O que deveria ser uma data de celebração da Independência do Brasil está sendo transformado pelo bolsonarismo em palanque eleitoral. E, no centro dessa operação, surge uma figura que jamais deveria ocupar o papel de cabo eleitoral de candidato algum: o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça.
A crise instalada no STF, agravada pelo embate entre Mendonça e Alexandre de Moraes e pelas revelações envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, passou a ser explorada politicamente pela campanha de Flávio Bolsonaro. O objetivo é evidente: transformar uma disputa institucional em combustível eleitoral e usar o 7 de Setembro como demonstração de força da candidatura do filho de Jair Bolsonaro.
Mendonça, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, tornou-se uma espécie de novo herói para a militância bolsonarista. Nos atos programados para o 7 de Setembro, aliados de Flávio pretendem apresentá-lo como contraponto a Moraes, enquanto os slogans “Fora, Moraes” e “Fora, Lula” ajudam a transformar a manifestação em um evento claramente político-eleitoral.
É aí que a história ganha contornos ainda mais preocupantes.
Quanto mais a crise no Supremo é alimentada, mais espaço se abre para Flávio Bolsonaro ocupar o centro do discurso da extrema direita. O conflito institucional passa a funcionar como palanque; a indignação política vira ferramenta de mobilização; e o ministro do STF acaba convertido em personagem de campanha.
Não por acaso, aliados do próprio candidato admitem que o 7 de Setembro estava com dificuldades de mobilização e que a crise envolvendo Mendonça e Moraes deu novo fôlego à manifestação. Ou seja: a temperatura institucional subiu justamente quando a candidatura precisava de uma pauta capaz de levar sua militância às ruas.
A operação é politicamente conveniente demais para ser ignorada.
Flávio precisa de multidões. Precisa de imagens. Precisa de um inimigo capaz de unificar sua base. Precisa, sobretudo, transformar a eleição presidencial em um plebiscito sobre o STF e sobre Alexandre de Moraes. E Mendonça, voluntariamente ou não, acabou fornecendo o combustível perfeito para essa estratégia.
O problema é que instituições da República não podem ser utilizadas como extensão de campanhas eleitorais.
Um ministro do Supremo não deveria ser transformado em ídolo de manifestação partidária. Muito menos em símbolo de uma candidatura presidencial. Quando isso acontece, a fronteira entre a atuação institucional e a disputa política começa a desaparecer — justamente quando deveria ser mais nítida.
O 7 de Setembro pertence ao Brasil, não a Flávio Bolsonaro. A Independência pertence aos brasileiros, não a um partido, a um grupo político ou a uma candidatura.
Transformar a data em palanque eleitoral e usar uma crise no STF para inflar manifestações pode até produzir imagens fortes e gerar manchetes. Mas também revela o tamanho da instrumentalização política das instituições e dos símbolos nacionais.
No fim, Mendonça pode até não ter pedido o papel de cabo eleitoral. Mas é exatamente esse papel que a máquina bolsonarista está lhe atribuindo: o de protagonista de uma crise institucional que Flávio Bolsonaro pretende transformar em votos.
E quanto maior a crise, maior o palanque.
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