26 de novembro de 2020
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Sua palavra será sagrada somente quando for a resposta correta a uma pergunta do povo.” Brecht.

Mano Brown tem fama de marrento, difícil, às vezes ácido. Esse personagem controverso do rap nacional, nascido no bairro de Capão Redondo, na periferia de São Paulo, tem o seu nome cravado na história da música brasileira. Com o trabalho no grupo Racionais MC’s, onde versava sobre a dura realidade de pessoas excluídas por um sistema violento, racista e desigual, baseado na concentração de renda, ele apareceu pela primeira vez, nos anos 90. O histórico álbum “Sobrevivendo no Inferno”, lançado em 1997, é um dos capítulos dessa trajetória de lutas, mas Brown prova que ainda tem muito a dizer sobre um país cada vez mais dividido e polarizado, que nos últimos anos viu a desigualdade de renda aumentar após um longo período de bonança e estabilidade. Na entrevista abaixo, ele fala sem papas na língua, e com a costumeira habilidade de criar fortes metáforas e imagens impactantes, sobre o Brasil atual, o papel da música nesse contexto, o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva.

LIBERDADE EM PRIMEIRO LUGAR
Não tenho essa receita definida na minha mente, sobre o que deve ser ouvido para esse momento. Tenho o pensamento que a liberdade das pessoas deve vir em primeiro lugar, ninguém é obrigado a ouvir nada por causa de nada, sou contra afirmações do tipo: tem que fazer isso, toma vitamina C para o caso de gripe e tal, como se fosse um médico. Em alguns momentos, minhas músicas serviram para momentos difíceis na vida das pessoas. A música pode servir como alívio ou anestesia, pode ser um remédio para a dor das pessoas. Algumas serviram assim para mim.

MÚSICA COMO DINAMITE
A arte tem esse poder de mexer com o sentimento das pessoas, e por isso ela é tão fascinante, disputada e movimenta tanto dinheiro. Música pode soar como dinamite ou anestesia, te deixar lesado, sem vontade, mais confuso ainda, ou pode te trazer uma luz. Vejo composições de alguns autores mais antigos, antes da mídia e da indústria, que tinham essa iluminação, de entender o momento das pessoas.

PAÍS DE CARTAS MARCADAS
Eu acompanhei esse processo desde o início, quando começaram a cogitar o impeachment da Dilma, lá atrás, com a história das pedaladas fiscais. Foi o embrião de tudo o que estamos vivendo hoje. A gente já sabia que o desfecho seria a prisão do Lula. Estava preparado, sabia que o plano era esse, para ele não concorrer em 2018. É uma decepção ter um país de cartas marcadas. A direita que sempre governou o Brasil para ricos e poderosos que falam várias línguas, comem bem, estudam nas melhoras escolas e morrem velhos, cansou de ficar só olhando. Eles são uma minoria organizada.

ALGODÃO NA BOCA DO POVO
Essa história de ficar 24 horas por dia batendo no Lula, em todos os noticiários, não é pessoal, é uma coisa racial, cultural e social. Um problema dentro deles, que nem sabem que são assim. A perseguição não é ao Lula, mas ao que ele representa. Colocaram um algodão na boca de uma massa, do povo que foi beneficiado por ele. Uma minoria se sentiu lesada, enganada, e resolveu tirar o poder de voz de uma massa que sempre foi excluída, desde a escravidão. Um povo sem direito a voz, excomungado, para quem o Lula deu voz.

PRESO COM LULA
A gente foi preso com o Lula, eu estou lá preso com ele, o Lula é a ponta de um iceberg que tem mais de cem milhões de pessoas, que vivem abaixo da linha da pobreza, sem humanidade, dignidade e o respeito que o ser humano merece. Essa classe dominante que se sentiu lesada não quer direitos iguais, eles não querem é ter os privilégios cortados. Quem apoiou o impeachment foi a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). A Fiesp está no lugar onde existiam as maiores fazendas de café do país, onde a escravidão funcionou, ela continua sendo uma espécie de grande engenho de café. Na (avenida) Paulista ficavam os casarões dos grandes barões do café de São Paulo, e a Fiesp permanece lá. Foi esse tipo de gente que possibilitou o impeachment da Dilma e a prisão do Lula, às custas do silêncio de um povo oprimido, enganado e embriagado por mentiras.

DRAGÃO FAMINTO DA MÍDIA
Não estou alimentando o dragão faminto da mídia que virou a internet. Hoje se faz música como pastel. O cara bom é aquele que ‘frita’ 3 músicas por dia hoje em dia, é disso que a internet precisa, e aí, nesse caso, fica mais difícil para quem se envolve com a música emocionalmente. Não acredito em vender sentimento no guichê da farmácia em forma de tubo. Nesse quesito, me sinto ultrapassado.

ÁLCOOL PARA ACENDER A FOGUEIRA
Hoje em dia são tantas músicas. Odeio falar esse tipo de palavra: ‘mercado’, ‘indústria’. Mas eles existem e estão aí interferindo na música e na arte das pessoas. Eles pressionam tanto os artistas a correr contra o tempo e estar sempre presente porque existem muitos outros, que as músicas acabam ficando descartáveis. É como se precisasse de um álcool para acender a fogueira toda hora, na hora que ela apaga, chamam outro. É assim que tem sido, difícil dizer que essa música vai ficar.

 

*Do Esquina Musical

Celeste Silveira

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