extrema direita da América Latina organizado por Donald Trump, assinaram um acordo nesta terça-feira (22) que considera 24 facções narcotraficantes como “ameaças compartilhadas”, tornando-as alvos de sanções conjuntas. Os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) estão entre os citados.
O acordo é mais uma tentativa de ingerência dos Estados Unidos sobre o continente, além de se configurar como um cerco para o governo brasileiro e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontam os especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato.
“Reconhecendo que uma ameaça imediata e universalmente compartilhada em nosso hemisfério é aquela representada por organizações narcoterroristas transnacionais — as quais põem em risco a paz e a segurança do hemisfério, bem como a segurança e a prosperidade de nossos cidadãos —, anunciamos hoje a primeira ação conjunta no âmbito de nossos pilares recém-anunciados: ação individual e coletiva para enfrentar o flagelo do narcoterrorismo”, diz o documento divulgado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.
“É uma maneira de [Trump] criar a polícia continental, que eles nunca tiveram, que os Estados Unidos nunca conseguiram implantar”, aponta o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni. Em pelo menos três ocasiões, os Estados Unidos criaram mecanismos para garantir o domínio sobre a América Latina. Com a Doutrina Monroe, criada em 1823, que estabelecia uma “aliança” contra a colonização europeia e que foi reeditada como “Corolário Roosevelt” por Theodore Roosevelt, no início do século 20, para proteger o continente da “ameaça comunista”. Em 1947, foi assinado o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), que tinha como base a “doutrina da defesa hemisférica”, mas que nunca foi implantado.
“Lá o inimigo era o comunismo. Agora é o narcoterrorismo. Você inventa um inimigo, você inventa um espantalho para poder intervir em qualquer situação”, explica Maringoni, lembrando que, no seu discurso nesta terça na Organização das Nações Unidas, o presidente Donald Trump chamou o narcoterrorismo de “Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental”.
“Trata-se de mais uma iniciativa de cerco à realidade brasileira, de cerco ao governo do presidente Lula, que iniciou desde a reformulação da política externa dos Estados Unidos, com a volta de Trump”, adverte professor na Universidade Católica de Brasília (UCB) e da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Menon, lembrando que essa medida se soma a outras, como o tarifaço, no qual Trump tenta interferir na política brasileira com aumento de impostos de importação de produtos nacionais.
Nesse sentido, Menon destaca o papel do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, “que se comporta como um verdadeiro xerife hemisférico”, fazendo da América Latina “uma espécie de quintal dos interesses estadunidenses”.
A medida vai de encontro ao discurso do presidente Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, quando ele defendeu que o Brasil “não se subestima o desafio representado pelo crime organizado”, mas que não se pretende “terceirizar a responsabilidade” de proteger os cidadãos. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, completou Lula.
O que diz o acordo De acordo com o documento assinado pelos países, a intenção é impor “o congelamento de ativos; restrições de imigração e de visto para membros, associados e apoiadores dessas organizações; e a responsabilização criminal de indivíduos que, conscientemente, forneçam apoio material — incluindo apoio logístico — a tais organizações, entre outras medidas”.
O acordo cita 24 organizações. Além do PCC e do Comando Vermelho, estão na lista grupos como Mara Salvatrucha (MS-13), Cartel de Sinaloa, Cartel de Jalisco Nueva Generación (CJNG), Clã do Golfo, Exército de Libertação Nacional (ELN), Sendero Luminoso e Trem de Aragua. Esse último foi o grupo citado para justificar o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que está preso nos Estados Unidos desde janeiro, mesmo após a Justiça do país confirmar que não há provas de ligação de Maduro com o grupo.
A declaração foi divulgada pelo Departamento de Estado dos EUA em conjunto com os governos de Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
O Escudo das Américas foi anunciado por Trump em 7 de março, durante uma cúpula realizada em seu campo privado de golfe, em Doral (Flórida), como “uma nova iniciativa de segurança para o Hemisfério Ocidental” para combater cartéis, “gangues” transnacionais e migração irregular.
*BdF
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Governo monitora possíveis articulações de aliados de Bolsonaro em Washington e teme questionamentos sobre o processo eleitoral diante de crise no Judiciário.
O agravamento da tensão no Judiciário acendeu um novo sinal de alerta no Palácio do Planalto. Integrantes do governo avaliam que a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pode ser explorada por setores bolsonaristas com interlocução em Washington para ampliar a pressão sobre o Brasil às vésperas da eleição.
