Desde que Jair Bolsonaro deixou a Presidência, uma parcela da direita brasileira tenta vender ao eleitor a ideia de que existe uma alternativa “moderada” ao bolsonarismo. O discurso é de renovação, responsabilidade institucional e compromisso democrático. Na prática, porém, o que se apresenta é uma versão diluída do mesmo projeto político.
Figuras como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos procuram ocupar esse espaço. Distanciam-se dos excessos retóricos mais explosivos do bolsonarismo, mas preservam sua essência: o combate sistemático à esquerda, a adoção de uma agenda ultraliberal, o discurso permanente contra o Estado e a exploração da polarização como estratégia eleitoral.
A diferença está mais na embalagem do que no conteúdo. Se Bolsonaro representava um caldo concentrado, seus pretendidos sucessores oferecem uma sopa rala: menos estridente, mais palatável para determinados setores do mercado e da imprensa, mas preparada com os mesmos ingredientes.
Essa direita “moderada” evita ataques frontais às instituições quando o custo político é elevado, porém raramente rompe com a narrativa construída pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos. Em vez de enfrentar o legado de radicalização, prefere administrá-lo, preservando sua base eleitoral e adaptando o discurso às conveniências do momento.
O resultado é uma tentativa de rebranding político. Trocam-se os personagens, suaviza-se o tom e substituem-se os gritos por discursos tecnocráticos. Entretanto, permanecem vivas as mesmas bandeiras que alimentaram o ambiente de confronto permanente na política brasileira.
No fundo, a autoproclamada direita moderada não representa uma ruptura, mas uma continuidade. É um bolsonarismo de gravata, de planilha ou de linguagem mais polida. Uma versão menos ruidosa, porém comprometida com a mesma lógica de antagonismo e de rejeição ao campo progressista.
Quem procura uma direita efetivamente democrática, disposta a reconhecer o resultado das urnas, fortalecer as instituições e construir consensos republicanos, dificilmente encontrará esse projeto nesse grupo. O que se vê é uma adaptação tática de um movimento que ainda gravita em torno da órbita política e ideológica inaugurada por Bolsonaro.
Em política, mudar o rótulo não basta. Quando os ingredientes continuam praticamente os mesmos, o produto final pode até parecer diferente — mas continua tendo o mesmo sabor.
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