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Brasileiros vão às urnas sob a maior ingerência estrangeira desde 1964

Não existem porta-aviões nas costas do Brasil. Mas, pela primeira vez desde 1964, milhões de brasileiros irão às urnas neste domingo sob a maior ofensiva estrangeira desde o golpe de estado que instaurou o regime militar.

Estratégico para os interesses americanos de redesenhar o mapa do Hemisfério Ocidental e sua própria posição de hegemonia global no século 21, o Brasil passou a ser considerado como crítico para qualquer plano dos EUA de enterrar a autonomia latina-americana.

Conter o avanço chinês e garantir o acesso à segunda maior reserva de terras raras do mundo estão entre os principais argumentos do interesse americano pelo país.

Asfixiar uma política externa independente por parte do Brasil, portanto, passou a ser uma prioridade no Departamento de Estado. Para o governo norte-americano, seu perímetro de segurança não termina em suas fronteiras. A influência sobre todo o continente é considerada como parte central da estratégia de defesa nacional.

Não por acaso, a operação para tentar moldar o destino da eleição brasileira começou mais de um ano antes do momento do voto, em estreita colaboração com a extrema direita brasileira. Os escolhidos para agir como “força local” – os membros do clã Bolsonaro – foram instrumentalizados como forma de garantir que, uma vez no poder, sucumbam aos interesses norte-americanos e retribuam os serviços prestados pela CIA, pelo Departamento de Estado, Tesouro e pela Casa Branca.

Se o projeto vinha sendo germinado desde janeiro de 2025, foi em 9 de julho daquele ano que ele seria colocado em marcha. Trump enviou uma carta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na qual anunciava tarifas de 50% contra os produtos brasileiros, uma das mais elevadas do mundo. Como argumento, alega que seriam impostos cobrados como resposta aos ataques que Jair Bolsonaro estaria sofrendo por parte da Justiça do país.

No final daquele mês, o ministro Alexandre de Moraes seria alvo de sanções na Lei Magnitsky, uma vez mais numa tentativa de criar um constrangimento nas instituições brasileiras que julgavam a tentativa de golpe de estado por parte de Bolsonaro.

Um mês depois, autoridades brasileiras teriam seus vistos revogados, supostamente por terem feito parte da estruturação do programa Mais Médicos, com a presença de profissionais cubanos. Entre os atingidos estava Alexandre Padilha, ministro da Saúde.

Em setembro foi a vez da imposição de sanções contra a mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e a empresa LEX – Instituto de Estudos Jurídicos, que pertence à família do magistrado.

A barganha sobre a mesa
A barganha começava a ser desenhada. Em outubro daquele ano, o governo Trump entregaria uma proposta de acordo comercial com o Brasil. Para rever as tarifas de 50% contra os produtos nacionais, exigiam que “dissidentes políticos” fossem libertados da prisão, uma forma de exigir o fim da condenação contra Bolsonaro.

A esperança era de que, pressionados pela elite econômica do Brasil, Lula, seu governo e as cortes cedessem. Isso não ocorreu.

Em 2026, a pressão continuou. Nas primeiras semanas do ano, uma nova proposta foi apresentada pelo governo Trump ao Brasil. Desta vez, a questão do ex-presidente não estava colocada. Mas os americanos exigiam, entre tantos pontos, que o Brasil garantisse que não venderia terras raras para a China.

Enquanto isso, a operação nos bastidores continuava. Em março, Darren Beattie, assessor de Trump, tentou visitar Jair Bolsonaro na prisão. Mas teve seu visto rejeitado pelas autoridades brasileiras, depois que ele omitiu que esse seria um dos objetivos de sua viagem ao país.

Maio foi um momento decisivo. Com o escândalo do Banco Master desembarcando na campanha de Flávio Bolsonaro, a Casa Branca abriu espaço para que Trump recebesse o senador. O ato foi interpretado como uma operação para salvar sua candidatura. Em troca, Flávio ofereceu acesso às terras raras brasileiras e a adesão do país no Escudo das Américas.

Dias depois, ainda naquele mesmo mês, o governo Trump anunciaria a classificação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, e colocando o tema da segurança pública no centro do debate eleitoral. Mais uma vez, o objetivo era encurralar o governo Lula e abrir espaço para que Flávio Bolsonaro pudesse se apresentar como o interlocutor predileto para supostamente “lutar contra o crime organizado”.

O Palácio do Planalto chegou a apresentar um projeto de cooperação aos EUA para lutar contra as entidades do narcotráfico. Mas a Casa Branca jamais respondeu. O objetivo, apontam negociadores, não era combater o crime.