O cenário acompanhado pelo governo vai além das articulações nos Estados Unidos. Há projeções, segundo interlocutores do Planalto, de que integrantes da administração de Donald Trump tentem vir ao Brasil na semana que antecede a votação.
A eventual movimentação, seus objetivos e possíveis interlocutores no país estão sendo monitorados pelo governo brasileiro diante do receio de que a visita seja utilizada para lançar questionamentos sobre o processo eleitoral ou alimentar o ambiente de instabilidade.
A preocupação se concentra, sobretudo, em grupos brasileiros com trânsito junto a setores do Departamento de Estado que, na avaliação de auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentam transformar problemas internos das instituições em argumentos para estimular uma reação de Washington.
Nos bastidores, um interlocutor do governo resume a inquietação de maneira mais dura: há brasileiros dispostos a “entregar a nação a Trump” para tentar produzir algum tipo de pressão externa capaz de repercutir no ambiente político doméstico. O temor ganhou força com o aprofundamento da crise no Supremo e a proximidade das urnas.
O Planalto já vinha acompanhando essa movimentação. Como mostrou o Correio na semana passada, auxiliares de Lula identificaram uma tentativa de brasileiros radicados nos Estados Unidos de aproveitar a instabilidade política para pressionar integrantes da administração Trump.
*Correio Braziliense
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Por Alice Maciel (ICL Notícias) e Natalia Viana (Agência Pública)
Mansões, carros de luxo, viagens: a vida de Eduardo Bolsonaro e Figueiredo nos EUAEduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo foram centrais na articulação para impor tarifas contra o Brasil e retaliações contra ministros do Supremo. Desde 2025, eles participaram de dezenas de reuniões com deputados republicanos e membros do governo dos EUA pedindo intervenções em resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
Em maio de 2025, três meses após se mudar para o Texas e anunciar que viveria uma espécie de “autoexílio”, Eduardo Bolsonaro comprou um carro novo. Não exatamente um modelo econômico para atravessar tempos difíceis. Ele adquiriu um GMC Acadia Elevation 2025 preto, um SUV de três fileiras de assentos, avaliado em cerca de 43,8 mil dólares nos EUA, o que equivale a aproximadamente R$ 226 mil.
Os registros de gastos associados à família Bolsonaro nos EUA mostram que, desde a mudança para o país, em fevereiro do ano passado, o padrão de vida não parece ter encolhido, nem mesmo após o STF determinar o bloqueio dos bens de Eduardo Bolsonaro e de sua esposa, Heloísa Bolsonaro, em julho de 2025. Eduardo ainda perdeu o salário que recebia como deputado federal em dezembro, quando seu mandato foi cassado por faltas, e, desde 2015, não recebe salário como escrivão da PF, de onde a corporação recomendou sua demissão por abandono do cargo.
Ao chegar aos EUA, o ex-deputado escolheu Arlington, no Texas, onde já havia mantido uma empresa entre 2023 e 2024. A residência alugada estava longe de ter as dimensões de um refúgio improvisado. Tinha pouco mais de 300 metros quadrados, quatro quartos e quatro banheiros, com valor de mercado estimado em 707,7 mil dólares (cerca de R$ 3,6 milhões). O valor da locação anunciado em sites imobiliários, quando eles alugaram a casa, era de 4,5 mil dólares, aproximadamente R$ 23,3 mil na cotação atual.
Em maio de 2025, Jair Bolsonaro chegou a transferir R$ 2 milhões ao filho. “Botei dinheiro na mão dele, dinheiro limpo, legal, Pix”, afirmou o ex-presidente.
Dias dep
ois, Eduardo chegou a reclamar para o pai, em mensagens trocadas por Whatsapp, que estava “se fodendo” nos EUA. Ao reclamar de uma entrevista em que Jair dizia que o filho era imaturo, Eduardo reclamou que, ao jogar ele para baixo, o ex-presidente o estaria condenando a passar o “resto da vida nessa porra aqui”. “VTNC seu ingrato do caralho!”, escreveu.
A situação parece ter melhorado desde então. Pouco mais de um ano depois, em maio de 2026, a família trocou Arlington por um endereço ainda mais valorizado, em Southlake, uma das cidades mais ricas do Texas, onde a renda familiar média é de 250 mil dólares – três vezes maior do que em Arlington, por exemplo. Eduardo, a esposa e os dois filhos moram atualmente em uma casa que oferece “uma vida de resort”, conforme revelou o The Intercept Brasil.
