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Parte da grande mídia começa a abandonar André Mendonça

Há sinais cada vez mais evidentes de que parte da grande mídia começa a perceber que a defesa incondicional de André Mendonça se tornou um fardo. Durante muito tempo, setores da imprensa trataram o ministro indicado por Jair Bolsonaro como uma espécie de personagem intocável, blindando suas decisões, relativizando controvérsias e evitando perguntas incômodas. Agora, diante do acúmulo de fatos e da dimensão política do caso Banco Master, essa blindagem começa a apresentar rachaduras.

O movimento é revelador. Quando a narrativa deixa de ser conveniente, os mesmos veículos que ajudaram a construir reputações passam a adotar uma cautela repentina. O problema é que não basta trocar o tom depois que os fatos se tornam impossíveis de ignorar. Jornalismo não deveria funcionar como seguro contra desgaste político.

Mendonça chegou ao Supremo sob o patrocínio explícito de Bolsonaro e carregou consigo a imagem de uma escolha destinada a representar os interesses do então presidente dentro da Corte. Hoje, qualquer questionamento sobre sua atuação precisa ser tratado com a máxima transparência, sobretudo quando envolve personagens e interesses que orbitam o escândalo do Banco Master.

E é justamente aí que a mudança de comportamento de parte da mídia chama atenção. Enquanto Alexandre de Moraes virou alvo permanente de manchetes, editoriais e análises indignadas, Mendonça frequentemente recebeu um tratamento muito mais complacente. A diferença de critérios tornou-se difícil de esconder.

Agora, diante da sucessão de revelações, a estratégia parece mudar: antes que a crise atinja proporções ainda maiores, alguns veículos começam a se afastar de Mendonça. Não necessariamente por uma súbita conversão ao rigor jornalístico, mas porque perceberam que a blindagem pode custar caro.

O ponto central é simples: ministro do Supremo não pode ser protegido por simpatias políticas, relações pessoais ou conveniências editoriais. Se existem dúvidas sobre sua conduta, elas precisam ser investigadas. Se não existem irregularidades, que os fatos e documentos demonstrem isso. O que não pode existir é uma imprensa com dois pesos e duas medidas.

A grande questão, portanto, não é apenas saber se parte da mídia está abandonando André Mendonça. É perguntar por que demorou tanto para fazê-lo.

Porque, quando a imprensa abandona uma blindagem somente depois que ela se torna insustentável, fica a impressão de que não estava defendendo o jornalismo — estava apenas administrando os danos.

O agravante, nesse caso, está no fato do que foi revelado sobre o instituto de André Mendonça, Iter, fundado por ele. Foi uma enxurrada de denúncias de contratos sem licitação com insituições públicas administradas por políticos do PL e congêneres, o que, tudo indica, o pegou num contrapé fatal, obrigando-o a, depois da descoberta desse esquema, em menos de 24 horas se autoexonerar dessa barbada.

A partir de então, começou a dar ruim para Mendonça, Mesmo aquelas blindagens da mídia no caso em que ele tratava de forma diferente as pessoas ligadas ao Master por vínculo partidário, passaram a integrar a vitrola dos comentaristas da grande mídia que se descolaram da canoa fura furada chamada André Mendonça, o ex-terrivelmente poderoso.

Sem falar no que é pior, da sua blindagem aos crimes que envolvem Flavio Bolsonaro no mesmo caso Master, que ganhou uma outra narrativa de quem, até então, estava na mídia, par e passo com Mendonça.

Mendonça confiou demais no seu estrelato como algo eterno, que que, agora, mostra-se efêmero.


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Por Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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