A operação ainda envolvia uma tentativa de desestabilizar a confiança nas urnas e no processo eleitoral. Em julho, dois funcionários do Departamento de Estado americano, Riley Bernes e Samuel Samson, tentaram viajar ao Brasil para averiguar o sistema eleitoral brasileiro. Ambos tiveram seus vistos rejeitados.

Um mês depois, o consulado dos EUA em São Paulo convocou influenciadores para uma reunião supostamente sobre liberdade de expressão, em mais um gesto considerado como uma operação para promover uma ingerência num momento político complicado no país.

O passo seguinte foi a adoção de tarifas contra produtos brasileiros, em parte alegando que o sistema de pagamentos digitais do Brasil seria injusto para a concorrência estrangeira. Uma vez mais, o foco era colocar um preço elevado sobre o governo por sua audácia de manter uma autonomia em relação aos interesses dos EUA.

O processo de ingerência foi permeado por críticas de assessores de Trump e autoridades como Marco Rubio contra Lula e contra o Brasil.

Em setembro, faltando poucas horas para encerrar o prazo para aprovação de orçamentos no Senado americano, o governo Trump ainda aprovaria o envio de US$ 1 milhão a grupos no Brasil que se oponham ao Supremo Tribunal Federal. O pacote tinha como finalidade financiar uma ofensiva contra o Poder Judiciário.

O governo Lula, porém, sempre temeu que uma operação poderia ocorrer nos últimos dias da campanha, causando turbulência para o processo eleitoral. O que era apenas uma análise de risco deu demonstrações de poder ser uma realidade.

Nesta sexta-feira, dois dias antes do primeiro turno, o governo dos EUA anunciou o fechamento de seus postos diplomáticos no Brasil supostamente por conta de uma ameaça de bomba.

A Polícia Federal esclareceu que não encontrou qualquer indício de um possível crime sendo preparado e que a ameaça era apenas uma mensagem numa conta de uma rede social.

Mas, enquanto as investigações eram realizadas, o submundo da internet já propagava a desinformação de que o PCC estaria disposto a atacar a embaixada dos EUA diante do risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro.

A disseminação de um clima de tensão era tudo o que a Casa Branca pedia.

*Jamil Chade/ICL


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Eleições: EUA fecham embaixada no Brasil, citam “ameaças”

EUA suspendem atendimento presencial em todas as representações diplomáticas no país a dois dias do primeiro turno; Departamento de Estado fala em “questões de segurança”

A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, os Estados Unidos suspenderam nesta sexta-feira (2) o atendimento presencial na Embaixada em Brasília e nos consulados instalados no país por “questões de segurança”. Washington não explicou o que motivou a medida, mas, ao se pronunciar sobre o caso, o Departamento de Estado citou alertas sobre “ameaças” e afirmou estar trabalhando em conjunto com autoridades brasileiras.

A medida atinge todas as instalações diplomáticas estadunidenses no Brasil. Cidadãos dos EUA que precisem de assistência emergencial foram orientados a não comparecer aos prédios e a procurar o oficial de plantão por telefone ou e-mail.

Até o momento, no entanto, não há qualquer informação oficial que relacione a medida adotada pelos Estados Unidos ao processo eleitoral brasileiro.

Embaixada teria sido alvo de ameaça
Segundo apuração do site Metrópoles, funcionários da Embaixada dos Estados Unidos foram dispensados do trabalho presencial depois que a representação diplomática teria sido alvo de uma ameaça.

O tipo de ameaça não foi divulgado. Os funcionários receberam na quinta-feira (1º) um comunicado por e-mail determinando que trabalhassem de casa nesta sexta.

A decisão, no entanto, acabou tendo alcance maior: o atendimento presencial também foi suspenso nos consulados estadunidenses no Brasil, afetando todas as instalações diplomáticas do país.

Washington não informou a origem da ameaça, sua natureza ou o grau de risco identificado.

EUA citam “ameaças” e dizem atuar com autoridades brasileiras
Questionado sobre o episódio, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou à imprensa que “a administração Trump tem máxima prioridade à segurança e à proteção dos cidadãos americanos”.

Na resposta, o governo estadunidense mencionou expressamente “ameaças”.

“As Embaixadas e Consulados dos Estados Unidos no exterior utilizam regularmente o sistema de mensagens STEP, incluindo alertas, para informar os cidadãos americanos sobre ameaças, eventos e mudanças relevantes no contexto local”, afirmou o Departamento de Estado.

O STEP (Smart Traveler Enrollment Program) é o sistema utilizado pelo governo dos EUA para fornecer informações consulares e alertas de segurança a cidadãos estadunidenses que estejam no exterior, segundo a Forum.

O Departamento de Estado acrescentou ainda que mantém contato com o governo brasileiro.

“Estamos trabalhando em estreita cooperação com nossas contrapartes brasileiras para tratar de questões de segurança”, declarou.