Avaliada em 1,22 milhão de dólares, cerca de R$ 6 milhões, a mansão foi anunciada para aluguel por aproximadamente 5,9 mil dólares (em torno de R$ 30 mil mensais), segundo anúncios imobiliários que permaneceram ativos até fevereiro deste ano. O imóvel tem 424 metros quadrados de área construída, em um terreno de 1.366 metros quadrados, quatro quartos e piscina, além de acesso a um clube com quadras de tênis e a uma lagoa.
Fotos da casa de Eduardo Bolsonaro
A filha mais velha do casal Bolsonaro, de cinco anos, foi matriculada numa escola cristã a cerca de 15 minutos de casa, com custo anual de 18 mil dólares (R$ 93,4 mil), conforme divulgado no site da escola.
Eduardo nega ter usado parte da verba do filme Dark Horse para custear sua vida nos EUA. O filme foi financiado com cerca de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, por meio do Fundo Havengate. O negócio veio à tona após reportagem do Intercept Brasil. Conforme revelou o portal, Flávio Bolsonaro chegou a pedir o dobro desse valor ao banqueiro, hoje preso por gestão fraudulenta e estelionato, lavagem de dinheiro, corrupção de servidores públicos, organização criminosa e obstrução da Justiça.
“A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca”, afirmou Eduardo em suas redes sociais. “No meu processo migratório, expliquei às autoridades americanas toda a origem dos meus recursos e não tive qualquer problema”, disse.
Procurado pela reportagem, Eduardo não respondeu como financia seu padrão de vida nos Estados Unidos.
Em outras ocasiões, ele afirmou que se mantém com “renda passiva” e já disse também que recebe dinheiro por meio de cursos que ministra – os cerca de 50 mil dólares que ele disse ter investido no filme Dark Horse, por exemplo, teriam esta origem.
20 viagens em 18 meses Chama a atenção o volume de dinheiro que Eduardo Bolsonaro vem gastando com viagens dentro e fora dos EUA. Desde fevereiro do ano passado, o ex-deputado federal viajou ao menos 20 vezes, entre compromissos políticos e passeios turísticos.
Para comemorar o primeiro aniversário de Heloísa Bolsonaro após a mudança para os EUA, a família foi para a Disney em junho de 2025. Cinco meses depois, em dezembro, Eduardo Bolsonaro esteve na cidade de Park City, em Utah, destino nas montanhas conhecido internacionalmente por suas estações de esqui. A passagem ocorreu justamente no início da alta temporada de neve na região.
Já em fevereiro deste ano, Eduardo viajou para West Palm Beach, na Flórida, onde o custo diário de acomodação pode ser superior a R$ 1.000.
Durante a Copa do Mundo, ele foi a Miami assistir à partida entre Brasil e Escócia, que ocorreu no dia 24 de junho. Ficou hospedado em um hotel de luxo, que cobra diárias de R$ 16 mil e chega a oferecer pacotes de experiência avaliados em um milhão de dólares, conforme revelou a Revista Fórum.
Mas a maior parte dos deslocamentos do ex-deputado desde que se mudou para os EUA está ligada à sua atuação política. Ao lado de Paulo Figueiredo, Eduardo tem se mobilizado para pressionar o governo norte-americano a impor sanções ao Brasil e a ministros do STF. Juntos, os dois estiveram pelo menos sete vezes em Washington e fizeram outras três viagens a Mar-a-Lago, na Flórida. Paulo frequenta o resort desde 2019 e parece manter sua primeira impressão: “simplesmente lindo!”
Em meados de maio, Eduardo hospedou-se, junto com Paulo, no histórico hotel Willard Intercontinental Washington, quando se reuniram com Trump na Casa Branca. Eduardo e sua turma alugaram os quartos, que têm preço a partir de R$ 1,5 mil por noite, mas podem chegar a custar R$ 50 mil por diária. Eles chegaram a receber, no hotel, a visita de Darren Beattie, assessor sênior de política para o Brasil no Departamento de Estado.
Eduardo Bolsonaro no Willard Hotel, em maio de 2026. Foto: Ken Silverstein / Agência Pública
A agenda de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo também cruzou as fronteiras norte-americanas, com pelo menos três viagens ao Oriente Médio.
