Exfiltração de Flávio Bolsonaro e isolamento geopolítico marcam o fim da aliança estratégica entre a extrema-direita brasileira e a Casa Branca
A reconstituição da fuga de Flávio Bolsonaro não deixa dúvidas do envolvimento ativo dos governos argentino e estadunidense na operação cinematográfica planejada com pelo menos duas semanas de antecedência numa típica missão de exfiltração do aliado de Javier Milei e Donald Trump.
Apesar da negativa do chefe do Departamento de Estado Marco Rubio, está confirmado que a remoção de Flávio e família do Brasil com traslado secreto para os EUA foi coordenada, executada e financiada diretamente desde a Casa Branca com envolvimento central do assessor presidencial Jason Miller.
Agentes dos EUA atuaram ilegalmente nos territórios brasileiro e argentino – além, obviamente, de assegurarem o ingresso do fugitivo na Flórida mesmo sem documentação válida.
Apesar da notória subserviência dos Bolsonaro às agressões estadunidenses ao Brasil, os elementos conhecidos até o momento ainda não são suficientes para se confirmar que os integrantes da família miliciana sejam agentes recrutados para atuarem pelos interesses de Donald Trump.
É possível, contudo, inferir que no mínimo os Bolsonaro estabeleceram com Trump uma associação por interesses recíprocos.
Flávio receberia apoio irrestrito do governo Trump para vencer a eleição para, com isso, se salvar de condenações criminais, indultar seu pai e outros criminosos da trama golpista e enterrar os escândalos bolsonaristas de corrupção – INSS, Master, Refit etc.
Em contrapartida, o eventual governo miliciano entregaria as riquezas nacionais, sobretudo as do subsolo, e a soberania do país aos EUA, passando a obedecer à potência imperial como um protetorado dócil e servil.
Com a vitória de Flávio, Trump seria retribuído com o domínio total do Brasil sem precisar executar uma operação militar custosa – em termos financeiros e geopolíticos – como a realizada na Venezuela.
Derrotados na eleição, os Bolsonaro perderam, também, a utilidade para Trump e sua política intervencionista na América Latina.
Flávio, seu irmão Eduardo e demais bolsonaristas radicalizados que fugiram para lá até terão liberdade e garantias provisórias de vida nos EUA enquanto durar o governo Trump, porém foram descartados das equações geopolíticas.
Sintoma disso é a ordem de Trump para Flávio Bolsonaro retirar da carta delirante o trecho em que ele se autodeclarava o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Sem outra opção, o fugitivo obedeceu prontamente. A ordem de Trump significa que Flávio não será “promovido” a Guaidó II; e, portanto, não será um instrumento útil da estratégia ingerencista dos EUA no Brasil.
Diferentemente do Guaidó caribenho, a ideia de inventar um Guaidó tupiniquim não tem absolutamente a mínima viabilidade, por algumas razões.
Em primeiro lugar, porque a interferência dos EUA na Venezuela tinha consenso bipartidário. Apesar de ilegal, na ocasião a medida foi apoiada decididamente por democratas e republicanos. E vários governos vassalos da potência imperial aprovaram aquela política aberrante, inclusive o de Jair Bolsonaro.
Além disso, a situação do Brasil no mundo é muito distinta da do ex-regime bolivariano. Sob a liderança de Lula, o país foi reconhecido como referência no enfrentamento exitoso da guerra tarifária.
Após o segundo turno, Lula recebeu o reconhecimento imediato da quase totalidade dos governos nacionais, inclusive os de orientação ultradireitista, com exceção dos de Trump, Milei e Netanyahu.
Por último, é bastante difundida a percepção de que Flávio integra um bando criminoso que foge da polícia e da justiça, e não é um perseguido político por uma ditadura, como alega a narrativa bolsonarista. Essa realidade repercute imensamente nos EUA, e deve prejudicar ainda mais o desempenho dos republicanos na eleição legislativa do próximo dia 3 de novembro, levando Trump a perder maioria no congresso estadunidense e enfraquecendo sua gestão desastrosa.
Não deixa de ser trágico que, enquanto os Bolsonaro são descartados por Trump e são isolados internacionalmente, no Brasil parcelas significativas do eleitorado e setores de uma lúmpen-burguesia dominante continuem reverenciando esses gângsteres enganadores.
*Do blog de Jeferson Miola
*Ilustração: Aroeira
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