Washington, entretanto, não informou quais seriam essas “questões de segurança”, que autoridades brasileiras estão envolvidas nas tratativas ou se existe uma ameaça específica contra outras representações diplomáticas além da Embaixada em Brasília.

Suspeita de bomba mobilizou segurança no STF
A suspensão ocorre ainda em meio a outro episódio de segurança registrado em Brasília.

Na quinta-feira, um homem tentou pular as grades em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) e lançou uma mochila sobre uma parada de ônibus próxima à Corte. Diante da suspeita de que pudesse haver um explosivo, a Polícia Judicial do Supremo acionou a Polícia Militar do Distrito Federal.

Parte da Esplanada dos Ministérios chegou a ser interditada. Após a deflagração da Operação Petardo, porém, a PMDF descartou a existência de uma bomba: dentro da mochila havia apenas roupas. O homem detido aparentava estar em surto e apresentava falas desconexas.

Não há, até agora, confirmação de qualquer ligação entre o episódio ocorrido nas proximidades do STF e a ameaça relatada contra a Embaixada dos Estados Unidos.

Da mesma forma, não há indicação oficial de que a suspensão do atendimento diplomático esteja relacionada às eleições deste domingo.


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Brasil tem o 5º maior crescimento do PIB no mundo, mas parte da velha mídia prefere transformar boa notícia em problema

Há algo no mínimo curioso na cobertura econômica brasileira, quando os indicadores vêm ruins, o tom é de alarme; quando vêm melhores do que o esperado, aparecem imediatamente as ressalvas, os asteriscos e as previsões sombrias. O dado positivo precisa quase pedir desculpas por existir.

Nesta terça-feira, o IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, na comparação com os três primeiros meses do ano. O resultado ficou acima da expectativa do mercado, que projetava avanço de 0,4%. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, a economia cresceu 2%, acumulando expansão de 1,9% em quatro trimestres.

E há um dado particularmente expressivo, considerando 50 países que já divulgaram seus números, o Brasil registrou o quinto maior crescimento do PIB no trimestre. Ficou atrás somente de Irlanda, Indonésia, Angola e Malásia e à frente de economias como Estados Unidos e China.

Isso não significa, evidentemente, que todos os problemas econômicos brasileiros tenham desaparecido. O próprio resultado mostra uma desaceleração em relação ao primeiro trimestre, quando o PIB havia avançado 1,1%. O consumo das famílias recuou 0,4%, enquanto os juros elevados continuam sendo apontados como fator de pressão sobre crédito, consumo e investimento.

Mas uma coisa é fazer jornalismo econômico sério, mostrando simultaneamente avanços, limitações e riscos. Outra, bem diferente, é apresentar sistematicamente um resultado objetivamente positivo como se fosse mais uma evidência de fracasso.

É justamente aí que a cobertura de parte da velha mídia merece ser observada com atenção. O problema não está em apontar a desaceleração — ela existe e precisa ser discutida. O problema surge quando a desaceleração passa a ocupar todo o enquadramento da notícia e o dado central, de que o Brasil teve o quinto maior crescimento trimestral entre 50 economias, vira quase uma nota de rodapé.

O jornalismo econômico não deveria funcionar como torcida organizada. Se o PIB cresce, registra-se o crescimento. Se desacelera, registra-se a desaceleração. Se supera as expectativas, isso também é notícia. E se existem problemas estruturais, eles precisam ser apresentados com a mesma honestidade.

O fato concreto, portanto, permanece, o PIB brasileiro cresceu, superou a expectativa do mercado e colocou o país entre os cinco melhores desempenhos trimestrais do mundo no levantamento citado.

Transformar esse dado em propaganda seria tão equivocado quanto transformá-lo em fracasso. O que se espera da imprensa é simplesmente que os fatos sejam tratados como fatos — sem que a preferência política de quem noticia determine quais números merecem destaque e quais devem ser escondidos atrás de uma avalanche de pessimismo.

A economia brasileira tem problemas, como qualquer economia. Mas reconhecer problemas não exige negar resultados positivos. E um crescimento que coloca o Brasil em quinto lugar entre 50 países não deveria ser tratado como se fosse uma tragédia econômica.


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Política

Brasil aproveita erros de Trump e da família Bolsonaro e encosta nos EUA no agronegócio

O que Donald Trump pretendia transformar em instrumento de pressão contra o Brasil começa a produzir um efeito bastante diferente no comércio internacional: o país está ocupando espaços que os Estados Unidos vêm perdendo no agronegócio e já se aproxima de superar os norte-americanos em valor de exportações do setor.