“Pra quem surfa, sabe que isso aqui é o que há de melhor no mundo.” Com uma prancha debaixo do braço, Eduardo Bolsonaro aparece diante da maior piscina de ondas artificiais do mundo, em Abu Dhabi. No vídeo, publicado em 8 de fevereiro, ele também demonstra suas habilidades ao longo de uma sequência de manobras. As imagens foram gravadas no Surf Abu Dhabi, na ilha de Hudayriyat, onde uma sessão de 45 minutos para surfistas de nível intermediário e avançado custa 1,8 mil dirhams dos Emirados Árabes Unidos (AED) US$ 953 — cerca de R$ 2,5 milhões.
Eduardo no Surf Abu Dhabi, na ilha de Hudayriyat
Na ocasião, Eduardo viajava pelo Oriente Médio ao lado do irmão, o senador e então pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, e de Paulo Figueiredo. O trio divulgou encontros com autoridades no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos como parte de sua agenda política na região. Mas, entre um compromisso e outro, as redes sociais também registraram momentos de lazer.Figueiredo, por exemplo, compartilhou avaliações de restaurantes em Dubai, como o CZN Burak Dubai, especializado em culinária turca, onde comeu um dos melhores kebabs da sua vida, além de um ensopado de camarão apimentado. “Divino”, “sobremesa perfeita” estão entre os elogios feitos à casa, cujo preço estimado por pessoa é de R$ 140 a R$ 210. Ele também visitou o Clay Dubai, na marina da cidade, onde se paga entre R$ 560 e R$ 630 por pessoa. “Este lugar não é apenas LINDO, mas tudo o que comemos estava delicioso”, escreveu . Em um restaurante de comida japonesa, reclamou de ter comido um sushi de abacate com salmão por 45 dólares. “ATENÇÃO! Este lugar é uma armadilha para turistas!”, escreveu .
Procurado pela reportagem, Paulo Figueiredo dirigiu ironias e agressões contra a Agência Pública antes de afirmar “Eu me financio através das minhas empresas e não devo satisfação a ninguém”.Em intervalo de 6 meses, Figueiredo comprou mansão de R$ 6,1 milhões e Cybertruck da TeslaOs registros levantados pela reportagem indicam que Paulo Figueiredo também elevou seu padrão de vida no último ano. Em novembro de 2025, conforme revelaram a Agência Pública e o ICL Notícias, o influenciador comprou por 1,2 milhão de dólares — cerca de R$ 6,1 milhões — uma mansão em Clermont, na Flórida. Para fechar o negócio, contratou um financiamento imobiliário de 1 milhão de dólares.
Fotos da casa de Paulo Figueiredo
A propriedade fica em um terreno de 17,5 mil metros quadrados, o equivalente a cerca de dois campos e meio de futebol, e tem 515 metros quadrados de área construída. São dois andares, seis quartos e cinco banheiros, além de salas de estar e de jantar, cozinha gourmet e sala de jogos. Do lado de fora, há piscina de água salgada, jacuzzi para 12 pessoas, varanda, lareira e até uma casa na árvore.
Seis meses depois, em maio de 2026, Figueiredo ampliou a garagem com um Cybertruck 2026, da Tesla, montadora de Elon Musk. O veículo tem valor de mercado estimado em 83 mil dólares, o que equivale a R$ 427,9 mil. O influenciador também possui, desde 2024, uma BMW Série 6 de 2004, hoje avaliada em cerca de 9 mil dólares (aproximadamente R$ 51 mil).
Tesla Cybertruck 2026
A compra da mansão ocorreu apenas um mês depois de Figueiredo informar à Justiça dos Estados Unidos que não tinha recursos para contratar um advogado para representar sua empresa, a International Treasure Group, condenada à revelia. A ação contra a companhia faz parte de um processo de falência que visa recuperar transferências supostamente vinculadas ao esquema de fraude atribuído ao magnata chinês Miles Guo.
A International Treasure Group entrou no processo após receber 140 mil dólares— cerca de R$ 670 mil — por serviços prestados à rede social Gettr entre agosto de 2021 e abril de 2022, segundo a defesa de Figueiredo. Fundada pelo ex-assessor de Donald Trump, Jason Miller, a plataforma tinha Guo como financiador oculto.
A mansão em Clermont não é o único imóvel de Figueiredo na Flórida. Ele também possui uma casa em Weston, colocada à venda em junho deste ano por 1,09 milhão de dólares — cerca de R$ 5,5 milhões —, segundo sites imobiliários americanos. Desde 2016, a propriedade estava registrada em nome da Olive-Fig Tree Real Properties LLC, empresa que também pertence ao influenciador.
