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Com que moral a Globo vai cobrar explicações sobre Vorcaro?

Como Renata Lo Prete pretende questionar Flávio Bolsonaro sobre seu envolvimento com Daniel Vorcaro e tudo o que essa relação representa de nefasto para a política brasileira, se a própria Globo está às voltas com revelações que atingem dois de seus medalhões, também associados ao mesmo Vorcaro?

Eis a pergunta que não pode ser varrida para debaixo do tapete: com que autoridade moral a Globo pretende colocar Flávio Bolsonaro contra a parede se a própria casa tem explicações a dar sobre suas conexões com o personagem que está no centro dessa trama?

O problema não é apenas o que Renata Lo Prete vai perguntar. É, sobretudo, o que ela terá coragem de perguntar. Vai apertar Flávio sobre os vínculos com Vorcaro? Vai exigir respostas concretas, documentos e explicações sobre as suspeitas que cercam essa relação? Ou veremos mais um espetáculo de indignação seletiva, com perguntas duras para uns e luvas de pelica para outros?

Porque, quando o escândalo chega à porta do adversário, a velha mídia costuma vestir a toga de juíza. Mas, quando as conexões alcançam os seus próprios salões, o rigor pode desaparecer, o tom pode mudar e o silêncio pode se tornar uma conveniente estratégia de sobrevivência.

A credibilidade do jornalismo não se mede pela dureza das perguntas feitas aos adversários, mas pela disposição de fazer as mesmas perguntas aos aliados, aos poderosos e aos próprios donos da casa.

Se a Globo quer cobrar explicações de Flávio Bolsonaro, que cobre. E que cobre sem anestesia. Mas terá de aceitar que a mesma régua seja aplicada a todos os personagens dessa história, inclusive aos que circulam pelos corredores do próprio grupo de comunicação.

O que não dá é transformar o jornalismo em tribunal para os outros e em assessoria de contenção de danos para os seus.

Vorcaro não pode ser tratado como um problema apenas quando o seu nome compromete Flávio Bolsonaro. Se as conexões alcançam também figuras de peso da Globo, a pergunta deixa de ser somente o que Flávio tem a explicar. Passa a ser o que a própria Globo está disposta a esclarecer.

Afinal, o público não quer uma entrevista montada para produzir manchetes convenientes. Quer respostas. Quer coerência. Quer saber se existe, de fato, disposição para investigar todos os lados ou se a velha mídia continuará escolhendo a dedo quem merece ser encurralado e quem merece ser protegido.

A pergunta que paira sobre a entrevista é brutalmente simples: Renata Lo Prete vai fazer jornalismo ou vai administrar os constrangimentos da própria Globo?

Por isso não se espantem, se hoje na sabatina de Renata Lo Prete com Flavio Bolsonaro, assistir a um bem manejado festival de platitudes.


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Por Carlos Henrique Machado

Compositor, bandolinista e pesquisador da música brasileira

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