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Em 2025, os Estados Unidos exportaram cerca de US$ 171 bilhões em produtos agropecuários, apenas 14% acima do resultado de cinco anos antes. No mesmo período, o Brasil saltou 68%, chegando a US$ 169 bilhões. A distância, que no início do século era enorme a favor dos americanos, praticamente desapareceu.

A explicação não está apenas na extraordinária capacidade produtiva brasileira. A política comercial de Trump também abriu portas para os concorrentes. Ao transformar a China e outros parceiros tradicionais em adversários comerciais, Washington perdeu mercados estratégicos justamente para países capazes de oferecer produtos competitivos — e o Brasil estava pronto para ocupar esses espaços.

Na Ásia, o movimento é particularmente revelador. Entre 2022 e 2025, as exportações agropecuárias dos EUA para a região caíram 25%, enquanto as brasileiras cresceram 9%. No mercado chinês, a retração americana foi ainda mais expressiva: as vendas dos EUA diminuíram 49% em cinco anos, enquanto as brasileiras avançaram 8%.

É a velha ironia da geopolítica: ao tentar usar tarifas para proteger o produtor americano, Trump acabou estimulando compradores internacionais a procurar fornecedores alternativos. E o Brasil apareceu como uma alternativa natural.

A soja é um dos exemplos mais emblemáticos. Os Estados Unidos continuam fortes no milho, mas perderam espaço justamente em uma das commodities que historicamente sustentaram sua balança agrícola. Nas carnes, o avanço brasileiro também é significativo. O Brasil ampliou sua presença internacional enquanto os americanos enfrentam um rebanho bovino no menor nível em décadas e passaram, paradoxalmente, a depender mais de carne importada.

O desempenho brasileiro não é apenas uma reação circunstancial ao tarifaço. As exportações do agronegócio atingiram US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde para o período, impulsionadas principalmente por carnes, soja e algodão. A China sozinha respondeu por US$ 30,5 bilhões, 35,1% do total, com crescimento de 10,5% sobre o mesmo período anterior.

E há outro dado que desmonta a ideia de que o Brasil estaria excessivamente dependente dos Estados Unidos: no primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras de produtos do agronegócio para os EUA caíram 25,1%, mas a China, a União Europeia e outros mercados absorveram boa parte da expansão brasileira.

Isso significa que a diversificação virou uma espécie de seguro contra o protecionismo de Trump. Quanto mais Washington fecha portas, mais Brasília procura — e encontra — compradores em outras partes do planeta.

O resultado é uma transformação importante no equilíbrio do agronegócio mundial. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência agrícola incontestável, mas já não podem contar com a mesma vantagem de décadas atrás. O Brasil dispõe de território, produtividade, capacidade de expansão, diversidade de produtos e uma posição privilegiada no comércio com a Ásia.

Trump queria utilizar o tamanho do mercado americano como arma. O problema é que o mundo mudou — e o Brasil também.

Hoje, quando Washington ergue barreiras, Pequim abre espaço. Quando os americanos perdem competitividade, os brasileiros avançam. Quando Trump transforma parceiros em adversários, produtores brasileiros encontram novos clientes.

O mais revelador, portanto, é que a política de confronto dos Estados Unidos pode estar acelerando exatamente aquilo que pretendia evitar: a consolidação do Brasil como um dos grandes fornecedores estratégicos de alimentos do planeta e como concorrente cada vez mais direto da agricultura americana.

A disputa pelo agronegócio mundial, ao que tudo indica, está mudando de mãos — e o Brasil chega a essa disputa muito mais forte do que estava no início do século.


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Pressão de Lula funcionou: EUA procuram Brasil para reabrir negociação comercial

Após telefonema, EUA procuram Brasil para retomar negociações comerciais

O telefonema entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump começa a produzir um resultado concreto — e bastante significativo — na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. Depois de uma conversa de cerca de 1 hora e 20 minutos, em tom considerado cordial, o governo norte-americano procurou oficialmente Brasília para reabrir as negociações sobre as tarifas impostas aos produtos brasileiros.

O movimento é importante porque desmonta a ideia de que o Brasil estaria isolado ou sem capacidade de reação diante do chamado tarifaço. Ao contrário: depois de Lula defender diretamente a retomada do diálogo e afirmar a Trump que as justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para impor as tarifas eram infundadas, Washington sinalizou disposição para voltar à mesa de negociação.

A iniciativa americana veio rapidamente. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e abriu caminho para uma reunião com autoridades brasileiras. A expectativa é que representantes do MDIC, do Itamaraty e do Escritório do Representante Comercial dos EUA retomem as conversas na próxima semana.

É um resultado diplomático que merece ser observado com atenção. Lula não precisou aceitar as justificativas apresentadas por Washington, tampouco abrir mão dos interesses brasileiros. A estratégia foi outra: contestar as medidas, mostrar que elas prejudicam os dois lados e insistir na negociação como instrumento para resolver o conflito.