Em outubro de 2025, porém, o imóvel de Weston foi transferido para o nome de Figueiredo, segundo documentos do estado da Flórida. No mês seguinte, ele adquiriu a mansão de Clermont.
As movimentações contrastam com declarações feitas pelo próprio Figueiredo sobre sua situação financeira. Em 2024, quando já articulava, nos Estados Unidos, possíveis retaliações contra autoridades brasileiras, ele fez deu seu testemunho em uma audiência no Congresso norte-americano afirmando ser vítima de perseguição do STF e que estava “desempregado, sem minhas redes sociais e suas respectivas monetizações, responsável por sustentar minhas duas filhas americanas de 7 e 8 anos”.
Paulo é cidadão americano, assim como suas filhas, e usa este fato para alardear que tem sido censurado pelo STF – o que embasou diversas ações de aliados no governo e no legislativo norte-americano, como a lei “No Censors in Our shores”, proposto pela deputada republicana Maria Elvira Salazar um mês depois dela ter recebido uma doação de campanha de Paulo no maior valor possível na época (R$ 57 mil), conforme revelou a Pública.
Na Flórida, Paulo frequenta restaurantes renomados e costuma ser bastante crítico quanto à gastronomia. Frequenta estabelecimentos com estrelas Michelin, mas nem sempre sai satisfeito. Por exemplo, em abril, ele foi ao restaurante de culinária asiática fusion Nami, no hotel Lake Nona Wave, em Orlando, onde também se paga, por pessoa, cerca de 500 reais por refeição. “Fiquei muito decepcionado, ainda mais por se tratar de um restaurante com estrela Michelin. As porções são ridiculamente pequenas, não condizendo com o preço cobrado. Pra ser sincero, este é o primeiro lugar com estrela Michelin onde definitivamente não pretendo voltar”.
Em outros restaurantes, ele reclama dos valores pagos por porções pequenas, o que ele diz ser regra em Miami, “restaurantes muito caros com comida mediana”.
Não que ele não tope pagar caro. Há cerca de um ano ele foi com a esposa ao Restaurante MAASS, em Fort Lauderdale, onde pagou “quase 400 dólares” – R$ 2 mil reais – em um menu degustação para duas pessoas. “Mesmo experimentando o menu degustação, nada do que comi foi memorável e me fez querer voltar”, escreveu.
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O que Donald Trump pretendia transformar em instrumento de pressão contra o Brasil começa a produzir um efeito bastante diferente no comércio internacional: o país está ocupando espaços que os Estados Unidos vêm perdendo no agronegócio e já se aproxima de superar os norte-americanos em valor de exportações do setor.
Os números ajudam a dimensionar a mudança. Em 2025, os Estados Unidos exportaram cerca de US$ 171 bilhões em produtos agropecuários, apenas 14% acima do resultado de cinco anos antes. No mesmo período, o Brasil saltou 68%, chegando a US$ 169 bilhões. A distância, que no início do século era enorme a favor dos americanos, praticamente desapareceu.
A explicação não está apenas na extraordinária capacidade produtiva brasileira. A política comercial de Trump também abriu portas para os concorrentes. Ao transformar a China e outros parceiros tradicionais em adversários comerciais, Washington perdeu mercados estratégicos justamente para países capazes de oferecer produtos competitivos — e o Brasil estava pronto para ocupar esses espaços.
Na Ásia, o movimento é particularmente revelador. Entre 2022 e 2025, as exportações agropecuárias dos EUA para a região caíram 25%, enquanto as brasileiras cresceram 9%. No mercado chinês, a retração americana foi ainda mais expressiva: as vendas dos EUA diminuíram 49% em cinco anos, enquanto as brasileiras avançaram 8%.
É a velha ironia da geopolítica: ao tentar usar tarifas para proteger o produtor americano, Trump acabou estimulando compradores internacionais a procurar fornecedores alternativos. E o Brasil apareceu como uma alternativa natural.
A soja é um dos exemplos mais emblemáticos. Os Estados Unidos continuam fortes no milho, mas perderam espaço justamente em uma das commodities que historicamente sustentaram sua balança agrícola. Nas carnes, o avanço brasileiro também é significativo. O Brasil ampliou sua presença internacional enquanto os americanos enfrentam um rebanho bovino no menor nível em décadas e passaram, paradoxalmente, a depender mais de carne importada.
