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Thiago Miranda, o pesadelo pode afundar de vez a candidatura de Flávio Bolsonaro

Em uma campanha já marcada por sucessivas crises, desgastes e dificuldades para ampliar sua base de apoio, o nome de Thiago Miranda passou a ser visto por aliados de Flávio Bolsonaro como um dos fatores de maior potencial destrutivo para a candidatura do senador. Nos bastidores, cresce a avaliação de que novas revelações, investigações ou desdobramentos envolvendo Miranda podem aprofundar ainda mais a percepção negativa que parte do eleitorado já tem do grupo político bolsonarista.

A preocupação não se limita ao impacto jurídico ou político imediato. O maior temor é o efeito eleitoral. Em um cenário de disputa acirrada, qualquer fato que reforce narrativas de irregularidades, favorecimentos ou relações controversas tende a afastar eleitores moderados, justamente o segmento que Flávio precisa conquistar para ampliar suas chances de vitória.

Integrantes da campanha admitem reservadamente que o problema não está apenas no conteúdo das denúncias ou suspeitas, mas na capacidade que elas têm de alimentar o noticiário por semanas, impedindo que o candidato consiga impor sua própria agenda. Cada nova manchete transforma-se em mais um obstáculo para que Flávio discuta propostas, economia ou segurança pública, temas que seus estrategistas consideram mais favoráveis.

O desgaste também se espalha para potenciais aliados. Lideranças partidárias e setores do empresariado observam com cautela o desenrolar dos acontecimentos, avaliando os riscos de associar suas imagens a uma campanha cercada por controvérsias. Em política, a percepção muitas vezes pesa tanto quanto os fatos, e a simples expectativa de novos escândalos já produz efeitos concretos sobre apoios e alianças.

Para adversários, o caso oferece munição valiosa. A oposição aposta que a vinculação entre Flávio Bolsonaro e personagens que se tornaram alvo de questionamentos públicos reforça a narrativa de que o senador carrega consigo os mesmos problemas que marcaram o entorno político da família Bolsonaro nos últimos anos.

Dessa forma, Thiago Miranda surge como um fantasma permanente sobre a campanha. Se novos fatos vierem à tona ou se as controvérsias continuarem ocupando espaço no debate público, o episódio poderá se transformar em um dos principais fatores de desgaste da candidatura. Em uma eleição na qual cada ponto percentual pode fazer diferença, aliados temem que esse pesadelo político ainda esteja longe de terminar — e que seu impacto possa ser decisivo para o futuro eleitoral de Flávio Bolsonaro.


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Fui pago para ser apoiador fake e fazer pergunta ensaiada para Bolsonaro, diz publicitário

Foco do Brasil é citado em armação no cercadinho do Alvorada, quando presidente atacou TV Globo; Planalto não comenta.

A cena – gravada por várias pessoas e imediatamente veiculada nas redes, onde viralizou – foi previamente combinada entre o governo federal e o site bolsonarista Foco do Brasil, afirma o publicitário Beto Viana.

Naquele dia, ele figurava como apoiador do presidente e foi o responsável por fazer a pergunta. Agora, em entrevista à Folha de S.Paulo, Viana diz que havia sido indicado por um amigo e contratado, por telefone, por uma pessoa de nome Anderson, do Foco do Brasil, canal bolsonarista criado por Anderson Azevedo Rossi, com 2,9 milhões de inscritos no Youtube.

Aquela segunda-feira, 13 de abril, era o seu primeiro dia de trabalho. Ele relata que Anderson o questionou se ele tinha coragem de fazer uma pergunta ao presidente.

“Aí ele falou: ‘Eu vou mandar a pergunta aí no WhatsApp e você faz essa pergunta pra ele. Se qualquer outro apoiador for falar com o presidente, você corta porque o presidente está esperando essa pergunta sua. Aí ele mandou o texto do jeitinho que era pra eu falar.”