E há uma questão central: negociar não significa capitular. O Brasil mantém seus mecanismos de defesa comercial e continua contestando as tarifas, enquanto tenta construir uma solução que preserve empregos, empresas e exportações brasileiras. O governo já havia iniciado procedimentos para eventual aplicação da Lei da Reciprocidade, mas mantém aberta a porta para uma solução negociada.

A reabertura do diálogo também evidencia a importância de uma política externa baseada em soberania e pragmatismo. O Brasil pode divergir de Washington sem transformar divergência em rompimento. Pode defender seus interesses sem submissão e, ao mesmo tempo, preservar uma relação comercial estratégica.

Mais do que uma simples reunião entre ministros, portanto, a movimentação representa uma mudança de temperatura na relação entre os dois países. Depois de semanas de tensão, ameaças tarifárias e confrontos diplomáticos, os Estados Unidos voltam a procurar o Brasil para conversar.

E esse talvez seja o dado político mais relevante: quando a diplomacia brasileira insiste no diálogo sem abrir mão de seus interesses, a negociação volta a ser possível. Agora, cabe ao Brasil entrar nessa nova rodada com firmeza, exigir reciprocidade e deixar claro que qualquer acordo precisa proteger a economia brasileira — e não servir como instrumento de pressão política.

O telefonema de Lula não resolveu o conflito, mas abriu uma porta. E, poucas horas depois, foi Washington.


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Lula enfrenta Trump e cobra negociação para pôr fim ao tarifaço contra o Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu tratar diretamente com Donald Trump uma das maiores tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Em telefonema de 1 hora e 20 minutos, realizado nesta sexta-feira (21), Lula foi direto ao ponto: afirmou que as justificativas utilizadas pelo governo norte-americano para impor as tarifas contra produtos brasileiros são “infundadas” e defendeu a retomada imediata das negociações.

A conversa, segundo o governo brasileiro, ocorreu em tom amistoso e cordial, mas isso não significou que Lula tenha aberto mão da defesa dos interesses do Brasil. Ao contrário. O presidente deixou claro que o tarifaço prejudica não apenas a economia brasileira, mas também os próprios Estados Unidos, e sustentou que o caminho mais inteligente é a negociação, não a imposição unilateral de barreiras comerciais.

O recado de Lula é politicamente importante: o Brasil não está disposto a aceitar acusações consideradas sem fundamento como justificativa para medidas que atingem empresas, trabalhadores e consumidores dos dois países. Em vez de transformar o conflito comercial em uma escalada de retaliações, o presidente brasileiro colocou a diplomacia novamente no centro da discussão.

E houve um resultado concreto. Trump concordou sobre a importância de preservar relações comerciais fortes entre Brasil e Estados Unidos e propôs que as equipes dos dois governos voltem a se reunir o mais rapidamente possível.

Isso significa que o canal de diálogo foi reaberto. E, diante de uma crise que poderia produzir prejuízos econômicos ainda maiores, a retomada das conversas representa uma vitória da diplomacia sobre a lógica do confronto.

Lula também aproveitou o telefonema para reafirmar a disposição brasileira de cooperar com os Estados Unidos no combate ao crime organizado. O presidente, porém, fez uma distinção fundamental: organizações criminosas brasileiras são extremamente violentas e precisam ser enfrentadas com firmeza, mas isso não significa que devam ser automaticamente classificadas como organizações terroristas.

O presidente brasileiro ainda levou para a conversa outros temas internacionais, entre eles a guerra na Ucrânia e a necessidade de soluções negociadas para conflitos globais.

O telefonema acontece depois de o governo brasileiro ter aberto formalmente o processo para avaliar medidas de reciprocidade contra as tarifas norte-americanas. Ou seja, Lula negocia, mas negocia respaldado pela disposição de defender os interesses nacionais caso o diálogo não produza resultados.

A estratégia é clara: não aceitar imposições, não abrir mão da soberania e, ao mesmo tempo, manter aberta a porta da negociação.

Mais do que uma conversa protocolar entre dois presidentes, o telefonema mostra que Lula decidiu assumir pessoalmente a condução política da crise. O Brasil sinaliza que quer preservar sua relação estratégica com os Estados Unidos, mas não pretende fazê-lo de joelhos.

A mensagem de Lula a Trump foi, portanto, simples e contundente: se há problemas comerciais, que sejam discutidos à mesa; se há divergências, que sejam negociadas; e se há acusações contra o Brasil, que sejam apresentadas com fatos, não usadas como pretexto para um tarifaço.