O desempenho brasileiro não é apenas uma reação circunstancial ao tarifaço. As exportações do agronegócio atingiram US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde para o período, impulsionadas principalmente por carnes, soja e algodão. A China sozinha respondeu por US$ 30,5 bilhões, 35,1% do total, com crescimento de 10,5% sobre o mesmo período anterior.
E há outro dado que desmonta a ideia de que o Brasil estaria excessivamente dependente dos Estados Unidos: no primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras de produtos do agronegócio para os EUA caíram 25,1%, mas a China, a União Europeia e outros mercados absorveram boa parte da expansão brasileira.
Isso significa que a diversificação virou uma espécie de seguro contra o protecionismo de Trump. Quanto mais Washington fecha portas, mais Brasília procura — e encontra — compradores em outras partes do planeta.
O resultado é uma transformação importante no equilíbrio do agronegócio mundial. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência agrícola incontestável, mas já não podem contar com a mesma vantagem de décadas atrás. O Brasil dispõe de território, produtividade, capacidade de expansão, diversidade de produtos e uma posição privilegiada no comércio com a Ásia.
Trump queria utilizar o tamanho do mercado americano como arma. O problema é que o mundo mudou — e o Brasil também.
Hoje, quando Washington ergue barreiras, Pequim abre espaço. Quando os americanos perdem competitividade, os brasileiros avançam. Quando Trump transforma parceiros em adversários, produtores brasileiros encontram novos clientes.
O mais revelador, portanto, é que a política de confronto dos Estados Unidos pode estar acelerando exatamente aquilo que pretendia evitar: a consolidação do Brasil como um dos grandes fornecedores estratégicos de alimentos do planeta e como concorrente cada vez mais direto da agricultura americana.
A disputa pelo agronegócio mundial, ao que tudo indica, está mudando de mãos — e o Brasil chega a essa disputa muito mais forte do que estava no início do século.
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O Brasil deu um passo concreto para responder ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump. Nesta quinta-feira (13), o governo federal iniciou formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao país adotar contramedidas diante de barreiras comerciais consideradas injustificadas. O Itamaraty também notificou os Estados Unidos e solicitou consultas diplomáticas.
A iniciativa não significa que o Brasil vá impor imediatamente novas tarifas aos produtos americanos. É, antes, o início de uma análise que deverá ouvir os setores atingidos e avaliar quais medidas seriam proporcionais aos prejuízos provocados pelas decisões de Washington. Entre as possibilidades estão restrições a importações e outras contramedidas comerciais previstas pela legislação.
A reação brasileira ocorre diante de tarifas americanas que podem chegar a 37,5% sobre determinados produtos. O impacto já começa a aparecer no comércio bilateral: entre janeiro e julho de 2026, as exportações brasileiras para os EUA recuaram 12,2%, segundo levantamento da Amcham Brasil. Nos produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas, a queda chegou a 31,5%.
O governo Lula, porém, procura evitar uma escalada irresponsável. A estratégia combina pressão diplomática, defesa do comércio multilateral e preparação de uma resposta caso os Estados Unidos mantenham as tarifas. A mensagem é clara: o Brasil não pretende aceitar unilateralmente uma política comercial que prejudique sua economia, seus empregos e suas empresas.
A Lei da Reciprocidade funciona, nesse cenário, como instrumento de soberania econômica. O Brasil sinaliza que está disposto a negociar, mas também demonstra que negociação não significa submissão. Se Washington escolhe impor barreiras de forma unilateral, Brasília passa a ter mecanismos legais para responder.
Mais do que uma disputa tarifária, está em jogo o princípio de que relações entre países soberanos não podem ser conduzidas pela lógica do ultimato. O Brasil abre a porta para o diálogo, mas deixa claro que também está preparado para defender seus interesses.
E essa talvez seja a principal mensagem do movimento: o Brasil prefere a negociação, mas não aceitará que a negociação seja confundida com rendição.
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Um ano e meio depois de assumir o governo norte-americano e colocar a América Latina como uma de suas prioridades de sua atuação internacional, a presidência de Donald Trump inicia uma ofensiva para militarizar a região e implementar o controle sobre o Hemisfério, tese conhecida em Washington como Doutrina Donroe.
Nesta semana, no Panamá, o governo norte-americano enviou parte de sua cúpula militar para reuniões com os 18 países que fazem parte do Escudo das Américas, iniciativa criada no começo do ano para estabelecer uma aliança na região, supostamente no combate ao “terrorismo, narcotráfico e cartéis”.
