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Cavalo de Troia: Milei usou a convenção de Flávio para se promover

A presença do presidente argentino Javier Milei na convenção do PL foi vendida como uma demonstração de força internacional da candidatura de Flávio Bolsonaro. Na prática, porém, o saldo político parece ter sido outro: quem mais lucrou com o evento foi o próprio Milei.

Em meio ao desgaste de seu governo na Argentina, marcado por dificuldades econômicas, protestos e perda de popularidade, Milei encontrou na política brasileira um palco para reposicionar sua imagem junto à direita internacional. Transformou a convenção em uma vitrine para reafirmar seu discurso ideológico, posar como liderança continental do campo ultraconservador e alimentar sua projeção externa.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, assumiu um papel secundário. O foco da cobertura acabou dividido entre o visitante estrangeiro e a família Bolsonaro, enquanto as propostas do pré-candidato permaneceram em segundo plano. Em vez de fortalecer sua identidade política, a convenção reforçou a impressão de que sua campanha depende da mobilização de personagens externos e do capital político herdado do pai.

A estratégia também traz riscos diplomáticos. A participação ostensiva de um chefe de Estado estrangeiro em um evento de natureza eleitoral inevitavelmente suscita questionamentos sobre os limites da interferência internacional em disputas políticas nacionais. Ainda que cada país tenha suas próprias regras, a imagem transmitida foi a de uma tentativa de importar conflitos ideológicos para o cenário brasileiro.

Sob esse aspecto, a metáfora do “Cavalo de Troia” faz sentido. A promessa era de que Milei chegaria para impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Mas, uma vez aberto o “presente”, quem ocupou o centro do palco foi o argentino. Seu discurso, sua agenda e sua própria projeção passaram a dominar o noticiário, enquanto a campanha brasileira ficou em segundo plano.

No fim, a convenção revelou uma inversão de papéis. Em vez de servir aos interesses eleitorais de Flávio Bolsonaro, o evento ofereceu a Milei uma oportunidade de reconstruir sua imagem perante sua base internacional, ampliar sua visibilidade e reafirmar seu protagonismo político. O convidado acabou se tornando o principal beneficiário da festa.

Se havia a expectativa de um impulso decisivo para a candidatura bolsonarista, o resultado foi ambíguo. Milei saiu com mais exposição; Flávio, com mais uma demonstração de que sua campanha ainda busca um discurso e um protagonismo próprios.

Trocando em miúdos, Milei agiu como amigo da onça do  clã Bolsonaro.


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Por Celeste Silveira

Produtora cultural

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