Agora, cabe às equipes dos dois países transformar a reabertura do diálogo em resultados concretos. A negociação voltou ao centro da agenda — e o Brasil chega a ela deixando claro que amizade entre países não significa submissão.


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Big Techs e crise na fronteira: Brasil vê risco de ‘armadilhas’ dos EUA na eleição

Atuação militar conjunta de Colômbia e EUA é considerada como “preocupante” e fluxo de desinformação em redes acende alerta em Brasília

O governo brasileiro teme que as próximas semanas sejam marcadas por ações orquestradas por parte de grandes plataformas digitais, com o objetivo de criar uma turbulência política no país e influenciar a eleição. No mapeamento que se faz em Brasília sobre os riscos para a eleição, uma eventual “armadilha” militar na fronteira com a Colômbia tampouco estaria fora do radar.

Com suspensão de vistos, tarifas, sanções e ofensas americanas, Brasília considera que existe uma ingerência do governo Trump desde 2025, que a eleição de outubro é revelante para a estratégia dos EUA e que a ofensiva pode ganhar ainda mais força até outubro.

Ao longos dos últimos meses, membros do governo tentaram entender por onde poderia vir os próximos lances dessa ingerência e de um processo de desestabilização.

A principal aposta é de que o instrumento usado para isso seja o impulsionamento de desinformação a partir de fora do país, com a possibilidade de plataformas agindo de forma subterrânea para impactar na opinião pública.

A operação repetiria o modelo que acaba de ser adotado com êxito na eleição Colômbia e, há poucos meses, em Honduras. Ambos garantiram a vitória de aliados de Donald Trump.

Trabalhar com o “medo” da população também poderia ser um instrumento que tem sido avaliado como um risco por parte do Brasil para abalar padrões de votos. Para autoridades brasileiras, as cenas de 70 mil imigrantes em Ceuta, a partir da difusão de uma desinformação, reforçaram a tese de uma orquestração para abalar democracias.

No Brasil, chegou a ser considerado como fluxos migratórios poderiam ser instrumentalizados, como no caso de haitianos, afegãos e, principalmente, cubanos. Por enquanto, porém, isso não ocorreu.

A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silvas nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e que uma operação de manipulação poderia virar votos suficientes para transformar a eleição em um dos momentos mais tensos do país em décadas.

Membros do governo ainda vão estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, beneficiados por uma forte atividade de narrativas que viriam de fora desses países. No caso do pleito em Bogotá, o que se observou foi uma proliferação intensa de Inteligência Artificial e de DeepFake.

Uma das estratégias seria o impulsionamento de desinformação a partir de perfis falsos, criados nos exterior. O material poderia promover mudanças abruptas na opinião pública, faltando poucos dias para a eleição e capaz de virar votos.

O cálculo do envolvimento das plataformas é por conta do impacto de uma reeleição para o setor. O governo estima que as Big Techs seriam os grandes perdedores com a vitória de Lula. Se o petista vencer, a estimativa é de que poderia usar seu quarto mandato para promover uma regulamentação das redes digitais e das Bets.

Um possível retorno do ativismo de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de realizar provocações em eleições em todo o mundo, às vésperas do pleito.

Esperar até o último momento para fazer a operação também impediria que houvesse tempo suficiente para investigações e eventuais denúncias do envolvimento de um grupo ou outro no processo de desestabilização.

Armadilha na fronteira com Colômbia
O governo brasileiro também vê com preocupação e diz estar “atento” ao anúncio de que militares americanos passarão a agir dentro do território da Colômbia, supostamente para lutar contra cartéis. A informação foi dada pelo próprio secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, nesta semana. Segundo ele, os americanos passarão a agir por terra na América Latina.

Ainda que o narcotráfico colombiano esteja localizado longe da fronteira com o Brasil, autoridades não descartam atos “fabricados” perto do território nacional, eventualmente para usar como “isca” para uma ação de militares brasileiros para defender a soberania do país.

Neste caso, uma tensão militar estaria criada e, assim, todo o debate político e eleitoral no Brasil seria abalado.

Uma armadilha nessa região do mundo não seria inédito. O governo brasileiro tem em mente a crise que foi criada quando o então presidente colombiano e aliado dos EUA, Alvaro Uribe, orquestrou uma suposta tensão militar na fronteira com o Equador de Rafael Correa, na época.

No mapeamento dos riscos, outra hipótese avaliada foi a instrumentalização de algum ato antissemita, causando um impacto popular importante e um suposto envolvimento do Hezbollah, Hamas ou outros grupos que mexem com o imaginário coletivo. Um dos epicentros poderia ser a Tríplice Fronteira, já declarada pelo governo Trump como local “sensível”.