Pete Hegseth, secretário de Guerra, anunciou que os EUA iniciariam ataques por terras contra cartéis na América Latina. No Equador, as operações já são uma realidade e, agora, a Colômbia autorizou o mesmo padrão de ação.
Mas com a presença de forças e ministros da Argentina, El Salvador, Paraguai e outros aliados, o encontro serviu ainda para desenhar a construção de uma nova realidade regional, sem a presença do Brasil.
Foi longe dos holofotes que a operação, de fato, ganhou contornos que passou a preocupar diplomatas brasileiros e estrangeiros. Um dos elementos centrais da estratégia é a criação de uma central de inteligência que, sob o comando dos EUA, poderia atuar em toda a região.
Condor 2.0? Os países ainda seriam submetidos a entregar inteligência de pessoas e organizações, numa espécie de ofensiva regional contra qualquer ator que possa ser considerado como uma “ameaça” aos interesses dos EUA.
Hoje, o discurso é de que a ameaça vem dos cartéis. Mas há quem tema que a estrutura montada permitirá que os EUA se dêem todos os meios para frear qualquer tipo de ator que possa representar algum desafio para seus interesses.
O acesso aos recursos naturais, por exemplo, seria um desses cenários futuros, principalmente com a concorrência da China.
Não por acaso, membros de forças de oposição em países latino-americanos que optaram por entrar no projeto falam da repetição da lógica do Plano Condor, criado nos anos 70 para coordenar ações contra atores subversivos na região. A diferença é que, naquele momento, a operação era sigilosa.
Plano começa a ser implementado Nesta semana, o general do Corpo de Fuzileiros Navais Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos EUA, afirmou que os membros da coalizão definiram os próximos passos da iniciativa, incluindo o “aprimoramento dos planos de campanha prioritários contra as redes criminosas, a designação de funções e nações líderes, o estabelecimento de grupos de trabalho com objetivos e marcos específicos e o início das avaliações da campanha da coalizão”.
“Entre agora e novembro, vamos elaborar um plano de campanha”, disse ele. “Vamos analisá-lo com nossos colegas e membros aqui presentes e aprová-lo até novembro”, explicou.
O general também afirmou que os governos da coalizão se apresentaram como candidatos para liderar as operações em diferentes setores. “Ontem, ao final da nossa sessão, saímos e fizemos um levantamento inicial… quem quer liderar em diferentes regiões? Quem quer liderar, para… combater essas redes?”, disse Donovan. “Tivemos voluntários imediatamente, nações que queriam se apresentar e assumir a liderança em sub-regiões e combater certas ameaças”, disse.
A referência à suposta liderança de outros países, porém, não passa de uma manobra para vender a ideia à opinião pública dos países envolvidos de que eles seriam supostamente “parceiros”.
A realidade é que, dias antes do anúncio da construção concreta da aliança, o Comando Sul dos EUA ativou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM). A estrutura, segundo nota do Pentágono, foi “criada especificamente para sincronizar as operações militares dos EUA com aliados e parceiros, a fim de combater ameaças, fortalecer a segurança regional e responder rapidamente a crises em todo o Hemisfério Ocidental”.
“O Comandante do SOUTHCOM, General Francis L. Donovan, ordenou a ativação da JTF-WHEM, que fornece comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, integrando capacidades militares com as 18 nações parceiras da Coalizão Anticartel das Américas (A3C) para aumentar a eficácia operacional contra ameaças que prejudicam a segurança regional e impactam os Estados Unidos e as nações parceiras”, explicou.
De acordo com a nota, o órgão também fortalece a capacidade do SOUTHCOM de responder rapidamente a “contingências e crises humanitárias em toda a região”.
“A JTF-WHEM fortalece nossa capacidade de trabalhar ao lado de aliados e parceiros confiáveis, sincronizar capacidades militares e aplicar pressão sustentada contra as redes que ameaçam nossa segurança coletiva”, disse Donovan. “Juntos, estamos aumentando a segurança em todo o hemisfério e protegendo nossa pátria.”
Donovan selecionou o major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Kevin Jarrard, para comandar a nova força-tarefa. Jarrard foi quem liderou recentemente o apoio militar dos EUA às operações de socorro após os terremotos de junho de 2026 na Venezuela.
Troca de inteligência O que chamou a atenção de diplomatas estrangeiros e brasileiros é que a nova força-tarefa afirma que integra inteligência, vigilância e reconhecimento, planejamento operacional e coordenação multinacional para “aumentar a pressão sobre organizações nefastas que operam em todo o Hemisfério Ocidental”.
