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Brasil aproveita erros de Trump e da família Bolsonaro e encosta nos EUA no agronegócio

O que Donald Trump pretendia transformar em instrumento de pressão contra o Brasil começa a produzir um efeito bastante diferente no comércio internacional: o país está ocupando espaços que os Estados Unidos vêm perdendo no agronegócio e já se aproxima de superar os norte-americanos em valor de exportações do setor.

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Em 2025, os Estados Unidos exportaram cerca de US$ 171 bilhões em produtos agropecuários, apenas 14% acima do resultado de cinco anos antes. No mesmo período, o Brasil saltou 68%, chegando a US$ 169 bilhões. A distância, que no início do século era enorme a favor dos americanos, praticamente desapareceu.

A explicação não está apenas na extraordinária capacidade produtiva brasileira. A política comercial de Trump também abriu portas para os concorrentes. Ao transformar a China e outros parceiros tradicionais em adversários comerciais, Washington perdeu mercados estratégicos justamente para países capazes de oferecer produtos competitivos — e o Brasil estava pronto para ocupar esses espaços.

Na Ásia, o movimento é particularmente revelador. Entre 2022 e 2025, as exportações agropecuárias dos EUA para a região caíram 25%, enquanto as brasileiras cresceram 9%. No mercado chinês, a retração americana foi ainda mais expressiva: as vendas dos EUA diminuíram 49% em cinco anos, enquanto as brasileiras avançaram 8%.

É a velha ironia da geopolítica: ao tentar usar tarifas para proteger o produtor americano, Trump acabou estimulando compradores internacionais a procurar fornecedores alternativos. E o Brasil apareceu como uma alternativa natural.

A soja é um dos exemplos mais emblemáticos. Os Estados Unidos continuam fortes no milho, mas perderam espaço justamente em uma das commodities que historicamente sustentaram sua balança agrícola. Nas carnes, o avanço brasileiro também é significativo. O Brasil ampliou sua presença internacional enquanto os americanos enfrentam um rebanho bovino no menor nível em décadas e passaram, paradoxalmente, a depender mais de carne importada.

O desempenho brasileiro não é apenas uma reação circunstancial ao tarifaço. As exportações do agronegócio atingiram US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde para o período, impulsionadas principalmente por carnes, soja e algodão. A China sozinha respondeu por US$ 30,5 bilhões, 35,1% do total, com crescimento de 10,5% sobre o mesmo período anterior.

E há outro dado que desmonta a ideia de que o Brasil estaria excessivamente dependente dos Estados Unidos: no primeiro semestre de 2026, as vendas brasileiras de produtos do agronegócio para os EUA caíram 25,1%, mas a China, a União Europeia e outros mercados absorveram boa parte da expansão brasileira.

Isso significa que a diversificação virou uma espécie de seguro contra o protecionismo de Trump. Quanto mais Washington fecha portas, mais Brasília procura — e encontra — compradores em outras partes do planeta.

O resultado é uma transformação importante no equilíbrio do agronegócio mundial. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência agrícola incontestável, mas já não podem contar com a mesma vantagem de décadas atrás. O Brasil dispõe de território, produtividade, capacidade de expansão, diversidade de produtos e uma posição privilegiada no comércio com a Ásia.

Trump queria utilizar o tamanho do mercado americano como arma. O problema é que o mundo mudou — e o Brasil também.

Hoje, quando Washington ergue barreiras, Pequim abre espaço. Quando os americanos perdem competitividade, os brasileiros avançam. Quando Trump transforma parceiros em adversários, produtores brasileiros encontram novos clientes.

O mais revelador, portanto, é que a política de confronto dos Estados Unidos pode estar acelerando exatamente aquilo que pretendia evitar: a consolidação do Brasil como um dos grandes fornecedores estratégicos de alimentos do planeta e como concorrente cada vez mais direto da agricultura americana.

A disputa pelo agronegócio mundial, ao que tudo indica, está mudando de mãos — e o Brasil chega a essa disputa muito mais forte do que estava no início do século.


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Por Celeste Silveira

Produtora cultural

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