*Jamil Chade/ICL


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Brasil reage ao tarifaço dos EUA e inicia processo de reciprocidade

O Brasil deu um passo concreto para responder ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump. Nesta quinta-feira (13), o governo federal iniciou formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao país adotar contramedidas diante de barreiras comerciais consideradas injustificadas. O Itamaraty também notificou os Estados Unidos e solicitou consultas diplomáticas.

A iniciativa não significa que o Brasil vá impor imediatamente novas tarifas aos produtos americanos. É, antes, o início de uma análise que deverá ouvir os setores atingidos e avaliar quais medidas seriam proporcionais aos prejuízos provocados pelas decisões de Washington. Entre as possibilidades estão restrições a importações e outras contramedidas comerciais previstas pela legislação.

A reação brasileira ocorre diante de tarifas americanas que podem chegar a 37,5% sobre determinados produtos. O impacto já começa a aparecer no comércio bilateral: entre janeiro e julho de 2026, as exportações brasileiras para os EUA recuaram 12,2%, segundo levantamento da Amcham Brasil. Nos produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas, a queda chegou a 31,5%.

O governo Lula, porém, procura evitar uma escalada irresponsável. A estratégia combina pressão diplomática, defesa do comércio multilateral e preparação de uma resposta caso os Estados Unidos mantenham as tarifas. A mensagem é clara: o Brasil não pretende aceitar unilateralmente uma política comercial que prejudique sua economia, seus empregos e suas empresas.

A Lei da Reciprocidade funciona, nesse cenário, como instrumento de soberania econômica. O Brasil sinaliza que está disposto a negociar, mas também demonstra que negociação não significa submissão. Se Washington escolhe impor barreiras de forma unilateral, Brasília passa a ter mecanismos legais para responder.

Mais do que uma disputa tarifária, está em jogo o princípio de que relações entre países soberanos não podem ser conduzidas pela lógica do ultimato. O Brasil abre a porta para o diálogo, mas deixa claro que também está preparado para defender seus interesses.

E essa talvez seja a principal mensagem do movimento: o Brasil prefere a negociação, mas não aceitará que a negociação seja confundida com rendição.


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China quer se unir ao Brasil contra o tarifaço de Trump na OMC

O tarifaço de Donald Trump contra o Brasil começa a produzir um efeito que talvez o governo americano não tenha calculado: em vez de isolar o país, está ajudando a aproximá-lo ainda mais de outras grandes economias que também rejeitam a política de imposição unilateral de tarifas adotada pela Casa Branca.

A China sinaliza disposição para atuar ao lado do Brasil na defesa das regras do comércio internacional e no enfrentamento das medidas protecionistas de Washington. Não se trata de uma simples demonstração de solidariedade diplomática. É o reconhecimento de que o que está em jogo ultrapassa os interesses comerciais brasileiros: é o próprio funcionamento do sistema multilateral de comércio que está sob pressão.

O Brasil já recorreu à Organização Mundial do Comércio para contestar as tarifas impostas pelos Estados Unidos. O movimento coloca Brasília no terreno das regras internacionais, justamente o oposto da lógica de Trump, que tenta transformar tarifas em instrumento de pressão política e econômica.

E aqui está o grande paradoxo do tarifaço: Trump pretendia usar o tamanho do mercado americano para obrigar o Brasil a se curvar, mas pode estar acelerando a diversificação comercial brasileira.

A China já é um mercado fundamental para o Brasil e, no primeiro semestre de 2026, absorveu muito mais exportações brasileiras do que os Estados Unidos. A ampliação dessa relação não significa abandonar o mercado americano, mas deixa evidente que o Brasil não precisa aceitar uma relação de dependência em que Washington determina as condições e Brasília simplesmente obedece.

O que Trump parece não compreender é que o mundo mudou.

O planeta não é mais uma extensão econômica dos Estados Unidos. Há China, Índia, União Europeia, países do Oriente Médio, América Latina e outras economias capazes de estabelecer relações comerciais, investimentos e alianças estratégicas sem submissão automática aos interesses de Washington.

Por isso, a aproximação entre Brasil e China na OMC pode adquirir um significado muito maior do que uma disputa tarifária. Pode representar a defesa de um princípio básico: nenhuma potência deveria ter o direito de transformar sua força econômica em instrumento permanente de chantagem contra países soberanos.

Trump pode até aumentar tarifas. Pode ameaçar parceiros. Pode tentar impor acordos assimétricos. Mas não pode simplesmente decretar que o comércio internacional funcionará segundo a vontade de um único governo.

E é justamente aí que a resistência brasileira ganha importância.

O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China como quem escolhe um lado de uma guerra. Precisa escolher o lado de seus próprios interesses nacionais. E isso significa negociar com todos, ampliar mercados, fortalecer sua indústria, proteger seus exportadores e defender as instituições multilaterais.