Um dos pontos centrais é o o fato de que “força-tarefa fortalecerá o compartilhamento de informações, expandirá o treinamento combinado, aprimorará a interoperabilidade, apoiará os esforços de interdição marítima, desenvolverá a capacidade dos parceiros e permanecerá preparada para fornecer assistência humanitária e resposta a desastres quando solicitada”.
“A Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental é o braço de ação do SOUTHCOM para enfrentar ameaças em todo o hemisfério”, disse Donovan. “Construído especificamente para esse fim e organizado para tarefas específicas, este quartel-general reúne capacidades militares personalizadas e parcerias de confiança para aumentar a fricção sistêmica total, o ritmo operacional, impor pressão sustentada sobre organizações criminosas e fortalecer a segurança dos Estados Unidos e de nossos parceiros. Juntamente com as 18 nações, estamos mudando a forma como enfrentamos essas ameaças”, completou.
“Fazemos coisas ruins com pessoas ruins” Coube ao secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, dar o tom polêmico e político da operação. Segundo ele, o governo Trump iniciará imediatamente a tomar “medidas concretas” para lutar supostamente contra os cartéis da região.
“Quando dizemos que vamos desmantelar os cartéis, estamos falando sério, e sei que as nações desta coalizão sentem exatamente o mesmo… e tomarão medidas concretas — às vezes arriscadas, corajosas — em parceria.”
“Acreditamos que não há tempo a perder e não há momento melhor do que agora”, disse ele.
“O novo lema da Coalizão é: ‘Fazemos coisas ruins com pessoas ruins’”, disse ele. “Essa é a mentalidade que quero ver nesta sala. Estamos lidando com pessoas ruins que fizeram muitas coisas ruins com muitas pessoas boas, por muito tempo. E elas estão prestes a conhecer um novo xerife na cidade, e não estamos brincando. Narcoterroristas., traficantes de drogas, estejam avisados”, completou.
*Jamil Chade/ICL
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Vídeo de cinco minutos difundido nas redes sociais pelo Departamento de Estado distorce fatos históricos e manda recado a toda a região
O Departamento de Estado norte-americano publicou nesta terça-feira um video nas redes sociais no qual deturpa o sentido da Doutrina Monroe. Mas, acima de tudo, alerta que “o domínio” de Washington sobre o continente latino-americano “nunca mais será questionado”.
Desde o ano passado, o presidente Donald Trump passou a designar a região como sua prioridade, numa estratégia marcada para reduzir o papel da China no continente latino-americano.
Para explicar a ofensiva militar, política e econômica sobre a região, o governo Trump agora produziu um video no qual relembra os episódios da história americana na região e justifica guerras, invasões e derrubadas de governos como parte de uma estratégia para impedir que o continente fosse alvo da cobiça de europeus.
Além da monarquia no México, de uma suposta tentativa de anexação da República Dominicana e outros momentos chaves, o video aponta que uma guinada ocorre quando, no final do século 19, os EUA se apresentam como potência soberana na região. “Não era só um alerta. Era uma primazia dos EUA”, disse.
No vídeo, o relato mostra como, em 1899, os EUA expulsam a Espanha de Cuba e confiscam Porto Rico.
Neste momento, o narrador fala com orgulho que, naquele momento, os EUA “desembarcaram no cenário internacional como potência imperial com domínio sobre o Caribe”.
Quatro anos depois, isso seria testado depois na Venezuela. Caberia a Roosevelt, diz a história apresentada pela Casa Branca, estabelecer que, quando um país latino-americano estivesse em “caos”, os EUA “entrariam para administrá-lo”.
Era, agora, um “mandato”.
O vídeo ainda cita a da construção do Canal do Panamá, a crise dos mísseis em Cuba e a invasão norte-americana na Nicaragua.
Mas é o alerta para o atual momento que chamou a atenção. Ao explicar o sequestro de Nicolás Maduro, o Departamento de Estado afirma que se tratou de “um manobra calculada” para “dar um sinal no hemisfério”: o “domínio nunca mais ver ser questionado”.
Não por acaso, o video é narrado por Kevin Cabrera, embaixador dos EUA no Panamá. “O que começou como alerta aos europeus se transformou em quadro para domínio regional”, completou.
Em pouco mais de cinco minutos, o Departamento de Estado avisa: o continente é nosso.
*Jamil Chade/ICL
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