Não é Mendonça ajoelhado, fazendo pose de homem de fé, que vai conseguir adesão da choldra bolsonarista. Não é um ato de 7 de Setembro, uma manifestação qualquer ou uma oração cuidadosamente exibida para as câmeras. Reduzir o que está acontecendo a esses episódios é enxergar apenas a espuma de uma disputa muito mais profunda.
O jogo que assistimos hoje é, em muitos aspectos, o mesmo jogo que Getúlio Vargas denunciou em sua Carta-Testamento: de um lado, os interesses populares, a soberania nacional e a defesa dos trabalhadores; de outro, as forças econômicas e políticas que jamais aceitaram perder o controle sobre o Estado e sobre os rumos do país.
O que mudou foi a embalagem. Os mecanismos continuam assustadoramente familiares.
A imprensa corporativa, concentrada nas mãos de grandes grupos econômicos, historicamente ocupou um papel central nessa engrenagem. Quando os interesses dos trabalhadores, dos pobres e das populações negras entram em choque com os interesses das elites econômicas, não é raro que a narrativa jornalística seja construída para apresentar a defesa dos interesses populares como ameaça, desordem ou radicalismo.
E é impossível falar dessa história sem lembrar de O Globo.
O jornal já estava em campo quando a disputa pelo projeto de país se intensificou no Brasil do século XX. Sua trajetória esteve associada a momentos decisivos da vida política nacional e à defesa de interesses das elites econômicas. Hoje, diante de um novo ciclo de disputa, a velha fórmula reaparece com roupagem contemporânea: selecionar personagens, fabricar escândalos, estabelecer vilões e heróis, amplificar determinadas agendas e silenciar outras.
Não se trata de dizer que toda crítica publicada pela imprensa seja ilegítima. Trata-se de perguntar quem pauta, quem se beneficia e quais interesses econômicos e geopolíticos são preservados quando determinadas narrativas dominam o debate público.
Porque existe uma dimensão ainda maior nessa história: a questão nacional.
Ao longo da história brasileira, interesses de grupos econômicos internos frequentemente encontraram convergência com interesses estrangeiros. E, nesse terreno, os Estados Unidos sempre ocuparam posição privilegiada na estratégia de poder sobre a América Latina. A defesa de uma agenda econômica subordinada ao capital internacional, a pressão sobre governos populares e a tentativa de limitar projetos de soberania nacional não são invenções recentes.
É justamente por isso que a Carta-Testamento de Getúlio continua sendo lembrada. Independentemente das controvérsias sobre seu governo, há naquela denúncia uma percepção política que permanece atual: o conflito brasileiro nunca foi apenas entre indivíduos ou partidos; é também uma disputa entre projetos de sociedade e projetos de poder.
Por isso, não é a oração de Mendonça que explica a força do bolsonarismo. A oração é apenas o cenário.
O que está em disputa é muito maior: é o controle da narrativa, da política, das instituições e, sobretudo, do projeto de país.
Enquanto a velha mídia tenta transformar cada episódio em espetáculo isolado, é preciso olhar para a engrenagem inteira. Porque, quando os mesmos interesses econômicos aparecem repetidamente protegidos, quando os pobres são tratados como problema e os interesses dos ricos como sinônimo de responsabilidade, quando a soberania nacional é colocada em segundo plano diante de interesses externos, não estamos diante de coincidências.
Estamos diante de um método de poder.
E talvez seja exatamente isso que incomode tanto: perceber que, por trás dos discursos religiosos, das manifestações, das manchetes e das guerras culturais, continua existindo a velha disputa denunciada há décadas — quem controla o Estado, quem controla a riqueza e quem tem o poder de dizer ao povo brasileiro qual história ele deve acreditar.
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