Foi um verdadeiro festival.
Durante semanas, a velha mídia transformou o STF em uma espécie de vilão nacional de plantão. Cada decisão, cada ministro, cada conflito institucional servia de matéria-prima para manchetes alarmistas, colunas indignadas e intermináveis discussões destinadas a produzir uma conclusão política muito conveniente: era preciso desgastar o Supremo e, por tabela, criar desgaste para Lula.
O problema é que a realidade, essa inconveniente senhora que insiste em aparecer quando menos se espera, resolveu mudar o roteiro.
O espetáculo montado para atingir o STF acabou produzindo um efeito político que seus autores talvez não tivessem previsto: o desgaste passou a respingar muito mais no campo bolsonarista, especialmente em Flávio Bolsonaro.
E então veio o caso Banco Master, com as mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro e as revelações sobre relações envolvendo personagens do Judiciário e pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques.
Entre os elementos divulgados está um contrato que poderia alcançar R$ 427 milhões em honorários de êxito, relacionado a ações envolvendo precatórios e interesses do Banco Master. Kassio Nunes Marques nega ter participado do contrato ou atuado em favor de Vorcaro ou do banco.
Ora, se o argumento era que o STF precisava ser vasculhado até a última vírgula quando as suspeitas serviam para atingir Lula, por que a mesma lupa não deveria permanecer sobre a mesa quando surgem fatos que envolvem personagens ligados ao universo bolsonarista?
Aí acontece o milagre editorial: o STF desaparece das manchetes.
O tribunal que ocupava horas de televisão, páginas de jornais e quilômetros de comentários passa, de repente, a parecer uma instituição quase invisível.
Convenientemente invisível.
É como se o botão de emergência da velha mídia tivesse duas posições: “escândalo quando interessa” e “silêncio quando incomoda”.
Mas jornalismo não deveria funcionar assim.
Se há suspeitas, que sejam investigadas. Se não há provas, que isso seja claramente informado. Se existem documentos, que sejam publicados e contextualizados. Se existem negativas, que sejam igualmente registradas.
O que não pode existir é uma imprensa que exige transparência absoluta dos adversários e subitamente descobre a delicadeza, a cautela e o silêncio quando a investigação começa a alcançar seus aliados políticos.
E talvez seja justamente por isso que todo aquele festival contra o STF tenha produzido um resultado tão diferente do esperado.
Tentaram transformar o Supremo em problema eleitoral para Lula. No caminho, acabaram abrindo uma janela para que o eleitor enxergasse as conexões políticas e financeiras que cercam o universo bolsonarista.
Agora, o que se espera é simples: menos teatro, menos manchete seletiva e mais jornalismo.
Porque, quando a imprensa decide quem merece holofote e quem merece silêncio, o problema deixa de ser apenas aquilo que está sendo investigado.
Passa a ser também aquilo que deliberadamente deixa de ser investigado com a mesma intensidade.
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