Mensagens de WhatsApp armazenadas no telefone de Viana mostram que, às 8h26 daquele dia, o contato de nome “Anderson Foco do Brasil” mandou mensagens com o texto literal do questionamento e, posteriormente, orientou-o a sempre se fingir de apoiador e buscar não levantar suspeitas de outros repórteres que fazem a cobertura jornalística no local.

‘Cercadinho’

Vídeo postado nas redes sociais de Bolsonaro naquele dia mostra a comitiva presidencial parando perto do “cercadinho” – como é chamado esse ponto de entrevistas e conversas com apoiadores -, momento em que o Bolsonaro sai do carro e vai na direção do pequeno grupo que o aguardava.

“Aí ele falou: ‘Eu vou mandar a pergunta aí no WhatsApp e você faz essa pergunta pra ele. Se qualquer outro apoiador for falar com o presidente, você corta porque o presidente está esperando essa pergunta sua. Aí ele mandou o texto do jeitinho que era pra eu falar.”

Mensagens de WhatsApp armazenadas no telefone de Viana mostram que, às 8h26 daquele dia, o contato de nome “Anderson Foco do Brasil” mandou mensagens com o texto literal do questionamento e, posteriormente, orientou-o a sempre se fingir de apoiador e buscar não levantar suspeitas de outros repórteres que fazem a cobertura jornalística no local.

Viana aparece nas imagens de camisa florida e, assim que vê uma oportunidade, faz a pergunta, repetindo o texto que havia recebido no telefone celular.

“Eu não assisto a Globo”, diz Bolsonaro prontamente, sendo ovacionado pelas pessoas no “cercadinho”.

Antes de entrar no carro, o presidente repete a frase, “para toda a imprensa”, e olha diretamente para o auxiliar que está gravando a cena.

“Eu fiquei até meio sem graça porque imaginei que ele ia falar alguma coisa, falar da entrevista e tal, porque, no meu ponto [de vista], seria uma pergunta de imprensa, mas era uma pergunta para ele poder ‘mitar’. Aí ele ‘mitou”’, diz Viana.

TED de R$ 1.100,00

Naquele mesmo dia, às 10h, o fotógrafo recebeu uma TED de R$ 1.100 transferido da conta da “Folha do Brasil Negócios Digitais”, antigo nome do Foco do Brasil. Segundo ele, a informação foi a de que era um adiantamento de seu salário mensal, de R$ 2.000.

O publicitário, que hoje trabalha como motorista de aplicativo, afirma que continuou indo ao cercadinho e foi orientado a não fazer mais perguntas e só figurar como apoiador.

Após alguns dias, ele relata que Anderson disse que o vídeo havia viralizado e ele estaria muito visado, razão pela qual ele seria deslocado para fazer imagens de manifestações bolsonaristas na Esplanada dos Ministérios.

Cerca de um mês depois, foi dispensado. Viana diz que nos dias em que ficou no Alvorada, foi abordado algumas vezes por seguranças, mas que outros liberaram seu acesso dizendo frases como “esse é dos nossos”.

Em uma das mensagens em seu telefone, o contato em nome do dono do Foco do Brasil diz que uma pessoa de nome Vera, da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência), já havia passado seus dados para os seguranças para que ele tivesse livre acesso.

Em outra mensagem, o contato de Anderson havia lhe prometido ajuda mensal de R$ 500 para que ele alugasse uma moradia na Vila Planalto, que fica bem próxima ao Alvorada.

Filiação ao PCdoB

O publicitário relata ainda que Anderson, ao lhe convidar para o trabalho, o questionou sobre uma filiação ao PCdoB. Viana disse que se filiou pouco após ingressar na maioridade, mas que desde então não teve atuação partidária e que era simpático a Bolsonaro.

O sistema de registro de filiação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostra que ele se filou ao PCdoB em 2007. A Folha de S.Paulo enviou perguntas à Presidência da República nessa segunda-feira (19/9), mas não houve resposta.

Os telefones vinculados a Anderson no aparelho celular de Viana ou estão inativos ou não estão mais com o dono do Foco do Brasil (ao menos um deles foi confirmado como sendo de Anderson em investigação da Polícia Federal).

*Com Estado de Minas

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