Se a China realmente avançar ao lado do Brasil na OMC, o recado a Washington será inequívoco: o Brasil não está sozinho e o mundo não está obrigado a aceitar o jogo de Trump.

O tiro pode, portanto, sair pela culatra.


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Vídeo: Lula sobe o tom contra Rubio e reage ao novo tarifaço dos EUA: “latino-americano frustrado”

A guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo — e desta vez com uma resposta particularmente dura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diante da pressão de Washington e das novas ameaças tarifárias contra produtos brasileiros, Lula decidiu elevar o tom e classificou o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, como um “latino-americano frustrado”.

A declaração veio em meio ao agravamento das tensões entre Brasília e Washington. Rubio havia afirmado que o Brasil não estaria agindo de maneira amigável aos interesses dos Estados Unidos, provocando uma reação imediata do presidente brasileiro. Lula deixou claro que o governo não pretende aceitar passivamente aquilo que considera uma tentativa de impor ao Brasil uma relação baseada em pressão e submissão.

O episódio revela uma disputa que vai muito além das tarifas. De um lado, o governo de Donald Trump utiliza o poder econômico dos Estados Unidos para pressionar parceiros comerciais. De outro, Lula tenta apresentar o Brasil como um país soberano, capaz de negociar sem abrir mão de sua autonomia e de procurar novos mercados caso Washington insista em dificultar as relações comerciais.

O presidente também resgatou o histórico das relações entre os dois países, lembrando inclusive o papel dos Estados Unidos no contexto do golpe militar de 1964. A mensagem foi direta: o Brasil conhece sua história e não pretende aceitar que interesses estrangeiros determinem os rumos da política nacional.

O tarifaço como instrumento de pressão

A questão comercial tornou-se especialmente sensível porque as medidas tarifárias atingem setores importantes da economia brasileira. Estudos e análises sobre a política comercial de Trump apontam que o aumento das tarifas contra parceiros tem sido utilizado como instrumento de pressão econômica e política. No caso brasileiro, as medidas anunciadas chegaram a representar uma tarifa de 50% sobre determinados produtos.

Para Lula, entretanto, a estratégia americana pode produzir um efeito contrário ao pretendido. Em vez de obrigar o Brasil a se curvar às exigências de Washington, a pressão pode acelerar a diversificação dos parceiros comerciais brasileiros.

O presidente já sinalizou que o Brasil pode ampliar suas relações com outros países e mercados. A lógica é simples: se os Estados Unidos querem transformar o comércio em arma de pressão, o Brasil precisa reduzir sua dependência de um único parceiro e fortalecer sua capacidade de negociação internacional.

“Quem é prejudicado é o povo”

Lula também criticou brasileiros que, segundo ele, estariam estimulando sanções contra o próprio país por razões políticas. Sem citar diretamente Flávio Bolsonaro, o presidente classificou essa postura como uma espécie de “traição da pátria”, argumentando que medidas econômicas contra o Brasil não atingem apenas o governo, mas empresas, trabalhadores e consumidores.

É justamente aí que a crise comercial deixa de ser apenas uma disputa entre governos e passa a ter uma dimensão política interna.

O confronto com Washington ocorre paralelamente à disputa eleitoral brasileira, e qualquer impacto negativo das tarifas sobre setores como indústria, agronegócio e exportações inevitavelmente será explorado politicamente. Para o governo Lula, portanto, não se trata apenas de responder a Trump ou Rubio: trata-se também de impedir que uma pressão externa seja transformada em instrumento de disputa eleitoral dentro do Brasil.

A fala de Lula, ao chamar Rubio de “latino-americano frustrado”, pode ser interpretada como uma resposta política à tentativa de Washington de estabelecer uma relação assimétrica com o Brasil. Rubio nasceu em Miami, filho de imigrantes cubanos, e construiu sua carreira política dentro do sistema americano. Ao utilizar a expressão, Lula procurou justamente explorar essa contradição: alguém de origem latino-americana ocupando uma posição de enorme poder em Washington e defendendo uma política que, na visão brasileira, desconsidera os interesses da própria América Latina.

O embate, portanto, está longe de ser apenas diplomático.

O que está em jogo é o tipo de relação que o Brasil terá com a maior potência econômica e militar do continente: uma relação baseada em negociação entre países soberanos ou uma relação em que tarifas e ameaças econômicas sejam utilizadas para impor decisões.

Lula escolheu responder com confronto verbal. E, ao fazê-lo, transformou o novo tarifaço em uma disputa também sobre soberania, dignidade nacional e os limites da influência dos Estados Unidos sobre o Brasil.

A mensagem do presidente foi clara: o Brasil pode negociar, mas não pretende negociar de joelhos.

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